sábado, outubro 03, 2009

Concordo inteiramente com Nietzsche


Desculpem esta seca, sinceramente...mas é só para verem até que ponto um filósofo influencia todo o pensamento como se fosse um deus...e afinal não passa de um pobre doente...mas esta visão arrojada e impiedosa de Nietzsche é quase divertida...se conseguirem ler, tudo bem, se não passem à frente...


Este assunto não me interesse muito enquanto mulher porque na verdade Sócrates votou ele também as mulheres ao descrédito, tal como Apolo já fizera...Inclusivo acusava a sua mulher de bruxa...mas o daimon era dele, ele é que era possesso....por isso me empenho a mostrar quão feio era o pobre do coitado...que na verdade não gostava nada de mulheres...
Sim vale a pena ver o ridículo em que o Homem baseia a sua filosofia e já agora a sua ciência...

eh, eh, eh....Eles renegaram a sabedoria da Deusa e depois aparecem, como diz o meu amigo Nietzsche...


"Cambaleantes? Decadentes? Talvez a sabedoria (
dos homens) se apresente sobre a terra como um corvo, ao qual um pequeno odor de carniça entusiasma?..."


O PROBLEMA DE SÓCRATES


Por Friedrich W. Nietzsche , em “Crepúsculo dos Ídolos”

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Em todos os tempos os grandes sábios sempre fizeram o mesmo juízo sobre a vida: ela não vale nada... Sempre e por toda parte se escutou o mesmo tom saindo de suas bocas. Um tom cheio de dúvidas, cheio de melancolia, cheio de cansaço da vida, um tom plenamente contrafeito frente a ela. O próprio Sócrates disse ao morrer: "viver significa estar há muito doente - eu devo um galo a Asclépio curador". O próprio Sócrates estava enfastiado da vida. O que isso demonstra? Para onde isso aponta? Outrora teria-se dito (ó! Disse-se e forte o suficiente; e avante nossos Pessimistas!): "Em todo caso é preciso que haja algo verdadeiro aqui! O consensus sapientium prova a verdade." Ainda falaremos hoje desta forma? Nós temos o direito a um tal discurso? "Em todo caso é preciso que algo esteja doente aqui" - eis a nossa resposta.

Em primeiro lugar temos de observar mais de perto esses mais sábios de todos os tempos! Todos eles talvez não estivess em tão firmes sobre as pernas? Talvez estivessem atrasados?

Cambaleantes? Decadentes? Talvez a sabedoria apresente -se sobre a terra como um corvo, ao qual um pequeno odor de carniça entusiasma?...


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Esta irreverência de asseverar que os grandes sábios são tipos decadentes abriu-se para mim mesmo exactamente em uma circunstância na qual mais intensamente o preconceito erudito e não-erudito se lhe contrapunha. Reconheci Sócrates e Platão como sintomas de declínio, como instrumentos da decomposição grega, como falsos gregos, como antigregos ("Nascimento daTragédia" 1872). Aquele consensus sapientium - isto fui compreendendo cada vez melhor - não prova sequer minimamente que eles tinham razão quanto ao que concordavam. O consenso demonstra muito mais que eles mesmos, esses mais sábios, possuíam entre si algum acordo fisiológico para se colocar frente à vida da mesma maneira negativa - para precisar se colocar frente a ela desta forma. Juízos, juízos de valor sobre a vida,.a favor ou contra, nunca podem ser em última instância verdadeiros: eles só possuem o valor como sintoma, eles só podem vir a ser considerados enquanto sintomas. Em si, tais juízos são imbecilidades. É preciso estender então completamente os dedos e tentar alcançar a apreensão dessa finesse admirável, que consiste no fato de o valor da vida não poder ser avaliad o. Não por um vivente, pois ele é parte, mesmo objeto de litígio, e não um juiz; não por um morto, por uma outra razão. - Da parte de um filósofo, ver um problema no valor da vida permanece por conseguinte uma objeção contra ele, um ponto de interrogação quanto à sua sabedoria, uma falta de sabedoria. Como? E todos esses grandes sábios? - Eles não seriam senão decadentes, eles não teriam sido sequer uma vez sábios? Mas eu retorno ao problema de Sócrates.

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Segundo sua origem, Sócrates pertence à camada mais baixa do povo. Sócrates era plebe.

