quarta-feira, novembro 24, 2010

SOMOS PARADOXAIS...

"Passar da oposição (sempre uma discórdia) para o paradoxo (sempre sagrado) é dar um salto de consciência. Esse salto transporta-nos através do caos da meia idade e dá-nos uma visão que ilumina os dias que nos restam."

In "OWNING YOUR OWN SHADOW"
Robert A. Johnson

COMENTÁRIO DE UMA AMIGA:

Olá Leonor,

Hoje quando acedi ao seu blog, fiquei surpreendida, com o que li, tanto de uma parte como de outra. Pensei, reflecti e senti: o quanto precisamos de nos amar e de nos apaixonarmo-nos por nós próprias, primeiro individualmente, para depois nos podermos dirigir às outras mulheres, sem este (mau) sabor, sem esta agonia, sem esta competição. Cada vez mais, quando entrego o que sou e o que tenho em mim, a outras mulheres, num trabalho que decidi preservar, face ao exterior, me maravilho pelo quanto podemos fazer umas pelas outras num total ambiente de profunda compaixão. Nesses momentos, não existe certo ou errado. Existe apenas Perfeição Absoluta, e isso, sente-se no coração e na alma, mas também no cérebro, abrindo espaço para a manifestação da inteligência, que é apenas pertença da mulher, já que somos as grandes criadoras, e não a repetidoras. Existe uma grande confusão, no interior das mulheres sobreviventemente intelectuais, a essas, entrego-lhes as deusas invulneráveis, para que possam sentir-se úteis, expressando o ódio de morte, e a vontade de fazer justiça, repondo a verdade onde ela não existe, e que ao longo de infinitos milénios, circulou nas memórias celulares de todas nós, em forma de equívoco, forçando-nos a uma adaptação constante na energia masculina.
Gostei do que escreveu e do que respondeu. Estou incondicionalmente consigo, mas também com todas as outras que ainda não podem fazer, ver ou sentir mais.
Quando olho para outra mulher, vejo claramente que é sempre mais o que nos aproxima do que aquilo que nos separa.

Deixo-lhe um grande beijinho e o meu mais profundo e carinhoso Abraço de Luz, renovado na gratidão pela sua generosidade diária, por partilhar connosco tudo aquilo que é.
Amo-a profundamente, e amo todas as outras mulheres.
Ana Paula Ivo



Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja. Isso lhe assusta?
Creio que sim. Mas vale a pena.
Mesmo que doa. Dói só no começo.

Clarice Lispector
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Querida Ana Paula Ivo,

Eu entendo minha amiga o que a surpreendeu,
você sentiu uma certa agressividade na minha resposta e nem mo faz sentir por palavras…porque a sua ideia de amar todas as mulheres por igual não lhe permite constatar um facto supostamente negativo, mas isso não quer dizer que eu mesma não ame as mulheres todas e muito particularmente algumas, e que ao me insurgir perante atitudes ou afirmações, ofensas, equívocos, etc. eu não possa ser assertiva e temperamental…ou dizer NÃO!

Mesmo que haja “este (mau) sabor, esta agonia, esta competição” aparente e que eu também sinto e me incomoda bastante sempre que acontece – estamos a ir contra a corrente das várias crenças -, não posso deixar de soltar as palavras e as emoções e não vou metê-las num saco e obedecer a ideias ou conceitos de bem e de mal…

É assim que lhe estou a escrever…


Todas nós sentimos AMOR, dor, raiva e inveja, ciúme e até posse, nós todas temos ainda ego, (e eu não acredito que possamos mudar esses sentimentos senão através da consciência dos mesmos e a sua aceitação e da consciência de que a dualidade neste mundo é própria da manifestação), mas o sentirmos isso tudo não quer dizer que não nos possamos amar…que não sintamos compaixão ou paixão e ao meso tempo estarmos a ser parteiras da consciência umas das outras, o que tem coisas que às vezes dói...

Para chegar à luz é preciso enfrentar e integrar a sombra e a sombra na mulher e não só, claro, são os aspectos que anos (séculos) de preconceitos e moralismo encerraram no sótão como maus…sobretudo como sabe nas mulheres…temos de deitar esse acumulado cá para fora e esse é um trabalho árduo. Não podemos pensar que ao assimilarmos outras ideias isso desapareça como por milagre.

A Consciência desta realidade como um todo ou da sua dualidade inerente é o que nos permite expressar agora sim, sem ódio nem má vontade, sem preconceitos, (o que pode parecer paradoxal) aquilo que verdadeiramente sentimos, porque não estamos presas ao conceito do que é bom ou mau, porque aquilo que se manifesta em nós espontaneamente e a manifestação do ser de superfície fica sempre aquém da nossa Consciência que se identifica com o UNO. Vai me dizer que assim não há coerência entre a ideia e a prática, ou entre o sentimento e a consciência, mas a coerência logicamente é seguir um só princípio…é a armadilha da mente racionalista e o ideal do bem que nos quer boazinhas….


O SER em si é paradoxalporque ele não é em essência os pratos da balança…que oscilam intermitentemente, mas sim o Fiel da balança que não se move. Essa é a confusão. A Consciência é o Fiel da balança, imutável e a nossa humanidade dual, oscila nos pratos da balança, numa alternância que pode ser “superiormente” vivida na entrega total ao jogo divino ou na “acção na inacção”como diria Buda e que não pode estar sujeita aos nossos critérios de bem e de mal… A diferença entre a consciência dessa oscilação e a consciência da Consciência é que nos salva e nos permite identificar com o Fiel da Balança (quem sabe os “fiéis” não eram os que praticavam isso?) e não com os pratos da balança…onde forçosamente oscilamos. A não ser que sejamos santos…OU REALIZADOS e nisso eu não creio.


