quarta-feira, abril 20, 2011

Será que hoje existe uma “Lealdade Feminina”?





EU PENSEI MUITO ANTES DE PUBLICAR ESTE TEXTO...
EU REFLECTI MUITO EM TUDO O QUE AQUI ESCREVO, MAS O DESAFIO FOI MESMO PUBLICAR INDEPENDENTEMENTE DE MAGOAR OU FERIR SUSCEPTIBILIDADES E CONCEITOS...


Durante anos e anos as mulheres traíram-se umas as outras pelo amor de um homem...fosse o pai, o marido, o filho ou o amante...
Durante anos e anos as mulheres traíram a confiança umas das outras para obter a atenção e os favores de um homem...durante anos e anos as mulheres traíram a melhor amiga para conseguir um emprego ou um lugar de destaque na firma ou nos bastidores de qualquer palco…
Durante anos e anos as mulheres traíram a sua essência e foram piores do que Judas na vida umas das outras...sempre prontas a denunciar a incriminar a mandar para a fogueira as suas rivais…as mais ousadas, as mais bonitas, as destemidas, as mulheres corajosas e as que se atreviam a quebrar as algemas com que a sociedade e as religiões as agrilhoou…
Como é famoso o antagonismo entre irmãs ou amigas por causa de um homem…entre a nora e a sogra…Como é velha a disputa entre a mãe e a filha por causa do amor do pai…como é extenuante a rivalidade das mulheres do cinema e das telenovelas aos puxões de cabelos umas as outras e entre as actrizes…e como os homens gostam e perpetuam isso…

Em séculos de repressão e perseguição pelas religiões, as mulheres foram sempre as maiores aliadas dos homens e dos padres…por medo e intriga, por um lugar na missa ou na sacristia, no bordel ou na fábrica… foram durante anos e anos as mulheres as maiores inimigas umas das outras…durante anos e anos as mulheres viram na outra mulher a inimiga e a rival que lhe iria roubar o homem…e elas tudo fizeram para destruir essa outra mulher por quem se sentiam ameaçadas sem saberem que a “outra” mulher era ela mesma na sua outra face…que ela era afinal a sua face ignorada, esquecida e calada durante anos e anos…séculos…e que a “outra” era apenas a sua face de mulher reprimida de mulher reduzida a mero objecto de prazer e procriação, ao serviço do macho.

Será que hoje as mulheres se dão conta dessa separação e desse ódio?
Será que hoje existe uma “Lealdade Feminina”?

NÃO! Ainda hoje li o testemunho, entre outros, de uma mulher que sentia essa traição na pele da parte de outras mulheres e que as retratava com os mesmos sentimentos de repúdio e acusação pela sua “infidelidade” e traição à amizade…

Não, as mulheres ainda não são livres nem amigas, capazes de trocar o abraço de um homem para serem fiéis a si ou a uma outra mulher ou à Deusa, à sua revelação ou à sua manifestação, trocando esse velho mito do Príncipe Encantado e do amor romântico...essa escravidão ao Senhor por amor de si mesma e das suas irmãs…
Não, de forma alguma. A verdade é que esta não é ainda uma realidade e que as mulheres se continuam a trair e a trair as suas irmãs com o medo de perderam uma boa cama ou o abraço de um homem, uma posição social que lhe dá um falso valor e que as nega como indivíduos…
As mulheres continuam a fazer tudo pelo “amor” de um homem, sujeitando-se o obedecendo aos seus caprichos e ordens… Elas são incapazes de dar um passo para se amarem a si mesmas em vez da obsessão do macho…e do amor que as há-de salvar do vazio de si mesmas!

Como eu hoje vi e confirmei, as mulheres continuam a ser as inimigas umas das outras. Por isso eu não creio na lealdade feminina; para haver lealdade feminina a mulher tem de se conhecer primeiro e integrar a “outra”, a mulher-sombra, essa outra que ela só vê fora…
Por isso essa dita “lealdade feminina” tão desejada e já esboçada como um ideal, não se pode manifestar, a não ser nessas poucas e raras mulheres que se dão conta dessa dicotomia em si e começam a perceber que essa velha inimizade e intriga – criada pelos homens e pelo sistema falocrático que as dividiu assim para poderem reinar – foi o que as impediu de evoluir e criar laços profundos com outras mulheres, e assim começam a ser capazes de se darem sem medo de perder o parceiro e abrem-se umas as outras sem esse velho pavor de perder o homem ou o seu emprego ou mesmo a sua reputação; medos que as dominavam por inteiro há décadas…
Mas são raríssimas as mulheres capazes de abandonar o homem pela carreira ou que fazem uma escolha sua de viver a sua vida de acordo com os seus sentimento e emoções. Sim, são tão poucas as mulheres capazes de serem elas por inteiro e de serem fiéis a si mesmas!


