domingo, dezembro 30, 2001

"saborear o sabor da alma do outro"



..."Digo "saborear o sabor da alma do outro" porque a alma, se é como um sopro luminoso no ser, tem um pós-gosto de sal cujos efeitos primeiros são a vida.
Este pós-gosto de sal da alma traz em si o calor um tanto cozinhado dos Deuses bons, um quente salgado que se repercute no sangue e a sua arborescência num líquido de vida, nas veias e nas artérias.
E o coração, esta rosa de pétalas de palpitações, tem o poder de transformar o salgado, por meio de uma alquimia de amor que lhe é muito própria, numa espécie de açucar de que nunca se apreciará suficientemente o sabor inefável, este sabor que se conhece pelo nome de bondade.

A BONDADE É O AÇÚCAR DO CORAÇÃO cuja ternura é uma das manifestações mais doces; não se trata de um açúcar insípido, mas de um açúcar rico e poderoso feito de luz polarizada dos sentimentos mais puros. Miseráveis são aqueles que, tendo pervertido o seu gosto, alteram ou desnaturam o sabor deste açúcar de coração ao ponto de torná-lo ineficaz e estéril.
Ah, enterneçamo-nos com todos estes frutos e todas estas flores que os nossos pomares e jardins interiores são capazes de produzir! E possamos nós fazer da nossa vida um festim de sabores que o Amor, a Ternura, a Bondade darão o melhor que têm."


Pequeno Tratado de Ternura, de Mercier

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sábado, dezembro 29, 2001

o nome de Alá substitui o de uma antiga deusa da Arábia pré-islamita






"NÃO DEVEMOS ESQUECER QUE O NOME DE ALÁ SUBSTITUI O DE UMA ANTIGA DEUSA DA ARÁBIA PRÉ-ESLAMITA"


(...) “Mais do que nunca, a Virgem Maria ia tomar o lugar de todas as deusas da antiguidade, suavizando os seus traços, abandonando a sexualidade, mas permanecendo sempre aquela que dá a vida e o alimento.” (...)
Substituindo assim, “uma divindade feminina cuja função materna se desdobrava necessariamente numa função erótica. Sabemos muito bem que essa função erótica iria ser escondida desde o início de um cristianismo inteiramente orientado para uma masculinidade triunfante e uma castidade exemplar, resultante a maior parte do tempo de um terror instintivo relativamente aos mistérios da mulher.”(...)

(...)” E nunca mais devemos esquecer que o nome de Alá substitui o de uma antiga deusa da Arábia pré-islamita, deusa solar cujo simulacro era a célebre pedra Negra de Caaba, em Meca, um meteorito, portanto um Dom do céu caido sobre a terra, e que simbilozava maravilhosamente, de maneira inteiramente abstracta, a grandeza e o poder da dinvindade.”

In A Grande Deusa de Jean Markale.


***** *****


Evocação a Ishtar (excerto)(no feminino)

Eu te evoco, imóvil e exausta, sofredora e tua escrava;
Guarda-me senhora, acolhe a minha prece,
Escuta-me ó benigna, ouve a minha súplica.
Piedade! reclama por mim, o teu ânimo está desenfreado.
Piedade! para o meu corpo todo em gemidos,
desmaiando .
Piedade! Pelo meu coração enfermo, cheio de lágrimas
Suspirando.
Piedade! Pelos meus pressentimentos confusos
que me atormentam.
Piedade! Por minha casa apreensiva que geme em pranto
Piedade! Por meu ânimo conturbado entre lágrimas
Contínuas...
Ishtar, (...) teus olhos benignos, pousem sobre mim,
Com teu rosto sorridente, olha-me com bondade.
Afasta os males perversos do meu corpo e
Deixa que eu veja a tua clara Luz.


oração secular

A Grande Deusa


“ Eu fui criada desde o início e antes dos séculos”
 

(...) mas a antiga detentora da soberania sobre o universo, a causa primeira de toda a existência, e isto muito antes da manifestação do Verbo que, segundo o Evangelho gnóstico de João, era no princípio (e não no começo) do mundo das relatividades concretas. A arte da Idade Média é o reflexo de um pensamento e esse pensamento, apesar do peso do dogmatismo romano, está longe de ser unívoco. Mesmo que ela não cesse de ser consoladora, e mesmo lenitiva, a virgem mediaval transmite mais do que uma mensagem, que remonta à aurora dos tempos e que se manifesta por vezes através de especulações ditas heréticas ou mesmo por meio das aberrações fantasmáticas, a saber: o conceito de uma criação permanente que não pode ser senão de natureza feninina. Se Maria foi realmente a geradora do divino enquanto “mãe portadora”, ela apenas podia ser a incarnação de um conceito preexistente que se tornou incompreensível, incomunicável e indizível, que aparece através dos diferentes mitos referentes à criação do mundo.
(...)
É o que emana da própria tradição cristã, no que ela vai aurir ao Antigo Testamento. “ Eu fui criada desde o início e antes dos séculos”, segundo o Eclesiastes.


