"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

CARTA ABERTA A MARIA DE MAGDALA


Minha amiga:


Estou a passar uns dias complicados…de vez em quando há umas pequenas coisas que me pesam…uma delas…é a idade. Eu sempre pensei que quando chegasse aos 60 (e 4) … não seria nada grave, nem problemático para mim…Mas aos poucos, o ver-me a engordar… e a ficar sem apetência para as coisas mais banais, sem a excitação natural da libido que mesmo sem ser de carácter sexual dá um pique, cria sinergias e é um estimulante nas várias áreas da vida…e que eu já não tenho, muitas vezes, se se não está focado interiormente é aborrecido e desmotivante…E nem sempre isso se consegue ou se está inspirada…

Podia falar-te da espiritualidade, da meditação e do amor incondicional ou ainda no amor da Deusa em mim…no que defendo como causa, mas na verdade nem sempre me sinto conectada…E acabo por sentir muitas vezes falta de vontade para continuar... a viver... Não é grave, não te preocupes. Só que há dias em que me sinto cansada ou desmotivada de tudo. Tem fases que é assim…como a Lua...Eu estou numa fase destas.
Eu vivo estados muito intensos, experiências de consciência muito fortes, às vezes estados alterados, mas quando caio em mim...vivo outros estados que podem ser depressivos e em que me vou muito abaixo. Sempre vivi entre momentos de êxtase e outros de abatimento e prostração…como toda a gente vive estados de efusão alegria e tristeza.


Penso mesmo que toda a gente é mais ou menos bipolar (“maníaca-depressiva”)… e eu não fujo à regra. Não chega a atingir as raias do patológico… no meu caso, mas não deixo de lhe sentir os efeitos amiúde…É a doença do nosso tempo e particularmente da mulher (a sua divisão interna) se tivermos em conta todas as suas dificuldades em ser ela mesma. Todo o problema da sua identidade. A questão agrava-se se uma mulher vive sozinha como é o meu caso; não é fácil viver só…Por um lado não ter filhos (nem netos) nem maridos nem amantes é um sossego, mas por outro é árduo por vezes a solidão. Tenho muitas amigas e amigos, mas quase todos em geral têm as suas famílias, filhos ou netos…e portanto não têm a minha disponibilidade de tempo.
Eu antes lia muito…mas agora são raros os livros que me interessam e cada vez me interessam menos. Não me interessa nada toda essa informação que circula sobre tudo mas sim a minha experiência e o meu próprio pensamento e das pessoas que pensam por elas mesmas. Os únicos livros que ainda me interessam têm a ver com a mesma linha que sigo do feminino sagrado…
Conto-te isto tudo para que compreendas que não é fácil em nenhuma idade…nem para nenhuma mulher viver a sua vida. A sociedade não conta connosco nem nos dá apoio… se não estivermos dentro do esquema capitalista e patriarcal...

Sabes, tu fizeste-me pensar mesmo na questão de passar muito tempo ao computador…parece que fiquei alérgica…nomeadamente ao facebook…tão medíocre tudo…

AS vezes sinto que a minha crise passa por ter expectativas demasiado grandes sobre a mudança das mulheres e o seu contributo para mudar de paradigma…Sempre pensei que com o tempo as mulheres iam mudar, que se iam encontrar a si mesmas noutra dimensão do seu ser…mas não vejo as mulheres corresponderem ao apelo nem a serem solidárias umas com as outras…vejo-as divididas em grupos e sempre umas contra as outras, fechadas e a tirar partido pessoal da fraqueza das mulheres em geral…sem verdadeiramente consciência do Feminino Profundo, do seu abismo pessoal, sem integrarem a sua Sombra.

