segunda-feira, julho 05, 2010

O CORPO DA MULHER


O CORPO-OBJECTO E O CORPO MÁGICO DA MULHER ...


É um facto que o ser humano em geral é um um ser-objecto, um ser alienado, que se transformou num corpo exterior, sem interioridade, sem vida plena porque sem alma nem espírito, mas quando se fala de “corpo objecto” deve falar-se antes de mais da mulher, porque o Homem nunca foi “homem objecto” como dominante da sua História, ele foi escravo, mas mesmo escravo tinha direitos de morte sobre a mulher…que, esta sim, era objecto do homem e sem direitos. Fosse a sua mulher fosse a sua escrava ou a sua concubina ela era sujeita a todas as afrontas, ofensas e perjúrios. E mesmo que hoje em dia possamos pensar que já há homens objecto, eles são “modelos” de homens fracos ou são gays e travestis, porque para se tornarem “objectos” eles tiveram de se tornar “mulheres”…e isto, os intelectuais, os eruditos e os especialistas do género, e nem as próprias mulheres, querem ver…

Sim, houve excepções relativas para rainhas, algumas, e nobres, freiras e cortesãs mas todas elas foram, a um nível ou outro, sujeitas às mesmas normas.


Durante mais de 2 mil anos a Humanidade retratou-se em nome do Homem…Durante 2 mil anos a Humanidade Mulher foi ocultada da face da Terra e da Arte, suprimida da linguagem erudita e oral, reprimida na sua liberdade individual, controlada pela metade Homem em nome do qual a mulher foi submetida ao macho, primeiro como escrava, depois concubina, totalmente sujeita às leis do Pater, ao rei, ao pai, ao marido e ao Clã… e aprendeu as leis dos homens e falava e agia, como um ser sem autonomia, nem voz activa e assim continuou até há aproximadamente um século, em que pela primeira vez na história dos homens, a mulher ousou erguer a voz para defender os seus direitos, mas no fundo, e em todo a parte do mundo, as condições de vida das mulheres é e continua a ser igualmente precária e aviltante sob todos os pontos de vista até hoje…


Durante centenas e centenas de anos a Mulher foi desautorizada de se exprimir, ser ela mesma e de expressar a sua natureza intrínseca, reprimida na sua força interior instintiva, deixando de ser a representante do pólo feminino da humanidade, deixando de ser a legítima representante da Deusa Mãe, criadora de todas as coisas, impedida de se afirmar e de ter prazer, de ter direito sobre o seu próprio corpo. Ela foi condenada ao descrédito por Apolo, impedida de manifestar o seu dom inato de oráculo, sacerdotisa e vidente, de ser senhora da sua vida em qualquer circunstância.


O corpo da mulher, com o advento da religião patriarcal e o seu domínio social e religioso, tornou-se num corpo objecto, um corpo ao serviço da sociedade e do patriarcado. A mulher foi paulatinamente despojada do seu corpo de sabedoria, do seu ser instintivo e anímico.


E toda a gente hoje pensa que esta mulher sem identidade, esta mulher vazia de interioridade profunda, esvaziada das suas entranhas, do seu sangue e do seu útero, sempre foi assim e que nunca houve a outra Mulher e a Deusa…

Esta é obra de Usurpadores….primeiro destruíram a Deusa e os seus templos, lugares sagrados, a própria terra e depois o próprio corpo sagrado da mulher foi dessacralizado, foi violado, foi transformado em mercadoria barata ou cara, em mais-valia e durante séculos a mulher foi-se aviltando e tornando num ser abjecto, num ser divido dentro de si mesma, num ser sem identidade própria, adoptando um prazer, e quando se julgou igual adoptou um comportamento masculino, um discurso masculino, para se defender com os mesmos valores com que o Homem a agredia.


A mulher tornou-se no seu próprio inimigo. PORQUE A mulher verdadeira, a mulher inteira deixou de existir.

Há muitos, muitos anos que a verdadeira mulher não existe e em lugar dela temos um sucedâneo de mulher, risível e frágil, doente e histérica…

E foi assim que a mulher entre a doméstica e a casada, a prostituta e a aventureira, se tornou aos poucos num ser vazio e sem alma…tal como quiseram os senhores da Igreja que assim fosse.

A mulher ou casava segundo um contrato e era pouco mais do que escrava do marido, ou se vendia e vivia na ignomínia nos Bordeis ou na Rua, desprezada e exposta às maiores humilhações.