In A GRANDE DEUSA de Jean Markale

“ Eu transferi o meu pensamento para a eterna Isis, a mãe e a esposa sagrada; todas as minhas aspirações, todas as minhas orações se confundem nesse nome mágico; eu sentia-me reviver nela, e, por vezes, ela aparecia-me sob a figura de Venus antiga, por vezes, também, nos traços da Virgem dos cristãos. (...) Parecia-me que a deusa me aparecia, dizendo-me: Eu sou a mesma Maria, a mesma que tua mãe, a mesma também que sob todas as formas tu sempre amaste. Em cada uma das tuas provações, eu deixei uma das máscaras com que cubro os meus traços, e dentro em breve verás como eu sou” .
in Aurélia de Gèrard de Nerval


(...) "A mulher divina no gnosticismo é essencialmente, Sofia, entidade de múltiplos aspectos e nomes. Identificada por vezes ao próprio Espírito Santo, é também, segundo os seus diversos atributos, a Mãe universal, a Mãe do Vivos ou Mãe resplandecente, o Poder do Alto, "A da Mão Esquerda" (em oposição ao Cristo, considerado seu esposo e "O da Mão Direita"), a Luxuriosa, a Matriz, a Virgem, a Esposa do Macho, a Reveladora dos Mistérios, a Santa Pomba do Espírito, a Mãe Celeste, a Extraviada, Helena (isto é Selenia, a Lua); foi concebida como a Psique do mundo e o aspecto feminino do LogosNa "Grande Revelação" de Simão o gnóstico,o tema da díade e do andrógino é dado em termos que merecem ser referidos aqui:" Este é o que foi, que é o que será, o poder macho-fêmea assim como o poder preexistente ilimitado que não tem começo nem fim, porque existe na Unidade. Foi através deste poder ilimitado que o pensamento, escondido na Unidade, agiu primeiro, tornando-se dois... Sucedeu assim que aquilo que através dele se manifestou, embora um, é de facto dois, macho e fêmea, contendo a fêmea em si próprio". in " A Metafísica do Sexo"de Julius Evola

*** *** ***

PIETA


Sou marginal, nómada e fiel; tenho alma hindu
coração de muçulmana e corpo de cristã...

Tudo o que eu queria era partir...
à procura do Graal,
raptar a mulher ideal.

A preferida de um Paxá, a Rainha do Sabat
ou a própria Mãe de Deus!

Fugir com ela para os confins do Universo
ou para um Oásis no deserto...

Tudo o que eu queria era que o seu corpo fosse
o cálice cuja água me saciasse desta sede eterna d'ela.

Queria que o seu sorriso fosse a luz
que me iluminasse para sempre o espírito
e morrer em paz no seu regaço!

quinta-feira, dezembro 27, 2001

Esta não é uma caixinha mágica que quando se abre tudo aparece no ecram. Por momentos parece que tenho essa expectativa. Como se uma forma algo abrecadraba se produzisse ao abrir da tampa, ao acender das luzes ou uma varinha mágica, trouxesse as palavras atrás dela como estrelas a cintilar... Escrever devia ser algo mágico...devia haver um gesto, um sentimento, um olhar que rompesse a barreira do inconsciente e se tivesse acesso a um lugar dentro de nós admirável.
Acreditei em tempos que assim era dentro de nós. Esperei anos por uma iluminação ou “aparição”, uma voz do outro lado, uma indicação de como seguir em frente e penetrar os mistérios... uma INICIAÇÃO, uma “Deusa", um acordar espiritual, uma nova fé inabalável, outra dimensão!
Uma forma de comunicar ou sentir que nos ligasse a todos por um fio invisível...
Antenas ou sentidos que se abrissem para o cosmos...


esperei por ti...



MYRIAM

Esperei tanto por ti, sonhei-te na noite passada.
Sonhei que vinhas e o teu perfume me inebriava.
Abraçavas-me e sorrias com uma terna malícia
Que só em sonhos antevejo e o meu coração
Rejubilava na delícia das tuas mãos...

Era duende ou fada quem comigo brincava?

E falavas de um antigo pacto, de um país de maravilhas.
E que dele me trazias as memórias e fragâncias,
As essências e mirra e o teu nome era Míriam e rias
De malícia como de ti me lembro, já me recordo, vês...

Eras tu afinal, não era sonho...
Não foi em vão que enlouqueci de tanto esperar por ti
Tu vieste e, mais do que sonho, sou eu própria a sonhar
Com o teu sonho ou ideia, que importa?
És tu e sou eu e és bem real dentro de mim!

