sábado, fevereiro 06, 2010

A “Velhice, isso não existe!



A “Velhice, isso não existe! Há apenas pessoas menos jovens do que as outras, e nada mais. Para a sociedade, a velhice aparece como uma espécie de segredo vergonhoso, do qual é indecente falar. Sobre a mulher, a criança, o adolescente, existe em todas as áreas uma abundante literatura; fora das obras especializadas, as alusões à velhice são muito raras”.
(…)
“A Biologia descreve algumas etapas que fazem parte do desenvolvimento humano como: concepção, desenvolvimento intra-uterino, nascimento, infância, adolescência, maturidade, velhice e morte. Cada etapa tem um desenvolvimento determinado por perdas ou ganhos em nossa qualidade de vida.

A velhice aparece como uma desgraça
: mesmo nas pessoas que consideramos conservadas, a decadência física que ela traz salta aos olhos. Pois a espécie humana é aquela em que as mudanças causadas pelos anos s
ão as mais espectaculares.” *

*Simone de BEAUVOIR


- A velhice aparece como uma desgraça, principalmente, não há dúvida, para a mulher que é a maior vítima da ideia obsessiva de juventude pois todo o seu valor assenta sobre o seu aspecto. Porque um homem velho e careca ou barrigudo, pode ter uma amante jovem que não lhe fica nunca mal, bem pelo contrário; além disso nada o impede das suas conquistas desde que tenha dinheiro, enquanto que uma mulher madura, uma mulher de cabelos brancos e com barriga (e sem dinheiro) é totalmente ridícula e inapetecível…

Hoje em dia as coisas começam, em certos aspectos, a ser diferentes. Não na prática, nesse olhar preconceituoso que exclui a velhice da vida activa e normal, mas sim a nível da ideia que se tem do que pode realmente significar a velhice sem a falsear e portanto no encarar o envelhecimento como uma coisa digna. De qualquer modo as mulheres em geral são até mais tarde consideradas “novas”… embora isso se note mais, por enquanto, no caso das classes mais favorecidas. Há contudo muitas mulheres de 45 ou mesmo de 50 e tal que ainda mantêm “bom aspecto” e muitas são atractivas o que não acontecia há 50 anos! Quero dizer, sem ser a velha decadente que negligenciou o seu aspecto (por sofrimento e pobreza) ou a velha “gaiteira” que ainda acha que pode encontrar o homem da sua vida…e ter uma vida sexual plena!

Depois começa a haver um sentido, ainda que vago, do valor da mulher estar bem para além do corpo e há toda uma literatura que aponta para o lado sábio da mulher mais velha, para o acordar do seu potencial, no despontar de uma nova Era do Feminino Sagrado. Sente-se, ainda que de forma débil, um Novo Sopro de vida para a Mulher neste princípio de século…Um renovar do paganismo de uma forma quase espontânea, porque as mulheres em geral estão a afastar-se dos preconceitos e dogmas católicos que as aprisionava pela negação do instintivo e da Natureza, negando-as como mulheres plenas. Sinto agora que o despertar para a consciência de si e da Deusa começa a ser uma realidade, seja na Ecologia, seja na volta da noção de que a própria terra é sagrada, como no respeito e amor pelos animais! Mas para que isso se torne cada dia mais real, é fundamental que a ideia da Deusa e da Deusa em cada Mulher seja mais do que uma moda, pois sem o acordar para uma compreensão profunda dos três aspectos da sua vida, as suas faces e funções e principalmente o amor de si própria, a mulher também não pode envelhecer com qualidade! Só essa percepção verdadeira nos pode tornar mais apaziguadas perante o irreversível que é a velhice, à medida que começamos a compreender que cada idade tem a sua beleza, e isso só pode acontecer naturalmente se integrarmos verdadeiramente essa consciência. E é justamente por isso que resolvi escrever este texto sobre que eu sinto no debelar desta fase na minha vida…

CONTRA TODAS AS IDEIAS ESTERIOTIPADAS…

De há um tempo a esta parte tenho andado a pensar em como é que de facto se olha e se tratam as mulheres de idade? Mas sobretudo como é que eu olho para mim a envelhecer…
Percebo por isso que poucas mulheres queiram olhar-se de frente na pós menopausa...e a partir daí olhar o começar inexorável do seu envelhecimento. Percebo como as mulheres em geral recorrem às múltiplas operações estéticas para retardar o inevitável. Tentam, uma minoria, como é óbvio, por todos os meios regredir para uma face nova, fazendo o que a publicidade e a média as incentivam a fazer, nomeadamente operações plásticas ou, a maioria, refugiam-se no estatuto muito digno de avós, num pleno esquecimento de si mesma!

