"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

segunda-feira, janeiro 17, 2011

UM MEDO ATÁVICO



O MEDO ANCESTRAL QUE AS MULHERES TÊM DE SI MESMAS
E DO SEU MUNDO ABISSAL


ELAS FOGEM DA SUA ALMA, DO SEU VENTRE E DO SEU ÚTERO...



Estava a pensar porque razão na prática as mulheres não respondem nunca ou muito raramente ao Chamamento da Deusa. Sempre que se trata de trabalhar ou beneficiar de uma Consciência de Si mesmas, aliadas a outras mulheres ou participar num grupo de mulheres, elas fogem de si próprias…
Elas nem sequer suportam a ideia de um Fórum ou um Encontro só de mulheres…e para mulheres. Porque se for sobre “política”, relações humanas, religiões ou qualquer outra coisa que lhes seja exterior, que não as foque em si próprias, então elas aderem…As mulheres estão totalmente viradas para o exterior no sentido do servir ou ajudar sacrificar-se pelo outro/a mas não a si mesmas…

Quando se trata de encarar os aspectos da sua natureza profunda, elas não só se sentem desmotivadas como até se manifestam desconfiadas, receosas…Uma reunião só de mulheres não lhes interessa…a não ser para um chá…ou um copo à noite, com dança…africana, etc. Depende da preferência e das expectativas, ou então vão inscrever-se nas aulas de dança de salão ou de dança do ventre…um yoga ou mesmo o Tantra, só para assegurar as artes de sedução e pouco mais…ou então vão de bom grado participar de qualquer actividade social e altruísta ou cuidar de crianças pobres, são voluntárias de causas nobres…os resquícios da caridade cristã, muito Moral e muito Nobre, certo…

Mas quando são chamadas para qualquer actividade que lhes diga respeito apenas a elas, que foque os aspectos do seu ser desconhecidos ou mal tratados aí já não se sentem motivadas e raramente respondem aos apelos de reunião ou encontros no feminino. Consciente ou inconscientemente a moral católica ainda predomina e elas continuam subjugadas ao homem e às suas leis. Mesmo quando se julgam livres ou apregoam pagãs, wicas ou ateias…
Elas não se sentem motivadas verdadeiramente para si mesmas, para o seu ser interno, o seu lado reprimido e que sofre distúrbios vários e disfunções e que acabam em doenças graves, nem apreciam o convívio entre mulheres num espírito pagão e sagrado porque não entendem nada de si mesmas, porque o que as move ainda é quase sempre e apenas o apelo do sexo e do dinheiro ou da família/religião.
E é por isso que não vão a nenhum lado fora do programa mental estabelecido, a não ser que seja na esperança de encontrar um novo companheiro, um amante ou um marido, ou ainda algo que seja fora delas e que as valorize exteriormente no mundo dos homens, seguindo o padrão de referências estabelecido; mesmo quando falam de deusas ou de astrologia ou de feminismo, de yoga ou tantra… Vão quando muito a esses lugares, aos astrólogos e terapeutas, ou fazem Reiki para melhorar a sua saúde, a relação entre os filhos e os maridos e namorados, para saber se arranjam empregos ou se sobem na escala social. O que predomina nos interesses das mulheres em primeiro lugar é sempre a família, o sexo e o dinheiro, a carreira ou evidentemente a expectativa de um marido e filhos se é jovem….se for solteira, mas até viúva ou divorciada.

Mas SABEREM DE SI…encontrarem-se com os diferentes aspectos do seu ser, com a sua Sombra, com a Deusa, com as outras mulheres que lhe podem espelhar conscientemente essa fragmentação, e falar dela, elas fogem disso como do diabo…e isto tem um sentido. Poderiam dizer que as mulheres não são as culpadas do seu medo ancestral! Não. Disseram-lhes há muito que essas outras mulheres eram do diabo ou bruxas casadas com o diabo…Tudo isso assombra ainda as mulheres vindo de um inconsciente oculto nos séculos de alienação do Ser Mulher.
Assim, do que as mulheres realmente fogem e nem sabem pois para isso foram programadas, é da “outra” Mulher em si…da Mulher Verdadeira, completa…

Fogem da Mulher Selvagem, fogem da mulher ancestral, sim fogem da “outra”que são elas mesmas e têm medo delas como das cobras….sim, das cobras e das serpentes, das Liliths... Elas fogem da sua alma…do seu ventre, do seu Útero… elas deixam-se operar e que os médicos em quem confiam cegamente lhe arranquem os ovários e o útero – antes seguiam aos padres hoje em dia seguem os médicos – e tomam comprimidos para não menstruar e acham que a menstruação é suja e como mulheres “livres” pensam que têm de se libertar disso…e estão a condenar-se à escravidão de um modelo patriarcal que transforma as mulheres em objectos de consumo e de procriação. Elas continuam subjugadas ao poder do homem e estão debaixo do seu controlo a todos os níveis e mesmo inconscientemente quando se julgam independentes…