rleonor pedro
in mulher incesto

domingo, dezembro 23, 2001

Da dualidade do ser ao bem e o mal, começam todas as separações, divisões e lutas. Só agora começamos a admitir que a inteligência tem duas vertentes complementares a que correspondem os dois hemisférios interligados! Este é o grande avanço da ciência porque nos aproxima do que sempre foi apanágio da verdadeira Sabedoria e o que ela essencialmente representava para os egípcios e até a Génese é um anunciado dos Mistérios de forma simbólica, para divulgação do Conhecimento Ontológico, pressupondo uma iniciação ou uma experiência real, não só subjectiva, mas interior e comum a todos os indivíduos desde que a isso se predisponham... Tudo começou, para nós, no Adão e Eva que são meros símbolos que representam princípios ou arquétipos, e que o vulgo tomou à letra...e ainda hoje a grande maioria dos católicos pensa assim: que o mundo começou com um casal feito do barro e a Eva tirada de uma costela...ou pior ainda que a Eva pecou. E o que isso não pesa ainda sobre a mulher! Tínhamos de usar véu como sinal de impureza ou não merecimento diante de Deus Pai e os pais vendiam-nos como vacas e matavam e matam ainda a mulher infiel à pedrada, já lá vão mais de dois mil anos. E o que é que mudou para a mulher? Pouco ou nada, embora aparentemente tudo tenha mudado. Mas tem a mulher consciência de si mesma como indivíduo, independentemente da sua função como mãe e esposa ou apenas acrescentou à sua vida uma profissão que ainda a aliena mais de si própria dando-lhe a ilusão de que é independente quando apenas aumenta a sua carga laboral com tudo o resto às costas? Serão a mulher e o homem iguais ou diferentes ou não sendo mais nem menos quer dizer que somos iguais e temos os mesmos direitos? É isso real? Ambos precisamos uns dos outros, mas cada um diferente e individual, numa interacção e não na dependência como acontece nas relações. O que quero salientar aqui é que o homem sempre foi um indivíduo e a mulher não. É, por assim dizer, aglutinada ao homem, dependente em todos os aspectos e sobretudo emocionalmente. E nos países africanos ou árabes? É não só aglutinada mas escrava e proibida de expressão, amputada sexualmente, fechada em casa. A mulher europeia pode agora ter amantes mas continua prisioneira emocionalmente como se não tivesse existência própria e fosse o homem a sua coluna vertebral, como se não tivesse verticalidade. Dizem que sou exagerada? Não são assim as mulheres?
A mulher, para além de ser mãe, devia como mulher iniciar o homem tanto no amor como consequentemente revelar-lhe a sua ânima, porque a mulher é ontologicamente a mediadora entre o céu e a terra e da mesma maneira que dá à luz a criança também inicia no amor e o leva à realização do Si ou à sua totalidade. Isto de acordo com a linha matrilínia e o culto da Deusa! O que não é o caso em relação à Génese do catolicismo que tudo fez para fazer esquecer esse papel e a importância da mulher, reduzindo-a penas a “mãe”-esposa ou prostitut! Mas esta é uma história remota em consequência da qual aconteceu a sobrevalorização da sexualidade como reacção à sua interdição durante alguns séculos, a partir do dogma religioso e todos os conceitos de pecado. Se por um lado Freud “desmontou” muitos desses conceitos, também nos projectou por outro lado para a obsessão da sexualidade ao induzir a ideia de que todos os nossos traumas passavam pelo sexo e a sua repressão. Assim com o decorrer das décadas, foi-se de um extremo a outro. Não será tempo de equilibrarmos vivências e conceitos? Tirando C. Yung, todas as pesquisas posteriores relacionada com a psicanálise e a sexologia, poucas respostas trouxeram para a questão do ser na sua totalidade e de certo modo caiu-se numa sexualização do ser como se fosse a única dimensão humana. Foi, principalmente, na má literatura e no mau cinema, que se desencadeou uma espécie de revolução sexual-mental, na perspectiva única do homem, claro. Passamos do romantismo exacerbado, do lirismo, a um erotismo mais libertino que verdadeiramente erótico e dai à proliferação da pornografia da mais variada (intitulada de realismo?) à falta de toda a ética ou estética; da sacralização da mulher e da Musa, fez-se quase a apologia em defesa da mulher libertina e do Amor quase sagrado, passámos ao “o Amor é Fodido”. Empolou-se de tal forma a importância da sexualidade que o homem passou a ser “ Homo-Sexualis “ em vez de Homo-Sapiens... Deixou de se pensar no ser tridimensional (corpo-alma-espírito), para ser só mental e sexual.
De certo há grandes equívocos que só aumentam a nossa separação e solidão. Vivemos a grande confusão da linguagem porque sem alma nem ressonância vibratória; debatem-se conceitos contra preconceitos e a diferença entre as teorias e realidade é abissal: vivemos a alma das coisas, a alma do corpo, mas não a alma que une o espírito, porque o feminino tanto no homem como na mulher, é denegrido, ou invertido! Vivemos em suma a grande confusão de conceitos sem acesso ao divino, ou àquilo que nos transcende! Caímos no obscurantismo da razão por não termos acesso `a Luz que ilumina o Espírito que só é possível no Amor-União dos dois lados de cada ser de que o casamento humano é mero reflexo! O princípio Feminino e Masculino como pólos opostos de uma realização a consumar, dentro e fora de nós. É este o principio da Grande Obra, a Alquimia da vida . É esta dinâmica , no indivíduo e na relação que tem de ser integrada e os dois em um, dentro e fora , digo o interior e o exterior na mesma sublimidade. Não se trata de “sublimação”, no sentido da negação do sexo ou do prazer sexual, mas da elevação da mesma, vivendo a sensualidade ao nível do corpo, da alma e do espírito, porque não há prazer maior do que o sentir o ser na totalidade, e não pensar que o orgasmo nos leva a união só pelo sexo. Se assim fosse a “prostituição” ou a divisão da mulher em duas não faria sentido!
Temos de devolver à mulher a sua “sacralidade” e ao homem a dignidade . Para isso tem a mulher em primeiro lugar de tomar consciência do seu próprio valor intrínseco, despertar para a sua plena intuição e responsabilidade, tem de recuperar a VOZ do Útero... não deixar que a calem mais nem que lhe tirem o útero como coisa inútil depois de Ter tido os filhos; tem de deixar de ser a Atena saída da cabeça do Pai, o velho Zeus... A mulher tem de voltar a ser Senhora de si mesma e integrar as três mulheres que representa, assumir todas as facetas do seu ser profundo, unir a jovem a mãe e a velha, a deusa tríplice da antiguidade a mesma dos Mistérios Eleusianos, a Grande Deusa que foi venerada durante milénios na Grécia e não só e de que o culto Mariano é uma reminiscência. Nossa Senhora de Fátima ou Yémanjá... de Portugal a África, à Índia e ao Brasil, ao Egipto, o mesmo princípio, a mesma Fé ou consciência do princípio maternal ou Matriz de vida. Ou a importância da Manifestação...a importância da Mãe como geradora e alimentadora da vida! Para além do domínio patriarcal e o imperativo do falo, existe a mãe fonte de alimento e abrigo, energia centrípeta, primeiro registo tanto para a mulher como para o homem , mas para que o homem dominasse e vencesse o seu medo do abismo que para ele a mulher é, era preciso abandonar Ariana ou matar cobardemente a amazona como Aquiles, ou matar a Medeia como fez Perseu; era preciso desviar a mãe da filha, dividir a mulher, entre a santa e a prostituta, condenar Cassandra ao descrédito! Para que Apolo vencesse Cibele e o culto da Deusa-Mãe fosse substituído pelo de Deus-Pai. Mais tarde os cristãos, cuja misogenia vem de longe, dividiram a mulher entre a “mãe” venerada até ao altar e instituíram a prostituta, uma ideia degenerada da sacerdotisa do amor em vários cultos considerados pagãos e cuja divisão se mantém nos nossos dias de maneira diversificada ou subtil e da qual partem e derivam quase todos os romances e é essa separação que mantém ainda viva “a mais velha profissão do mundo”. Desse modo as mulheres sempre se odiaram e mantêm essa luta nas mais ínfimas circunstâncias de competição feminina. A mulher “séria” olha para a prostituta de soslaio... Assim como a própria filha se antagoniza com a mãe e vice-versa de forma “normalmente” inconsciente, e com algumas excepções à regra. Para além dos dois princípios sempre em luta para um equilíbrio que ainda não se estabeleceu, apesar das aparências tenderem a iludir-nos de que isso já aconteceu nos países ditos civilizados. E eu pergunto-me quais são esses países, se ate o nosso que é pequenino (e orgulhoso!), já tem tráfico de mulheres estrangeiras, mais pobres do que nós... Esta luta de princípios que o ser humano reflecte na luta dos sexos é o próprio princípio da manifestação da matéria. Dai que toda a manifestação seja sexualizada: luta de opostos ou contrários, atracção e repulsão...e de que nós ainda somos escravos. Se equacionarmos isto com alguma simplicidade e naturalidade os problemas inerentes aos sexos e as suas variantes deixarão de Ter uma carga tão dramática ou pejorativa, deixarão de ser cavalos de batalha ou estandartes de guerra, porque o que está em questão é sempre o ser humano e a sua totalidade e não a sua divisão. O problema do Amor não está no sexo nem em saber qual é o sexo dos anjos...reside isso sim na integridade do indivíduo no caminho da “individuação”. As ambivalências e ambiguidades sexuais, as preferências de cada pessoa, seja qual for o sexo ou género de cada um, é secundário... porque só inteiro o ser se pode equacionar e saber quem é ou do que gosta e de quem gosta um ser humano que se rejeita a si próprio ou desconhece a sua verdadeira identidade? Digo que antes de amarmos quem quer que seja temos de nos amar a nós mesmos . Tudo se processa ao nível das essências e não das aparências. Falo como é óbvio do nosso ser inteiro e não da personalidade ou da máscara que usamos. O único imperativo do novo século é sem sombra de dúvida nem “pecado” uma questão de tomada de Consciência do que é indubitavelmente um Ser Humano! Não há solução de problemas sem primeiro passar por esta questão vital ou essencial, que é o ser humano em si como SER HUMANO.

