sábado, novembro 28, 2009

O "AMOR" DOS HOMENS DE ONTEM E DE HOJE...

UMA LONGA HISTÓRIA QUE SE ALONGA NOS SÉCULOS EM QUE OS HOMENS CONTINUAM A MATAR... AS MULHERES !!
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É só porquês

por FERNANDA CÂNCIO Hoje

Carla, 28 anos, e Joana, 20, eram inteligentes, atraentes, populares. Cheias de futuro, de sonhos e de vida. No espaço de três dias e de cem quilómetros, morreram às mãos de quem dizia amá- -las. Carla foi esfaqueada mais de 20 vezes à porta de casa dos pais, em Castelo Branco, na noite de 14 deste mês. Joana foi golpeada na cabeça, enfiada no porta- - bagagens de um carro e lançada a uma barragem perto de Viseu, na noite de 17. As confissões dos homicidas, de 28 e 22 anos, não sossegam as perguntas. Que pode levar dois jovens estudantes - um doutorando de Genética e um caloiro de Engenharia do Ambiente - a matar, e a matar assim? Que pode ter-lhes passado pela cabeça? Que leva alguém a achar que pode roubar de uma vez tudo o que alguém é, tudo o que alguém tem? Pode isto ser amor? Pode o amor ser tão mau? E se for amor, o que é o amor? "É só porquês", diz uma amiga de Joana. É, é só.

Há muito tempo que Carla não era tão feliz. Finalmente, depois de anos a trabalhar num call center da PT, o seu sonho de ser cientista estava a materializar-se. A licenciatura de Biologia e o mestrado que fizera a duras penas (e pagando do seu bolso), acumulando trabalho de laboratório de dia com as noites - das seis da tarde às 3 da manhã - no call center, mais a escrita de uma tese em cuja defesa fora considerada "segura e à vontade" tinham-lhe valido o interesse do presidente do departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, Amadeu Soares, que iria ser o seu orientador de doutoramento.

O primo Roberto, que com ela passou férias desde criança em casa da avó materna, em Chão de Vã, recorda o entusiasmo com que ela lhe mostrava plantas e animais e lhe falava de ciência. "Agora só falava do doutoramento." Filha única de um reformado da GNR e de uma operária, Carla Sofia Lourenço Martins dava-se muito com a família. Mas falava pouco de coisas pessoais: descrita como alegre, brincalhona, sempre disponível para ajudar e para se interessar pelos outros, furtava-se a confidências. A aparência extrovertida, afirmativa, ocultava afinal uma auto-estima a precisar de reforço. É pelo menos o que acha Amadeu Soares. "Era muito humilde e um pouco insegura quanto ao seu valor, necessitava de alguém para apostar forte nela. A sua responsabilidade e grande vontade de trabalhar, bem como a sua maturidade, eram muito importantes para o projecto que iria desenvolver, em colaboração com a Universidade de Ghent, no Laboratório de Bioquímica de Proteínas e Engenharia Biomolecular. A Carla iria ter, pela primeira vez desde que concluiu a sua licenciatura, uma oportunidade para se dedicar a tempo inteiro à ciência, algo que a apaixonava."

A notícia da bolsa e da aprovação do doutoramento, que a levaria a dividir o tempo entre Aveiro e Bruxelas durante quatro anos, coincidiu com outra coisa - que, a crer no que dizem os amigos, seria também novo na vida da Carla: um amigo especial. Ou, como diz o próprio, um colega do call center, estudante de Engenharia do Ambiente na Universidade, "mais que um amigo". A relação ter-se-ia transformado numa "espécie de namoro, que não era ainda namoro porque nenhum de nós dissera a palavra", cerca de um mês e meio antes de Carla ter ido, na tarde de sábado dia 14, visitar os pais a Castelo Branco. "Estávamos na fase do encantamento", diz, com um sorriso invisível, o namorado-que-não-era-namorado. "Ela era maravilhosa. Conhecemo-nos no trabalho, começámos a falar e isto aconteceu. Estávamos a planear passar um fim de semana em Espanha. Ela andava tão contente. E já tinhamos combinado que quando fosse para Aveiro eu a ia lá visitar. Estava subentendido." Acende cigarros uns atrás dos outros, sentado no jeep, Coimbra inteira à frente na noite clara e fria. O jeep que guarda as melhores memórias, a de um passeio a Alcarraques, uma espécie de rally que fizeram com amigos e cujo dístico auto-colante desdobra, os dedos lentos. Defeitos, a Carla não tinha? Olha o horizonte. "Não lhos descobri. Não houve tempo.".

É esta relação que João Oliveira, 28 anos,doutorando de Genética no IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto), alega como motivo para a espera que fez a Carla à porta de casa dos pais, numa rua escura de casas unifamiliares em que os gritos dela, abafados pelo som da TV, não abalaram o sossego dos vizinhos da frente. "Só dei por isso quando já estava aí a ambulância. E nem tive de coragem de olhar quando percebi que estava ali uma pessoa caída. A minha mulher é que viu." Ver o quê. Um corpo na soleira da porta, nas costas das rosas que fazem a cerca da casa onde passou a adolescência, sangue - o sangue exacto de mais de vinte facadas -, a mãe sem sentidos, o pai que veio acudir e foi ferido no ombro antes de derrubar o assassino, a vizinha da outra esquina, funcionária da PSP local, que acorreu, a gente que se se vai juntando. E ele, o doutorando de Genética, descrito por quem o conhece como "muito inteligente, tímido, um miúdo normal, sem nada que fizesse prever uma coisa destas".

