"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

segunda-feira, janeiro 18, 2010

REPENSAR O FEMININO


E A DEUSA INTERIOR

Quando em Portugal se fala do Feminino Sagrado não se pensa no feminino comum. Pensa-se nas deusas da mitologia, nas deusas pagãs caluniadas pelo clero, ou na Nossa Senhora dos católicos, a Virgem Maria ou a Nossa Senhora de Fátima ou outras congéneres… mas nunca se pensa na deusa como mulher ou na mulher como sagrada. Isso equivale, para a mentalidade católica, a uma heresia…e não quer dizer que todas as mulheres sejam católicas, mas todas foram deformadas pelos preconceitos que as denegriram e portanto é assim que as mulheres comuns também reagem: como se houvesse uma Senhora imaculada lá no Céu e elas todas se aceitassem tacitamente como pecadoras na terra!

Claro que nem todas as mulheres pensam desse modo conscientemente, mas quase todas se identificam com este princípio e reagem inconscientemente ao facto de serem comparadas à deusa…As mulheres comuns não pensam que são deusas ou que são merecedoras dessa referência sequer. Muito longe disso, elas estão habituadas a serem menosprezadas como mulheres e têm isso integrado à força do pensamento colectivo que se manifesta na cultura em geral, ao mais baixo e ao mais alto nível, e que permanentemente as tacha de p…, traiçoeiras, malévolas ou más…

Normalmente as mulheres comuns e as mais intelectualizadas, digamos assim, tendem a rir-se e a menosprezar com este tipo de informação e em qualquer situação mais delicada, em que se sintam elogiadas, senão for enquanto fêmeas na cama, ou pela sua grande inteligência, e são elas as primeiras a votarem ao descrédito uma mulher que as considere sagradas ou que escreva e pense nesses termos, como é o meu caso e de

Mulheres & Deusas…

Já disse algures que, quer as feministas quer as lésbicas, não simpatizam nada com a minha perspectiva mística e o meu posicionamento quanto ao problema da Mullher na nossa sociedade! Essas mulheres, bloguistas, escritoras e jornalistas ou políticas, olham (porque nem sequer lêem) o que eu escrevo sobranceiramente como se eu estivesse neste caso já não a blasfemar, como pensariam as católicas, mas como se eu estivesse louca ou fora da realidade. Da sua realidade.

Muitas até admitem esta linguagem e até podem falar sobre a questão das videntes, astrólogas e bruxas, as Wiccas, na América e no Brasil, e adquirem uma linguagem mística e mistificada, e até se calhar vão a reuniões e frequentam grupos de mulheres onde se fala e tem práticas ditas de “feitiçaria”, fazem macumbas, ou coisas no género, mas na sua realidade e na prática, estão muito longe de integrar ou compreender o que se trata; para elas a feitiçaria é uma coisa obscura e demoníaca como foi denunciada pelos padres e não uma coisa nobre e natural para lá dos limites da sua percepção habitual e limitada …Não sabem, como é evidente, que se pode tratar de um verdadeiro dom, um dom elevado ou uma consciência superior ou um poder interior inerente à mulher e sobretudo não sonham sequer de que se trata essencialmente delas mesmas e do acordar da sua essência no momento actual…
As outras mulheres em geral não conseguem integrar este tipo de informação por o considerar deslocado do seu plano de vivências e da cultura oficial, cinema, televisão e literatura, pois estão tão enquadradas com o Sistema que as ostraciza de tantas e variadas maneiras que nada vêem e até aceitam como natural a divisão das mulheres, e a rivalidade entre si. Há ainda as jornalistas e escritoras do momento e essas, colocam-se quase sempre no papel dos homens e fazem jornalismo da sua perspectiva e abordam os assuntos com a mesma visão redutora patriarcal. Essas são as mais liberais e até aceitam tudo e defendem o casamento homossexual sem perceber da fraude de todas as instituições.

Mas em geral, são as mulheres as primeiras a achar que o comportamento de um determinada mulher, se não corresponder aos estereótipos que seguem, condenável e censurável e também a marginalizam. É assim que antigamente “uma senhora” não se sentava à mesa de uma mulher “qualquer”… hoje em dia isso não acontece mas existe na mesma esse tipo de conceitos ou esse tipo de preconceitos sociais embora mais disseminadas na cultura mediática e as classes por isso também estão menos acirradas. As massas têm acesso a tudo e já não há classes privilegiadas senão ao nível das grandes fortunas e a classe alta não é forçosamente “gente educada”, nem burguesa e menos ainda de elite, mas sim qualquer mafioso que chega, com milhões, facilmente onde antes só chegavam os senhores…

Os tempos e os costumes estão todos amalgamados.
Qualquer “criada” hoje é senhora e qualquer senhora é empregada…Mas mesmo assim e de forma subtil são implícita as descriminações e continuam lá de uma forma ou de outra, o credo, a cor, a raça… e no caso das mulheres este velho antagonismo entre as duas mulheres, a suposta mulher e a amante está sempre latente. Mesmo que a suspeita seja a amiga ou uma irmã, destila-se o mesmo ódio e rivalidade da “outra” que lhe pode roubar o homem ou o filho e a história das sogras odiarem as noras e serem complacentes com os genros, mostra essa velha rivalidade.

