quinta-feira, dezembro 09, 2010

Camille Paglia, uma escritora difícil...


No entanto, como grande intelectual que é, ela diz coisas tremendamente assertivas, muitas extremas é verdade e outras demasiado bombásticas, mas ainda assim acho-as divertidas pois ela questiona tudo de forma muito pertinente e erudita. Nada fica de pé ao seu olhar crítico e implacável...
Não sinto total afininade com o seu pensamento, mas gosto da sua ousadia e frontalidade face ao mundo actual, seja ele o político seja o social.
Ela dispara, por exemplo, esta irrefutável verdade: o "medo dos homens das forças misteriosas que se escondem dentro do útero das mulheres e, daí, consequentemente, as suas tentativas obsessivo-compulsivo de valorizar seus pénis."
Assim como afirma outra grande verdade: "Ao controlar as "suas mulheres", os homens estão a tentar controlar a "natureza", a representação final do poder "...


"Camille Paglia é autora de Sexual Personae, um estudo da arte e da decadência na evolução de nossa civilização e onde ela consegue confrontar um monte de gente intelectual. As estudiosas feministas detestam os argumentos de Paglia que resume a condição das mulheres, essencialmente, como seres vinculados biologicamente à "natureza", através das suas faculdades reprodutivas. Esquerdistas detestam a sua sustentação de que o capitalismo (a la Ayn Rand), tenha libertado as mulheres da sua servidão aos homens. Teóricos Queer desdenham o seu esteticismo e alinhando homossexual com ideologias tirânicas tal como o seu argumento de que a idolatria dos homens gays de coisas masculinas vai "contra a natureza."
(…) Ataque aos conservadores tradicionais que na manutenção dos suas instituições as mais sagradas do Ocidente - incluindo a Igreja e o Estado - como sendo tentativas dos homens para reprimir e extinguir as poderosas forças do sexo feminino.

Na opinião de Paglia, a grande civilização que chamamos de "cultura ocidental" não é nada mais do que manifestações sociais - na literatura, na arte, nas instituições políticas e religiosas – do medo dos homens das forças misteriosas que se escondem dentro do útero das mulheres e, daí, consequentemente, as suas tentativas obsessivo-compulsivo de valorizar seus pénis. Em suas mentes, que estão sempre buscando a "verdade" e "a luz", estas forças obscuras estão intrinsecamente ligados com a fluidez da natureza. Ao tentar conquistar a natureza, os homens tentam subjugar o poder que as mulheres têm sobre eles – seja o sexo, seja tudo o que resista a ser encaixado pela sua lógica e pela razão.

Eles não fazem isso conscientemente, é claro. É apenas parte do ser do sexo masculino. Paglia realça que o pénis, ao contrário da vagina, é externo e, portanto visual, tem linearidade, "uma sintaxe", e pode ser medido, comparado, avaliado. A vagina, pelo contrário, é amorfa, em cores chocantes, impossíveis de quantificar ou simular a arquitectura. O deus do céu grego Apolo, macho, serve para representar o " O Olho exterior", a maneira de ver as coisas "à luz" - como elas se encaixam logicamente, como são medidas, ou como faz sentido. Dionísio - o deus andrógino da Terra - representa tudo o que é misterioso, oculto, irracional, impulsivo. Apolo representa tudo o que é masculino e Dionísio está para todas as coisas que concernem o sexo feminino. Apolo é o deus do sol, da luz, como Lúcifer antes da queda. Dionísio, o escuro, é o deus da noite, das orgias, dos impulsos e terrena "paganismo", como Lúcifer, após a queda.

A natureza não se conforma com as leis do Homem, da Cultura, ela não pode ser contida. O homem vê dessa natureza incontrolável na Mulher - nos líquidos que fluem de sua genitália durante o sexo e menstruação, a partir de seus seios após o parto - e não só se sente ameaçado, como se sente profundamente atraído pelo que lhe falta e acha fascinante. Num impulso, o homem se volta para o céu, em direcção a Apolo, e investe sua energia numa lógica transcendental. Mas é tudo em vão. A Teologia ocidental nunca conquistou o paganismo, mas sim tentou adequá-la ao seu sistema tentando sublimá-la. Assim, o Feminino centrado no paganismo consegue manifestar-se no iconologias popular da cultura ocidental e continuar a ter vida fora do que resta da sua ideologia patriarcal.

O ego masculino é um persona (da palavra latina para a máscara) sexual que se duplica e propaga em monumentos e arranha-céus fálicos (escadas para o céu, o sol), em doutrinas religiosas em que as mulheres são designadas como servas dos homens, em que manifestamente as "megeras" estão a ser domesticadas. Ao controlar as "suas mulheres", os homens estão a tentar controlar a "natureza", a representação final do poder. Mas no fundo sabemos que os homens tal como o seu poder, são como o seu próprio pénis, que murcha e se torna flácido mal termina o ato sexual, assim o seu próprio poder se torna passageiro. Então vemos como eles brigam e lutam em guerras que podem vencer, dentro desta cultura ocidental, e cujos resultados estão á vista: os enormes estragos causados por esta carnificina espantosa da Natureza.


(Texto Adaptado para o português)

3 comentários:

Nana Odara disse...

Blogado!

bjins!!!

Rosa Leonor disse...

Calculei que gostasse...

Muitos beijinhos e tudo de bom por aí...

rl

Ana Nazaré disse...

Eu não gosto muito de Camile Paglia (apesar que não li o livro mas somente alguns artigos na Internet) mas eu gostei muitooooooooo dessa passagem, é dela mesmo ???