sábado, maio 28, 2011

NA MINHA IDADE...


Leonor,

Estive a ler a sua divagação sobre a passagem dos anos, o que nos sucede, os sonhos e desapegos forçados. Essa solidão de estarmos sós. É verdade, em certa medida, mas não se pode estar só quem tem uma visão como a Senhora Leonor (Senhora, porque é uma senhora. Uma Mãe. Uma ROSA vermelha, muitas rosas vermelhas uterinas.) Entristeceu-me que tenha ousado pensar que ninguém a AMOU. Isso parece-me impossível. Foi AMADA, concerteza não conseguiu enxergar. Talvez fosse intensa demais, exigisse algo que não podiam comportar dentro de si. Concerteza que a procuraram por si, como pessoa que é, para que exprimisse o seu potencial. Foi AMADA sim. É AMADA ainda. Talvez quem a AMOU tivesse um destino e por isso partiu, e não foi por abandono e muito menos por outro alguém; talvez apenas por não conseguir espelhar/devolver o que aspirava ou não saber conciliar mundos ou fragmentou-se.

Eu amo muito, e nunca tive talento para o mostrar. Poucas vezes na vida não tive dores no peito. No dia em que, eu, AMAR sem dores no coração, serei livre. Diria que durante estes anos, a vida nunca me ofereceu alguém com quem pudesse serenar o coração. Daí, veja como a solidão pode ser feroz a partir deste ponto de vista, também.

Fico feliz, quando diz que a vida já a libertou do peso de uma imagem física. Espero daqui a muitos anos, poder dizer o mesmo com toda a simplicidade. Nessa altura, você já não estará cá, para poder dizer-lhe.
Gostaria que pensasse que houve quem a AMOU. Amou como pessoa. Talvez pense na Senhora muita vez.
Costumo dizer que a vida por vezes é ingrata. Há destinos muitos difíceis.

«As almas bonitas nunca perdem o brilho, podem é ficar difusas algumas vezes; mas sempre voltam a brilhar quando a desordem passar...»

Um beijo
M.

(…) “Apesar de todas as amizades, sempre na vida estamos sozinhos; o que é mais grave, mais doloroso, exactamente como o que é mais belo, passa-se apenas connosco. Entre um homem e outro homem (entre um ser humano e outro ser humano, diria eu) há barreiras que nunca se transpõem. Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor: o que temos pelos outros. De que os outros nos amem nunca poderemos estar certos”.

Agostinho da Silva






Minha querida:

Gostava de começar por lhe dizer que a mim sempre que amo dói-me o peito …
Nunca deixou de me doer porque eu nunca deixei de amar…e portanto ou dói mais ou dói menos, consoante o amor em questão ou o objecto do nosso amor… mas o coração dói sempre quando se ama de verdade, seja alguém seja alguma coisa, animal ou ideal…

Porquê, perguntará, tão estranho paradoxo…Amar devia dar alegria e prazer e felicidade, de acordo com os conceitos do mundo cor-de-rosa que nos querem impingir as revistas e os filmes de Hollywood…porque será então que amar faz sempre sofrer quem ama?

