segunda-feira, dezembro 14, 2009

O SONHO DO AMOR DE ALGUÉM...

DEPOIS DOS CINQUENTA…

Eu cada dia fico mais abismada de cada vez que me apercebo como as mulheres, por mais inteligentes e cultas que sejam, mesmo depois de passar por todas as agruras da vida, em casamentos e encontros desfeitos, a custo de um sofrimento enorme, de perdas e danos irrecuperáveis, de infortúnio com os filhos e cheias de netos, com todo o peso da responsabilidade que isso acarreta e ainda consigam sonhar com um novo amor…
Não só sonham como desejam…e acreditam que pode ser “diferente”!
Mulheres de 50 e mais anos que ainda esperam o encontro derradeiro, o homem da sua vida, a alma gémea… como se fossem meninas virgens! Sonham e anseiam como jovens o amor eterno, o cavaleiro que há-de
vir…o gentleman…o príncipe encantado… depois de uma vida inteira terem engolido montes de sapos…
Eu fico tão perplexa e estarrecida com o que vejo e ouço…


Aonde é que estão aprisionadas, iludidas, cegas, essas mulheres? Em que ponto de si estão perdidas para ainda acreditarem no amor de um homem (ou de uma mulher) como nos filmes de Hollywood? Eu sei que durante anos e anos as mulheres foram formatadas para não ter vida própria, para não pensarem, para servirem exclusivamente a família, submissas aos pais, maridos e filhos e que nunca se poderiam atrever a ter uma vida à parte. Depois de criarem os filhos, cabia-lhes criar os netos…Por isso as mulheres, embora aparentemente libertas nos dias de hoje, continuam esvaziadas de si mesmas na sua essência e presas aos homens de qualquer maneira, porque não houve nenhum indicador, nenhum meio para caminharem para si, para dentro de si, na redescoberta de um caminho seu, mas apenas podiam seguir o caminho dos homens.

Sei que não é assim tão fácil perceber como daí advém toda esta carência
e esta fé cega no “amor” de alguém, quando as mulheres já foram tão humilhadas, tão enganadas, tão iludidas, anuladas na sua dignidade, destruídas na sua alma, mutiladas nos seus corpos e até mortas por “amor”…
É sem dúvida a falta do conhecimento profundo, comum a todo o ser humano, que leva a esta extrema carência que se confunde com a desesperada necessidade de amor, legítima certo, mas que não passa de pura alienação do ser em si, falta de interioridade ou inexistência de uma identidade, de uma vida própria, baseada na sua individualidade, sobretudo no caso da mulher.

Ser só, é terrível, dizem-me.
Toda a gente é forçada a pensar no par…no ideal, no romance; toda a gente e neste caso também os homens, acabam por pensar assim, só que com mais autonomia e independência, embora em certos casos tudo se inverta.
Também há obviamente mulheres intelectuais que se julgam independentes mas o problema é que pensam e agem como os homens…são austeras e frias, frustradas na mesma…dedicam-se ao estudo académico, tiram cursos e cursos, dedicam-se à política ou a causas, sem alma nem coração…
Também conheço algumas dessas mulheres…


Sim, mas aonde é que está a verdadeira Mulher? Essa essência da Mulher que a liga à terra? Onde está a Mulher Essência e a sua dimensão ontológica? A Mulher senhora de si, na sua diferença, intuitiva, receptiva, sensível, vidente até e amante da natureza, da vida verdadeira…a mulher capaz de ser ela mesma sem falsos suportes.
Vão pensar mais uma vez que sou injusta com as mulheres…que todas nós queremos ser amadas…e é isso o que importa! Sim, todo o ser humano pensa à partida que o amor de alguém é a coisa mais legítima de acontecer… É a primeira coisa que exigimos da vida! O amor da Mãe, o amor do pai e dos irmãos e amigos é a primeira coisa que nos devem…mas que não acontece ou raramente acontece e somos uma sociedade de neuróticos…de seres incapacitados, carentes, complexados, por isso tantas vezes ou cada vez mais frustrados ou violentos…

Não, o mundo ainda não criou seres capazes de amarem…


Porque sem que cada ser se conheça e se ame primeiro, ninguém se pode amar e este é o círculo vicioso do mundo!
E aqui voltamos ao âmago da questão: pode a mulher mãe sem se amar a si mesma e sem que o homem a respeite amar o filho ou a filha? Sem dúvida que todas nós precisamos ser amadas e o merecemos, mas haverá algum homem nesta sociedade infame, de exploração comercial do que há de mais puro, a intimidade de dois seres, que verdadeiramente ame uma mulher? Ah! Se forem magras e elegantes…se forem bonitas e atraentes…se tiverem um peito assim e uma bunda assado…como as modelos? E vá de por silicone, vá de encher as nádegas, os lábios e as faces de plástico…vá de cortar os seios, vá de cortar o nariz os pés a ancas as mãos e não sei que mais as mulheres cortam para se parecerem com os ícones da moda e do cinema…

