sábado, abril 30, 2011

NO TEMPO DOS BÁRBAROS...




MINHA AMIGA:

HOJE RESOLVI ESCREVER-LHE DIRECTAMENTE A SI...

Lurdes Oliveira:

Não sei se continua a ler esta página, se vem aqui com frequência ou se nunca mais aqui veio...

Acontece que há dias resolvi publicar no facebook, no grupo Mulheres e Deusas, este seu texto email, datado de 2006 e que eu encontrei por acaso... Imagine...já passaram quase 6 anos e as suas palavras continuam de uma actualidade incrível...fez-me pensar em que é que realmente nós mulheres estamos e continuamos apostadas...a competir eternamente umas com as outras, hoje de forma muito subtil ou disfarçada - porque já lemos sobre as deusas em cada mulher - mas mesmo assim...o que prevalece é esta inveja subtil, esta competição arraigada e até uma raiva quase surda da outra mulher, que nos confronta, seja da amiga e da filha ou qualquer outra, que, com o seu exemplo, seja ele qual for, nos fere ...

E é quase sempre esta velha disputa pelo homem, pelo pai, pelo filho, pelo marido, pelo médico...ou pelo Mestre...e pelo lugar que ocupamos na sua Hierarquia-religião...

Fico a pensar que essa união das mulheres, essa lealdade feminina, ou esse apoio umas às outras que tanto apregoamos ou desejamos, continua a ser uma vaga ideia, agora que muitas de nós frequenta cursos e workshops de Deusa e vamos a Avalon em procissão, fazemos rituais do solsticio, temos altares à deusa afrodite...ou somos videntes de profissão...astrólogas ou curadoras...e por isso já não ostentamos a diferença ou a competição, mas ela está lá e sente-se no ar...está camuflada pelas ideias de uma nova ordem de valores...que é falsa! Porque a única realidade que eu vejo é que isso não é real nas nossas vidas de forma interiorizada ou integrada! Sim, lamento ser tão céptica, mas esta é a minha experiência - tirando óbvias e dignas excepções - mas eu não vou na farsa, afinal só palavras, nem na teoria de que somos irmãs porque não somos, de que nos amamos porque não amamos, e continuamos com a primeira pedra na mão pronta para atirar à cabeça da "outra"!
E quando somos chamadas a juntarmo-nos, a ajudar e a dar realmente de nós e gratuitamente, não vamos...Estão sempre primeiro os nossos interesses económicos, de família ou vamos sempre à procura (caça) do Homem...ou do sexo, que pode também ser outra mulher...

Infelizmente A DESUNIÃO ENTRE AS MULHERES E A UNIÃO ENTRE OS HOMENS ao nível das relações humanas é uma realidade ainda, quase absoluta...

E você tem toda a razão quando diz que "As mulheres no contexto social actual são rivais entre si perante o masculino e portanto desunidas na sua base sendo muito comum tomarem o partido do homem em detrimento de outras mulheres..." isto é a mais pura verdade. Em seis anos decorridos era de esperar uma pequena mudança, algo mais concreto e actuante, era natural haver mais irmandade, mais sinceridade, mais abertura, mas estou em crer que ela é apenas aparente...porque as mulheres ainda não perceberam que forma moldadas exclusivamente para servir os homens e a espécie...e que eles estão sempre em primeiro lugar e alguns até as deixam brincar às deusas...e sair com as amigas...mas quando o seu ego de macho fica em perigo vem o controlo!
E eu tenho-me indagado e sei que as causas desta divisão e luta na mulher contra as outras mulheres tem a ver com a "escolha" do Homem que está implantada no seu ADN ...seja do pai, seja do Filho... e essa escolha nem é uma escolha deliberada sua ou consciente, ela foi induzida, foi programada: e é uma prisão, uma condenação biológica, uma escravização da mulher indivíduo em função da mulher milenar procriadora e serva sexual do homem.

E a ilusão que a mulher tem de que o homem espiritual dos nossos dias a liberta e lhe dá essa liberdade interior também não é verdade, porque a vampirização do seu ser é feita a nível energético e também nos planos subtis...É a esse nível que o homem não consegue perder o controlo da mulher e com toda a sua aparente liberdade, ele acaba por a assassinar e violentar para se vingar...é assim nas guerras e nós pensavamos que era só no tempo dos Bárbaros, mas essa táctica é implementada hoje pelos chefes militares e se calhar governos do mundo e não é só no 3º mundo....

Por isso a evolução da Mulher e a sua Consciência de e como SER HUMANO tem de se fazer no plano individual e na união dos dois em UM, dentro de si e pela união das duas mulheres divididas pela religião, e também dentro de cada ser - MACHO OU FÊMEA - e não fora...

Porque pensam que os Reis e Nobres, presidentes e banqueiros - os Controladores do Mundo - criam este cenário do casamento do Príncipe Willian, (depois da sua mãe morrer perseguida pelos vampiros todos das mafias ao serviço deles) com a burguesinha, a Cinderela, a pobre (rica) da Gata Borralheira, a este nível mundial, com toda a Pompa e gastando milhões, com milhões de pessoas a chorar de emoção, senão para manter a humanida presa a um Mito?

Milhões em todo o mundo a ver uma grande Farsa!

O mito do casal já foi...agora é o tempo de cada indivíduo ser livre e não haver nenhum ser humano prisioneiro de outro...como é o caso da mulher em relação ao homem ainda. Mesmo que os costumes tenham mudado na aparência os velhos instintos estão lá e imperam na realidade e na desordem do mundo actual...em que a mulher é a sua vítima principal...
Fora de nós qualquer propósito é uma ilusão e uma armadilha para a mulher enquanto ser espiritual e, a não ser que seja uma escolha sua consciente e se ela quiser servir o homem ou o seu deus, ela pode fazê-lo. Mas é preciso não confundir as coisas...

Deste modo...se por acaso ainda me lê...gostaria que me voltasse a dizer o que pensa...e o que sente que mudou ou não...ou se uma qualquer outra amiga aqui se sentir com disponibilidade de o fazer que o faça sem pruridos...faça-o da maneira que sente e sabe. Não pense que para se expressar tem de ter o dom da plavra...tem só que ser sincera consigo e basta.

Eu agradeço do fundo do coração a sua participação activa...e vamos lembrar o que a Lurdes nos disso há 6 anos atrás...o que é que acham que mudou?

..."diria até que um dos grandes trunfos masculinos é de facto a poderosa força de união e cumplicidade relativamente ao feminino, em contrapartida a forma como as mulheres se relacionam umas com as outras é por vezes de uma extrema dureza. As mulheres no contexto social actual são rivais entre si perante o masculino e portanto desunidas na sua base sendo muito comum tomarem o partido do homem em detrimento de outras mulheres. A propria sociedade porque baseada nos modelos de actuação masculinos fomenta esta desunião e torna-nos enfraquecidas e isoladas umas das outras. Parece-me que a fim de superar este desiquilibrio a primeira onda tem que partir de nós individualmente, somos nós mulheres que necessitamos mudar o nosso comportamento umas com as outras e apoiar-nos mutuamente. Na prática do dia a dia isto requer uma atenção constante, um olhar critico sobre nós proprias e sobre os nossos preconceitos.
Esperando que se encontre já recuperada saudações amigáveis
"

lurdes oliveira Email 27-07-2006 21:31:36


rosa leonor pedro

quarta-feira, abril 27, 2011

ESSÊNCIA E EXISTÊNCIA



Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja. Isso lhe assusta?
Creio que sim. Mas vale a pena.
Mesmo que doa. Dói só no começo.

Clarice lispector

A GRANDE DIVISÃO BÍBLICA DA MULHER


“Será que não é necessário procurar as causas desta dicotomia dramática naquilo que precede Adão e Eva? Nascida das trevas das quais ela obtém o seu nome, LILITH precede Adão no jardim do Éden. Ela comeu o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e ela não sofreu nenhum dano. Ela pronuncia o “nome indizível” de Deus sem sofrer a mínima consequência. O seu desejo de absoluto, de Conhecimento torna-a igual a Deus. Assim, Lilith é considerada a primeira mulher de Adão: qual é o significado deste dado pelo Zohar?

