domingo, abril 26, 2009

Revisitar abril...


Muitos anos antes do “25 de Abril” eu lutava por compreender o que se passava à minha volta e o porquê de tantas limitações no plano socal e da informação, o porquê daquele medo de se falar e dizer as coisas que se pensava…e depois comecei a ouvir falar de perseguições e prisões e torturas e tive medo também. Era muito nova e acreditava que as pessoas podiam mudar o mundo…que se as pessoas pela força da sua vontade e um mínimo de sentido de justiça, conscientes das diferenças sociais e da miséria do povo, podiam alterar o sistema…e assim tornei-me simpatizante do partido comunista…
…depois vi que só os homens saiam para os encontros e que as mulheres ficavam em casa ou não tinham voz própria…e eu mesma comecei a sentir o descrédito como mulher e a ver que as outras mulheres não podiam sair de casa sozinhas, nem votar claro, ou levavam mesm pancada dos maridos camaradas, do fantástico líder, uma sumidade de inteligência que já morreu.
Nessa altura tinha mais ou menos 18 anos…e comecei a dizer poesia revolucionária nos pequenos palcos da política (em época de supostas eleições) o que me valeu em pouco tempo a perseguição da PIDE. Não cheguei a ser presa porque fugi para Paris, mas soube mais tarde que tinha cadastro e até gostaria de ver o que estará lá escrito, mas sinto-me tão longe hoje dessa infatilidade, loucura, ilusão, sonho, fantasia ou fanatismo de adolescente que penso, nem vale a pena ir a Torre do Tombo ver.
Foi assim, com este espírito de desolação e descrença, que ontem vi algumas reportagens sobre a evolução do 25 de Abril em Portugal…e passei por uma que mostrava alguns dos políticos actuais como jovens revolucionários, radicais e como estão hoje todos integrados na alta política e finança, bem acomodados ao sistema capitalista, compactuando com toda esta mentira global, amigos de Bushe e mesmo os que ainda se intitulam socialistas estão obviamente todos enredados nas teias do poder e redes do tráfico influência e dos seus interesses económicos sem qualquer pudor e não se distinguem em nada dos cabecilhas de direitas, todos enriquecendo à custa da política e todos sem excepção à espera do poleiro para continuar a enriquecer ilicitamente à conta do povo que tanto defendeu em tempos idos…ou não.
…vi também um bocado do filme da Maria de Medeiros…e comoveram-me algumas cenas…a saída dos presos da Caxias…mas sobretudo doeu-me a ilusão das pessoas que durou tão pouco…35 anos... e vi também o helicóptero que lançou 5 mil cravos sobre o Camões…para a lapela dos turistas… vi jovens e velhos no desfile da Avenida da Liberdade e o slogan de “Abril sempre” e vi também os gays a pedir “casamento para todos”… e ninguém por dignidade ou verdade, nem pelo fim da mentira política, nem para acabar com a desigualdade e a pobreza, cada vez maior, maior do que no tempo do Salazar…porque até os mais pobres têm carros e televisão e pensam que isso é progesso...

Ah! Sim, dizem todos que a crise agora é mundial…mas não, é apenas a velha ganância humana, a mesma de sempre, sem mudança nem alteração que não seja a aparência. Ninguém mudou de base ou de fundo em si mesmo, não houve evolução da pessoa, não houve transformação individual, não houve qualquer tomada de consciência dos valores profundos, éticos e humanos, mas quase só a continuidade dos interessas económicos e a ambição noutras mãos e noutros grupos. E ora vão uns para o rancho ou o poleiro raspar os tachos, ou vão outros e só mudam, senhores e senhoras, as moscas…mesmo o medo de falar está a voltar e o descrédito de quem ousa dizer o que realmente sente, ouvê e veê não sendo politicamente correcto, é perseguido de outra maneira mais subtil… apagado dos ecrãs onde todos vivem.

Porque somos todos burgueses, todos burgueses a ver televisão, todos moldados pelo VELHO E MANHOSO sistema das ideais e das crenças, todos escravos dos banqueiros e empréstimos, dos patrões e ordenados e do dinheiro, obedientes como carneiros ao ganho, à mais valia, às casas, aos carros, à gasolina e ao tostão, ao euro ou ao ouro…ao Bezerro D’ouro e nada mudou neste Planeta desde os primórdios…ou desde a pré-histórias, sim talvez as moscas…
Ora eu não ia festejar as novas moscas nem as velhas…não ia acreditar em todos esses vira-casacas que hoje vivem à grande e à francesa…e para inglês ver!
O País continua saloio, miserável e provinciano. Com a gente mais pobre e mais ignorante da Europa…talvez até a mais mesquinha… e os únicos que prestam são caluniados e esmagados pelas Mafias do regime.

Ah! E Vi Salazar e a homenagem que lhe prestaram ontem também os políticos de direita em Santa Combadão e os velhos pobres e orgulhosos do seu ilustre conterrâneo que subiu ao poder por eles e que lamentam a sua morte ainda…vi uma praça renovada para glória do ilustre estadista, a sua terra natal e a homenagem ao criminoso megalómano de impérios, rejeitado jovem pela filha do patrão, "o padrinho" e a mãe da menina que o humilhou e que caiu da cadeira abaixo no fim da sua humilhação e glória e cuja vida não foi mais do que a sua sede de vingança de pobre de uma elite implacável com os servos…e é desta massa que são todos os ditadores, como Hitler…

Portugueses...nós somos os mesmos de há 40 anos e de há 4 séculos... amén!
*
DEIXEM-SE DE FINGIR

Deixem-se de fingir de heróis da esquerda,
com bancos e bancas de advogados, redacções,
editoriais, automóvel, bolsas e cátedras,
quintas herdadas, páginas literárias.

Deixem-se de uivar em defesa de ismos
que nenhum vos pertence ou a que pertenceis
a não ser para dançar a dança desnalgada
dos que não têm vergonha do povo português.

O único ismos em consonância com os arrotos
de bem comidos, e rosnidos de instalados
naquilo que criticam disfarçadando-se,
é o relismo - de reles. Nada mais.

15/1/1972
in QUARENTA ANOS DE SERVIDÃO
JORGE DE SENA

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