Penso em algumas mulheres da minha geração ou um pouco mais velhas Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta que escreveram um livro Novas Cartas Portuguesas, publicado em 1972 em Portugal, um ano antes da revolução de Abril, e que na altura foi proibido pela PIDE e elas levadas a tribunal… onde elas diziam o seguinte:

“A revolta da mulher é a que leva à convulsão em todos os estratos sociais; nada fica de pé, nem relações de classe, nem de grupo, nem individuais, toda a repressão terá de ser desenraizada (...) Tudo terá de ser novo. E o problema da mulher no meio disto, não é o de perder ou ganhar, mas é o da sua identidade.”

Será que as mulheres já descobriram a sua verdadeira identidade?
Ah! Se o tivessem feito seria de facto muito perigoso para o Sistema…Seria a verdadeira (r) Evolução, mas para isso era preciso que as mulheres integrassem as duas mulheres em si, mas não, nada disso aconteceu e as mulheres não só não se apercebem como estão cindidas como continuam divididas e a lutarem umas contra as outras, desde que nascem, a competir com a irmã, com a mãe e a filha, com a amante e a esposa…no trabalho competindo pelos homens…odiando-se como rivais…

Sem integrarem as duas mulheres cindidas pelo patriarcado – a “santa” e a “prostituta” que são apenas dois aspectos, o sagrado e sensual, da natureza da mulher - elas nunca saberão qual é a sua verdadeira identidade. Porque a mulher verdadeira vive na sua Natureza profunda e na sua psique tanto a amante sensual como a mãe terna…e ignorar isso e separar esses dois aspectos tão relevantes na mulher, é cometer um crime contra natura…

Essas escritoras foram consideradas feministas,
mas com o desenrolar do tempo deixou de se ouvir falar delas e cada uma seguiu o seu curso de vida e a sua carreira literária e ainda hoje vivem de alguma fama derivado à repercussão que o seu caso (ameaçadas pelo regime de Salazar) na altura teve na Europa e na América. As feministas americanas redigiram um manifesto a seu favor…Mas a consciência do verdadeiro feminino e da sua essência, relacionado com o sagrado, numa acepção bem diferente do da religião católica, e portanto relacionado com o ontológico não foi nunca abordado ficando a mesma divisão da mulher, a mesma rivalidade entre as mulheres causada pela sua falta de ligação ao Útero e à Natureza e a Deusa Mãe…

Assim minha querida, não sei que dizer-te…Também já tinha pensado que podia ser interessante publicar o meu livro Mulheres & Deusas em espanhol aproveitando as tuas traduções…e se assim continuares, já tens muito trabalho feito. Pode ser um livro mais pequeno, mais ou menos seguindo a ordem do em português, mas sempre seguindo tu a escolher os textos que mais gostas…Não sei como se passa por aí…


rosa leonor pedro

2 comentários:

Marizei disse...

Rosa, estive a ler (esta mensagem post) esta carta e identifico-me tanto com o que escreveu e tenho uma idade diferente mas escreveu o que sinto tirando é claro a parte da escrita ...
mas suponho que seja assim mesmo e que chegamos a uma certa altura da vida que não temos paciência para as coisas vulgares simples e queremos qualidade em tudo á nossa volta e as expectativas são demasiado altas e as pessoas não estão acostumadas com isso ou vivem com outros critérios e não estamos dispostas a fazer concessões "mais" para viver em sociedade. já pensou que as bruxas viviam fora das aldeias talvez porque necessitavam desse espaço e podiam e concediam um tempo para os outros. um tempo e um espaço e ás vezes tenho saudades desse tagarelar só para a solidão evaporar mas é diferente falar daqui sem ninguém para olhar do que olhos nos olhos sem sentimentos sem nada para ver e sentir
muito agradecida
Maria Ramos

Anna Geralda Vervloet Paim disse...

Rosa,acho que temos 10 anos de diferença de idade,(farei 54 em junho)mas me identifiquei muito com tua carta,e assim como a Marizei colocou no seu comentário,acho que chegamos a certa altura da vida em que compartilhamos nossos pensamentos e sentimentos de um estado de ser,que só o Tempo,este grande mestre, nos ensina a tecer como uma teia de luz e escuridão.É bom descobrir que somos muitas...compartilhando vôos...

abraços