O nome de LILITH poderá vir de Leila ou Lavlah que se podem traduzir por trevas, a noite. E a noite, é a obscuridade, o negro. Joelle de Gravelaine no livro “Le retour de Lilith” descreve: “O negro pode ser concebido simbolicamente com a cor mais escura devida à ausência de raios luminosos, ou ao no seu oposto, à sua absorção total.

Diz ainda: “Este negro, matéria-prima, cor da potencialidade mas também do poder contem tudo: ele é o portador do princípio fecundante e feminino, portanto mortal, que quer que a noite LAVLAH inquiete e – porque ela amplifica tudo, os barulhos, as sensações, os medos – que as trevas sejam associadas ao diabo. Na armadilha colocada por LILITH, poder da sombra, mais do que um caíram o que fez que ela se tornasse a “mãe obscura”, “a parte maléfica” “a mulher fálica” ou essa “bruxa cuja vagina tem dentes” e que assusta o inconsciente masculino desde o começo dos tempos.”

Associada à Lua Negra, ela evoca com o sol negro – luminares metafísicos segundo Jean Carteret – a diferença entre a ESSENCIA e a EXISTÊNCIA, entre o Inconsciente e o Hiper-Consciente.
O autor acrescenta: “No entanto ninguém pode passar sem ela quem deseja abandonar as suas velhas peles inúteis, aceder ao coração essencial, passar para o outro lado, para uma vertente mais intensa de luz, ultrapassar-se a si mesmo e aceder ao inconsciente puro.
COMO é que isso se faria sem sofrimento, sem sacrifício, sem dor? COMO faríamos nós a economia desta ferida aberta que nos faz passar do Existencial ao Essencial?”

Do Livro Le Retour de LILITH. La Lune Noire. L’Espace Blue, 1985

QUEM É LILITH



“No princípio era Lilith. Digam o que disserem, na origem era o Andrógino. E depois do seu exílio, senão mesmo do seu desterro, o Éden nunca mais voltou a ser o que era antes.” Joelle de Garavelaine


"Eva é a mulher muda, a sombra da mulher, quase um fantasma."

O nosso mundo é dominado e dividido por uma dicotomia profunda, poderíamos dizer dramática desde o... princípio dos tempos, o tempo que para nós "começou" a contar a partir da Bíblia e do Novo Testamento, tendo por base o Velho Testamento e portanto desde há cerca de 5 mil anos…e tudo que fica para trás é votado ao esquecimento, vive nos escombros da nossa memória colectiva.
Toda a História bíblica se fundamenta nessa dicotomia e na divisão das duas mulheres. A Primeira Mulher, que é Lilith, a mulher original que é banida da história do homem, porque não aceitou a sua supremacia, e que não é como supomos e que muita gente crente acredita ainda ser Eva, foi quem primeiro veio ao mundo, considerada a primeira mulher de Adão segundo o Corão e criada da mesma matéria que o homem em plano de igualdade. Só depois da rebelião de Lilith é que deus resolveu tirar da costela de Adão um mulher inferior que deu pelo nome de Eva, mas a quem a Serpente deu a comer a maça do conhecimento. Essa Serpente não era senão Lilith, a parte da mulher que ficaria para sempre reduzida à sua sombra e a viver no exílio da nossa psique, enquanto a mulher servia o Homem e a comunidade...


"Eva é a mulher muda, a sombra da mulher, quase um fantasma. (...)
Eva está incompleta, falta-lhe alguma coisa: trata-se do aspecto Lilith que ela por vezes toma quando se revolta"
“Fosse a maça oferecida por Lilith-Serpente e aceite por Eva ou a caixa inquieta de Pandora (as mitologias patriarcais sempre responsabilizaram a mulher pelo desastre universal), o certo é, que é nestes mitos que nasce a dualidade e a condição humana, com a sua insatisfação permanente, a sua busca obsessiva da perfeição impossível, das origens e do Absoluto.”*


No mapa astral, Lilith ou Lua Negra indica sedução e ânsia de liberdade. Influências que atingem nossas personalidades. A Lua exerce uma influência no inconsciente, nos sonhos, no sono, na memória, nas emoções e nas reacções espontâneas.
Isso corresponde a uma nova imagem da mulher que aparece hoje no inconsciente colectivo.


Por isso, "Lilith foi recalcada para dar lugar a Eva. Eva representa portanto a mulher vista, educada, modelada pelo homem. Eva está incompleta, falta-lhe alguma coisa: trata-se do aspecto Lilith que ela por vezes toma quando se revolta; o aspecto que Eva tomou, quando comeu a maçã; o aspecto que tomará a Virgem Maria ao dar à luz um filho que se revoltará contra o pai e imporá uma nova lei, o Evangelho (a boa nova) do Filho (e da Mãe). Assim se processa a passagem do Judaísmo (Paternalismo) ao Cristianismo primitivo (Maternalista), que será imediatamente recuperado pelas autoridades Patriarcais e desviado dos seus verdadeiros objectivos.

Com efeito, Eva, a mulher, encontra-se alienada. Ela não possui por inteiro a sua personalidade. Ela não será mais que a forma castrada (de Jeová e de Adão) e não a imagem da parte feminina de Deus. Deste modo, a representação duma forma do desejo, duma metade da ex-potência divina absoluta é afastada, e torna-se tão silenciosa como a vagina duma rapariguinha. Eva é a mulher muda, a sombra da mulher, quase um fantasma. A mulher real é Lilith. E no mito celta, Blodeuwedd, nascida das flores – é este o sentido do seu nome –, não é senão uma sombra de mulher: é uma criação artificial do espírito macho de Gwyddyon, não passa dum reflexo castrado do homem.

Mas quando se revolta, ela abandona o seu aspecto Eva para assumir o de Lilith e deixa de estar alienada. Nascida das flores e ligada à terra no passado, torna-se agora ave nocturna, podendo assim aparecer a qualquer homem durante a noite, ou seja, enquanto o sono permite ao inconsciente que ela surja nos seus sonhos.

Na verdade, qualquer homem, insatisfeito no fundo de si próprio, e sem ousar admiti-lo, sonha com Lilith-Blodeuwedd, a única que poderia satisfazer o seu desejo de infinito, uma vez que a Eva que ele tem ao seu lado não é mais do que uma caricatura da feminilidade, embora tenha sido ele quem assim a quis."*


RLP

*La Femme Celte, Jean Markale,
Petite Bibliothèque Payot

terça-feira, abril 26, 2011

O AMOR MÁGICO



DESEJAR A ALMA

Refere-se a primeira à necessidade de que o "eros que constitui o instrumento da obra, não seja logo desejo sexual, avidez sexual, mas justamente amor, algo de mais subtil e vasto, sem polarização física, mas cuja intensidade não deverá ser menor. Poderei dizer-te também: tu deves desejar a alma, o ser do outro ser, tanto como se pode desejar o corpo". Partindo deste estado na relação sem contactos físicos "o Eros favorece-te o contacto fluídico e o estado fluídico por sua vez exalta o Eros.

Poderá assim, produzir-se uma intensidade-vertigem quase inconcebível para o homem e a mulher comuns. Amar-se e desejar-se deste modo, sem movimento, de forma contínua aspirando-se recíproca e vampiricamente numa exaltação que progride sem receio das possíveis zonas de vertigem. Experimentarás uma sensação de amalgamento efectivo, sentirás o outro em todo o teu corpo, não através do contacto, mas por meio dum abraço subtil que se sente em cada ponto e fica penetrado por ele como por uma embriaguez que se apodera do sangue do teu sangue. Isto conduzir-te-á ao limite, ao limiar dum estado de êxtase.

in "METAFÍSICA DO SEXO" de Julius Evola


"O amor começa a adquirir um carácter sagrado ao pôr a alma humana em estado de mag* ou de transe. A matéria mais grave e a matéria mais subtil ficam presas ao SER HUMANO * através dum estado de magnetismo tão profundo que começa primeiro a intuição e depois a sensação dum mundo que não é humano, mas que na hipersensibilidade dum estado especial do ser atinge um fundo humano."