Sabe-se, ainda se pode até mesmo ver, quão feio ele era. Mas a feiúra, em si uma objeção, é entre os gregos quase uma refutação. Sócrates era afinal de contas um grego? Muito frequentemente, a feiura é a expressão de um desenvolvimento cruzado, emperrado pelo cruzamento. Em outros casos, ela aparece como desenvolvimento decadente. Os antropólogos dentre os criminalistas dizem-nos que o criminoso típico é feio: monstrum infronte, monstrum in animo. Mas o criminoso é um décadente. Sócrates era um típico criminoso? Ao menos não o contradiz aquele famoso juízo-fisionômico que soava tão escandaloso aos amigos de Sócrates.

Um estrangeiro, que entendia de rostos, disse certa vez na cara de Sócrates, ao passar por Atenas, que ele era um monstro e escondia todos os vícios e desejos ruins em si. E Sócrates respondeu simplesmente: "Vós me conheceis, meu Senhor!"

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Em Sócrates, a desertificação e a anarquia estabelecidas no interior dos instintos não são os únicos indícios de décadence: a superfetação do lógico e aquela maldade de raquítico, que o distinguem, também apontam para ela. Não nos esqueçamos mesmo daquelas alucinações auditivas que, sob o nome de o "Daimon de Sócrates", receberam uma interpretação religiosa.

Tudo nele é exagerado, bufão, caricatural. Tudo é ao mesmo tempo oculto, cheio de segundas intenções, subterrâneo. – Procuro compreender de que idiossincrasia provém essa equiparação www.lycurgo.org 2 socrática entre Razão = Virtude = Felicidade: essa equiparação que é, de todas as existentes, a mais bizarra, e que possui contra si, em particular, todos os instintos dos helenos mais antigos.

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Com Sócrates, o paladar grego transforma-se em favor da dialética: o que acontece aí propriamente? Acima de tudo é um gosto nobre que cai por terra. A plebe ascende com a dialética. Antes de Sócrates, recusavam-se as maneiras dialéticas na boa sociedade: elas valiam como más maneiras, elas eram comprometedoras. Se advertia a juventude contra elas. Também se desconfiava de todo aquele que apresentava suas razões de um tal modo. As coisas honestas, tal como as pessoas honestas, não servem suas razões assim com as mãos. É indecoroso mostrar os cinco dedos. O que precisa ser inicialmente provado tem pouco valor. Onde quer que a autoridade ainda pertença aos bons costumes, onde quer que não se "fundamente", mas sim ordene, o dialético aparece como uma espécie de palhaço: ri-se dele, mas não se o leva a sério. - Sócrates foi o palhaço que se fez levar a sério: o que aconteceu aí propriamente?

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Só se escolhe a dialética, quando não se tem mais nenhuma outra saída. Sabe-se que se suscita desconfiança com ela, que ela é pouco convincente. Nada é mais facilmente dissipável do que um efeito dialético: a experiência de toda e qualquer reunião na qual se conversa, o prova. Ela só serve como saída drástica nas mãos daqueles que não possuem nenhuma outra arma. É preciso que se tenha de estabelecer à força o seu direito: antes disto não se faz uso algum dela. Por isso, os judeus eram dialéticos. Como? Sócrates também o era?

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— A ironia de Sócrates é uma expressão de revolta? De ressentimento da plebe? Ele goza enquanto oprimido de sua própria ferocidade nas estocadas do silogismo? Ele vinga-se dos nobres que fascina? — À medida que se é um dialéctico, tem-se um instrumento impiedoso nas mãos. Com ele podemos cunhar tiranos e ridicularizar aqueles que vencemos. O dialéctico lega ao seu adversário a necessidade de demonstrar que não é um idiota: ele o deixa furioso, mas ao mesmo tempo desamparado. O dialéctico despotencializa o intelecto de seu adversário. Como? A dialéctica é apenas uma forma de vingança em Sócrates?

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Eu dei a entender o que fez com que Sócrates pudesse se tornar repulsivo: permanece tanto mais a ser esclarecido o fato de ele ter podido produzir fascínio. Por um lado, Sócrates foi o pioneiro na descoberta de um novo tipo de Agon: para o círculo nobre de Atenas, ele foi o seu primeiro mestre de armas. Ele fascinou, à medida que tocou no impulso agonístico dos helenos e que trouxe uma variante para o cerne do embate entre os homens jovens e os rapazinhos.

