"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, julho 05, 2011

A MARCHA DAS "VADIAS"...


Acontece que quando eu falo da integração das duas mulheres na mulher, a união da santa e da prostituta, por assim dizer, referindo-me aos dois estereótipos principais em que o patriarcalismo dividiu e sujeitou a mulher durante séculos, eu não quero com isso dizer que todas as mulheres agora terão de se comportar como “prostitutas” ou “vadias” - para utilizar o termo recente dado à manifestação das mulheres no Canadá e no Brasil - pois não é numa mudança de vestuário ou de atitudes, provocar os homens ou despir-se na rua (como foi queimar os sutiãs na década de 60) ou pedir aos homens que não lhes digam como vestir… (porque normalmente eles fazem a moda que elas seguem ou instigam-nas a despirem-se para a Play Boy…e pagam-lhes bem!) que se vai mudar alguma coisa!


Não é desta maneira igualmente provocatória e ostensiva, por reacção à provocação - pois estamos a responder aos seus conceitos e preconceitos sem os banir - que as mulheres vão afirmar essa união interna das “duas mulheres” nem restabelecer o seu valor nem a sua autonomia nem o respeito que merecem…Não faz sentido estarmos a despir-nos como não faz sentido seguirmos as modas ditadas por estilistas gays, porque isso é obviamente um absurdo tão grande como o foi durante anos e anos as mulheres mais sensuais, ou mais sexuais, digamos, terem de se comportar como virgens ou santas de altar, senhoras bem comportadas, de acordo com os ditames da sociedade e negar a sua natureza profunda acentuadamente erótica e…sexual.


SER uma Mulher Inteira não quer dizer agora voltar as coisas ao contrário…e a ”assumir” a puta ou a lésbica, porque não se trata mesmo de ser esta ou aquela, pender para este ou aquele lado. Nem as mulheres domésticas virarem estilo prostitutas com lingerie de bordel e apetrechos de plástico supostamente estimulantes sexuais para os maridos. …Não, nada disso! Não é fora mas dentro da mulher que essa metamorfose tem de acontecer e não é excluindo uma trocando-a pela “outra”…que se vai mudar alguma coisa; é sendo completa e não negar nenhuma das suas facetas…sejam ela a maternal ou a erótica (hetero ou homossexual) sendo essa integração ou assimilação da mulher total algo a realizar dentro e de dentro para fora e não o contrário.

Antes de tudo, e o que urge agora, mais do que nunca é as mulheres integrarem em si todas as facetas do seu SER FEMININO reprimido ou omisso sem obedecer a qualquer estereótipo redutor ou idealização religiosa ou mística que os homens projectaram sobre elas durante dezenas e dezenas de anos…

Os homens quiseram e dividiram as mulheres nessas duas categorias básicas: uma esposa casta e discreta em casa e a “outra”, na rua ou no bordel, descarada, vadia e provocante que servia para satisfazer os seus desejos sexuais de acordo com os seus apetites…E isto foi tão longe quanto possível nas suas variantes…

Aparentemente talvez já não se distinga uma senhora de uma prostitutamas os conceitos e os preconceitos e o julgamento da mulher que não seja “séria” (ou católica) prevalecem… E se agora as mulheres casadas pensam que todas têm a liberdade das “outras” seja das prostitutas de rua ou das acompanhantes modelos ou das actrizes da moda, influenciadas pelos filmes e telenovelas, vão fazer essa enorme confusão não percebendo que não vamos além do absurdo deste oscilar dos extremos e que mais não são do que uma mera inversão dos valores…e não a sua transformação e dignificação.

O que eu defendo como integração das duas mulheres é o equilíbrio natural desses dois lados da mulher, é a assimilação do sexual erótico ao mesmo nível que o afectivo maternal, como expressão do seu ser e não como qualidades ou defeitos, lados que nunca deviam ter sido separados pois não podemos dizer que estes são os dois lados da mulher mas apenas dois aspectos dos muitos aspectos da sua manifestação afectiva e emocional de acordo com a natureza de cada uma. E a mulher total e integrada não precisa obedecer a nenhum estilo nem moda nem programa, moral ou ideal…mas viver sem medos nem preconceitos, em plenitude e liberdade, sempre de acordo consigo mesma e aquilo que sente!   

Penso sinceramente e a risco de ser condenada pelas feministas em geral, que não vale a pena o confronto directo com o Sistema, não vale pena a exposição das mulheres em público ou em manifestações. Porque o que acontece, com estas manifestações é o perigo de não percebermos o pouco dignificante que é responder aos homens (polícias, padres ou políticos) dentro da sua própria linha de ataque que é gerado dentro do Sistema patriarcal, e inerente a ele, criando mais atrito. É não ver que este ataque à mulher partiu e parte ainda de um inconsciente colectivo activo que vê sempre a mulher como culpada, a culpada da Queda do Homem, e que vem do fundo do uso do seu poder e domínio através das religiões e estados, e que nunca darão à mulher a sua liberdade interior de SER. Fazê-lo é pois entrar em mais uma luta sem tréguas e sem saída…porque nunca ganharão nada por esses actos de insurreição, para mim puramente gratuitos.


Ai é que reside o grande equívoco das mulheres de hoje, como aliás já foi o erro das feministas, não verem que, em termos de obterem uma igualdade de direitos com os homens, não era isso que devolveria à mulher a sua dignidade nem a sua totalidade, mas sim, uma questão muito mais profunda que tinha a ver com a mulher em si e a sua essência. O caminho da Mulher tal como do homem de hoje já não é o materialismo nem a economia de mercados ou o consumo exacerbado…

O caminho da Mulher e do Homem é agora o encontro consigo mesmos a nível individual. Mas a mulher tem ainda um trabalho maior pela frente pois foi desviada da sua natureza intrínseca e não se conhece como mulher…  

Sem mudar o Sistema e este Paradigma vigentenão vai haver benefícios nem valorização do SER MULHER em si. E se as mulheres quiserem mudar alguma coisa AGORA comecem por mudar-se em si mesmas, comecem por SE ASSUMIREM E AFIRMAREM quem são interiormente, pelos seus valores, unindo-se a outras mulheres, fazer as pazes com a Mãe, a irmã e a rival… É aí que começa o verdadeiro Trabalho, num processo de consciencialização individual a sério feito com a ajuda de outras mulheres em pequenos grupos e em círculos, de mãos dadas e não viradas de costas umas para as outras, cada uma a lutar pelos seus interesses, a sua família ou o seu negócio….

Rosa Leonor Pedro  

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