Rosa Leonor Pedro

"A ALMA É UM CORPO DE MULHER" Giulia Sissa



Homenagem ao poeta da Luz Central

(...)
Porque deve haver uma ordem onde a morte não entra. Deve existir um tempo em que TERRA não seja o HORROR que me feriu o corpo e o espírito e que TU curaste purificando TUDO,desencantando os rios até tocar a veia, o corpo rigoroso da vida real. Onde só os gestos puros, só puros ritmos se podem pertencer. E só olhos sem angústia nem pecado se podem confundir com a limpidez da água.
A alma - ela é o eixo.
Ela é a água que subsiste e que fica sempre entre o Corpo e o Espírito.
Do acto à Natureza, do calor ao frio, de Shiva a Shatki vai a distância dum campo de batalha ou a Vida, o Centro Solar incestuoso que pelo poder do Amor inversa a aparência do Cosmos.
Sove e Coagula. "A alma sexo do homem" (Cesariny). A Obra é restituir ao sexo as potências da Alma.É restituir a Alma à Inteligência Divina à Unidade Incoercível. Os olhos do coração vêem o Sangue em cada pedra a oração Macha e Fêmea, seca e húmida, de ouro e de prata, da trans-substanciação universal."

HERNESTO SAMPAIO


MATER MATRIS

Chamo-a como se ela existisse ou estivesse em algum lugar
neste mundo, mas ela não é de nenhum lugar conhecido
É talvez de outro mundo, de um lugar recôndito e ignoto.

Podia ser uma princesa guardada por um dragão,
algures num castelo de qualquer lenda ou história...

Mas eu sei que ela está num sítio que não é deste mundo
nem tem história.
Ela é nova e velha, cruel e terna, ela é a rainha de si própria,
a matriz do mundo!

Ela é severa como a vida e doce como a morte.

Ela é única, o espírito de Elohim da vida

RUACH ELOHIM CHIIM


 

sexta-feira, dezembro 21, 2001

CAVALEIRO ERRANTE

Amo-vos tanto, Senhora minha
mais do que nenhum cavaleiro errante
neste mundo jamais vos amou.

Amo-vos tanto, eterna dama
tanto mais, como jamais santo algum vos adorou.