Os egípcios pesavam na Balança de Maat, o coração dos mortos pondo o coração de um dos lados e uma pena do outro e se o coração pesasse mais do que a pena a alma seria condenada…para mim isso quer dizer que o meu coração tem de estar puro à partida, sem ódio, sem culpa, mas não sei o que é bem e mal…porque amar ás vezes é dar um grito ou mesmo uma bofetada… A “Boa Consciência” é apenas mais uma forma de nos manterem presos ao velho paradigma e a origem de muitas doenças como alias diz Berthellinger… e não tem nada a ver com a consciência da Consciência…

Na minha perspectiva não podemos deixar de vivenciar as emoções, de as expressarmos sem barreiras, porque elas servem a nossa interacção no mundo e na dualidade. E obviamente as emoções não são só coisas boas...Para mim contudo não há um bem e um mal definidos…há dois opostos que se integram, os dois aspectos, positivo e negativo, como há o masculino e o feminino, o yin e o yang, que estão sempre a lutar e a bailar entre si…dentro e fora.

No Ocidente confundimos a Consciência da Consciência ou o Eu Superior com a negação na encarnação de um dos aspectos do ser como o fez o catolicismo. E apontamos para comportamentos estereotipados de bem e mal que separam fora e que não unem dentro...Ao suprimir-se o mal, como fez a igreja de Roma e outras…não se está no bem…e vice-versa. Só quando olhamos, aceitamos e integramos o lado instintivo e selvagem da mulher – condenado e considerado um mal em si e até mesmo culpado da queda do homem - é que podemos fazer a União na fusão dos dois em UM. Mas estamos todos muito longe disso na realidade. Saber as coisas teoricamente não é o mesmo que SER.

Se eu, ao olhar para as outras mulheres, visse mais o que nos aproxima e não o que nos separa de uma origem comum, não faria o meu trabalho, que é específico como o seu se calhar também o é…
É evidente que encontro, como é óbvio, muitas afinidades entre todas nós e não nego o valor dessas afinidades, mas a questão para mim é outra, e olhe que tive de entregar muitos dos meus conceitos espirituais para aceitar esta minha face Lilithiana…

“Individual ou colectivamente, a maneira como isso se apresenta depende do contexto. Lilith pode ser um anjo rigoroso e severo, ou um demónio colérico. Algumas vezes ela está zangada e é vingativa, outras vezes ela tem o poder de retomar o seu estatuto correcto de parceira em igualdade.”

Lilith muitas vezes manifesta-se em mim ainda de forma quase agressiva ou agreste e eu respeito essa manifestação; já não a tento controlar porque preciso de a libertar e aprender com Ela…E seja em nome dos direitos e igualdade em que a mulher reprimiu todo o seu lado instintivo e selvagem, para dar lugar à intelectual e à racional que tudo domina, seja nas novas espiritualidades onde a mulher entra também reprimindo a sua natureza atávica por medo de não ser aceite, (o que a faz ser como os bons católicos, cuja moral é amar e perdoar e dar a outra face…) anula-se assim mais uma vez a capacidade da mulher em ser quem é e manifestar inclusive a sua sombra que precisa de integrar.

Eu quero estar atenta a isso e sei que sou muitas vezes mal interpretada, e é aí que as mulheres me amam ou odeiam…mas prefiro isso do que ficar calada ou querer agradar aos movimentos que me tolhem a liberdade da alma.
Quando uma mãe ralha com uma filha, ou lhe grita fá-lo por amor e acredito que às vezes ela precisa mesmo de um “tabefe” (tapa) …para a por no lugar…


Nós hoje em dia pervertemos tudo no “bom” sentido…e as crianças tornam-se ditatoriais porque os pais fazem tudo o que elas querem, as mães tornaram amorfas e “politicamente ou espiritualmente correctas” não vão acusá-las de violência ou abuso…Tenhamos pois em mente as coisas nos seus pólos opostos sem pender para um dos lados e sem as confundir, porque é preciso integrar os dois lados do ser para os integrar e ser UNO.
Ser pacifista não é ser submisso…ser amante não é ceder a nossa vontade etc. Ser espiritual não é ser cego…e aceitar tudo o que nos dizem os mestres…ou canalizamos…
Em suma, SER uno com Alma ou com o Espírito não quer dizer que não tenhamos emoções, nem dor, nem alegria ou raiva… como nos querem fazer crer os que dominam o mundo…sobretudo a nós mulheres pois foi essa a maneira de nos inibiram e calarem os padres da igreja!

Não sei se lhe respondi, se a entendi perfeitamente ou se fugi muito do que me expõe com tanto cuidado, mas sei que você sabe isto tudo que eu digo…com a diferença minha amiga, ao contrário de si (?) de que eu receio que tenhamos de continuar a descer às profundezas das cavernas do nosso ser, cada mulher de per se, e poucas o fizeram ainda, para ascender ao espírito uno e termos todas neste plano o mesmo entendimento das coisas…
Creio ainda que, mesmo com esse “entendimento superior”, nada mudaria nas nossas aqui patentes diferenças de naturezas nem as nossas diferentes facetas de Mulheres & Deusas…
Esse é o Grande Mistério das Mulheres…
Amemos pois a diferença que há em nós e acreditemos que fazemos parte integrante de um grande arco-íris de amor cósmico e telúrico


Rosa Leonor Pedro

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