Elas fogem de si mesmas sempre não se conhecem em essência nem se lembram de um tempo em que realmente foram livresem que dançavam nuas das noites de luar ao sabor dos tambores e dos gritos de êxtase e prazer e viviam a sua sensualidade e a maternidade plenas e se davam umas as outras e aos homens e eram sementes de vida de amor e de luz…
As mulheres esqueceram quem eram e porque o esqueceram hoje as mulheres têm medo delas próprias e das outras mulheres…

Elas foram divididas e viradas umas contra as outras e aceitam esse destino sem se questionar, sem se revoltar, odiando-se umas às outras como eternas rivais….

Por isso elas têm que seguir os padrão dos homens, dos seus mestres e padres…os seus pais são ainda seus mentores, exemplo a seguir…de que são fiéis e orgulhosas e dos seus maridos e donos… o isso tudo foi o que eles lhes impuseram como ordem, como lógica e… depois de séculos terem sido apenas esposas castas e honradas, ou prostituías desprezadas, têm de ser hoje advogadas e médicas e ministras, frias e racionais e fugir de qualquer espelho que a outra mulher, a que ousa ser e ver-se sem medo lhe reflecte…
Estas são as mulheres ainda prisioneiras dos amantes, ou traídas e espancadas pelos maridos, caladas pelos chefes, desprezadas pelos colegas ou exploradas pelos patrões…abusadas em casa, ridicularizadas…sobrecarregas…

Elas são sim, caladas e reprimidas e frustradas…Elas vestem e cultuam a falsa imagem…e fingem-se emancipadas; mas elas traem a sua essência e a sua própria natureza a natureza da terra Mãe. Elas têm o medo de não serem amadas…de serem perseguidas, como no tempo das fogueiras, ou pelos media ou os outros, os que julgam e atiram pedras…mesmo que não sejam lapidadas aqui são julgadas sempre como putas e histéricas senão forem bem comportadas de acordo com as leis e a moral religiosa…
Estas são as mulheres patriarcais. Delas não podemos esperar nada nem amor nem solidariedade. Elas odeiam as mulheres que diferem delas e falam delas com azedume e raiva…

Eis o que eu penso ser a razão profunda e plausível da não aderência das mulheres a um Encontro de Espiritualidade Feminina e preferirem a companhia dos homens…ou de mulheres que falam exclusivamente de homens…são as mulheres que amam demais…os homens e não a si mesmas!
Sem dúvida que mesmo vocês que me lêem vão achar que eu exagero, que não se passa nada disto e que afinal as coisas não são bem assim e até alguma de vocês acabará por mandar-me a mim para o psiquiatra…remetendo-me ao valor do pater…

Não é fácil admitir tudo isto, eu sei. Preferíamos pensar que nada disto é verdade. E no entanto na prática é como estamos manietadas e presas seja no nosso conformismo seja na nossa impotência, na nossa ignorância do que está no âmago do nosso sofrimento em particular.

Porque às mulheres foi destinado um enorme vazio de si mesmas, criada essa separação, essa cisão do seu ser profundo em que elas pensam que a única coisa que as preenchem é um falo…sim um falo, um sexo, um corpo estranho a si pois se sentem incompletas sem um homem OU SEM UM FILHO. Ainda hoje uma mulher sem filhos ou sem homem pensa que falhou a "sua" vida... Porque o seu destino e o sentido único que deram "à sua vida" foi sacrificaram a sua vida própria aos filhos, aos maridos ou aos amantes, destruíram a sua saúde para manter a casa e a família como a sociedade lhe impõe…e os cancros e as depressões e o abandono e todo o sofrimento da mulher votada ao desprezo depois dos 50 anos…ou 60…
Vai mudar este quadro sem que as mulheres se mudem a si mesmas? Não! Porque são ainda estas as mulheres que mantêm este Sistema e o alimentam com a sua atitude de rejeição de si mesmas obedientes filhas do pai que são…

Se me perguntarem se eu tenho esperança nas mulheres, já não sei, mas às vezes tudo o que me resta é mesmo uma fé cega nas mulheres que se erguem e são capazes de se unir contra tudo e lutam para ter uma consciência da grande dimensão do perigo que corremos todas/os e a Terra se não acordarmos para o feminino sagrado e para Deusa e mudarmos este paradigma.

rosaleonorpedro

ADENDA:

Curiosamente no momento em que acabava de escrever este texto recebi este comentário de uma amiga do facebook...