Amo-vos cada dia mais e mais, e tanto mais
quanto mais perto da minha alma estou.

Ah, amo-vos muito mais do que Dante amou Beatriz,
mais do que Romeu amou Julieta
que só por uma morte passou...

São tantas as minhas mortes por amor de vós,
que nem Cristo, por amor da humanidade,
tantas vezes ressuscitou.


PENSAMENTOS TRISTES

AMAR UM SER É ANTEVER A MORTE...
É CONHECER O MISTÉRIO DA VIDA NO MOMENTO EM QUE SE VISLUMBRA A ETERNIDADE.
É PASSAR A BARREIRA DO PENSAMENTO E DO CONCEITO.

QUANDO SE AMA VERDADEIRAMENTE SEM NADA ESPERAR OU QUERER DE NINGUÉM ,
É SER-SE INTEIRAMENTE LIVRE POR DENTRO.

AMAR UM SER VIVO QUE NÃO POSSUIMOS OU AMAR UM SER QUE PERDEMOS
É GUARDAR NA ALMA UM SEGREDO INFINITO,
QUE SÓ A NOSSA PRÓPRIA MORTE NOS DESVENDA!
" O andrógino não tenta submergir as diferenças, pois reconhece que as polaridades existem no tempo linear,
mas que são ilusórias quando o tempo é concebido como cíclico e eterno.
O andrógino aceita os paradoxos, e os vive, sabendo que, como criatura finita,
muitas vezes não poderá ver além das aparentes contradições que nos assediam a cada passo.
Portanto o andrógino pode viver o presente imediato sem perder o senso de eternidade.
O andrógino pode também ter como centro um determinado lugar e, no entanto,
saber que esse lugar é um mero grão de pó num planeta que rodopia no espaço" (...) June Singer "Androginia"



Senhora da minha alma,
que sou eu diante da imensidão do teu espírito,
neste insondável mistério que é o universo?

Grão de areia ou pó? Não! Sou muito mais ...
Eu sou tu e tu és eu, eternamente misturadas numa só.

Tu és o infinito na minha alma
que tanto chorou por ti e agora te canta...

Tu és a luxúria máxima dos sentidos
e a única esperança; Tu és a Mãe eterna
e a criança que traz ao mundo o verbo.

Yu és o Santo Nome da Criação
o segredo que dá vida ao cosmos.

Tu és a primeira forma e matéria,
inteligente matéria que cresce e o espírito modela.

tu és o ventre sagrado de onde eu vim,
tu és a primeira porta e a chave do meu coração.

Tu és a minha aura e a glória da minha história
A marca com que nasci.
Hoje passei todos os obstáculos e barreiras virtuais para aqui chegar.
Difícil o caminho da Terra Mãe.Mas feliz por encontrar este Portal. Nova chave.



"A palavra também é destino, pois ela anuncia aquilo que foi decidido pelos poderes; além disso, a maldição e a benção dependem dos rituais mágicos que estão sob o domínio das mulheres. Aquilo que mais tarde passamos a chamar de poesia teve origem na fórmula dos sortilégios e nos cânticos mágicos que emergem espontaneamente das profundezas do inconsciente de onde trazem à tona suas formas características; seu próprio ritmo, além do vigor e da sensualidade peculiares de sua imagem" (...) in A Grande Mãe

MULHER SOL

Ela é o fogo no meu coração,
e ela é a néctar (o mel e fel) na minha língua.
Ela é a Palavra, o dizer que vibra em mim...
Ela é a Luz, Durga e Kali.

Força indómita, semente do diabo,
vertigem de sedução e morte:
uma vontade louca de lhe beijar o pescoço
uma lava incandescente, eu, uma loucura de ternura e sede,
uma premência de sentir o seu corpo gemer
ou os ossos ranger.
A violência primordial, a fome da boca, morder.
Devorá-la inteira ou comê-la como a serpente e
de duas só uma ser...

Ah! salamandras, mantras, artifícios e manhas:
Lamber-lhe o lóbulo da orelha esquerda
recitando OM AH HUM,
No seu coração meditar eternamente,
no seu corpo mandala renascer,
Kimari, Durga e Kali.


"Da boca do corpo sai a filha que simultaneamente devora os seios da mãe.
As duas serpentes que se entredevoraram, são as míticas serpentes que criaram o mundo.
Este foi o primeiro incesto" in "A Morte da Mãe" de Isabel Barreno


ALQUIMIA
Desejo-me a mim mesma
no corpo etério de uma mulher sublime,
como preciso do ar que respiro.

Desejo ver-me e sentir-me inteira
no meu corpo completo
como se reinventasse outro ser...

E como se os meus sentidos fossem mágicos
desdobrar-me...
e do ar, do éter ou do prana, pela força do meu anseio
aparecesse um novo ser que me amasse até à consumação.

Queria que por magia,
eu própria me transformasse em substância etéria
e libertasse a minha alma da escravidão
desde corpo denso de pele e desejo...

Queria ser águia e vencer o dragão

segunda-feira, dezembro 17, 2001

ESFINGE

Nasci antes de Cristo, muitas vidas antes de Buda ou Maomé,
Vivi em Atlântida e Mu, muito antes da Queda.

Conheci os egipsios, vivi nos seus Templos antigos,
fui iniciada nos Grandes Mistérios, antes mesmo das Pirâmides de Gizé.

Viajava no Nilo entre as duas terras, era fiel a Hapi e a Ptah.
Lia nas estrelas a glória de Nout e cantava nas festas a Hathor!

Ah! era dourada a sua imagem e como os teus
os seus olhos brilhavam doces na alvorada...