Como é que ainda a educação ou a falta dela, toda esta subcultura do feminino de séculos de ignorância e programação católica as escravizam ainda a padrões obsoletos que, apesar das lutas feministas que ajudaram a mudar muita coisa, não mudaram nada do essencial e a alienação da mulher em termos ontológicos é a mesma? Se antes eram “educadas” para casar, para procriar, para parir, para serem submissas aos homens e fiéis ao marido…agora substituíram isso pelo trabalho igual, pelas pílulas e a liberdade sexual; pelas estéticas e a moda e mais uma vez caíram na esparrela dos anúncios, ou dos contos do vigário; toda essa literatura romanesca com que encheram o seu vazio de sonhos de um amor romântico… pode já não ser os maridos, mas os amantes…e afinal para continuaram escravas do homem e dos seus padrões de beleza!

Sim, apesar de tudo se ter alterado nos costumes nestas últimas décadas
e a confusão social pela perda de valores ser cada vez maior, e embora as mulheres trabalhem e ganhem por vezes mais do que os maridos e até parecem livres de fazer o que querem…continuam afinal emocional e sexualmente prisioneiras do homem a nível das suas células, a nível do inconsciente colectivo, pela alienação mediática e pelos filmes e por isso ainda acreditam numa espécie de príncipe encantado que agora é o milionário e no amor das telenovelas…
As mulheres de hoje estão aprisionadas nessa armadilha invisível dentro delas. Pensam que são livres e não percebem as correntes que as amarram…

São centenas ou milhares de mulheres prisioneiras e no mundo inteiro milhões
, mulheres presas dentro delas próprias, prisioneiras desses padrões, de um velho paradigma, amarradas a essa ansiedade feroz do amante nessa carência extrema de si mesmas que as caracteriza (diria, que as caricaturiza… porque essa mulher é uma caricatura de si mesma e do seu potencial adormecido) e que no fundo faz essa amarga solidão que as leva, em desespero de causa, a aceitar de volta homens violentos, homens que as maltratam ou a crer e a procurar novos amores e por mais que sofram e sejam traídas, enganadas e mal amadas, nunca aprendem a lição nem a sua liberdade…
Serão escravas as mulheres para todo o sempre?

Será que não vemos que enquanto não nos amarmos primeiro a nós mesmas, enquanto não formos auto-suficientes e conscientes do nosso ser integral, enquanto não integrarmos as partes de nós divididas, não nos podemos libertar…

Enquanto não nos podermos amar nem respeitar a nós mesmas
como seres independente, como seres singulares, unos, nenhum homem ou mulher nos poderá amar. Enquanto não nos valermos a nós próprias, o amor seja de quem for não nos serve para nada. (De algum modo e a um certo nível isto também é válido para o homem…mas a mulher é um caso mais grave, porque o homem tem mais auto-estima que à mulher quase sempre falta…)
Enquanto essa consciência não acontecer esse amor que vivemos é sempre a projecção ou uma ilusão temporária de que nos compreendem e aceitam, que encontramos o sucedâneo do pai ou da mãe…e que nos amam como nas histórias de reis e princesas ou antes, de gatas borralheiras e príncipes que a breve trecho se transformam em sapos e monstros, no virar da página…

rlp

Há dias vi
, ao passear na praia, uma mulher sentada nas escadas do paredão, com um ar de uma profunda tristeza, a escrever no muro uma declaração de amor…Quando me viu parou e quando eu voltei a passar, ela já lá não estava e eu vi o que ela tinha escrito. Dizia: “eu te amo e morro de saudade do seu amor…” e estava lá um coração alado e uma rosa perfeita com um par no centro muito bem desenhado.
Não, não era uma adolescente… Era brasileira, uma mulher de mais de 50 anos…feia, gorda e triste...mas de uma beleza interior incrível pela pureza dos seus desenhos…
(Ah! Como me dói essa mulher que sonha com o amor tão longe do seu sonho e do seu corpo…tão longe dela E NÃO OLHA A SUA PRÓPRIA ALMA!)

2 comentários:

Juliana Xavier disse...

as mulheres dessa faixa etaria me parecem tão desesperadas q penso mesmo se nao era o caso de intervençao de familiares...
e ai qdo vc vai ver o raio do sapo q é o alvo do tal amor fica claro q é mesmo caso de internação...
mas ninguem faz nada, a nao ser rir delas, pq elas sao donas do proprio nariz e "sabem o q querem":

querem ter a ultima oportunidade de cumprir aquilo q o patriarcado lhes impingiu como missao: capturar um principe encantado... caso contrario ela nao tem nenhum valor...

essa geração é caso perdido, pela sua criação pra caar... não adianta gastar saliva...

ou elas vão la sozinhas, ou não vão de jeito nenhum...

Juliana Xavier disse...

retificando...

pela sua criação p casar...