"nfelizmente nós mulheres sofremos muitas condicionantes para agirmos no mundo de forma totalmente masculina. Não estou a dizer que o masculino deva ser banido, mas não acredito que nós mulheres ao copiarmos o jeito masculino iremos a algum... lado. Simplesmente estamos a anular as nossas características mais marcantes, que tanto fazem falta à nossa humanidade. A condição feminina é extremamente importante, e quando tratada com leviandade só pode levar ao caos.
Às vezes penso que em mim já alguma coisa se perdeu, principalmente quando mostro aquilo que não sou, isto só por uma questão de sobrevivência, não de mim mesma, mas de alguém que é mais que a minha própria vida. São estas condicionantes que na maioria das vezes nos fazem ser aquilo para que não fomos talhadas, quando na verdade tudo seria diferente se cada um soubesse ocupar o seu devido lugar, ou seja cada" macaco no seu galho", e não banalizarmos tanto a condição feminina como a masculina. União, complementaridade, comunhão, respeito, valores essenciais que se fazem urgentes à actual humanidade."


Comentário de Ana Paula Dias

14 comentários:

TINA MÁTTER disse...

Ramana Maharshi

Não se deixe afetar pelas aparências; elas são por si mesmas inofensivas.
Nós é que aceitamos ser feridos.

TINA MÁTTER disse...

PALAVRAS DE UMA SABEDORIA QUE REVERENCIO...
Sri Aurobindo
A angústia é uma constante no ser humano
e, no entanto, não é um estado justo.
É apenas uma mensagem de seu coração
indicando a possibilidade de uma existência mais ampla.


Poema Sufi da Pérsia
Ah! Enche o Cálice: - de que serve repetir
Como o Tempo passa sob nossos Pés:
Amanhã não nascido, e Ontem morto,
Para que se ocupar deles, se o Hoje é doce!


Bragavad Gita

Ter sabedoria e vertê-la em palavras
é a honra maior a nós concedida.
Mas diante do sol da verdade
fala e saber, minguam e desaparecem

TINA MÁTTER disse...

O medo surge da identificação com o corpo-mente
Posted: 16 Jan 2011 07:07 PM PST
A consciência, no sentido de percepção, é o que os alquimistas procuravam: o elixir, o néctar, a fórmula mágica que pode ajudar uma pessoa a se tornar imortal.

Na verdade, todas as pessoas são imortais, porém vivemos num corpo mortal e somos tão apegados a ele que daí surge uma identidade. Não há distância para vermos o corpo como algo separado.

Estamos tão imersos no corpo, tão enraizados nele, que começamos a sentir que somos o corpo — e é aí que surge o problema: começamos a temer a morte. Com isso vêm todos os medos, todos os pesadelos.

A percepção cria a distância entre você e seu corpo, deixa você ciente tanto do corpo quanto da mente — pois corpo e mente não são separados. Corpo-mente é uma identidade, a mente está dentro do corpo.

Quando você se torna ciente do complexo corpo-mente, logo percebe que está separado de ambos, e o distanciamento começa a acontecer. É quando você percebe que é imortal, que não é parte do tempo, que é parte do eterno.

Você sabe, então, que não existe nascimento nem morte, que você sempre existiu e sempre existirá. Você já teve muitos corpos porque desejou demais.

Cada desejo traz você de volta ao corpo, porque sem corpo nenhum desejo pode ser realizado. Se alguém é apegado demais à comida, precisa de um corpo. Sem corpo, ninguém pode comer — a alma não ingere comida. Portanto, uma pessoa que é gulosa demais com certeza voltará em outro corpo.

Osho, em "Meditações Para A Noite"
Imagem por hans s
www.palavrasdeosho.com

HATHOR disse...

Yo estaría encantada de participar en reuniones de este tipo, pero no me resulta facil encontrar a mujeres aqui en España para hacerlo... Supongo que con el tiempo podré formar grupos yo misma, un beso y gracias por tu blog :D

SHAKTI disse...

É um prazer ler o teu blogue Rosa Leonor.
Desculpa o meu portugues. Não o escrevo muito bem, mas eu leio bem :D
Um abraço desde Espanha.

Rosa Leonor disse...

Tina:
Para mim, O feminino é uma experiência particular de toda a mulher que é iniciada por natureza e o que todos os mestres apontam para a mulher está quase sempre errado... por essa razão por mais que considere os Mestres em si, como mulher não sigo as intruções de nenhum sobre o caminho e a vida da Mulher . Tenho há muitos anos um Mestre e pratico uma Meditação, mas a filosofia de vida que sigo é baseada na minha experiência e inspirada na minha busca como mulher. Sigo o meu coração e a minha intuição. O caminho dos mestres normalmente é para o Homem...não para a Mulher...por isso as mulheres nunca se encontraram desde há uns bons milhares de anos...só a Deusa pode revelar à Mulher a sua sabedoria própria. Se quiser ser fiel a si...siga o seu coração e não o que lhe dizem os mestres...O Deus patriarcal esqueceu-se das mulheres ou nego-as tal como os seus profetas e pregadores...
Agradeço os seus comentários...
um abraço
rleonor

Rosa Leonor disse...