(…) em todo o amor diferenciado, se produz por instantes justamente este estado: no entanto, "a dificuldade consiste em fazê-lo durar intensa e definitivamente"; consiste além disso em impedir que desperte o desejo físico, que o paralisaria. (…) Existe o estado de mag* se for activo (êxtase activo) e de transe se for passivo.

Nestes estados o elemento subtil do homem não somente entra em contacto com o da mulher, mas oferece-se também a possibilidade de se relacionar com tudo o que em geral, pertence, quer em forças ou em influências, ao plano hiperfísico.

O AMOR MÁGICO...

Encontramos seguidamente um motivo que é já do nosso conhecimento quando K. afirma que "através desta porta do amor " começa a verdadeira magia, desde que "embora mantendo-se na intensidade mais inverosímel do Pyr, ou fogo mágico", o homem separe na amante que está a ver com os seus olhos físicos uma entidade que pertence ao plano a que se chegou. Através da união com esta entidade começa, porém em simultâneo com a "magia", o risco da loucura. (...)

in "METAFÍSICA DO SEXO" de Julius Evola
* mag – de magia

sexta-feira, abril 22, 2011

NINGUÉM PODE PASSAR SEM ELA...


- “Lilith tem hoje uma necessidade dramática de ser ouvida. É o grito da noite de quem reclama, que quer tocar o absoluto.”
Joelle de Gravelaine


Eu sei que há uma faceta no meu trabalho que não é bem recebido nem muito popular entre as mulheres que me lêem. Muitas vezes sinto a animosidade ou o medo das mulheres em relação aos aspectos mais radicais ou mesmo contundentes da minha expressão e concepção do feminino sagrado...principalmente quando foco o aspecto psicológico e o trauma básico da identidade da mulher no mundo de hoje…
São séculos de cultura patriarcal de génios, homens em todas as áreas, desde pintores poetas e escritores a retratarem uma mulher que não sabem…dela fizeram uma Virago, dela fizeram uma prostituta, dela fizeram um travesti, dela fizeram um andrógino, dela fizeram uma boneca insuflada…dela fizeram tudo que quiseram…
Profetiza, demente, mãe, cândida donzela, virgem e prostituta, rainha, louca, assassina…
São muitos…todos eles génios ou santos: Miguel Ângelo, Leonardo da Vince, Spenser, Courbert, Shakespeare, Balzac, Baudelaire, Voltaire, Santo Agostinho etc. …
O que eles escreveram sobre grandes mulheres…Cleópatra por exemplo, e …como a viu Shakespeare…Meu Deus…que insana criatura…e é desses modelos ao longo de séculos de história e cultura que a mulher se deixou moldar sem nunca ser ela mesma a pronunciar-se! Aqui está, houve mulheres famosas na ribalta, mas elas não tinham voz própria…sim, houve Rainhas dizem-me, grandes rainhas….mas sujeitas aos mesmos padrões e aprisionadas pelos mesmos valores em vigor nas épocas em que reinaram, aos mesmos conceitos…e atributos, com que as modelavam os homens da arte e da cultura…Fosse na época Helénica na Renascença ou o no Iluminismo. Nunca até hoje a Mulher foi Ela mesmo!

Shakespeare até podia ter “uma concepção revolucionária da mulher”* mas as mulheres que representam as suas personagens eram sempre homens…As mulheres são sempre travestis ou andróginos senão forem as mulheres fatais, as prostitutas ou cortesãs, mais ou menos sofisticadas ou ordinárias, consoante o quadro social a que pertenciam…e como ele representou Cleópatra… “A grande heroína de Shakespeare combina em si uma multiplicidade de género, persona, palavra, olhar e pensamento”*

Há muitos anos que trabalho sobre a consciência do Ser Mulher e pesquiso os mais variados trabalhos das muitas mulheres que também o fazem nestas últimas décadas. Primeiro as feministas e as cientistas e escritoras dos direitos das mulheres e por último, mais recentemente, das mulheres que se empenham na ecologia ou no paganismo…
Não considerando agora as feministas mas referindo-me apenas as mulheres que começam a abordar o tema do feminino sagrado e das deusas, direi que há quase sempre um aspecto fundamental que me separa ou me afasta delas...e é precisamente o mesmo que faz as mulheres que me lêem reagir contra mim ou a cortarem-me das suas páginas; esse aspecto é quase sempre, apesar de haver sem dúvida alguma, um sem número de aspectos fundamentais em que a mulher precisa de trabalhar consigo mesma, mas neste caso, sempre que se trata de ir ao fundo de si mesma e enfrentar a sua sombra ela fogem…elas fogem do espelho da outra mulher…
As mulheres fogem do Seu Labirinto…

Tudo o que sejam trabalhos de nível espiritual, xamânico, tântrico, cultural ou artístico, tudo o que sejam as expressões lúdicas do seu ser em expansão, elas aderem com uma certa facilidade…mas quando se trata de aprofundarem uma consciência do seu lado oculto e da parte essencial de si mesmas, a mais difícil e controversa, essa é parte que não ousam enfrentar, e assim recuam e mantêm-se apenas na superfície de um entendimento sobre a deusa ou sobre as deusas na mulher; há porém um conhecimento que precisa de um maior aprofundamento em si que é ir muito para além de frequentarem cursos Wicca, workshops, irem a um Festival da Deusa, ou mesmo conhecerem os seus poderes, serem médiuns ou curadoras. E esse trabalho é enfrentarem o seu abismo pessoal, é irem ao fundo do seu Labirinto, olharem-se no espelho e verem-se do outro lado, o verso e o reverso de si…e amarem-se como são…
Aí elas temem e hesitam, e recuam…
Sem dúvida que é muito doloroso: a mulher é um ser demasiado ferido e precisa essencialmente curar-se a si própria antes de querer curar ou ajudar quem quer que seja…e enquanto a mulher exercer o seu Dom - e este é o ponto da minha questão a questão para mim crucial neste tempo de transição de paradigma - que a mulher integre as duas mulheres cindidas pelo patriarcado…porque fazer trabalhos os mais incríveis e variados que sejam, sem integrar as duas mulheres cindidas pela religião, que as separe e divide em estereótipos, ela não pode integrar mais nada de forma saudável, porque o medo e o antagonismo entre a “outra” mulher sombra que a ameaça…não permitirá criar essa irmandade sonhada e tão desejada. Há sempre um dia em que a mulher se torna inimiga da outra mulher…mesmo que não o ouse dizer ela vai sempre odiar a mulher que, quando menos esperar, a espelhe na sua sombra a mais dolorosa…e quanto mais fugir dela mais ela a perseguirá, mais a fará sofrer e as suas irmãs….

Portanto, sem que a mulher perca o medo dessa mulher sombra, personificada na sua Lilith, que não é propriamente mais uma deusa, mas o arquétipo porventura o mais poderoso do inconsciente feminino e do mundo, ela não vai usar o seu potencial da maneira certa porque essa velha separação que é o mais velho cisma do mundo as antagoniza. Desse modo não podemos esperar uma verdadeira lealdade feminina ou uma irmandade feminina porque a desconfiança e o medo da outra mulher a confundirá sempre e a agir do mais fundo do seu inconsciente gerando esse ódio que prevalecerá…
Enquanto a mulher não conhecer a sua Lilith…enquanto a mulher não integrar a sua Sombra, a mais perigosa e mais antiga, a mais amaldiçoada de todas as suas personas sexualis, ela não vai poder ser a mulher inteira nem resgatar a sua Lua…nem poderá fazer parte de um novo paradigma.
Sim, podemos avançar muito e convencermo-nos de somos livres e estar a caminho de um novo mundo, mas não sem Ela…pois, “ninguém pode passar sem ela, ninguém que deseja abandonar as suas velhas peles inúteis, aceder ao coração essencial, passar para o outro lado, para uma vertente mais intensa de luz, ultrapassar-se a si mesmo e aceder ao inconsciente puro.
COMO é que isso se faria sem sofrimento, sem sacrifício, sem dor?
COMO faríamos nós a economia desta ferida aberta que nos faz passar do Existencial ao Essencial?”
E embora neste caso isto seja válido tanto para homens como para e mulheres cabe ainda às mulheres integrarem primeiro a sua Lilith e assumi-la em pleno…

rleonorpedro


* “Tanto Leonardo como Miguel Ângelo são habitualmente classificados como homossexuais, mas independentemente do tipo de sexo que tenham tido, as suas actividades sexuais terão sido certamente anómalas e esporádicas. A tendência monástica está profundamente enraizada no temperamento italiano. Freud observa que o que prova a orientação sexual é a atracção emocional, e não o acto físico. Nas suas vidas privadas, Leonardo e Miguel Ângelo estavam claramente interessados na beleza masculina. Mas é claro que as suas vidas privadas se reduziam a mente e ao intelecto. Eles eram visionários semi-loucos, tão misantropos como um santo eremita.”

