"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

sábado, maio 16, 2009

CORPO DE MULHER

Declaração Divina

Certas noites dava uma volta por Pigalle e estudava miudamente os cartazes nas casas de strip-tease. Absorvia a nudez retratada das actrizes como se absorve um plasma forte. Elas eram intérpretes de Deus. Via nesses corpos uma declaração divina, e o jogo espectacular do que chamam vícios era uma espécie de escrita manifesta, uma alusiva visibilização de Deus. E tudo isso me era dado como um caminho de conhecimento, uma complexa viabilidade.

Todas as putas de Pigalle eram minhas mães; a carne fotografada, tornada viva em mim pelo enredo da comoção, era a carne-mãe, a matéria fundamental da terra. Deus instigava-me e amparava-me na descoberta e, posteriormente, na magnificação e glorificação do mundo.

Herberto Helder, in Os Passos em Volta


"O CORPO DA MULHER, O CORPO DE QUE O HOMEM USUFRUI.
PELO AMOR, QUE NÃO É SENÃO UMA FORMA INDIRECTA DE VIOLÊNCIA"


in IRREFLEXÕES
Yvete Centeno

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