Não se pense porém que é fácil para mim aceitar este estatuto de mulher de cabelos brancos, de que sempre me orgulhei, mas, mais difícil começa a ser encarar um rosto que já nada tem de juventude nem da beleza superficial dos estereótipos. Não, não é fácil aceitar a mudança do corpo e as suas limitações, sobretudo quando nos afastamos da imagem generalizada da elegância e da estética...quando irremediavelmente engordamos e o corpo se torna pesado ou se é magra e tem as peles caídas e as rugas começam a aparecer, os papos se começam a esconder nas fotografias em poses rebuscadas...
No entanto, todas nós podemos olhar a mulher Velha como uma Nova mulher, uma Mulher mais completa e livre de todas as condicionantes da mulher jovem e da mulher madura; ver que já não temos que obedecer a nenhuma expectativa amorosa, profissional ou social.
No meu caso confesso, começo a sentir-me uma mulher velha, não uma mulher idosa...ou na terceira idade, definições pouco dignificantes de uma idade que se quer verdadeiramente sábia e estável, as de uma idade que aufere poder e dá consciência à mulher como Mulher Anciã, Xamã ou Sábia!

Ah! Penso, que alívio não ter mais ilusões de amores e de sucessos, nem metas...de encontros e desencontros...digo-me eu, não sei se a tentar convencer-me disso. Talvez, mas é isso que é o mais difícil: entregar os nossos sonhos do "príncipe encantado" ou da alma gémea ou ainda da gata borralheira que se torna princesa!
Leva tempo a aceitar as mudanças do corpo e a perda das nossas ilusões mais persistentes! E neste caso há quem me diga que não, que não mudamos e que os nossos sonhos de amor são a última coisa que deveria morrer...e eu concordo, os sonhos sim, não devem morrer, mas não os sonhos viciados de um amor romântico. Quem não encontrou a sua alma gémea quando era jovem também não a encontra já velha, seria uma extrema crueldade da vida...

Todos os sintomas e mudanças climactéricas anunciam a dita “decadência” do corpo, onde só há afinal uma mudança natural, interna e externa, gradual e no entanto, criam-se sucedâneos com que se enganam as mulheres, mais do que aos homens – apesar do viagra – para manter activo o que a natureza faz cessar. Portanto não me digam que a pessoa não envelhece e que não importa a idade no amor porque eu sei que isso é uma “boa” mentira e em vez de perpetuar a mentira e criar mais ilusões desnecessárias é melhor estar consciente da nossa realidade e sendo realista, amar aquilo que em nós nos é peculiar nesta fase da vida. Amar a serenidade possível, a paz interior...
Abrir-se às mil possibilidades da mulher xamã, a mulher com maior visão das coisas ou até a uma percepção extra-sensorial, e mesmo que se não queira entrar em domínios estranhos, podemos amar a experiência e a sabedoria da nossa idade e o termos chegado à possibilidade de uma compreensão psicológica cada vez maior, uma vez que já conhecemos todas as estações da vida. Sim, em vez de lamentarmos o recuo dos apetites e desejos porque, felizmente, digo eu, a libido vai gradualmente desaparecendo apesar de, como digo acima, se querer forçar - a literatura corrente e os filmes medíocres - as pessoas mais velhas a uma sexualidade aí sim decadente só pela ideia do prazer ou em nome de uma função genital como se o sexo fosse a única coisa que dá prazer e “vida” ao ser humano, longe disso...

Há, e essa é a diferença nos nossos dias, mais vida para além da ilusão do amor a dois e do sexo! Há ou começa a haver a visão de uma vida mais genuína, como a da importância do ar que nós respiramos, outros planos e outros corpos mais subtis; há pequenas e grandes coisas para as quais nunca olhávamos, como o nosso ser interior e a nossa alma, e essa sim não envelhece, mas sobretudo há a possibilidade de se ver como o tempo e a idade não alteram a nossa essência pois podemos entrar em ressonância com ela para lá dos nossos limites físicos e temporais...
O olhar o passado e lamentar o que não vivemos, o medo da morte e o medo de envelhecer matam mais cedo e trazem esse sofrimento inaudito que vemos nos rostos das mulheres idosas, destruídas e exaustas, sem esperança de nada, porque se acham simplesmente “velhas” que são completamente abandonadas pela família e pela sociedade!

Por tudo isto estou a fazer o possível para ser uma velha diferente...e não ter medo de olhar para mim de frente ou das doenças nem de morrer ou de nunca mais amar ou ter medo de ficar só! Por mim não quereria de maneira nenhuma ser uma velha gaiteira sempre à espera de marido/mulher...ou de um/a amante inesperado/a...como eu às vezes vejo mulheres velhas vestidas de jovens e a querer perpetuar uma libido que falta apesar da mente lhes dizer o contrário. Claro que as mulheres continuam a querer ainda colmatar uma parte de si, preencher um vazio, que nada preencheu e julgam QUE É O HOMEM (ou a mulher) que sonhavam e que nunca veio e continuam a sonhar até aos 70 anos ou aos 80...como o caso de uma amiga de quase 70 que ainda suspira pelo verdadeiro amante...