Outras vezes iamos ver Shekmit, evocar a deusa Bastit,
a quem me ensinavas a amar nas noites de luar.

E como a gata do templo, tu dançavas e esvoaçavam as tuas vestes,
deixando antever o teu corpo nu de estátua...

E eu extasiada pela tua excelsa visão, não sabia se eras tu
ou a própria deusa encarnada quem para mim dançava!

Nesse tempo era feliz...
Amava a vida e a Terra ainda era sagrada!

ANTES DO VERBO...



O TEU CORPO

É sagrado o teu corpo
abençoadas são as tuas mãos!
E os teus dedos que se recortam
e destinguem uns dos outros, preciosos.

É divino o teu rosto de rainha, sereno como uma deusa!
São luminosos os teus olhos, quando me olham
e perpassam o coração...

É redentor o teu colo
onde se refugia o homem e a criança,
quando choram, riem e sofrem
Mulher!



rosa Leonor pedro

Ta Mery

Lembras-te, foi em Tentyris,
quando a deusa com máscara de gata dançou
e lançou um feitiço quando te viu?
Levou-te com ela ... desde aí fiquei só.

Lembro-me da terra vermelha, da minha sede
e da tua miragem...
Lembro-me da noite vir, do teu doce e terno sorrir,
da sede da tua boca, do teu corpo a escaldar...
Não, não tive medo, antes ri, quando uma pequena serpente
me entrou no coração
e gentilmente o seu veneno me adormeceu.

Agora me lembro, queria ir contigo a Denderah
ver Bastit no seu altar.

Queria lembrar-me quem era,
se tua mãe, tua amante ou tua irmã...

Anda comigo a Ta Mery, ver Hathor, ouvir cantar...

Adoro a mulher dourada
louvo a sua majestade


rosa leonor pedro

"A mulher é, assim, a vidente primordial, a Senhora das águas disseminadoras da sabedoria, oriundas das profundezas; das Fontes murmurantes e das nascentes, pois "o om pronunciamento primordial da vidência é a linguagem da água".Não obstante, a mulher também conhece o sussurro das árvores e todos os sinais da natureza, a cuja vida está tão fortemente ligada. O rumor das águas das profundezas é somente um aspecto externo do murmúrio interior do próprio inconsciente, que nela se eleva espiritualmente como água a um gêiser
Ela é o centro da magia, do cântico mágico e enfim da poesia, pois a situação extática da vidente resulta de ela ser dominada por um espírito que irrompe dentro dela, o qual se pronuncia a partir dela , ou melhor, que nela se denuncia e se manifesta, em forma de invocação rítmica e intensa. Ela é a fonte de onde Odin obteve as runas da sabedoria, bem como a Musa, a origem das palavras que fluem do âmago do poeta e sua anima inspiradora.
Como força inspiradora ela pode se manifestar isoladamente, na forma tríplice que já conhecemos, e ainda num contexto plural indeterminado. As Cárites, as ninfas, as sereias, as musas, as três graças, as moiras e outras inúmeras figuras, são as forças melodiosas, dançantes e proféticas dessa mulher inspiradora e inspirada na qual o masculino, muito mais distante das origens, busca sabedoria quando impelido pela necessidade. E vezes e vezes seguidas, encontramos essa mulher mântica ligada aos símbolos do caldeirão e da caverna, da noite e da lua.
Com efeito, o caldeirão não é o só vaso da vida e da morte, da renovação e do renascimento, mas também da magia e da inspiração. O caráter de transformação que lhe é inerente passa pela decomposição e pela morte, para chegar à intensificação extática e ao nascimento do espírito eloquente, o qual conduz sob inspiração extática à palavra, ao cântico e à profeciaa, como sintomas do renascimento.
(...) ERICH NEUMAN in "A GRANDE MÃE"


HINO A DEMÉTER

Lembro-me, Mãe, dos confins da minha memória recordo
a tua beleza e grandeza!
Lembro-me do ser dócil e humilde que eu era
e das serpentes brandas que passeavam a teus pés.

Lembro-me do teu sorriso,
da tua voz que se repercutia como sinfonia em todo o meu ser,
e a minha alma dançava e vibrava no teu amor extasiada.

Nesse tempo o céu resplandecia
e na terra era eterna a primavera.

Lembro-me das tuas filhas ornadas de grinaldas
vestidas de branco em volta de ti,
e quando um gesto teu iluminava o arco-iris
sobre as nossas cabeças irmanadas.

Lembro-me desse tempo, Mãe, e sagrado era o tempo
em que os frutos eram sedosos e doces afagados pelas tuas mãos.

Lembro-me do teu ser repleto de luz,
da tua ternura escoando dos teus lábios de mel
e de ti, abelha mestra, rainha de uma colmeia.

Lembro-me, Senhora
e nada me liberta desta visão-encantamento que é neste o meu refúgio.

Ah! que dom deveria eu ter
para te evocar neste mundo maldito,
onde fomos perseguidas, quimadas vivas nas fogueiras da Inquisição
e exploradas como instrumentos de prazer e ódio?!

domingo, dezembro 16, 2001



Ó Isthar

Sem os teus seios de mãe generosa
que me alimenta,
Sem o teu corpo de luz
que me ilumina,
eu morro neste deserto
que é viver sem ti na terra.