Poderia perguntar se não será este o tempo de as mulheres deixarem de lutar por “eles” e procurarem em si mesmas as respostas e saberem qual é o seu verdadeiro caminho? Poderia perguntar se não será tempo de as mulheres se unirem umas as outras, indo ao encontro da sua alma, para a união com a deusa e ao encontro consigo mesmas - integrando a sua sombra que não é mais do que essa “outra” mulher em si repudiada (seja ela qual for a face em que se reconheça na diferença) …
Mas não, não vejo maneira de as mulheres deixarem de lado essa divisão interna das duas mulheres cindidas e opostas: vejo sim como continuam a negar a sua essência e a liberdade de serem o que são, e como continuam a seguir o caminho do masculino e as ideias que os homens têm sobre elas…
Até mesmo por vezes em caminhos supostamente do Feminino Sagrado, elas se traem por um homem ou se negam e a deusa é apenas mais um pretexto para serem mais atraentes e sedutoras, para se exibirem…não que isso seja um erro, mas continua a ser pelo motivo errado…a caça ao homem… a sua eleição e dependência do sexo!

Vejo, com grande mágoa, que o que existe de facto, na sua grande maioria, são ainda as mulheres, que incapazes de renunciar ao amante ou ao marido para serem elas próprias, se continuam a trair a si e às outras mulheres! Elas negam-se o direito à sua própria vida, desconhecem o que seja a sua verticalidade e ainda usam todos os estratagemas para conseguir ou manter a seu lado um homem a qualquer preço, mesmo ferindo outras… e continuam escravizadas ao sexo porque essa dependência lhes assegura uma garantia de promoção social ou de sobrevivência económica …
Tantas mulheres que continuam dependentes dos maridos que as violentam e dos amantes que as humilham ou exigem condutas e que as tratam mal ou com desprezo…

Não, por mais que me pergunte e anseie esse tempo de ver as mulheres conseguirem vencer essa velha inimiga fora, que é a “outra”, não vejo como elas possam vencer essa paranóia de perseguição e ódio da outra mulher; o que percebo é que elas não querem mesmo ver que afinal essa “outra” mulher vive dentro de si também e que sempre foi parte de si – porque ela não é mais do que as duas faces de uma mesma moeda…Elas não querem ver sequer que essa separação, que tanto ódio gerou, tanto sofrimento causou, e até mortes, é apenas uma velha e gasta história secular, a história da mulher séria e da mulher desonesta (a santa e a puta…) e que embora sendo uma velha e triste história que os pais e os padres lhes contaram desde pequeninas, elas escolhem não ver que ambas são vítimas do sistema e continuam a apostar na diferença entre as mulheres e a viver essa rivalidade que as divide em duas espécies…

E se alguma mulher me estiver a ler e sinta a indignação pelo que eu afirmo…afirme-se aqui e diga que a sua vida é diferente e que ela se escolheu a si mesma e que faz parte já dessa “Lealdade Feminina”…

…eu adorava saber…se alguma de vós, é capaz de ser e de dar tudo de si para ser acima de tudo uma Mulher Inteira.

rosaleonorpedro

3 comentários:

Marizei disse...

Olá Rosa,

realmente se quer que fale a verdade, não há nenhuma lealdade feminina !!!
Por muito que se queira passar que as mulheres são unidas só por serem mulheres e porque ser mulher é maravilhoso transcendente, mas a mulher, apenas se une de vez em quando, enquanto pretende algo e logo logo depois se desune ...

Sim creio que posso dar tudo de mim e ser uma Mulher Inteira.

Margarida Gonçalves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
jozahfa disse...

Uma quadrinha do Quintana diz:

Dizem-se amigas, beijam-se,
mas qual, haverá quem nisso creia?
Salvo, se uma das duas, por sinal,
for muito velha, ou muito feia.