Com a revolução industrial e depois das últimas guerras, à falta de homens que morreram aos milhões pela loucura dos seus generais e banqueiros, as mulheres tiveram de trabalhar para sobreviver e assim formou-se uma nova classe de mulheres, viúvas, solteiras e velhas, que aos poucos se foram afirmando dentro de um novo contexto até às primeiras manifestações organizadas pelos direitos das mulheres no trabalho, pois o seu salário era e ainda é muito inferior ao dos homens…


Rapidamente caminhámos para os nossos dias, e os anos sessenta trouxeram as famigeradas feministas para a Ribalta, mas sempre e apenas em luta por direitos e salários iguais e nunca por uma consciência do Ser Mulher e na busca de um resgate da verdadeira mulher, a Mulher a quem durante centenas de anos foi tirado todo o valor e que foi dramaticamente destituída de todas as suas características essências, enquanto ser feminino, assim como da sua dignidade de fêmea e de amante e da sua própria verticalidade. A mulher só tinha valor na horizontal…


Assim a prostituição nunca foi considerada uma ofensa nem uma afronta à dignidade da mulher, mas plenamente aceite como se fosse uma coisa natural…e defendida como “profissão”…para cúmulo e aberração de um qualquer princípio ontológico…


As mulheres aceitaram ainda todas as histórias que os homens lhes contaram como História, a única existente e os seus valores continuaram a ser os dos homens. Chegadas aos nossos dias, em que há tantas mulheres no poder e tantas mulheres intelectuais, o que fazem as mulheres senão pensar pela cabeça dos homens, fiéis aos seus mestres ou mentores? Elas continuam a ser metades mulheres, fragmentadas e inimigas umas das outras, a servir os seus líderes como serviam os seus amos e senhores, maridos ou amantes.

Hoje, aparentemente descontraídas e livres fazem programas de televisão como mulheres pensantes e intelectuais a dar opiniões sobre a política e os acontecimentos globais ou do país…mas nada é feito para se tornarem conscientes de si mesmas, nada é posto em causa sobre a sua verdadeira e profunda identidade perdida e completamente esquecida.

São as mesmas católicas submissas aos padres e ao papa, que julgam as mulheres que sofrem e fazem “abortos”, são as mesmas catedráticas oficiantes que educam como os seus professores, as mesmas revolucionárias servis aos seus lideres…sejam comunistas, socialistas ou de direita ou do centro.

Têm todas da mesma marca na testa, todas iguais na maquilhagem, na roupa que vestem e sem identidade. Vestem-se e competem entre si para conquistar lugares de chefia, para agradar aos jornalistas…ao ministro, ao engenheiro, ao médico. Sempre inimigas umas das outras e dispostas a tudo para ganhar o macho e o lugar de ribalta que ele lhe oferece a troco de…uma boa cama!


Mas há mulheres em Portugal que fazem a diferença e ninguém as conhece…não são artistas, não são casadas com milionários nem famosas, nem ricas…não fazem parte do Jet set…

São mulheres que surgem da Bruma…mulheres que vivem o dia-a-dia mas dançam de alma e coração, são mulheres que acordam para uma nova energia da Deusa dentro delas que começam a sentir o seu poder no Ventre, no seu corpo, nos seus gestos.


Há mulheres selvagens que correm com os lobos…há mulheres que cantam antigas canções da terra, há mulheres que se dão as mãos e se abraçam e juntas formam círculos mágicos. São mães, são filhas, são amantes e sentem o apelo da Terra Mãe, ouvem a sua voz sentem-na no seu Útero…

Há mulheres belíssimas, simples e naturais, sem mais do que véus e sedas e cores e alegria que começam a acreditar nelas…


Eu hoje vi muitas delas…dançaram como irmãs em celebração da vida, O Solstício, como só as mulheres podem fazer e durante duas horas a minha alma dançou com elas, vibrou com os seus passos, com as suas rodas, com os seus risos e leques…

Eu hoje vi os seus corpos-objectos transformarem-se por magia e musica em Cálices a jorrarem doçura e mel para serem seiva e raízes, de novo Deusas na Terra.

O meu coração agradece a cada uma que se deu no palco e se expos na sua ousadia, na sua ternura, na sua ingenuidade, na sua sensualidade…


Obrigada Artemísia e Íris pela dádiva do corpo sagrado da Mulher que se quer inteira e se dá sem medo à sua beleza sem artifícios…

rleonor pedro

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