"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

sexta-feira, abril 30, 2010

SER MULHER E PISAR A TERRA


NOVAS CHAVES

Entrevista a Joelle de Gravelaine

(…)
Novas chaves: A sua “deusa selvagem” parece um verdadeiro manifesto!

-As minhas intenções eram muito claras.
Em todas as descrições da criação do mundo, há um pressuposto bem instalado que consiste a fazer notar que os homens, o masculino, se apoderou do céu e das águas de cima contra as águas de baixo, que seriam femininas. Porque não? O que me aborrece, é que eles acabaram por convencer todo o mundo desde há milhares de anos que o céu, é melhor que a terra.
Portanto puxei um pouco as coisas na direcção da empatia dizendo que vivemos num mundo em que se valorizou de tal forma o Espírito, o masculino, o intelecto, e que isso foi feito em detrimento da alma, do sensível e que por isso estamos todos a caminhar para o abismo. Quando defendo a minha Deusa selvagem, eu defendo portanto muito simplesmente um feminino primitivo, autêntico, fecundo, vivo.

N.C. - Guerreiras amorosas capazes de assumir uma dimensão espiritual, isso existe?

- Eu adoro a história da Loba Huesera – dita “a loba” ou “a mulher ossos”. O seu trabalho consiste em apanhar os ossos no deserto, em particular os ossos de lobos. A partir do momento em que ela reúne todos os ossos de um esqueleto, ela põe-se a cantar tão alto que a terra treme. Então aos poucos o lobo se reconstitui. Ele ergue-se, corre em direcção à floresta e iluminado pela luz da lua, transforma-se numa mulher que ri, livre e feliz. Eis como eu vejo esta espécie de conexão directamente com os poderes da terra, do canto, do ritmo, e tudo isso acaba numa ressurreição alegre, que passa pela reconstituição desse animal formidável que é o lobo.

N.C. – Não houve já no feminino uma tentativa imatura de utilizar a máscara de Kali?


- Kali (deusa indiana da morte e da vida) não tem nada a ver com o feminismo! Com a sua grande roda, esta espécie de lagar de sangue, simboliza simultaneamente a morte e a vida. No feminismo, há um combate que visa a excluir o homem pela raiva e pelo ódio. A minha posição é tudo menos de ódio. Eu vejo com humor as suas reivindicações de um céu supostamente melhor que a terra e eu reivindico a terra porque ela é concreta e porque ela dá frutos; mas em caso algum eu me sinto em guerra contra o homem. Melhor ainda: eu defendo a androginia que se manifesta através da deusa mãe, a serpente, os gémeos ímpares e criadores do mundo.
O que eu reivindico, é o direito para a mulher, de exprimir o desejo que ela tem mais vivo em si e sem hipocrisias, eventualmente o seu desejo o mais selvagem, sexual ou maternal, sem essa espécie de rendilhados ridículos com a qual a enfeitam e a mistificam. Da mesma maneira que reivindico o direito do homem assegurar a sua parte feminina, a sua anima. O mundo tem tendência aliás para uma espécie de androginia. É o que pode salvar o mundo. A Androginia é com efeito uma forma de eliminar o medo do outro. A partir do momento em que começamos a ver o que o outro sente, como e porque o sente e a ter essa experiência, então aí as barreiras caiem. O que faz medo, é a diferença – o mais elementar dos racismos.

N.C. - O facto de que os pais reivindicam hoje em dia a sua responsabilidade na gravidez e no nascimento, com tudo o que isso implica de amor e de sensualidade, significa que a androginia está a caminho?


-Yung dizia: “É preciso que o homem velho se torne maternal”. É bonito e é verdade. Porque seriamos nós eternamente seres cortados em dois, que não teriam o direito de ter ao mesmo tempo uma alma e um espírito, uma sensibilidade e uma violência feminina e masculina? As deusas divertem-se imenso por esta razão, em particular Ishtar, que é simultaneamente deusa do amor e guerreira. Isto fere a tradição masculina, ao ponto de existir quem conteste que possa existir uma deusa encarnando em simultâneo a violência guerreira e a paixão amorosa. Mas enfim, as mulheres são todas assim! Porque obscura razão só os homens teriam o direito de serem selvagens? – eu entendo selvagem no sentido da Natureza e da Floresta e não da barbárie. Dito isto, penso que a androginia é um estado no qual não se deve ficar. Passemos por lá, mas no fim do processo, restemos homem ou mulher. Não há nada de mais horrível do que uma mulher inteiramente viril que esqueceu a sua parte de ternura.
(…)

N.C. . Na Deusa Selvagem 2 você conta uma experiência que teve num templo no Egipto, onde sentiu as contracções de um parto. Experiências dessa natureza são igualmente de júbilo?


- Completamente. Eu estava em viagem no Nilo. Estava a visitar o templo de Denderah, mais precisamente na cripta do templo de Ísis-Hathor. Em frente a um muro, mergulhada na obscuridade eu senti, é verdade, violentas contracções de parto. Eu voltei-me para a parede, com os olhos fechados e vi interiormente os cornos de Hathor, o seu disco vermelho, com o sentimento de estar a ser arrastada numa dança de electrões. Depois destas duas experiências, tomei conhecimento que os hieróglifos de um lado da parede figuravam um texto sobre o nascimento físico, e do outro lado um texto sobre o nascimento espiritual. Só as mulheres podem viver estas sensações. Talvez porque elas por definição são mais abertas e prontas a aceitar deixarem-se tomar por forças, energias que as ultrapassam.

Joelle de Gravelaine

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