segunda-feira, dezembro 21, 2009

A GRANDE OBRA



O QUINTO IMPÉRIO...

OU O IMPÉRIO DA MENTIRA?


“No Quinto Império haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas de há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria – ou seja a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual; e o seu lado direito – ou seja o conhecimento oculto, a intuição, a especulação mística e cabalística.”

Fernando Pessoa


Cada um desses dois lados do ser, como forças separadas de que fala F. Pessoa, correspondem aos dois hemisférios do cérebro do ser humano, respectivamente ao hemisfério esquerdo, o lado masculino e portanto o que representa as qualidades intrínsecas do homem, e ao lado direito a que corresponde o lado feminino e portanto representa as qualidades intrínsecas da mulher. Estes dois lados do ser por suposto deveriam desenvolver-se em harmonia para se poderem expressar em simultâneo as faculdades do princípio masculino e do princípio feminino, em cada ser e em perfeita sintonia, o que representaria a evolução e realização do Ser integrado, a saber, que sem um dos lados “activo” ou “passivo”, o outro lado não vale nada e este tem sido o problema da Humanidade face ao Conhecimento.


A Grande Obra dos alquimistas, foi uma das muitas formas de busca dessa unidade superior no equilíbrio da “dupla” natureza do ser humano através da união desses dois lados. O alquimista buscava reproduzir todo um processo al-químico até chegar ao encontro com o seu Eu Superior, para atingir a união e a integração dos princípios ou polaridades, feminino e masculino, anima-animus, que correspondem por sua vez ao yin e yang das tradições orientais - e que representam em si o equilíbrio do Tão - unindo o que está em cima ao que está em baixo, o Céu e a Terra, o espírito e o corpo, o homem e a mulher.

Assim, a necessidade do ser humano se unir ao seu outro lado no par amoroso de forma elementar, representa também a sede fundamental em cada indivíduo, homem ou mulher, de encontrar o seu oposto complementar. Este era o tema central de quase todos os livros de Amor Cortês, a busca do Sagrado Feminino na busca do Santo Graal. Essa busca por parte do Cavaleiro ou do Alquimista era a busca da consumação das núpcias secretas e foi adulterado pela Igreja ao desviar o seu sentido de busca do feminino perdido, saneado da sua estrutura, na afirmação de um ascetismo estéril, colocando a Virgem Mãe e imaculada no céu e a Mulher amante no inferno, como pecadora.

A partir do momento em que o poder patriarcal e as suas religiões destronaram o Culto da Natureza Mãe foi-se perdendo o poder inato da mulher como representante da Deusa e enquanto iniciadora do homem, fazendo com que este perdesse todo o contacto com o seu lado feminino. Mais tarde, as mulheres que ainda exerciam esses poderes através da vidência, da magia ou simplesmente das artes de cura através das plantas, foram perseguidas e queimadas pelas fogueiras da Inquisição. Desse modo as mulheres foram ao longo da História, secundarizadas e reduzidas a uma fragilidade e insignificância, como a metade de uma metade e incapazes de cumprir o seu papel na família e na sociedade gerando assim homens e mulheres deformados, diminuídos, cheios de ódio e medo, sem amor verdadeiro. O que aconteceu na realidade social e humana, em consequência desta perseguição e divisão da mulher, é que para além do seu papel simbólico de Soror Mystica e de Dama, enquanto pessoa e não apenas símbolo, foi também paulatinamente apagada dos processos iniciáticos.


A Alquimia, como ciência da alma, ao deixar de se centrar na Alma, separou a alma do corpo, devotando-se à físico-química e à ciência, sem alma. A partir dessa separação a nossa civilização passou a dar primazia ao lado masculino do ser, desenvolvendo apenas as funções do hemisfério direito, a razão e a lógica, afastando-se do espírito de síntese e da intuição-revelação, que pertencem à partida ao lado feminino do ser. Desse modo, ao privar a mulher da sua capacidade de síntese e o homem da emoção mais pura – campo vibracional por excelência – desvalorizou-se a percepção extra-sensorial, destituí-se as relações humanas de uma interacção mais abrangente do ser, empobrecendo toda a forma de vida natural, animal e humana na Terra.


Ao fazer isso as sociedades patriarcais e as suas religiões, reduziram o potencial do Homem a metade e além da separação dos sexos, criaram uma disfunção na sua natureza que o levou a afastar-se quer da mulher quer da própria natureza, anulando o seu feminino interior considerando a sua manifestação como inferior e uma fraqueza. Quando essa união dos dois em um falha, tanto dentro como fora de cada indivíduo, a Grande Obra não se pode consumar e o ser humano não atinge a sua completude.


É esta sem dúvida uma das causas da nossa alienação e por isso vivemos dentro deste quadro global de miséria e ignorância humana na destruição dos recursos naturais da Terra e na escravização de ser humano ao materialismo e às crenças mais caducas. Toda esta falta de conhecimento e respeito pela Matriz, que a Mulher e a Mãe representam, originada nessas crenças que geraram um mundo infernal de domínio do mais forte criou esta sociedade prepotente, egoísta, baseada na ganância e na acumulação de riqueza de uns poucos, em detrimento de populações inteiras e em que o dinheiro e o petróleo são a causa directa das guerras, mortes, destruição e miséria, e por fim, ao mais dramático de todos, o aquecimento Global.


Chegámos á maior crise de sempre, mas mesmo assim poucos querem ver como todo o planeta está assolado por catástrofes cada vez mais violentas!

Continuamos todos em filas, como carneiros, dentro dos nossos carros, encerrados em latas de zinco e metal, em auto-estradas de alcatrão, preocupados com a gasolina, tal como eu vi hoje e achamos que mais estradas são a solução para a crise…


Milhares de carros, lentamente, no meio da maior poluição, na agonia da noite, homens e mulheres, cada um dentro das suas grades, escravos da produção e do consumo, vindos do trabalho forçado para as suas casas, endividados aos bancos, uma classe média agonizante, para não falar nos pobres e desempregados, sem casa nem comida, nos sem abrigo que proliferam nas cidades e nos assaltos à mão armada constantes nesta crise civilizacional aguda!

Esta é ainda a vida civilizada que todos defendemos com unhas e dentes…

Até quando?

*

Rosa Leonor Pedro

*

Artigo publicado na revista Espaço & Design

Número de Dezembro 2009 - à venda nas bancas…

2 comentários:

jozahfa disse...

Eu me pergunto diariamente até quando eu mesmo vou me encaixar nesse esquema. Estou à beira de um caos.
Mas Rosa, permita-me uma correção: o lado direito do cérebro é que é o lado feminino, regendo o lado esquerdo do corpo, e vice-versa. Há uma estranha inversão aí.

Anónimo disse...

De facto uma estranha inversão, involuntária, uma vez que o excerto de Fernado Pessoa está correcto...é uma daquelas coisas que me acontecem. Na verdade eu faço sempre confusão com os dois lados,nunca sei sem pensar qual é o lado, mas a partir da citação confiei que estava a escrever certo e fiz exactamente o contrário. O pior é que o texto saiu assim mesmo na revista!

Obrigada meu amigo por me chamar a atenção, aqui eu posso corrigir mas não na revista!!!
Como é que vamos sair deste caos não sei...mas indo para dentro...meditando, criando uma vida mais nossa, com pessoas como nós, mas aí tem o problema do trabalho, para quem não está ainda reformado.


um abraço grande

rosa leonor