"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, abril 05, 2011

A FUGA AO LABIRINTO…


O CULTO DO RAPAZ BONITO

E O ADOLESCENTE GREGO…

VERSUS MODA MULHER/RAPAZ (BONITO)


“O rapaz bonito é uma censura à mãe natureza, uma fuga ao labirinto do corpo, com as suas lúgubres entranhas, o seu útero sombrio. A mulher é o miasma dionisíaco, o mundo dos fluidos, o pântano ctónico da procriação. Atena, diz Campel não estava “corrompida pela prosaica sisudez de um compromisso heterossexual com a mera existência”. Sim, a mera existência é de facto recusada pelo idealizante estilo apolíneo. Um divino privilégio dos homens é o de criarem ideias mais grandiosas do que a natureza. Nascemos na indignidade do corpo, com os seus infatigáveis movimentos internos empurrando-nos minuto a minuto em direcção à morte. Mas o apolinismo grego, ao congelar a forma humana numa absoluta exterioridade masculina, representa o triunfo do espírito sobre a matéria.


Quando mata a Piton em Delfos, o umbigo do mundo, Apolo detém o curso do tempo, pois a serpente enrolada que trazemos no abdómen é o eterno movimento ondulatório da fluidez feminina. Todo o rapaz bonito é um Ícaro ascendendo para o sol apolíneo. Mas se ele foge do Labirinto, é apenas para se precipitar no mar de dissolução da natureza. Os cultos da beleza têm sido persistentemente homossexuais, desde a antiguidade até aos salões de cabeleireiro e casas de alta-costura dos nossos dias. O embelezamento profissional das mulheres às mãos dos homossexuais masculinos é uma espécie de reconceptualização dos factos brutos da natureza feminina. Como fin de siecle oitocentista, os estetas são sempre homens, nunca mulheres. No lesbianismo não existe nada que se assemelhe à adoração grega pelo adolescente. A grande Safo pode ter-se apaixonado por raparigas, mas tudo indica que ela interiorizava, mais do que exteriorizava, as suas paixões. (…) É por demais evidente que o lascivo deleite do olhar não existe no erotismo feminino. O idealismo visionário é uma forma de arte masculina. Uma esteta lésbica é coisa que não existe. Mas se existisse seria a partir da perversa mente masculina A intensa busca da beleza através do olhar é uma forma apolínea de rectificar a vida no nosso corpo, nascido de uma mãe.


Suspenso no tempo, o rapaz bonito é uma fisicalidade desprovida de fisiologia. Ele não come, não bebe nem se reproduz. Dionísio está profundamente imerso no tempo – ritmo, música, dança, embriaguez, gula, orgia. O rapaz bonito flutua como um anjo acima do turbilhão da natureza. Também no judaísmo os anjos desafiam a feminidade ctónica. É por isso que o anjo, embora sem sexo, é sempre representado como um jovem do sexo masculino. As religiões orientais não têm nada de similar aos anjos de pureza incorpórea, e isso por duas razões. Primeiro, porque um “mensageiro” (angelos) ou mediador entre humano e divino é para eles algo desnecessário, já que consideram que as duas esferas são coexistentes; e segundo porque no Oriente existe uma relação harmónica e simbolicamente equivalentes entre o feminino e o masculino – o que não significa, contudo, que isso tenha contribuído para melhorar o estatuto da mulher.


O rapaz bonito de faces coradas representa a frescura emocional, a Primavera. Ele é a afirmação parcial acerca da realidade. É exclusivo, é um produto do gosto aristocrático. Ele recusa a superabundância da matéria, o útero da natureza feminina que devora e cospe as criaturas. Dionísio, dissemos nós atrás, é Múltiplo, sempre mutável e que tudo abarca. A totalidade da vida é Verão Inverno, floração e devastação. A Grande Mãe, simultaneamente benévola e malévola, representa ambas as estações. Se o rapaz bonito é branco e rosado, ela é o vermelho e púrpura das suas fauces labiais. Ele representa uma desesperada tentativa de apartar da imaginação a morte a decadência. É a forma a separar-se da criadora-de-formas, a natura naturata a sonhar-se livre da natura naturata. Qual epifania, criada pelo olhar, ele aglutina a pluralidade na fugaz visão do único, tal com o faz a prórpia arte.”