Senhora da eternidade e das esferas,
senhora da morte e das auroras
desde o princípio dos tempos benigna,
és tu a detentora da minha vida e
a conduzirás até ao fim.
Ó Ishtar tu és aquela que salva e cura!
Volta outra vez...
DEUSA BRANCA

Ó deusa branca,
Senhora das fontes e dos lagos,
esquecida nas brumas do tempo,
chamo-te no mais recôndito do meu ser:
em cada célula um apelo, no meu corpo,
em cada átomo
Não sei porque te envolve um véu diáfano,
que te esconde na penumbra dos meus sonhos,
onde às vezes, por pidade, me sorris
ou me tocas com o teu manto
que te esconde de mim!

Outras vezes,
afagas-me o rosto com uma pena das tuas asas
e foges para longe...
Queria amar-te mais ainda se pudesse
e trazer-te para perto de mim.
Pedir-te encarecidadmente, nunca me esqueças!

Tu és a razão única da minha vida,
tu és a essência e cada nervo.
A carne, o sangue e o tecido,
cada fibra do meu ser te pertence!

DEUSAS

Que memórias às vezes me acordam, de onde vêm?
Luzentes e fulgurantes, como raios,
mais parecem fadas luxuriantes,
pontos distantes de luz, que me ofuscam a mente.
Que visão instantânea de um mundo oculto,
por pensamentos turvos, obscuros, permanentes!

Abre-se por momentos, a visão de outro ser
que já fui autrora..
recordações de auroras luminosas,
memórias de seres radiantes
etérios, brilhantes,
cheios de uma ternura deslumbrante
que eu nunca encontrei aqui...

Deusas, sim!
A anunciar reinos distantes perdidos de nós,
Robôs do século XXI.

quinta-feira, dezembro 13, 2001

NOUT

Vi o teu rosto na lua...
Aparecia e sorria entre as nuvens e desaparecia!
Ias e vinhas como uma fada
e com as mãos brincavas com as estrelas,
dançando entre os raios de luz.

Enebriavas-me com promessas que eu decifrava nas esferas.
Rodopiavas no céu e os teus raios estilhaçavam todo o meu ser.

Eu caia em abismos, memórias e perfumes
e quando me erguia já não te via...
A minha alma escurecia e pedia que aparecesses outra vez;
e mais uma vez tu vinhas e dançavas para mim:
o meu sangue liquefazia-se e eu não sei por que magia
voava e dançava contigo no espaço!
Era estrela e cometa e a própria lua..
e já não sabia se o que via era o meu rosto
ou o teu por cima de mim.



A TUA IMAGEM

Tenho a tua imagem gravada no mais fundo do meu coração:
olhos internos, fibras e nervos te vêm.

Corre no meu sangue como um rio
e eu deixo-me levar na corrente do teu ser.

Bebo da tua seiva e ergo-me
como a coluna do templo em que és raínha e minha
no mais sagrado altar em que te posso abrigar.

Guardam-me a alma os teus olhos
que me seguem a cada silêncio e a cada gesto.

Queria abraçar-te o ventre e adormecer suavemente a teus pés

Como o pedinte à porta de uma igreja ou o nómada no deserto,
a minha sede de ti é eterna, ó mãe do céu e da terra em que nasci!



Para a Meg

E no interior: aqui é o centro
Tu - e a tua verdade
e ser verdadeiro a isso

Ela é a mulher que não foge
Ela ergue-se dentro dela e permanece
E tu podes?

O que trazes aqui é o que recebes
O que fazes é atraído para ti -
E por mais estreito que um caminho possa parecer,
Se te desvias dele estás perdido...

É como ousar dizer a verdade, mesmo quando
Atiras a linha sem ter a certeza da sua resposta-
Mas se persistires e confiares nos teus olhos,
Hás-de chegar ao outro lado...

E quando subitamente vier

a pairar aos gritos do silêncio

Se te mantiveres como és, digo-te

Nada te poderá fazer mal.

I CHING -WU WangSEM FALSIDADE


quarta-feira, dezembro 12, 2001

ABULAFIA ´Hayye ha'Olan ha-Ba - in " O Pêndulo de Foucaut"

"Que as tuas vestes sejam cândidas...
se for de noite, acende muitas luzes, até que tudo brilhe...
Agora começa a combinar algumas letras e combina-as
até que o teu coração aqueça.
Tem cuidado com o movimento das letras e
com o que poderás produzir ao misturá-las.
E quando sentires que o teu coração está quente,
quando vires que através da combinação das letras
apanhas coisa que não poderias saber sòzinho
ou com o auxílio da tradição,
quando estiveres pronto a receber o influxo da potência divina que penetra em ti,
emprega então toda a profundidade do teu pensamento
a imaginar no teu coração
o Nome e os seus Anjos superiores,
como se fossem seres humanos que estivessem ao teu lado."

"Da rosa, nada digamos agora..."



MAGNA MATER

Vem ó face oculta de mim, volta ao nosso seio
e sê de novo a a detentora de toda a magia e cura.

Vem, Lilith, a primeira mulher castigada,
vem Cibele,escondida nas cavernas, Afrodite do mar,
Deméter e Perséfone encontradas...

Vem Maat ao meu coração semear a verdade,
restabelecer a justiça!

Vem Virgem Maria a Piedade...

Voltem todas as deusas, para que as mulheres
sejam enfim Mulheres,
para que a mãe ame a filha,
para que o ódio cesse entre o macho e a fêmea.
Voltem e
libertem-nos do Pai-todo-poderoso e do Pecado!
Viens mom beau chat, sur mon coeur amoureux... Baudelaire

BASTIT



São os teus olhos cor de amêndoa que me olham doces,
que me põem tonta de tanto te olhar.