Eis uma resposta que não virá nem mesmo no fim de uma vida…e se formos no sentido do que você diz… “a vida nunca me ofereceu alguém com quem pudesse serenar o coração”, eu dir-lhe-ei que o amor é sempre inquietude, ânsia e dor…a não ser que falemos de outro Amor que não é de ninguém, que é eterno e talvez por isso, porque ansiamos um amor eterno, o amor terreno, seja ele do que for, nunca nos dá paz… O que nos dói minha querida, é sentirmos e sabermos haver esse amor em nós e ele não encontrar lugar algum, alguém, colo, seio ou ombro onde repouse e se possa dar, porque nem homens nem mulheres, pais mães irmãs ou filhos, nos podem amar como ansiamos ou temos necessidade; nunca encontraremos esse amor em alguém, um amor que nos serene o coração e nos dê paz;  e era nesse sentido que eu queria dizer que ninguém me amou… nesse sentido eu sei com certeza que ninguém me pode amar. Isto pode parecer complicado…No entanto é claro que me amaram…pessoas e animais…Cruzaram o meu caminho seres excepcionais a quem agradeço do fundo da alma, mas amores, amores, de um amor assim como sonhamos, são só ilusões e enganos de uma juventude embora outras vezes o prolongamos. Não digo que ainda hoje não esteja lá esse "bichinho" a querer picar-nos…é um vírus poderoso…ninguém está livre de apanhá-lo…mesmo a cair, como dizemos aqui, a cair do tripé …quando se é muito idoso...enfim, o que não é ainda o meu caso!
Isto é complexo de facto...falar em líbido ou desejo ou mesmo da idade. Porque como sabemos nada se perde e tudo se transforma. Sim, é mais de uma transformação, de uma plenitude o que eu falo. No entanto a verdade é que eu cheguei a um ponto em que já não creio nesse amor mas noutro Amor. E nem eu me sinto velha...apenas não posso querer ser jovem e pensar seduzir alguém...ou ter sonhos que já não são de facto para a minha idade... e nisso os anos ajudam e o corpo ajuda mais ainda, porque ninguém ama hoje o “velho e o feio”... embora se diga que a alma não tem idade etc. e eu seja  uma interessante “sexigenária”...como me dizem...(estou a brincar consigo, mas é verdade!)

Sim, diz bem, concerteza que houve pessoas que me amaram…e eu amei…mas houve na minha vida um destino diferente, talvez cruel como diz, não porque a vida seja ingrata…mas porque há coisas que só se podem entender à luz das memórias que temos, memórias de vidas passadas…porque essas memórias estão sempre por perto da nossa vida aqui…em fragmentos, sonhos, vislumbres em que já não somos quem pensamos mas outra que já fomos ou seremos…e tudo o que ficou suspenso e por resolver aparece e nos parece castigo e pode ser apenas justiça …

Sim, isto pode parecer-lhe muito complicado hoje porque é jovem ainda mas quem sabe um dia, quando eu já cá não estiver se lembre então de mim, dessa Senhora que diz que sou e uma Mãe, mas que nunca foi ”Mãe” na carne, mas sim “Uma ROSA vermelha, que deixou “muitas rosas vermelhas uterinas” por aí…

rosa leonor pedro

2 comentários:

Gaia Lil disse...

Senhora eu não sei como poderia falar isso mais sinceramente sem que soasse exagerado ou eufemistico mas todas nós que lemos o seu blog a vemos como uma face da Deusa, como uma Matriarca e eu mais particularmente quero agradece la por todos os momentos em que me ajudou com suas palavras de conforto e sabedoria, que eu creio foi duramente obtida durante os anos. Quando amo também me doi, me arde por dentro como um fogo que vai queimanda as beradas do meu ser, que vai queimando minha alma e que ao contrário de outras paixões não se estingue...Sempre volta aarde o amor, sempre volta a a arder a Deusa no nosso coração. E eu digo que a amo o mais profundamente que posso dada as circunstâncias e agradeço todas as suas palavras de conforto ou ajuda nos meus pequenos dilemas internos. Diante do amor da Deusa todo dilema e problema parece coisa menor e insignificante, quando comparado ao leite que s bebe de peito da Mãe...
Rezo a Deusa para que ainda viva muitos anos em sua plenitude e sabedoria, ainda que egoista possa ser esse desejo de querer que continue entre nós, quando a muito me parece já pronta para ser recebida nos seios da Deusa despida de de todo o ego humano.

Ana Nazaré disse...

Eu sinto algo no coração , muito quente, por este blog, pela autora!! Eu amei minha mãe porém o que sinto aqui é muito diferente (o que sinto tbm por Maria Nazareth de Barros, Bonnie Kreps, Riane Eisler, Germane Greer, Merlin Stone,Maron Woodman, Robert Johson ) É um misto de fé com amor , eu não sei oq é . Nós não fomos amadas como mulheres pois fomos destruídas...!!!!!!!!!!!!! Todas nós sentimos falta de amor pois onde está nossa identidade? Mas nós podemos resgatar , é este agora meu propósito de vida