Hathor e Shakti

Bem vindas de Espanha...
Aqui também não é fácil...juntar as mulheres...
Continuem o vosso trablaho no coração da deusa...
Hathor ou Shakti são abençoadas pelos nomes!...
Quando vierem a Portugal digam...

um abraço

rosa leonor

TINA MÁTTER disse...

CONCORDO QUE A EXPERIENCIA É PESSOAL,AS CITAÇOES FORAM APENAS UMA FORMA DE TENTAR ENTENDER...PODERIA ENVIAR-LHE A MINHA MAIS RECENTE POSTAGEM POR EMAIL?MEU EMAIL É TINA.MATTER@HOTMAIL.COM, SE PUDER ENVIAR O SEU, AGRADEÇO.BJS.É UM POUCO GRANDE PARA ESCREVER AQUI.ACHO QUE VC VAI GOSTAR!!!

SHAKTI disse...

Estou de acordo com Leonor... Eu penso que integrar à Deusa é fundamental no caminho das mulheres... Eu também pratico meditação, tenho leido livros de Osho, budismo, hinduísmo, etc. E sempre sento que me falta algo... E esse algo é a conexão contínua com a minha útero...
Se vou a portugal digo-te Leonor.
Um abraço,
Shakti

SHAKTI disse...

Te paso este link de Casilda Rodrigañez:

http://sites.google.com/site/casildarodriganez/

Tiene mucho material sobre la importancia de la maternidad consciente no patriarcalizada. (aunque no habla en concreto de la Diosa, tiene muchas ideas interesantes...)

Bendiciones Bruji ;-)

Mari disse...

Rosa
Estou chocada! No bom sentido. Eu sempre senti tudo isso que tu expões aqui... porém, me calei e me sufoquei por muito tempo (tenho 27 anos). Porém, chegou o momento de falar, de expressar meu verdadeiro eu interior. O meu feminino precisa de cura, preciso ser inteira... agradeço pela sinceridade, pela verdade. :) Abraço

TINA MÁTTER disse...

MAS,GENTE,ESSA IMCOMPLETUDE É A BUSCA DO SER....LEMBRO DE MIRA ALFASSA,YOGANANDA,POR EXEMPLO...TENHO CONFLITOS COM A FRATERNIDADE BRANCA E O ZEN POR EXEMPLO, POIS CURTO OS DOIS MAS UM NÃO IDENTIFICA PROFETAS,MESTRES E O OUTRO SIM,DAÍ EU VEJO O QUE TEM DE BOM PRA MIM EM CADA UM E VOU FAZENDO,O QUE NÃO SERVE NA MINHA EXPERIENCIA EU DESCARTO...SOBRE ESSE BLOG HÁ UM TEMPÃO QUE EU LEIO,ADMIRO MUIIIIITOOOOOOOOO,,E SEMPRE ME SINTO ASSIM MEIO MULHER,MEIO SINTONIZADA COM A DEUSA QUE HÁ EM MIM(O PROBLEMA É O "MEIO",PERCEBERAM?)MAS CONFESSO QUE NUNCA TINHA PERCEBIDO QUE HÁ ALGO ALÉM,VIA ESSAS QUESTOES DE FORMA RACIONAL,FILOSÓFICA,MAS NÃO PAREI PRA PENSAR NAS REPERCUSSOES ESPIRITUAIS DISSSO TUDO.,VEJA A LIMITAÇÃO DESSE SER QUE VOS FALA POIS ESTAVA MUITO FOCADA NAS EXPERIENCIAS QUE JA PRATICAVA,QUERO SABER,QUERO ENTENDER MAIS,VOU ABRIR MEU CORAÇÃO ,MAS ISSO NÃO QUER DIZER QUE INVALIDO OS MESTRES-HOMENS OU MULHERES-POIS SINTO-ME BEM QUANDO OS LEIO E QUANDO BUSCO ESSE CAMINHO.BJS

Betty disse...

Não dá pra confiar em mulher q se refere a outras mulheres como "elas". Pq vc não diz "nós"?

rosaleonor disse...

Não dá para dizer "nós" porque eu confio nas mulheres e já estou fora do enredo...a idade minha cara...e nuca tive conflitos com as mulheres. Quanto a você nõa confiar - ai está a prova do que eu digo...
rlp