Camille Paglia in Personas Sexuais pag.s 127/8


A MULHER ACTUAL


Este texto, cuja leitura para mim se baseia numa interpretação cultural do nosso mundo por uma escritora acutilante e cultíssima, escreve de uma perspectiva global e abrangente sobre a história e a arte, a partir dos opostos masculino-apolíneo e feminino-ctónico. E é a sua visão particular de como essa separação funciona no nosso mundo cultural de facto, com a qual eu não concordo em muitos aspectos, embora o que eu queria aqui destacar e do meu ponto de vista pessoal é ver como esses aspectos aqui focados estão patentes e se reflectem nos relacionamento entre as ditas "personas sexuais" (que somos todos), mas particularmente entre a mulher e o homem de hoje. Para mim o que é mais curioso ou espantoso é ver como a mulher com quem eu falo e conheço…se anula a si mesma e em muitas circunstância que não são só o casamento, nessa pretensão e vontade do homem de a transformar num rapaz bonito (a Moda), quer do lado mundano, social comum, quer também no lado espiritual new age através dos conceitos de uma pretensa nova espiritualidade, que transforma igualmente as mulheres em anjos, (rapazes bonitos e puros). Também esta "nova espiritualidade" continua a negar a mulher original e a negar-lhes a feminilidade essencial, ctónica, na forma dos seios abundantes, nas formas arredondadas ou na gordura, (tirando a pornografia que procura sempre aviltar a mulher e representa a posse e o ódio do homem à mulher e a vontade de violação -agressão) como até mesmo lhes retira as entranhas e aí muito particularmente toda a ciência se encarrega de limpar as mulheres das suas vísceras. Quando a medicina "preventiva" lhes arranca o útero e os ovários e mesmo as seios, com a maior das facilidades, está a obedecer a esse imperativo do mundo apolíneo que abomina a mulher e a natureza. Fazem-no, dizem, para “prevenção” das doença do colo do útero, e forçam-nas a tomar desde cedo toda uma série de comprimidos e artefactos para esconder ou interromper a menstruação, afectando todos os processos naturais da vida da mulher e os seus ciclos, começando pelos anticoncepcionais de que a mulher é escrava para não engravidar…e ter de obedecer como cobaia a todos os apetites do homem sobre o seu corpo-objecto-rapaz-bonito. Portanto o rapaz bonito, seja ele homossexual ou não, é o modelo inconsciente de beleza da nossa sociedade e admirado por homens e mulheres.


Esse rapaz bonito enquanto homossexual (ou não) recusa a sua mãe (por excesso de afecto ou por carência) – ou o ter sido concebido por ela - ou quer ser ele a mãe …como se a mulher fosse de facto e apenas um animal reprodutor que já deixou de ser a esposa e a mãe para ser agora, apenas uma barriga de aluguer.


Estão as mulheres conscientes disto?

Não…nem as mulheres comuns nem as mulheres que se julgam emancipadas e livres pois essas são as que melhor correspondem aos padrões da moda homossexual. Elas continuam submissas ao modelo, ao cabeleireiro, ao estilista, ao médico, ao astrólogo, ao padre antes, agora ao guia e mestre ou ao guru…


Nesta sociedade falocrática a mulher sofre todo o tipo de doenças que são o resultado da repressão do seu ser feminino e a recusa em ser mulher em todas as suas formas e utilizar o seu poder interior, o seu saber intrínseco para não perder justamente o quê? O falo, a famosa inveja do pénis que Freud percebeu sem perceber que a mulher tinha sido primeiro desventrada pela inveja que os homens tinham do útero …É a mulher sem Útero que inveja o falo e se cola ao rapaz bonito…ou ao velho rico que lhes permite ter acesso ao rapaz bonito em que ela se transforma, acedendo à moda e aos símbolos de poder. Ver o culto da "bunda", cada vez mais pronunciado, especialemnte no Brasil …

rOSAlEONORpEDRO

2 comentários:

jozahfa disse...

Sem comentários...

Rosa Leonor disse...

Jozahfa!!!

Este é um livro que você devia gostar...

obrigada e seja bem aparecido!!!

rosa leonor