in Personas Sexuais de Camille Paglia

O REENCONTRO DA MÃE E DA FILHA


"O grande motivo essencial dos Mistérios de Elêusis e, portanto de todos os mistérios matriarcais é a Heuresis, a redescoberta de Core por Deméter, a reunião da mãe e da filha."


A MÃE E A FILHA

“O Mito Deméter-Perséfone é um dos mais arquetípicos e duvido que não o encontremos, de algum modo, nas tradições espirituais de todos os povos da Terra. Como vimos, trata-se de um Mito que nos apresenta as relação entre as forças da Natureza e, portanto, surge necessariamente na alma de quem se relaciona com as forças do mundo natural. Todas as sociedades deram com esse arquétipo em suas primeiras fases agrícolas. Num certo sentido, ele está presente em todo o paganismo – “pagão” significa, no sentido romano, “pessoa do campo” – e os costumes folclóricos europeus da época medieval exprimem, como se pode ver com bastante clareza, esses arquétipos. A feitiçaria medieval tem muitas probabilidades de ter sido uma forma ingénua de celebração de mistérios pagãos dessa espécie, em vez de uma “conspiração espiritual” contra a Igreja organizada, que quase a destruiu por inteiro.

No período de caça às bruxas, projectou-se a figura de Hécate nas mulheres que participavam desses simplórios rurais, enquanto que os homens tiveram projectado sobre si o arquétipo de Pã, tomado como uma espécie de figura “demoníaca”. Assim, a sociedade patriarcal da Igreja sentiu-se em pleno direito e, na verdade, contando com a aquiescência do Deus Pai, para perseguir e destruir tudo o que via, por meio das suas próprias projecções, como figuras do mal.
Talvez a Igreja temesse de modo mais particular nesses resquícios dos mistérios de Deméter-Perséfone-Hecate fosse a Deusa Tríplice, que ameaçava a sua visão de mundo dualista.”

In A DEUSA TRÍPLICE!”
ADAM MCLEAN

Voltar a SER MULHER... MULHER


A MULHER PRECISA SAIR DO SEU CASULO


Margarida Godinho disse:

Sair do casulo tornou-se imperativo. Nem sempre é fácil fazê-lo. Quantas vezes a mulher se encontra divida entre a dor de sair do casulo e a dor ainda maior de ficar dentro dele. Escolher entre os dois, ficar ou sair é uma escolha que obrigatoriamente terá que ser feita. E o medo maior, por vezes é trocar o que se conhece mas que já não serve por aquilo por que se anseia, mas que se desconhece. Mas, cedo ou tarde, a vida obriga-nos a encarar essa opção de frente. É assim que o Universo conspira a nosso favor...

Ana Lucia Sobral disse:

De cada vez que me liberto de um casulo o mundo à minha volta muda. Os meus olhos abrem-se para novas realidades. De cada vez que os meus olhos se abrem mais, parto à descoberta de novos caminhos, de novas gentes dentro das gentes, de mais saber. E sem perceber começo a tecer novo casulo, que me proteja enquanto ganho forças para de novo me libertar e renascer.

A MÃE…

Manuela Jorge
disse:

Há uma mãe biológica a que nos faz nascer para o mundo, mas há muitas outras mães a quem muito devemos ao longo da vida, as companheiras de vida, que nos sorriem, que nos dão afecto, que nos ensinam a reflectir sobre o que somos, o que recebemos e damos enquanto em trânsito desta para outra realidade. Estas são as nossas irmãs, as nossas mães, as nossas mestras. Com elas, por elas, para elas vivemos. São laços íntimos, misteriosos, sagrados que se criam. É esse o conceito de maternidade, que mais respeito.

quarta-feira, abril 20, 2011

A DESCIDA AO ABISMO


“O sofrimento é uma parte relevante do feminino subterrâneo. Ele pode permanecer inconsciente até que o advento da Deusa da Luz o desperte para a percepção, o mova do entorpecimento silencioso em direcção à dor. Ao nível mágico da consciência ele é suportado de forma amenizada numa aparente “insensibilidade”. Desse modo como que não há percepção de sofrimento.
(...) Mas o sofrimento é uma parte do feminino .”*

Isto quer dizer que quando a mulher tem consciência da Deusa da Luz, o sofrimento que a sua ausência - ou a falta de consciência de si mesma - provoca, é anulado pelo conhecimento de uma parte de si que lhe faltava e que serve de suporte à sua evolução e a uma nova postura na vida. Enquanto a mulher não fizer essa descida ao abismo que ela mesma é, ela não consegue deixar de sofrer a sua divisão e fragmentação e viverá como vítima secular reduzida a um instrumento de procriação e prazer ao serviço da sociedade, manietada pelo estado e pela religião. Pois “a vida da mulher tem sido uma realidade de partos repetidos e verdadeiramente presenciados pela morte, um ciclo natural que manteve a maior parte de sua vida centrada na áspera malignidade da realidade, na sensação de estar vivendo à beira de um abismo. Assim a criatividade feminina se consumiu nos partos, nas artes e manutenções domésticas - coisas sujeitas ao desgaste e à destruição, coisas a ser devoradas - além de não ter muito valor num contexto cultural mais amplo, embora constituam a força civilizacional básica de qualquer cultura, imediata e pessoal, construída nos pequenos interstícios do processo de manter a sobrevivência da família. Num contexto destes não é de espantar que o homem judeu agradeça a deus por não ter nascido mulher.(...)”*

“CAMINHO PARA A INICIAÇÃO FEMININA”
De Sylvia B. Perera

Será que hoje existe uma “Lealdade Feminina”?





EU PENSEI MUITO ANTES DE PUBLICAR ESTE TEXTO...
EU REFLECTI MUITO EM TUDO O QUE AQUI ESCREVO, MAS O DESAFIO FOI MESMO PUBLICAR INDEPENDENTEMENTE DE MAGOAR OU FERIR SUSCEPTIBILIDADES E CONCEITOS...


Durante anos e anos as mulheres traíram-se umas as outras pelo amor de um homem...fosse o pai, o marido, o filho ou o amante...
Durante anos e anos as mulheres traíram a confiança umas das outras para obter a atenção e os favores de um homem...durante anos e anos as mulheres traíram a melhor amiga para conseguir um emprego ou um lugar de destaque na firma ou nos bastidores de qualquer palco…
Durante anos e anos as mulheres traíram a sua essência e foram piores do que Judas na vida umas das outras...sempre prontas a denunciar a incriminar a mandar para a fogueira as suas rivais…as mais ousadas, as mais bonitas, as destemidas, as mulheres corajosas e as que se atreviam a quebrar as algemas com que a sociedade e as religiões as agrilhoou…
Como é famoso o antagonismo entre irmãs ou amigas por causa de um homem…entre a nora e a sogra…Como é velha a disputa entre a mãe e a filha por causa do amor do pai…como é extenuante a rivalidade das mulheres do cinema e das telenovelas aos puxões de cabelos umas as outras e entre as actrizes…e como os homens gostam e perpetuam isso…

Em séculos de repressão e perseguição pelas religiões, as mulheres foram sempre as maiores aliadas dos homens e dos padres…por medo e intriga, por um lugar na missa ou na sacristia, no bordel ou na fábrica… foram durante anos e anos as mulheres as maiores inimigas umas das outras…durante anos e anos as mulheres viram na outra mulher a inimiga e a rival que lhe iria roubar o homem…e elas tudo fizeram para destruir essa outra mulher por quem se sentiam ameaçadas sem saberem que a “outra” mulher era ela mesma na sua outra face…que ela era afinal a sua face ignorada, esquecida e calada durante anos e anos…séculos…e que a “outra” era apenas a sua face de mulher reprimida de mulher reduzida a mero objecto de prazer e procriação, ao serviço do macho.

