"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

quarta-feira, maio 20, 2009

OS DOIS EM UM, NEM MACHO NEM FÊMEA...



“Na medida em que o Pátrio Poder se desenvolve e a lei do mais forte se instala, o uso da agressão se impõe nas relações humanas gerando competitividade, poder, conquista, luta pela posse de um território, guerras. Surge a questão da herança, institui-se o casamento. E a posse sobre a mulher, sua sexualidade, prazer e direito à própria vida se concretiza. Ao dominar a função biológica reprodutora o homem passa a controlar a sexualidade feminina. O poder cultural passa a desenvolver-se em oposição ao poder biológico nato na mulher. A vulnerabilidade permeia a função de parir, a mulher se inferioriza, torna-se dependente e o homem trabalha e domina a natureza.”

(…)
Isto quer dizer que o Princípio Feminino (Yin) foi anulado e que o Princípio Masculino (Yang) se desenvolveu, e assim acabamos por viver numa época que é o reflexo dessa assimetria causada pela exacerbação de um dos pólos, o masculino, em todos os aspectos da vida e da sociedade assim como da vivência humana mais íntima. Toda a área de acção social e humana foi-se desenvolvendo em detrimento do pólo feminino, que foi praticamente anulado e quase abolido da nossa vida, sendo que é ainda o lado que prevalece no conhecimento intelectual e histórico ou mesmo espiritual.


É NESSA PERSPECTIVA QUE VEMOS AINDA O FEMININO E O MASCULINO…

Ora o Feminino do SER é na Terra representado à partida pela mulher na sua forma e essência assim como o Masculino é representado pelo homem na forma e na essência. Isto é indiscutível. Eu chamo essência neste caso àquilo que particulariza o ser homem e o ser mulher original. Cada UM como representante legítimo de um dos dois lados dos pólos opostos complementares e que interagem continuamente para o equilíbrio de toda a manifestação no planeta.
Os Princípios Yin e Yang, o lado activo e passivo do Tão, as duas forças ou energias básicas da manifestação da vida são representadas na espécie humana em dois corpos distintos e geram na sua interacção, através dos sexos, o equilíbrio que a fórmula da Alquimia buscava consumar na Grande Obra e que se traduzia na união dos opostos e a consumação dos dois em Um…

"O MEU REINO VIRÁ QUANDO OS DOIS FOREM UM, O EXTERIOR IGUAL AO INTERIOR, O DE CIMA IGUAL AO DE BAIXO, E O MACHO E A FÊMEA NÃO FOREM MAIS MACHO NEM FÊMEA”…

Isto foi o que parece JESUS terá respondido à mulher que o interrogou sobre a vinda do seu reino e que já passou por montes de traduções… Mas parece que isso só é considerado pelos alquimistas e buscadores da verdade no plano espiritual mas nunca no plano prático e físico, nomeadamente no que diz respeito à mulher…
Assim, muitos alquimistas e espiritualistas consideram estas premissas como válidas mas de forma abstracta pois quando se trata de procurar a essência do SER partem sempre do princípio de que a mulher e o homem estão no mesmo patamar de evolução e que só por si a dita espiritualidade ou a sua busca traz a mulher para o mesmo plano do homem, pois dentro de qualquer espiritualidade por suposto já não existe o antagonismo social e psicológico. Mas esquecessem-se de um factor muito grave que é a realidade da história patriarcal nos mostrar que ela destituiu a mulher do seu valor intrínseco e a dividiu em duas “espécies” de mulher afastando-a assim não só da sociedade como elemento actuante íntegro, bem como da sua essência profunda, e portanto da dimensão natural e original do feminino. Deste modo e em consequência dessa divisão o homem também foi gravemente afectado ao ser privado da convivência com a verdadeira mulher. Ele cresceu e aprendeu a lidar com uma parte da mulher, em casa, a mãe ou esposa resguardada e recatada e com a outra parte na prostituta depravada como instrumento sexual na rua ou no Bordel…e as suas variantes mais modernas!