São os teus olhos fixos na imensidão do que eu sinto
que me fazem estremecer de tanto te amar...

São os teus olhos de gata que pousam brandos nas minhas mãos,
que afagam o meu desejo de te acariciar...

Desejo suspenso no mais íntimo receio de te assustar.
E para que não fujas e me deixes,
finjo que não sou de carne e osso
e evito diante de ti chorar a imensidão do meu ensejo
de te afagar.

Queria evocar-te de olhos cerrados...
Rezar-te em palavras de ouro gravadas!
Não sei como te transformaste em toda a minha alma
que só tu em mim és vida!

Ó Mãe adoro-te!

Branca, suave, transfigurada.
Negra morte, vermelha, vida visceral
ou luz pura manifestada.

Quero ver-te substância disfarçada ou invisível no ar.
Na aragem sentir-te em cada canto, na casa,
no perfume das flores, nas mãos que se estendem,
no silêncio e na música, na chuva e no vento,
a cada passo ou sentada...

Quero sentir o teu amor ver o teu halo e
em cada gesto que de mim emana
tu seres o centro e a luz,
a força, a coragem e a audácia de eu ser tu
no temor e na glória de te dizer.

Quero rezar-te a cada segundo da minha respiração,
sentir a tua presença a cada momento.

Quero que o teu manto de Rainha me envolva e que
os teus raios de luz inundem todo o meu ser
e como um templo
ver cada mulher que entre como se fosses tu...

Quero de novo eleger o teu culto á Deusa!
“Na ilha de Creta, onde a Deusa ainda era suprema, não havia sinais de guerra. Aí a economia prosperava e as artes floresciam.”
In O Cálice e a Espada , de Riane Eisler

terça-feira, dezembro 11, 2001

Ela é tudo e não apenas uma:
É a vida e a morte, a sedução e a libertação.
Acaso o ignoravas?
Sabes sòmente que ela fascina e enfeitiça a turba das criaturas
e não sabes que ela também as conduz
para além das trevas e da confusão,
ao conhecimento da verdade?
Então sabes muito pouco e não te inteiraste de um grande e difícil mistério:
que a própria embriaguês que nos atordoa
é a mesma exaltação que nos leva à verdade e à liberdade.
Aquilo que agrilhoa liberta-nos e a exaltação une
a beleza material à espiritualidade

Thomas Mann - in "As Cabeças Trocadas"
"No coração dos amantes que bebem a lia, ateiam-se os desejos ardentes.
No foro interior dos sábios de coração triste, há refutações (...)" RUMI

Feitiço

Possessa sim, mas de amor o teu!
Amante de mim, sim
mas de tanto em mim viveres ó Deusa

Crente e serva de um só e único olhar ,
o teu invisível olhar,
que me fulminou de magia
e ardente nostalgia,
mal eu nasci...

segunda-feira, dezembro 10, 2001


Os teus olhos são a poção mágica em cujo fundo eu caí
Os teus cabelos são a chama incandescente
em que o meu peito arde, mesmo sem te ver.

Tu és o fogo da minha essência e a minha ascese.

Tu és o fervor místico que me devora,
a dakini do meu destino, o tantra
e o mantra da minha vida...

"Onde encontrar a salvação? Enches o mundo.
Só em ti posso fugir de ti." in "FOGOS" de Marguerite Yourcenar

Há um nome mágico
evocativo.
O mais comum e o mais sublime:
Avé Maria
Yod-He-Vav-He

Tenho a voz cheia da tua substância primeira,
tenho-te na boca e nas entranhas.
Respiro o teu nome e estou de ti prenha.

As tuas mãos percorrem as artérias
do meu coração como safiras
e a minha alma acompanha-te enlevada
ao mais secreto de mim.

Nas tuas mãos abro-me inteira
e sou o teu jardim.
Tu és a Chave!
Eu sou o templo de uma nova era anunciada:
O Amor em MI (m).

Para a Ana que sem saber... vem da linhagem das deusas: ela me abriu esta PORTA,
MAIS UMA PORTA PARA A DEUSA EM CADA MULHER, nesta travessia para o outro lado de nós...

domingo, dezembro 09, 2001


Sou uma religiosa sem igreja,
uma reclusa sem convento, amante de uma deusa sem altar.

Vivo na pele o tormento de uma humanidade que ainda não é ,
vivo no mundo sem nele acreditar...

Sou sacerdotisa de um templo destruido
à procura de um novo amor e de uma nova fé.

Olho num único sentido: interior e íntimo
no centro de mim mesma e espero a Luz.

A luz de um outro mundo e a única esperança.

Com ele há-de vir a nova criança e a deusa
em que ainda descança e as duas serão uma só.
Morgana
Rosa Leonor, in Mulher Incesto- Sonata e Prelúdio

Sàbiamente misturo os venenos, elaboro a poção mágica...
Tenho tudo preparado, lente e vagarosamente,
quando chegas, se devagar te chegas a mim...

Ouço-te respirar e olho-te bem dentro dos olhos
para no espelho da tua alma me ver...
e o que vejo são mares e correntes,
fontes a jorrar.
Vejo o passado e o presente e
como uma demente, ponho-me a teus pés a chorar.
Toda eu estremeço da imensidão do que vejo,
todo eu estremeço no frémito de te adivinhar.

Quero-te terra, deusa e mar
quero-te vida, oceano e sangue
e fogo no meu peito.
Quero-te natureza divina e humana,
carne e espírito
alma encarnada na forja do tempo
dos confins do tempo vinda
uma e outra vez...
no teu ventre Mulher, eu quero mergulhar.