Será que hoje as mulheres se dão conta dessa separação e desse ódio?
Será que hoje existe uma “Lealdade Feminina”?

NÃO! Ainda hoje li o testemunho, entre outros, de uma mulher que sentia essa traição na pele da parte de outras mulheres e que as retratava com os mesmos sentimentos de repúdio e acusação pela sua “infidelidade” e traição à amizade…

Não, as mulheres ainda não são livres nem amigas, capazes de trocar o abraço de um homem para serem fiéis a si ou a uma outra mulher ou à Deusa, à sua revelação ou à sua manifestação, trocando esse velho mito do Príncipe Encantado e do amor romântico...essa escravidão ao Senhor por amor de si mesma e das suas irmãs…
Não, de forma alguma. A verdade é que esta não é ainda uma realidade e que as mulheres se continuam a trair e a trair as suas irmãs com o medo de perderam uma boa cama ou o abraço de um homem, uma posição social que lhe dá um falso valor e que as nega como indivíduos…
As mulheres continuam a fazer tudo pelo “amor” de um homem, sujeitando-se o obedecendo aos seus caprichos e ordens… Elas são incapazes de dar um passo para se amarem a si mesmas em vez da obsessão do macho…e do amor que as há-de salvar do vazio de si mesmas!

Como eu hoje vi e confirmei, as mulheres continuam a ser as inimigas umas das outras. Por isso eu não creio na lealdade feminina; para haver lealdade feminina a mulher tem de se conhecer primeiro e integrar a “outra”, a mulher-sombra, essa outra que ela só vê fora…
Por isso essa dita “lealdade feminina” tão desejada e já esboçada como um ideal, não se pode manifestar, a não ser nessas poucas e raras mulheres que se dão conta dessa dicotomia em si e começam a perceber que essa velha inimizade e intriga – criada pelos homens e pelo sistema falocrático que as dividiu assim para poderem reinar – foi o que as impediu de evoluir e criar laços profundos com outras mulheres, e assim começam a ser capazes de se darem sem medo de perder o parceiro e abrem-se umas as outras sem esse velho pavor de perder o homem ou o seu emprego ou mesmo a sua reputação; medos que as dominavam por inteiro há décadas…
Mas são raríssimas as mulheres capazes de abandonar o homem pela carreira ou que fazem uma escolha sua de viver a sua vida de acordo com os seus sentimento e emoções. Sim, são tão poucas as mulheres capazes de serem elas por inteiro e de serem fiéis a si mesmas!


Poderia perguntar se não será este o tempo de as mulheres deixarem de lutar por “eles” e procurarem em si mesmas as respostas e saberem qual é o seu verdadeiro caminho? Poderia perguntar se não será tempo de as mulheres se unirem umas as outras, indo ao encontro da sua alma, para a união com a deusa e ao encontro consigo mesmas - integrando a sua sombra que não é mais do que essa “outra” mulher em si repudiada (seja ela qual for a face em que se reconheça na diferença) …
Mas não, não vejo maneira de as mulheres deixarem de lado essa divisão interna das duas mulheres cindidas e opostas: vejo sim como continuam a negar a sua essência e a liberdade de serem o que são, e como continuam a seguir o caminho do masculino e as ideias que os homens têm sobre elas…
Até mesmo por vezes em caminhos supostamente do Feminino Sagrado, elas se traem por um homem ou se negam e a deusa é apenas mais um pretexto para serem mais atraentes e sedutoras, para se exibirem…não que isso seja um erro, mas continua a ser pelo motivo errado…a caça ao homem… a sua eleição e dependência do sexo!

Vejo, com grande mágoa, que o que existe de facto, na sua grande maioria, são ainda as mulheres, que incapazes de renunciar ao amante ou ao marido para serem elas próprias, se continuam a trair a si e às outras mulheres! Elas negam-se o direito à sua própria vida, desconhecem o que seja a sua verticalidade e ainda usam todos os estratagemas para conseguir ou manter a seu lado um homem a qualquer preço, mesmo ferindo outras… e continuam escravizadas ao sexo porque essa dependência lhes assegura uma garantia de promoção social ou de sobrevivência económica …
Tantas mulheres que continuam dependentes dos maridos que as violentam e dos amantes que as humilham ou exigem condutas e que as tratam mal ou com desprezo…

Não, por mais que me pergunte e anseie esse tempo de ver as mulheres conseguirem vencer essa velha inimiga fora, que é a “outra”, não vejo como elas possam vencer essa paranóia de perseguição e ódio da outra mulher; o que percebo é que elas não querem mesmo ver que afinal essa “outra” mulher vive dentro de si também e que sempre foi parte de si – porque ela não é mais do que as duas faces de uma mesma moeda…Elas não querem ver sequer que essa separação, que tanto ódio gerou, tanto sofrimento causou, e até mortes, é apenas uma velha e gasta história secular, a história da mulher séria e da mulher desonesta (a santa e a puta…) e que embora sendo uma velha e triste história que os pais e os padres lhes contaram desde pequeninas, elas escolhem não ver que ambas são vítimas do sistema e continuam a apostar na diferença entre as mulheres e a viver essa rivalidade que as divide em duas espécies…

E se alguma mulher me estiver a ler e sinta a indignação pelo que eu afirmo…afirme-se aqui e diga que a sua vida é diferente e que ela se escolheu a si mesma e que faz parte já dessa “Lealdade Feminina”…

…eu adorava saber…se alguma de vós, é capaz de ser e de dar tudo de si para ser acima de tudo uma Mulher Inteira.

rosaleonorpedro

segunda-feira, abril 18, 2011

A CERTEZA DE QUE UMA MULHER SERÁ SEMPRE MULHER




A Lua da Loba trouxe-me a certeza de que uma mulher será sempre mulher, independentemente do que se diga, se está ficando velha, se está tomada pelas rugas, ou se a menopausa chega e o sangue desaparece, ela sempre será filha de Afrodite. Por mais que tenha lutado contra isso, a deusa estará oculta em alguma prega de seu corpo, pulsando os suspiros dos sonhos de Lilith.
Hoje, ao experimentar os primeiros sintomas da menopausa, orgulhosa, acaricio o meu corpo, envaidecida dos sinais que o tempo nele gravou. Não sinto medo da velhice, pois sei que esta foi invenção dos homens, que sempre temeram a impotência que a presença de todas as deusas pode acarretar, que não conseguem alimentar os desejos subtis de uma Afrodite madura e além disso sabem muito bem que Athena foi a única a derrotar Aires numa briga. Às vezes me vejo envaidecida como uma loba perante a Lua, consciente de que carrego em minha vagina o fluir infinito de um sangue que, de tão pleno, não precisa de se revelar, um sangue metafísico, um rio de ausência que gera múltiplas realidade. Assim como a prenhez de uma loba: mãe Glotinha…

Quando a Lua Loba se aproxima, meus pelos se eriçam e os ventos gelados se preparam para levar a fluidez do visco do meu gozo para a morada das divindades, onde se sentem honrados pela lembrança dos antigos ritos…
(…)

In O FEITIÇO DA LUA
Márcia Frazão

sábado, abril 16, 2011

A ..."mãe foi silenciada antes de eu Ter nascido"

“A mulher que eu precisava chamar de mãe foi silenciada antes de eu Ter nascido”

*
*
* Infelizmente, muitíssimas mulheres modernas (na verdade quase todas) não receberam desde o início os cuidados de mãe. Pelo contrário foram criadas em lares difíceis, de autoridade absoluta e colectiva (“cortadas do contacto com a terra pelos tornozelos”, como observou uma mulher), cheios dos “é preciso” e dos “deve-se” do super-ego. Ou, então, acabaram por se identificar com o pai e a cultura patriarcal, alienando-se da sua própria base feminina e da mãe pessoal, que frequentemente é por elas considerad fraca e irrelevante. Essas mulheres têm necessidade premente de se defrontarem com a deusa em sua realidade fundamental.
Uma conexão interior dessa natureza é uma iniciação essencial para a maior parte das mulheres modernas do Ocidente; sem ela não podemos ser completas. Esse processo requer, a um só tempo, um sacrifício de nossa identidade enquanto filhas espirituais do patriarcado, e uma descida para dentro do espírito da deusa, porque uma extensão enorme da força e da paixão do feminino está adormecido no mundo subterrâneo, no exílio há mais de 5.000 anos.