Ah! O tal homem que a proteja e cuide na velhice,
este mito que as enganou completamente e é na realidade vivido exaustivamente e completamente ao contrário...
Eu percebo que é difícil e que elas não queiram aceitar a solidão verdadeira, o ser só que nos traz uma plenitude desconhecida, porque muitas não tiveram acesso ao seu ser interior, nunca se conheceram a si mesmas e dependeram inteiramente de uma fixação, de uma ficção romanesca, crendo ser o "amor" de um homem, de quem foram as "esposas"- afinal, muitas, a grande maioria não passaram das mães dos filhos, digo as criadas, as servas ou as empregadas - como considerava Einstein a sua mulher mais inteligente do que ele à partida e também cientista - que lhes traria “a felicidade”…essa coisa absurda inventada por não sei quem e que todos perseguem de maneira a fugir da realidade que os circunda!

Eu quero apenas viver a minha realidade e a partir de hoje enfrentar esta imagem de velha que se atravessa no meu caminho e sou EU...quero olhar para ela e reconhecer o caminho percorrido e fazer a colheita de tudo o que semeei. E saborear os frutos maduros, as rosas e os espinhos… Porque este é o tempo de descansar da busca incessante de uma vida. De parar e olhar para dentro, bem para o fundo de nós mesmas, onde sempre esteve o que procurávamos fora! É o tempo em que há tempo para tudo, para meditar, para reflectir, para amar desinteressadamente, sem o imperativo da beleza e da atracção cega ou da pulsão sexual escravizante, mas sem perder o dom das afinidades electivas...

Este é o tempo para acolher quem vem sem esperar nada em troca, para estarmos em harmonia com o nosso coração e deixá-lo bater docemente e confiar que os anos que restam, muitos ou poucos, serão úteis aos outros e a nós mesmas. Porque mais do que nunca podemos consciencializar-nos da dádiva profunda que é a vida em si, para lá dos sucessos e fracassos...e amar com ternura ou condescendência o ser que nos tornamos aparentemente com o tempo. É tempo sem dúvida alguma de nos prepararmos para a derradeira viagem sem medo do que seja a vida do outro lado do espelho e se possível com alegria, no mínimo, serenidade verdadeira e não criar pânicos e resistências que só geram doenças e sofrimento inúteis...
E rir dos cabelos brancos e dos papos...das rugas e das peles… porque estamos no caminho da verdade, aquela verdade de que sempre tivemos saudades porque é lá que se encontra o único e verdadeiro amor: bem no fundo de nós mesmas, anónimo, vive e sempre viveu esse amor pleno que nunca nos mentiu ou nos traiu e nos resgata a criança que sempre fomos, bem viva no nosso coração e que nunca mudou na essência apesar de ferida ou rejeitada!
E por fim começar a desfrutar desta viagem de retorno à Origem e que, de acordo com a sabedoria hindu, se inicia nos primeiros cabelos brancos…
*
r.leonor pedro

(Fotos tiradas há dois dias no Castelo de Monsaraz, no Alentejo, no lugar onde a Inquisição queimava as bruxas...estava muito frio e parecia estarmos nas Brumas... de Avalon...)

5 comentários:

Nana Odara disse...

Bravo!!!
lindo o texto, da sua verdade e da verdadeira mulher, inteira em si mesma...

MOLOI LORASAI disse...

Pelas fotos, vê-se que Rosa Leonor tornou-se numa velhota muito engraçada...

Gaia Lil disse...

Eu a chei lindo e com saude...e e´isso que importa...E eu que sou muito jovem e como dizem vivo a "donzela" e ainda não sei muito a cerca da vida...Mesmo assim não consigo ver o sexo como a unica coisa valida na vida do ser humano e penso que fazer sexo apenas por prazer deve dar um vazio...Até agora nunca achei ningue que considera se digno ou que me desperta se algo alem do desejo..E eu estou na idade dos "hormonios" e vejo por todo lado nas fotas gente da minha idade fazem cada loucura em nome de um prazer frio e irreal e as pessoas que faalm comigo me julgal e falam que eu ajo como uma "velha" só porque não gosto de sair de casa ou ir atras dos jovens em busca de prazer...As vezes eu suspiro de insatisfação mas mesmo assim não consigo ver atrativos no dito sexo como ele é mesmo mostrado nas fotos,videos e nos romances!

Estou começado a achar que vou viar celibataria e me pergunto se é ruim ou não.
Só espero nunca me arrempder do que fiz ou deixei de fazer.

Abraços e espero que a Deusa Hecáte sempre te abençoe nesta fase (face) maravilhosa que deve ser a da Anciã.

Rosa Leonor disse...

OBRIGADA A TODOS PELOS ELOGIOS DA MULHER "VELHA", especialmente ao moloi por me achar um velha engraçada...

e um abraço

rosa leonor

Curioso notar mais uma vez que só tenho amigos/as brasileiros/as...

Ana Nazaré disse...

Não se valoriza os anciãos porque eles não podem mais ter filhos...Mas com certeza é a fase mais criativa de todo ser humano !!!!!!!