Sócrates também foi um grande erótico.

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Mas Sócrates desvendou ainda mais. Ele olhou por detrás de seus atenienses nobres; ele compreendeu que seu caso, a idiossincrasia de seu caso, já não era nenhuma excepção. O mesmo tipo de degenerescência já se preparava em silêncio por toda parte. A velha Atenas caminhava para o fim. E Sócrates entendeu que todo o mundo tinha necessidade dele: de sua mediação, de sua cura, de seu artifício pessoal de autoconservação... Por toda parte os instintos estavam em anarquia; por toda parte estava -se cinco passos além do excesso; o "monstrum in animo" era o perigo universal. "Os impulsos querem fazer-se tiranos; precisa -se descobrir um antitirano, que seja mais forte"... Quando aquele fisionomista revelou a Sócrates quem ele era, uma caverna para todos os piores desejos, o grande irónico ainda deixou escapar uma palavra, que deu a chave para compreendê-lo. "Isto é verdade, disse ele, mas me tornei senhor sobre todos estes desejos.” Como Sócrates se assenhorou de si mesmo? No fundo o seu caso foi apenas o caso extremo; apenas o caso mais distintivo disto que outrora começou a se tornar a indigência universal: o fato de ninguém mais se assenhorar de si, de os instintos se arremeterem uns contra os outros. Ele fascinou como este caso extremo - sua feiura apavorante o comunicava a todos os olhares: ele fascinou, como segue de per si, ainda mais intensamente enquanto resposta, enquanto solução, enquanto aparência de cura para este caso.

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Se se tem necessidade de fazer da razão um tirano, como Sócrates o fez, então o risco de que outra coisa faça -se tirano não deve ser pequeno. A racionalidade aparece outrora enquanto Salvadora; nem Sócrates, nem seus "doentes" estavam livres para serem racionais. Ser racional foi o seu último remédio. O fanatismo, com o qual toda a reflexão grega se lança para a racionalidade, trai uma situação desesperadora. Estava -se em risco, só se tinha uma escolha: ou perecer, ou ser absurdamente racional... O moralismo dos filósofos gregos desde Platão está condicionado patologicamente; do mesmo modo que sua avaliação da dialéctica. A equação

Razão = Virtude = Felicidade diz meramente o seguinte: é preciso imitar Sócrates e estabelecer permanentemente uma luz diurna contra os apetites obscuros — a luz diurna da razão. É preciso ser prudente, claro, luminoso a qualquer preço: toda e qualquer concessão aos instintos, ao inconsciente conduz para baixo...

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Dei a entender o que fez com que Sócrates exercesse fascínio: ele parecia ser um médico, um salvador. Faz-se ainda necessário indicar o erro que repousava em sua crença na “racionalidade a qualquer preço”? — Imaginar a possibilidade de escapar da décadence através do estabelecimento de uma guerra contra ela é já um modo de iludir a si mesmo criado pelos filósofos e moralistas. O escape está além de suas forças: o que eles escolhem como meio, como salvação, não é senão uma nova expressão da décadence. Eles transformam sua expressão, mas não a eliminam propriamente. Sócrates foi um mal-entendido. Toda moral fundada no melhoramento, também a moral cristã, foi um mal-entendido....A luz diurna mais cintilante, a racionalidade a qualquer preço, a vida luminosa, fria, precavida, consciente, sem instinto, em contraposição aos instintos não se mostrou efectivamente senão como uma doença, uma outra doença. — Ela não concretizou de forma nenhuma um retorno à "virtude", à "saúde", à felicidade... Os instintos precisam ser combatidos esta é a fórmula da decadência. Enquanto a vida está em ascensão, a felicidade é igual aos instintos.

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Ele mesmo compreendeu isso, este que foi o mais prudente de todos os auto-ludibriadores? Ele soube dizer isto por fim a si mesmo em meio à sabedoria de sua coragem diante da morte?...

Sócrates queria morrer. Não foi Atenas, mas ele quem deu para si o cálice com o veneno. Ele impeliu Atenas para o cálice com o veneno... "Sócrates não é nenhum médico, falou ele silenciosamente para si mesmo: apenas a morte é aqui a médica... O próprio Sócrates só estava há muito doente...".

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