"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

sexta-feira, abril 08, 2011

O QUE CANTA A NATUREZA?


As profundezas do ctónico acordando numa mulher sensível sensitiva e plena...a sua voz ecoa das entranhas da terra e dela mesma... Mulher pioneira da voz das mulheres, da voz intensa que deixa marcas e é eco de milhares de mulheres que não puderam dizer-se e que hoje apenas algumas se identificam e se libertam...

...QUANTO MAIS MALDITA...

MAIS ATÉ À DEUS/A



"Agora de madrugada estou pálida e arfante e tenho a boca seca diante do que alcanço. A natureza em cântico coral e eu morrendo. O que canta a natureza? a própria palavra final que não é nunca mais eu. Os séculos cairão sobre mim. Mas por enquanto uma truculência de corpo e alma que se manifesta no rico escaldar das palavras pesadas que se atropelam umas as outras – e algo selvagem, primário e enervado se ergue dos meus pântanos, a planta maldita que está próxima de se entregar ao Deus. Quanto mais maldita mais até o Deus. Eu me aprofundei em mim e encontrei que eu quero vida sangrenta, e o sentido oculto de uma intensidade que tem luz. É a luz secreta de uma sabedoria da fatalidade: a pedra fundamental da terra. É mais um presságio de vida que vida mesmo. Eu a exorcizo excluindo os profanos. No meu mundo pouca liberdade de acção me é concedida. Sou livre apenas para executar gestos fatais. Minha anarquia obedece subterraneamente a uma lei onde lido oculta com astronomia, matemática e mecânica. A liturgia dos enxames dissonantes dos insectos que saem dos pântanos nevoentos e pestilentos.

(…)


A minha fome se alimenta desses seres putrefactos em decomposição. Meu rito é purificador de forças. Mas existe malignidade na selva. Bebo um golo de sangue que me plenifica toda. Ouço címbalos e trombetas e tamboris que enchem o ar de barulhos e marulhos abafando então o silêncio do disco do sol e o seu prodígio.


Quero um manto tecido com fios de ouro solar. O sol é uma tensão mágica do silêncio. Na minha viagem aos mistérios ouço a planta carnívora que lamenta tempos imemoriais: e tenho pesadelos obscenos sob ventos doentios.


Estou encantada, seduzida, arrebatada, por vozes furtivas. As inscrições cuneiformes quase ininteligíveis falam de como conceber e dão fórmulas sobre como se alimentar da força das trevas. E o eclipse do sol causa terror secreto que no entanto anuncia um esplendor de coração. Ponho sobre os cabelos o diadema de bronze.


In Agua Viva – clarice Lispector

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