In CAMINHO PARA A INICIAÇÃO FEMININA De Sylvia B. Perera »»»

quarta-feira, abril 13, 2011

FRAGILMENTE VERDADEIRA...



SÓ PARA OS INICIADOS…



“Conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.

Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando no chão: vida é sombra flutuante, levitação e sonhos no dia aberto: vivo a riqueza da terra.

Sim, a vida é muito oriental. Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida. É como arrumar flores num jarro: uma sabedoria quase inútil. Essa liberdade fugitiva de vida não deve ser jamais esquecida: deve estar presente como um eflúvio.

Viver esta vida é mais lembrar-se indirecto dela do que viver directo. Parece uma convalescença macia de algo que no entanto poderia ter sido absolutamente terrível. Convalescença de um prazer frígido. Só para os iniciados a vida então se torna fragilmente verdadeira.” (…)

CLARICE LISPECTOR
AGUA VIVA

O AMOR E O ÓDIO NÃO SÃO OPOSTOS


Silêncio!
E depois, mais silêncio.
Não uses a boca para falar.
A boca é para provar dessa doçura.

Rumi



“A poesia é o elo de ligação entre a mente e o corpo. Na poesia, as ideias estão sempre enraizadas na emoção; cada palavra é uma palpitação do corpo. A multiplicidade de interpretações que um poema reflecte a tempestuosa incontrolabilidade da emoção, onde a natureza actua segundo a sua vontade. Emoção é caos. Qualquer emoção benigna possui um lado de negatividade. Daí que fugir da emoção para os números seja mais uma estratégia crucial do Ocidente apolíneo no seu longo combate ao Diónisos.

Emoção é paixão, um contínuo de erotismo e agressividade. O amor e o ódio não são opostos: a sua diferença é apenas entre mais paixão e menos paixão, uma diferença quantitativa e não qualitativa. Viver em paz e amor é uma das contradições mais notáveis que o cristianismo impôs aos seus seguidores, um ideal impossível e contra natura.”

In Personas Sexuais de Camille Paglia

"Não firas os outros com aquilo
que causa sofrimento em ti próprio"

Udanavarga



Nada, Esta Espuma

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.

Ana Cristina César

sexta-feira, abril 08, 2011

MULHERES NO MUNDO, QUANTAS?



AS MULHERES AGUENTAM METADE DO CÉU.

(provérbio chinês)


Mulheres no Mundo, quantas…


Mulheres que não ousaram nunca, que não ousam ainda dizer… que não falam, que não têm voz ou falam por falar…como as galinhas, dizem os homens…e que não sabem nada de si, que não têm identidade, outras nem cédula de nascimento…

Quantas?

Mulheres que mal ousam segredar na noite a sua vontade e o confuso desejo de prazer… mulheres que são levadas ao paroxismo da solidão da dor e que só lhes resta estrebuchar em histerismo, em neurose...a tomar comprimidos pílulas e doses cavalares de calmantes e de analgésicos…

Vozes de mulheres silenciadas, no mundo, quantas?

Todas as mulheres caladas por força das circunstâncias de serem apenas mulheres, caladas pelo abuso, caladas na afronta e na desonra…caladas pelos pais, mães, vizinhos, tios e padres, caladas por vergonha, por leis e credos…


Quantas mulheres caladas que não puderam dizer nada do que sentiam nem o que pensavam: uma vida inteira a calaram no mais fundo delas mesmas a dor a pena e a revolta…e esqueceram e serviram maridos filhos e morreram sem nada sozinhas, abandonadas pelo amante ou pelos filhos... a quem tudo de si deram…

Penso na minha mãe e nas minhas avós e nas avós das minhas avós…há um século, cem anos, cinquenta e ainda hoje?

Quantas mulheres caladas ainda e oprimidas pela ordem de valores…caladas, sufocadas, oprimidas, entregues à casa, ao lazer, à canasta ou aos afazeres, donas de casa com dono, criadas com patrão, empregadas com chefe… obrigadas a cumprir o prazer do contracto nupcial, o horário de trabalho ou a paga pelos serviços prestados à força…voluntárias da desgraça e da miséria não só do corpo como da mente


Ah! Quantas Rainhas e aristocráticas...mulheres sós forçadas a vender o corpo para para terem um reino ou quantas desgraçadas só para terem de comer... quando não violadas, a serem violentadas no corpo e na sua alma, na corte, no casebre, todos os dias ou em cada esquina…

...mulheres esfaqueadas ou mortas de pancada e a tiro…

Quantas?

Mulheres esquecidas da sociedade e dos governos…mães silenciosas que nada pedem, mulheres deformadas pela miséria, pelos maus tratos da violência física e psicológica, inferiorizadas, desprezadas pelas outras… Mulheres pobres ou com subsídio mínimo não garantido…

Mulheres sós que morrem sós em casa quando têm casa…

Mulheres sós com filhos…viúvas do infortúnio…

Mulheres que sofrem horrores no mundo…


Quantas…

"METADO DO CÉU"

***

rosa leonor pedro

O QUE CANTA A NATUREZA?


As profundezas do ctónico acordando numa mulher sensível sensitiva e plena...a sua voz ecoa das entranhas da terra e dela mesma... Mulher pioneira da voz das mulheres, da voz intensa que deixa marcas e é eco de milhares de mulheres que não puderam dizer-se e que hoje apenas algumas se identificam e se libertam...

...QUANTO MAIS MALDITA...

MAIS ATÉ À DEUS/A



"Agora de madrugada estou pálida e arfante e tenho a boca seca diante do que alcanço. A natureza em cântico coral e eu morrendo. O que canta a natureza? a própria palavra final que não é nunca mais eu. Os séculos cairão sobre mim. Mas por enquanto uma truculência de corpo e alma que se manifesta no rico escaldar das palavras pesadas que se atropelam umas as outras – e algo selvagem, primário e enervado se ergue dos meus pântanos, a planta maldita que está próxima de se entregar ao Deus. Quanto mais maldita mais até o Deus. Eu me aprofundei em mim e encontrei que eu quero vida sangrenta, e o sentido oculto de uma intensidade que tem luz. É a luz secreta de uma sabedoria da fatalidade: a pedra fundamental da terra. É mais um presságio de vida que vida mesmo. Eu a exorcizo excluindo os profanos. No meu mundo pouca liberdade de acção me é concedida. Sou livre apenas para executar gestos fatais. Minha anarquia obedece subterraneamente a uma lei onde lido oculta com astronomia, matemática e mecânica. A liturgia dos enxames dissonantes dos insectos que saem dos pântanos nevoentos e pestilentos.

(…)


A minha fome se alimenta desses seres putrefactos em decomposição. Meu rito é purificador de forças. Mas existe malignidade na selva. Bebo um golo de sangue que me plenifica toda. Ouço címbalos e trombetas e tamboris que enchem o ar de barulhos e marulhos abafando então o silêncio do disco do sol e o seu prodígio.