Posto isto, voltemos à questão inicial. Porque têm as mulheres tão mau conceito de si mesmas que não se atrevem a ver como deusas?

Shinoda Bolen escreveu, entre outros, um livro muito interessante “As Deusas em Cada Mulher”, e muitas mulheres o lêem e citam, mas ainda se trata das características da deusa na mulher, os aspectos da sua psique que se identificam com uma ou outra deusa, mas não a questão essencial que é a mulher ter a energia da deusa e ser uma deusa em si mesma. Porque é que este facto continua tão alheio e tão estranho à mulher dos nossos dias e na nossa cultura?

Para além dos aspectos já referenciados, devido à influência religiosa, e a sua pregação tão nefasta para a mulher, há o resultante dessa influência ao fim de milénios de repressão e que na prática resulta nessa sua divisão interior, a cisão da mulher em duas metades, mas que sendo menos óbvia, nunca foi abordada como devia ser ou nem sequer abordada. No entanto parece-me ser esta questão, que é no fundo o fulcro de toda a questão que rodeia o mistério insolúvel da mulher, haver uma consciência de si a esse nível - para ela poder integrar o seu outro lado, normalmente representado na Sombra, o lado mulher que se rejeita simbolicamente e não só - e na qual reside também a solução para a sua natureza fracturada. É fundamental pois encarar esta questão a fundo com toda a coragem e ousadia.
Não será fácil a esta mulher desmontar as suas defesas nem as suas armaduras, nem sequer ir a esse fundo em busca de si mesma atravessando a parede plúmbea e espessa que a separa da outra mulher … que é ela mesma! O seu segredo e a sua revelação!

Para lá de Eva, há Lilith, há aquela que não se submeteu ao poder masculino e não foi na conversa do macho e se recusou a deixar-se ficar por baixo, literalmente…Isto apenas quer dizer que antes da mulher encarada “histórica e religiosamente” como Eva, existiu uma Mulher Serpente (Melusine ou o Andrógino?), que era a mulher anterior à era cristã, a mulher ancestral do culto da Deusa e da Grande Mãe e que os cristãos apagaram da sua história tão recente e a difamaram, perseguiram e mataram, acusando-as de heresia e paganismo!

Ora os antigos cultos da Deusa Mãe e a importância da mulher, e o exercício do seu sacerdócio, quando ela ainda era una e integral na sua identidade, quando a mulher se expressava na sua totalidade e representava na carne e na alma a Deusa e a Natureza Mãe, permanecem nas nossa memória e no nosso inconsciente colectivo e como diz Dalila P. da C. -“Desde a época megalítica, passando pelo sec. VI a.C., até aos nossos dias, uma natureza ofídica, aquática, ctónica, estará aqui impressa neste território e a sua humanidade; e neles agindo sem cessar”…*
É essa acção subterrânea que actua nas nossas células e acorda as nossas memórias de deusas e sacerdotisas nos nossos dias pela activação das energias da Grande Deusa que descem agora de novo em toda a terra e que nos poderá fazer erguer de novo o Cálice de ouro e pedras preciosas e fazer com que o homem deixe de empunhar a Espada para matar o seu irmão e escravizar a mulher!
(…)
-“Esta partilha de um sacerdócio, que seria exclusivo, ou preponderantemente exercido por mulheres no culto da Grande -Deusa entre os povos pré-indo-europeus, depois partilhada com os homens e nos povos semitas ou indo-europeus, surge aqui expressado entre nós também, tanto na função sagrada da poesia, como na do culto. “

Precisamos voltar a esse espaço sagrado nas nossas vidas e dar corpo à Deusa para que Ela possa manifestar mais uma vez a Sua vontade na Terra. Lembrar, como nos áureos tempos, que as mulheres evocavam a palavra sagrada e a proferiam sem medo, com orgulho e humildade…pelo amor da humanidade

Lembrar que: “Esta função sagrada feminina numa comunidade de povos atlânticos, europeus, através dos milénios e que através de todas as etnias e estimativas diferentes, continuaria a ser primacial.”