O problema, agora, já só no domínio da espiritualidade, está em que antes do mais a mulher que se quer re-ligar ao espírito tem de integrar esse seu lado renegado, convertido na sua sombra, do qual foi desligada, unindo as duas mulheres que a religião separou, para poder representar a mulher total e autêntica e dar expressão ao princípio feminino de que é nosso mundo foi privado há milénios; ela precisa de se reencontrar consigo mesma na exacta medida em que se tem ignorado e ver-se inteira na sua própria dimensão ontológica - encarando a sua sombra porque só esta a poderá conectar com a mulher primeva, a mulher instintiva, selvagem. Só depois dessa integração das “duas mulheres” cindidas pelo patriarcado, ela pode partir para uma caminhada espiritual em paridade com o homem e exprimir o seu verdadeiro feminino,

Não podemos continuar a escamotear o facto de a mulher ter sofrido ao longo dos séculos de uma diminuição do seu ser, de um afastamento lento e paulatino do seu verdadeiro lugar no mundo, da sua voz de oráculo e profetisa, destituída que foi das suas funções de sacerdotisa e parteira, vidente e curadora, para só muito mais tarde, já no mundo moderno, lutar por uma liberdade ou conquista que não é da Mulher Essência.
(Faço aqui um parêntesis para realçar que dos 4 militares cadetes da Marinha portuguesa que levaram o andor da Nossa Senhora de Fátima aos ombros, um era mulher…e que só estava ali através da “igualdade” de funções com o macho e não como mulher essência, no seu papel de sacerdotisa da Deusa Mãe…mas sim como militar, pela força da espada!)

Essas conquistas da mulher feminista e a pretensa igualdade dos sexos são pois só do plano da materialidade e dos direitos sociais com a imposição da racionalidade numa sociedade em que o princípio feminino é só símbolo e não realidade (como no caso da Nossa Senhora elevada aos céus e não na terra!). Não é neste caso realizado um trabalho de ligação da mulher à sua natureza profunda, á sua essência e portanto ela não pode representar o seu lado feminino. Assim o Yin (lado passivo) não está “activo”…apenas o Yang tanto no homem como na mulher.

Voltando ao feminino e ao masculino de per se, a conclusão a que quero chegar é que cada uma das partes à partida tem características de ser inerentes às do Princípio em causa - tal como os hemisférios cerebrais - e isso também é desvalorizado pela sociedade uniformizada segundo o padrão do masculino. O feminino não existe quase como qualidade em nenhum lado e as Mulheres são cada vez mais raras para que possam representar o feminino sem essa tremenda facturação de si mesmas e aí começa o nosso drama na actualidade no campo da procura espiritual.
Portanto minhas amigas/os o mais premente agora e antes do mais é a mulher unir-se em si mesma, unir as duas mulheres a partir de dentro, do seu mais profundo sentir, ser uma só Mulher, nem prostituta nem virgem…à procura do par…por compensação da sua carência ou falta! Só depois dessa integração, quando a mulher poder ser o espelho perfeito (já não santa nem puta!) para o homem o caminho espiritual começa… pARECE QUE ME REPITO E VOLTO SEMPRE AO MESMO PONTO, MAS este é só o meu ponto de vista baseado na minha experiência.

rlp

5 comentários:

Nana Odara disse...

eu tenho alguma dificuldade em entender bem essa questão da divisão da mulher... sobretudo no q diz respeito a ser puta ou santa...pq me faz confusão vendo as gerações mais novas em contraste com as antigas, umas muito mais p putas e as outras muito mais pudicas... mas será q os termos utilizados não poderiam ser outros?
Assim como os termos masculinos e femininos já tão gastos de outras guerras não chegam mais p nominar características humanas, yin e yang, acho q esses termos santa e puta tbm ja forma gastos e esses papeis ja não estão assim tão bem definidos socialmente... hj em dia as mulheres já não são mais nem tanto uma coisa nem tanto a outra, isto é nem são as mães pudicas e puras devotadas e religiosas, nem são as putas assim, as profissionais do sexo, detendoras das vivencias, trejeitos e atitudes sexualmente ousadas... abundam cursos de strip tease e sedução, e as meninsa fugiram das missas para os bailinhos, faz tempo...
Assim sendo... há outras palavras q tbm ilustrem a divisão da mulher pra q se possa compreender melhor e quiça encontrar mais rápido o caminho para essa reunificação interna?

Por exemplo, eu, não me considero santa, mas tbm não me considero puta... que mulher sou eu???

a mulher em transição???

para a mulher selvagem???

É provocando q a gente se entende... kkkkkkkkkkkkkkk...

Anónimo disse...