Quero um manto tecido com fios de ouro solar. O sol é uma tensão mágica do silêncio. Na minha viagem aos mistérios ouço a planta carnívora que lamenta tempos imemoriais: e tenho pesadelos obscenos sob ventos doentios.


Estou encantada, seduzida, arrebatada, por vozes furtivas. As inscrições cuneiformes quase ininteligíveis falam de como conceber e dão fórmulas sobre como se alimentar da força das trevas. E o eclipse do sol causa terror secreto que no entanto anuncia um esplendor de coração. Ponho sobre os cabelos o diadema de bronze.


In Agua Viva – clarice Lispector

terça-feira, abril 05, 2011

A FUGA AO LABIRINTO…


O CULTO DO RAPAZ BONITO

E O ADOLESCENTE GREGO…

VERSUS MODA MULHER/RAPAZ (BONITO)


“O rapaz bonito é uma censura à mãe natureza, uma fuga ao labirinto do corpo, com as suas lúgubres entranhas, o seu útero sombrio. A mulher é o miasma dionisíaco, o mundo dos fluidos, o pântano ctónico da procriação. Atena, diz Campel não estava “corrompida pela prosaica sisudez de um compromisso heterossexual com a mera existência”. Sim, a mera existência é de facto recusada pelo idealizante estilo apolíneo. Um divino privilégio dos homens é o de criarem ideias mais grandiosas do que a natureza. Nascemos na indignidade do corpo, com os seus infatigáveis movimentos internos empurrando-nos minuto a minuto em direcção à morte. Mas o apolinismo grego, ao congelar a forma humana numa absoluta exterioridade masculina, representa o triunfo do espírito sobre a matéria.


Quando mata a Piton em Delfos, o umbigo do mundo, Apolo detém o curso do tempo, pois a serpente enrolada que trazemos no abdómen é o eterno movimento ondulatório da fluidez feminina. Todo o rapaz bonito é um Ícaro ascendendo para o sol apolíneo. Mas se ele foge do Labirinto, é apenas para se precipitar no mar de dissolução da natureza. Os cultos da beleza têm sido persistentemente homossexuais, desde a antiguidade até aos salões de cabeleireiro e casas de alta-costura dos nossos dias. O embelezamento profissional das mulheres às mãos dos homossexuais masculinos é uma espécie de reconceptualização dos factos brutos da natureza feminina. Como fin de siecle oitocentista, os estetas são sempre homens, nunca mulheres. No lesbianismo não existe nada que se assemelhe à adoração grega pelo adolescente. A grande Safo pode ter-se apaixonado por raparigas, mas tudo indica que ela interiorizava, mais do que exteriorizava, as suas paixões. (…) É por demais evidente que o lascivo deleite do olhar não existe no erotismo feminino. O idealismo visionário é uma forma de arte masculina. Uma esteta lésbica é coisa que não existe. Mas se existisse seria a partir da perversa mente masculina A intensa busca da beleza através do olhar é uma forma apolínea de rectificar a vida no nosso corpo, nascido de uma mãe.


Suspenso no tempo, o rapaz bonito é uma fisicalidade desprovida de fisiologia. Ele não come, não bebe nem se reproduz. Dionísio está profundamente imerso no tempo – ritmo, música, dança, embriaguez, gula, orgia. O rapaz bonito flutua como um anjo acima do turbilhão da natureza. Também no judaísmo os anjos desafiam a feminidade ctónica. É por isso que o anjo, embora sem sexo, é sempre representado como um jovem do sexo masculino. As religiões orientais não têm nada de similar aos anjos de pureza incorpórea, e isso por duas razões. Primeiro, porque um “mensageiro” (angelos) ou mediador entre humano e divino é para eles algo desnecessário, já que consideram que as duas esferas são coexistentes; e segundo porque no Oriente existe uma relação harmónica e simbolicamente equivalentes entre o feminino e o masculino – o que não significa, contudo, que isso tenha contribuído para melhorar o estatuto da mulher.


O rapaz bonito de faces coradas representa a frescura emocional, a Primavera. Ele é a afirmação parcial acerca da realidade. É exclusivo, é um produto do gosto aristocrático. Ele recusa a superabundância da matéria, o útero da natureza feminina que devora e cospe as criaturas. Dionísio, dissemos nós atrás, é Múltiplo, sempre mutável e que tudo abarca. A totalidade da vida é Verão Inverno, floração e devastação. A Grande Mãe, simultaneamente benévola e malévola, representa ambas as estações. Se o rapaz bonito é branco e rosado, ela é o vermelho e púrpura das suas fauces labiais. Ele representa uma desesperada tentativa de apartar da imaginação a morte a decadência. É a forma a separar-se da criadora-de-formas, a natura naturata a sonhar-se livre da natura naturata. Qual epifania, criada pelo olhar, ele aglutina a pluralidade na fugaz visão do único, tal com o faz a prórpia arte.”


Camille Paglia in Personas Sexuais pag.s 127/8


A MULHER ACTUAL


Este texto, cuja leitura para mim se baseia numa interpretação cultural do nosso mundo por uma escritora acutilante e cultíssima, escreve de uma perspectiva global e abrangente sobre a história e a arte, a partir dos opostos masculino-apolíneo e feminino-ctónico. E é a sua visão particular de como essa separação funciona no nosso mundo cultural de facto, com a qual eu não concordo em muitos aspectos, embora o que eu queria aqui destacar e do meu ponto de vista pessoal é ver como esses aspectos aqui focados estão patentes e se reflectem nos relacionamento entre as ditas "personas sexuais" (que somos todos), mas particularmente entre a mulher e o homem de hoje. Para mim o que é mais curioso ou espantoso é ver como a mulher com quem eu falo e conheço…se anula a si mesma e em muitas circunstância que não são só o casamento, nessa pretensão e vontade do homem de a transformar num rapaz bonito (a Moda), quer do lado mundano, social comum, quer também no lado espiritual new age através dos conceitos de uma pretensa nova espiritualidade, que transforma igualmente as mulheres em anjos, (rapazes bonitos e puros). Também esta "nova espiritualidade" continua a negar a mulher original e a negar-lhes a feminilidade essencial, ctónica, na forma dos seios abundantes, nas formas arredondadas ou na gordura, (tirando a pornografia que procura sempre aviltar a mulher e representa a posse e o ódio do homem à mulher e a vontade de violação -agressão) como até mesmo lhes retira as entranhas e aí muito particularmente toda a ciência se encarrega de limpar as mulheres das suas vísceras. Quando a medicina "preventiva" lhes arranca o útero e os ovários e mesmo as seios, com a maior das facilidades, está a obedecer a esse imperativo do mundo apolíneo que abomina a mulher e a natureza. Fazem-no, dizem, para “prevenção” das doença do colo do útero, e forçam-nas a tomar desde cedo toda uma série de comprimidos e artefactos para esconder ou interromper a menstruação, afectando todos os processos naturais da vida da mulher e os seus ciclos, começando pelos anticoncepcionais de que a mulher é escrava para não engravidar…e ter de obedecer como cobaia a todos os apetites do homem sobre o seu corpo-objecto-rapaz-bonito. Portanto o rapaz bonito, seja ele homossexual ou não, é o modelo inconsciente de beleza da nossa sociedade e admirado por homens e mulheres.


Esse rapaz bonito enquanto homossexual (ou não) recusa a sua mãe (por excesso de afecto ou por carência) – ou o ter sido concebido por ela - ou quer ser ele a mãe …como se a mulher fosse de facto e apenas um animal reprodutor que já deixou de ser a esposa e a mãe para ser agora, apenas uma barriga de aluguer.


Estão as mulheres conscientes disto?