“Documentos antigos de origem eclesiástica, provam-nos que havia na Romania uma poesia popular detestada pela Igreja, carmina amatória, (…) cujo principal agente era a mulher. Tal poesia chegava a invadir a própria Igreja e escandalizar a seriedade do culto (…) essa arte feminina deveria ter florescido intensamente na Galiza (…) Temos notícia de que as mulheres desempenhavam papel importante nas grandes cerimónias religiosas de Santiago de Compostela.” (F.C.)*

Assim, com este pequeno trecho de história verdadeira, escrita por uma mulher iluminada do verdadeiro Espírito, vimos a importância da mulher na comunidade, antes da destruição completa do seu papel e do seu poder no ritual da vida como voz eleita pela Deusa na evocação do sagrado ou da poesia como arauto da verdade.

Ora este hiato incrível de tempo entre esse período longínquo da história humana e a vida como hoje a vivemos na terra, a actual condição da mulher no mundo e a sua divisão em duas, que resultou na prostituição e exploração do seu sexo e corpo, na sua alienação desse ser profundo que é ela mesma na inteireza das suas funções humanas e divinas - pela ligação íntima e natural com o sagrado dentro de si - atribui-se á intencional ocultação e destruição lenta e progressiva, ao branqueamento absoluto que a Igreja de Roma, em sintonia com o domínio falocrático de todo o Sistema Patriarcal, fez da Grande Deusa e da Mulher ao longo dos séculos, através da cultura grego ou romana, e mais tarde debaixo da influência judaica o cristã, a que chamam a civilização ocidental.

Por essa razão, as mulheres de hoje e de todas as partes do mundo que sofreram essas influências estão tão longe da sua essência e da sua natureza profunda.

Por efeito directo e transversal da moral católica e os seus dogmas, o seu ódio ancestral, ao instintivo, à natureza e à vida, a Mulher foi obliterada das suas capacidades e reduzida a uma fraca e pálida imagem de si mesma, evocada numa branca e ascética virgem de altar, profanada pelo culto misógino dos padres que a encerram no seu pedestal de pedra.
Pode a mulher de hoje integrar em si a Deusa e ser de novo uma sacerdotisa dos tempos actuais e vindouros?
Pode ACONTECER e creio que não estamos muito longe de assistir à evocação da Deusa Viva em cada mulher, em Lys Fátima ou algures em outros altares na terra, lugares de Aparição ou manifestação da Deusa, por mulheres sacerdotisas vestidas de branco, com grinaldas de flores na cabeça, de rostos brilhantes de amor e paixão a clamar pela Paz na Terra assim com no Céu…(e não padres vetustos vestidos de negro erguendo cruzes de morte…)

* Da Serpente à Imaculada - de Dalila Pereira da Costa.

2 comentários:

Nana Odara disse...

Nem me fale baby...
euzinha, q não sou fumante, não tomo anticoncepcional ha mais de 13 anos, amamentei durante um ano e meio, tenho menos de 40 anos e nunca houve um caso de cancro n aminha familia...
se eu tiver mesmo um cancer de mama, eu sei mais do q ninguem q isso é de origem psicologica e sua raiz está na minha relação com a minha mãe...

e nada do q eu sei até agora foi suficiente pra ultrapassar essa magoa de filha...

e olhe q eu tentei como tudo entender e superar isso...

não foi a toa q eu comecei a falar em lealdade feminina, estou com certeza legislando em causa própria tbm...

não adianta nada os homens todos mudarem, se esse nó não for desfeito e pelas proprias mulheres...

mas como? eu não sei, ainda...

bjins...
ja vou te ligar...
kkkkkkk....

Gaia Lil disse...

O Rosa, o que você se esquece é que a mulher que manifesta a voz da Deusa neste mundo é vista como louca e retrograta, sendo um risco a sociedade patriarcal...Ela é sempre ao longo dos seculos ridicularizada ou massacrada para que calem a sua Voz.Essa confusão da divisão interna da SANTA E DA PUTA, tambem é consequencia da divisão das diferentes personalidades femininas (hestia,demeter, athena,afrodite,persefone...) que como um todo deveriam fazer a mulher se sentir mais integral e não fazer com que ela se julga se louca (ou fosse assim julgada) quando tentasse entrar em contato com essas polaridades.
Talvez essa confusão comece já em tempos antigos, des da queda do Templo da Deusa em Creta...Quando as mulheres começarama ficar confusas a respeito da Deusa, antes Rainha por direito proprio agora Ela é tal como a mulher, ou filha de, ou consorte de, ou amante de...Ou serva?

Grande Hera,
Guie as mulheres que estão em busca da Deusa!

Gaia Lil