Prever uma coisa destas. No dia em que matou Carla, João Oliveira não terá tomado a medicação - um leve ansiolítico - que um médico do centro de Saúde lhe teria receitado para a depressão que lhe fora diagnosticada em Agosto. A ida a Castelo Branco justifica-a com a vontade de uma conversa "final", depois de se ter cruzado com Carla no messenger assumindo uma identidade falsa - a de uma amiga - e de a ter levado a confessar um relacionamento sexual com outra pessoa desde o fim do namoro dos dois, que situa duas semanas antes. A faca, diz, era para se matar à frente dela. Mas não, não se matou - e as facadas que lhe deu foram pelas costas depois de ela lhe ter dito que estava tudo acabado, que ele devia "andar em frente e andar com outras pessoas".

(...)

Crime passional? Tatiana sacode a designação: "É estúpida. Há uma romantização, uma irresponsabilização, uma certa inconsequência associada a este tipo de comportamento. Parece que virou moda - cinco ou seis casos em 15 dias. Atenuante? Que palavra tão bonita. Actos de loucura cometem-se mas não se premeditam. Ele teve muito tempo para perceber o que estava a fazer." E o que é que ele estava a fazer? "A Carla ia mudar de vida. Ia ser feliz como já há muito não era. Ia fazer algo por ela. Era a perspectiva da autonomia dela. Ele não ia permitir isso."

(...)

LER NA ÍNTEGRA:

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1432999

6 comentários:

Anónimo disse...

Precisamos renovar tudo...Uma vida nova, um mundo novo, uma padrão de amamor novo!!!

É preciso uma nova ALMA um novo sentido de ser que vá além das concepções machistas do mercado de trabalho e da sociedade.

Que criemos uma nova vida
E QUE A NOSSA VOZ LONGE DE SER TEMIDA SEJA DENOVO AMADA E RESPEITADA, taL como era no principeo dos tempos, quando a Grande Mãe governava o mundo junto de Seu Filho ....

Espero que criemos esse novo mundo em nome da MÃE TERRA

Gaia Lil

MOLOI LORASAI disse...

o importante não é me entender sempre, mas não me considerar um inimigo, só porque de vez em quando ainda tenha erecções fálicas!

Anónimo disse...

Que as pessoas da sua geração possam ser essa alma nova e a anunciar um mundo novo...que seres como você que integram o feminino sagrado sejam uma voz de verdade nestres tempos de caos...

Só a Mãe mesmo nos pode valer...

um abraço

rleonor

Anónimo disse...

Não, não o considero meu inimigo, mas a sua forma de se expressar às vezes eu não entendo, ou entendo fora deste contexto...entendo-o como pessoa e até como homem, acredite. As suas "erecções fálicas" às vezes são farpas...
Não vejo necessidade delas, mas você é que sabe!

um abraço

rosa leonor

Anónimo disse...

Se há algo que enfurece os homens e os atormente é perceber a liberdade da mulher. Não conseguem admitir uma mulher livre, independente, assertiva, dona de si. Isso os apavora. Não é à toa que sempre em todas as épocas aparecem aqueles filósofos, homens de ciência a nos tentar impor a inferioridade, a incapacidade, a emotividade, a irracionalidade para bem justificar todo tipo de castração que cometem contra as mulheres. E também todo tipo de crimes.

E então vem a desculpa de sempre: crime passional. Não há o menor resquício de amor nessas atitudes; porque quem ama e respeita não castra, não inveja, não quer o mal.

Nada mais é do que orgulho macho ferido, sentimento de posse rejeitado e ódio pela capacidade que as mulher tem de dar a colta por çcima e perceber que pode caminhar sozinha com as suas próprias pernas.

Vejo esses crimes como recados da coletividade macha para as mulheres, porque todo ato ou atitude tem um significado mesmo que inconsciente não só a nivel pessoal e privado mas coletivo também.

Dois homens mataram duas mulheres que queriam sua liberdade e um recado foi mandado a todos: aos homens e as mulheres. A nossa independencia e liberdade pode ter um preço a ser pago perante os valores do patriarcado e para aqueles que os querem preservar. É para incutir o medo e fazer com que mulheres na mesma situação pensam, adiem ou desistam...

Como disse a Gaia Lil, junto à nova mulher que está se transformando, precisamos de novos homens, porque não haverá saída para este mundo se a guerra contra as mulheres continuar. Não há como as mudanças que precisam ser feitas para salvar o que resta deste planeta, se não houver uma harmonização entre a mulher e o homem.

Enquanto a mulher estiver no patamar da inferioridade, o planeta como um todo continuará sofrendo. Sem a mulher nada mudará, como não mudou em nenhuma tentativa anterior. Basta ver no livros de história, que cada vez que se fazia uma revolução e se continuava relegando as mulheres um papel inferior porque não se agregavam valores do feminino, o que se via era a deturpação dos ideais e os que antes pregamvam a liberdade se voltavam para ditaduras e totalitarismos.

Nós homens e mulheres estamos aqui para compartilhar essa Terra e ela só será salva se os dois estiveram juntos em pé de igualdade em todos os sentidos.

Tesenisis

Anónimo disse...

Desconheço o autor(a) deste trecho:

"O crime passional não existe: ocorre em contexto sexista por homens incapazes de fazer o luto de relacionamento, diz Lopez. Os autores de crimes passionais não têm problemas psiquiátricos. Que esse crime não é um crime por amor, mas um crime de quem sofre de narcisismo. E ele lembra: Não se deve nunca esquecer que o criminoso, acha, no sexismo, na lei do mais forte, na valorização da masculinidade e na desenfreada competição social, as razões que lhe servem para justificar o seu ato."

Tesenisis