Não…nem as mulheres comuns nem as mulheres que se julgam emancipadas e livres pois essas são as que melhor correspondem aos padrões da moda homossexual. Elas continuam submissas ao modelo, ao cabeleireiro, ao estilista, ao médico, ao astrólogo, ao padre antes, agora ao guia e mestre ou ao guru…


Nesta sociedade falocrática a mulher sofre todo o tipo de doenças que são o resultado da repressão do seu ser feminino e a recusa em ser mulher em todas as suas formas e utilizar o seu poder interior, o seu saber intrínseco para não perder justamente o quê? O falo, a famosa inveja do pénis que Freud percebeu sem perceber que a mulher tinha sido primeiro desventrada pela inveja que os homens tinham do útero …É a mulher sem Útero que inveja o falo e se cola ao rapaz bonito…ou ao velho rico que lhes permite ter acesso ao rapaz bonito em que ela se transforma, acedendo à moda e aos símbolos de poder. Ver o culto da "bunda", cada vez mais pronunciado, especialemnte no Brasil …

rOSAlEONORpEDRO

segunda-feira, abril 04, 2011

HINO A DEMÉTER

…na noite, em vigília, cantam as raparigas, cantam a tua amada, de violetas cingida. Safo - fragmentos

HINO A DEMÉTER

Lembro-me, Mãe, dos confins da minha memória recordo
A tua beleza e grandeza!
Lembro-me do ser dócil e humilde que eu era
E das serpentes brandas que passeavam a teus pés.

Lembro-me do teu sorriso,
Da tua voz que se repercutia como sinfonia em todo o meu ser,
E a minha alma dançava e vibrava no teu amor extasiada.

Nesse tempo o céu resplandecia e na terra era eterna a primavera.

Lembro-me das tuas filhas ornadas de grinaldas vestidas de branco em volta de ti,
E quando um gesto teu iluminava o arco-iris sobre as nossas cabeças irmanadas.

Lembro-me desse tempo, Mãe, e sagrado era o tempo
Em que os frutos eram sedosos e doces afagados pelas tuas mãos.

Lembro-me do teu ser repleto de luz,
Da tua ternura escoando dos teus lábios de mel
E de ti, abelha mestra, rainha de uma colmeia.

Lembro-me, Senhora
E nada me liberta desta visão-encantamento que é neste o meu refúgio.

Ah! Que dom deveria eu ter para te evocar neste mundo maldito,
Onde fomos perseguidas, queimadas vivas nas fogueiras da Inquisição
E exploradas como instrumentos de prazer e ódio?!

In Mulher incesto – Sonata e Preludio
rlp

A SERPENTE COMO PODER CRIADOR UNIVERSAL


A SERPENTE DA DEUSA...
QUE OS HOMENS QUISERAM FAZER PASSAR PELO FALO...

A associação da Serpente ao sexo, À MULHER e ao mal, dada como símbolo absoluto do falo para os freudianos é uma forma absolutamente redutora dos nossos tempos de psicanálise de superfície...

Os mitos abordados na perspectiva freudiana e dos seus seguidores, são a forma linear do pensamento patriarcal em que o falo é princípio dominador (o masculino) e em que se assenta o poder do homem e da sua expressão dada com o unico sentido e origem da existência do Homem em que a mulher conta pouco ou quase nada...e é mesmo apagada da linguagem...

Essa visão é além de ignorância profunda da nossa origem ctónica, uma deformação do Sagrado Feminino e do seu Princípio, de acordo com os interesses fomentados pelos patriarcas através das suas religiões e culturas até hoje.

Mas passemos a uma visão mais alagrgada do Mito e do Símbolo...


"Como acompanhantes de todas as grandes deusas, encontramos os animais, que se postavam ao lado da Grande Mãe de forma tão proeminente que são tidos como sua epifania: a simples presença do animal evoca a presença da Deusa. Estes animais, longe de serem totens ou divindades individuais de crenças politeísticas, corporificam a própria divindade, definindo sua personalidade e exemplificando seu poder. Por seu movimento e renovação cíclica, a serpente foi o animal mais freqüentemente associado com o fluir do sangue menstrual. Pelo hábito de recolher-se nas reentrâncias da terra para hibernar, bem como se desfazer anualmente de sua pele, como um recém-nascido se desfaz da placenta, a serpente é considerada símbolo de continuidade da vida e da conexão com o mundo profundo.


Um símbolo universal altamente complexo, encontramos a serpente na origem de muitas mitologias. Como emblema das divindades auto-criadas, representa a fonte de todas as potencialidade, tanto materiais quanto espirituais. E neste sentido também representa a primordial natureza instintiva humana, a força de vida potencial e animadora que surge das profundezas do ser.

Como uma das muitas epifanias da Deusa, quer represente o Sol ou a Lua, a vida ou a morte, a sabedoria ou a paixão cega, o reino espiritual ou o reino físico, nos relatos cosmogônicos este animal primordial e misterioso habita o oceano primordial, do qual tudo emerge, ao qual tudo retorna.

Como uroboros, a serpente que morde seu rabo, simboliza o caráter cíclico de todo ser, o fim que se une ao começo. Neste sentido, ainda faz parte de uma visão integrada da vida humana. Sua associação com vida, fertilidade, rejuvenescimento e regeneração faz dela um símbolo de imortalidade, razão pela qual é sempre encontrada junto à Árvore da Vida, possibilitando o acesso a ela. Nas diferentes partes da África, a força primordial da criação é concebida como a "serpente cósmica", uma das criaturas mais amplamente encontradas nas diversas mitologias.


No começo, o poder serpentino se enrolou em torno da terra disforme, mantendo-a coesa, e ainda tem essa função. Ela se move constantemente, seu fluxo espiral pondo os corpos celestes em movimento. Seu poder criativo está intimamente associado com às águas e o arco-íris. Na cosmologia andina, as serpentes representam o mundo profundo (ukupacha).


Entre os incas do Peru, todas as coisas retornam ao útero da Mãe Terra para serem transformadas. Entre os astecas, a mãe das divindades era Coatlicue, que dá a vida e a toma na morte. Nos mais antigos dias dos povos do México, a mãe Coatlicue escondia-se no nebuloso topo da montanha no país de Aztlan, enquanto seus servos-serpente viviam dentro das cavernas da montanha. Desta casa secreta ela deu nascimento à luz, ao sol e a todas as estrelas no céu Representando bem mais do que fertilidade sexual, as serpentes hibernam no inverno e reaparecem na primavera. Por isso, eram consideradas pelos egípcios como a vida da terra. Nos livros dos mortos egípcios, é dito que ela oscila entre amar e odiar os deuses. Por este seu aspecto duplo, era usada para representar poderes sagrados benéficos e hostis. Quando benéfica, estava protetoramente ereta, como na fronte dos faraós.


Quando hostil, era a serpente Apófis, que diariamente ameaçava o sol em sua trajetória noturna. As divindades-cobra eram sempre femininas. De registros do antigo Egito, sabemos que a imagem da cobra era o sinal hieroglífico para a palavra "Deusa" e que a cobra era conhecida como "o Olho", uzait, um símbolo de insight místico e sabedoria. Na tradição aborígine australiana, o poder do sangue menstrual é designado e identificado mitologicamente como uma grande serpente. Esta força semelhante ao arco-íris, de cor vermelho-sangue, é entendida como característicamente maternal.


Na mitologia da terra de Arnhem, no centro-norte da Austrália, "tornar-se um arco-íris" é um encanto menstrual. A serpente representa, simbolicamente, o poder criador universal manifestado pelo sangrar da mulher. Descrita como amante da água, detectora de odores, envolvendo as mulheres e, acima de tudo, amante de sangue, a serpente "não é outra coisa que o poder simbólico da ‘inundação’ ou do ‘fluxo’ das mulheres".


- copiado de Alta Sacerdotisa (Texto extraído do livro Rubra Força – Fluxos do poder feminino – de Monika von Koss)

sexta-feira, abril 01, 2011

O ENCONTRO ESPERADO



" A mulher tem em si uma sabedoria, uma espécie de sabedoria inata, um catalizador único de realização. "


(...) "A mulher está de si potencialmente ligada ao conhecimento e à sabedoria."


(...) "A mulher realizada tem a "maitrise" da dualidade e ajuda o homem a transcende-la. Enquanto que o homem tem acesso ao conhecimento, que é sobretudo, vontade."


Etiènne Guiellé