sexta-feira, março 13, 2009

UMA MULHER LÚCIDA...

FEMININO PLURAL
Maria José Nogueira Pinto
Jurista in DN

No singular nos fazemos, afrontamos, cedemos, conquistamos e transformamos. No plural nos descrevem e nos tipificam, atribuindo-nos sentimentos, anseios e capitis diminutio como se, no vastíssimo conjunto dos biliões de seres humanos que somos, nós mulheres representássemos afinal um microcosmos homogéneo e minoritário.

Da luta feminista da década de 60, cujos méritos ninguém nega, não foi possível até hoje dar esse salto qualitativo que a simples marcha do mundo exigia.

Nenhuma nova geração veio verdadeiramente renovar o sentido do caminho e do discurso. Hoje, a questão parece ser apenas de carácter científico, sociológico, político. Por isso o meu feminismo ancorou entre a força da memória ancestral e singular da mulher, e o sentido que deve ser dado às diferenças úteis e desejadas. Entre um olhar atento sobre as "Mères-courage", em que modestamente me incluo, mulheres esticadas entre as duas margens de novas épocas, e a inquietação que me vem da certeza de que ainda hoje, abaixo de certos níveis, uma mulher é mais vulnerável do que um homem, na pobreza, na doença, na humilhação. E que esse combate contra o subdesenvolvimento está por fazer e parece suscitar bem menos interesse do que questões como a paridade e as quotas.
É certo que quando Deus chamou por Abraão, Sara ficou dentro da tenda. Mas os desígnios de tal conversa, de que Sara não foi interlocutora, nunca teriam podido prescindir dela.
O que torna a mulher incontornável é ter sido, desde sempre, a provedora. A história da mulher é uma história de responsabilidade. Como a da Fada Oriana, a quem é dada a jurisdição da floresta com o fim de prover às necessidades dos seus habitantes e a proibição expressa de qualquer distracção narcisista.
Hoje, a muitas mulheres são dadas duplas e triplas jurisdições. Neste percurso tantas vezes atribulado e cuja contabilidade toca os contornos da injustiça, estas mulheres vão, como todas as que as antecederam, viver e sobreviver, compartimentando a vida em escaninhos e horários estanques, para acções e emoções, cargas e afectos. Sem abdicar de qualquer das jurisdições, que recusarão como alternativas e abraçarão como complementares, numa história de responsabilidade sempre renovada. É a tal divisão da alma e do tempo, sem limites, indefinidamente.

Mas as últimas décadas de feminismo, marcados pelo desiderato da igualdade pura entre géneros, ocultaram a diferença essencial e o essencial da diferença.
O resultado foi paradoxal, inquietante...
Quem se lembra, hoje, das operárias norte-americanas que se manifestaram num longínquo 8 de Março, na tentativa de ver reduzidos os seus desumanos horários de trabalho? Que espaço ocupam no discurso oficial do feminismo, que Margueritte Duras veio desconstruir, muitos anos depois dos seus cahiers d'or, numa magistral entrevista ao El País quando foi galardoada com o prémio Príncipe das Astúrias? Tantos anos volvidos, o nosso afã e a nossa urgência mantêm a fidelidade às mulheres a quem é preciso ajudar a estabelecer o sentido das diferenças, um efectivo poder reivindicativo que as liberte de falsas alternativas e de mandatos abusivos de terceiros, que lhes querem definir o destino e lhes limitam as escolhas.

Tudo o resto, estou certa, as próximas gerações resolverão. Tendo como pano de fundo as palavras femininas de Nélida Piñon: "E enquanto os séculos a envelheciam, a mulher zelava por reproduzir os ditames da sua visão particular da realidade."Assim fizemos e assim faremos.

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