Compreendo essa dificuldade porque a cultura de hoje e a propaganda mediática nos dá a impressão que tudo é uma coisa e na verdade não é…
Quanto aos termos a que se refere claro que eles estão em crescente desuso em certos meios e contextos e culturalmente já não fazem sentido e o que diz está perfeitamente correcto quanto à superfície das cosias…mas parece-me que quando tiramos o verniz dos novos conceitos e ideias liberais e avançadas acerca dessas novas maneiras de viver e conviver das mulheres e homens e sobretudo no caso dos jovens eu acho estranho que continue a haver as expressões correntes “filhos da put…” ou és uma put…ou ainda o desprezo e a violência doméstica ou ciúme etc. cujas raízes vêm dessa divisão agora oculta pelo tal verniz da cultura de plástico.

É evidente que os termos são, digamos, apenas símbolos de uma descriminação cada vez mais disfarçada e mais inconsciente mas cada vez mais perigosa porque é só aparentemente…ela não está lá na mente ou nas ideias mas está nos gestos e nas reacções do homem e da mulher…
O que é que você pensa que um homem quando é traído ou simplesmente deixado por uma mulher diz lá no seu íntimo, com os seus botões? “AGrande put….” ou tem dúvidas. Claro que ele pode ideologicamente dizer: “minha cara amiga, está tudo bem, cada um vai para o seu lado”…mas lá no fundo o que é que reage? Sabe? Do ódio, da raiva da vingança do chinês?
Eu conheço intelectuais e gente muito culta ou evoluída, até muito “espirituais” que admite tudo e pensa assim, mas depois se a mulher não lhe é fiel ou já teve outros homens antes dele, mais tarde ou mais cedo vem o epíteto de “grande vaca ou put…” ou outro palavrão qualquer.
O que eu quero dizer com esses símbolos claramente e que são meros símbolos – não há nem nunca houve santas nem put… - é essa separação que a mim me espanta que você não a sinta na pele…afinal porque é que os portugueses têm o conceito e vêm e dizem que as brasileiras são todas put…em comparação com as portuguesas tão caretas sexualmente? Não é porque as brasileiras não são santas, mas porque são em geral mais livres que as portuguesas…
PS:
A palavra puta dá erro no computador…não existe na net…

rleonor

Anónimo disse...

Outra coisa, feminino e masculino é insubstituivel...dizer yin e yang é adoptar outra cultura que não nos pertence e não são os termos que devem ser mudados mas elevar a consciência é que lhes dá o real valor. estamos a neutralizar tudo para fingir que não há diferenças...e que tudo se resolve por palavras, mas não é asim...só em essência. E a confusão toda das palavras vem de termos perdido a ligação a essa essência...que dá sentido renovado às palavras.
rl

Nana Odara disse...

Sim, vendo do meu ponto de vista não via a diferença tão claramente nas mulheres...

Mas colocando de uma perspectiva masculina eu percebo bem pq realmente é assim q eles reagem...

Aliás, nesse caso, toda mulher p eles são putas, menos a mãe ou a avó e irmãs, o resto... é mesmo assim...

A diferença talvez seja mais no fato de que hj em dia nem a mulher, esposa, mãe dos filhos escapa... antes ela tbm era santa, mas agora não...é puta tbm...

Mas como se dará essa unificação das mulheres, é dentro delas, e depois fora, e depois vai mudando os homens tbm...

Ou o mundo tem de acabar primeiro...kkkkkkkkkkkkk???

será q o fato de tantas mulheres não se casarem, optando pelo investimento na carreira, ou apenas vivendo em casas separadas tbm não provocará a longo prazo essa mudança na perspectiva masculina, isto é, as mulheres sendo independentes, tbm os homens perdem o suporte emocional e a fonte inesgotavel de energia amorosa da mulher, mãe ou esposa, e tem de ser mais independente emocionalmente tbm... vai deixando de cultuar uma, a santa e fazer essa separação tbm não?

Afinal, tem aqui um outro aspecto, as mulheres q se auto intitulavam-se santas queriam ou precisavam de um macho provedor, por não precisarem mais, já não querem ficar ali fazendo pose de santa, e vão à vida, fazer o q lhes apetece...

Será q meu filho ainda vai viver essa dicotomia?
no dia das mães ele fez um cartão na escola pra mim...
com cada letra do nome colocava um elogio, uma qualidade, artista, inteligente, etc e uma delas foi namoradeira...

posso tirar daí alguma conclusão...

vamo continuar esse papo aqui tá... to esperando a resposta...

bjins...

Anónimo disse...

A liberdade da mulher e a alegria do homem.