"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

sexta-feira, agosto 05, 2011

MULHERES e amantes de si mesmas...

AINDA O MEDO DAS MULHERES DE SI MESMAS
E DAS OUTRAS MULHERES

...UMA IMAGEM QUE CHOCOU O MUNDO -
EM VEZ DE SE  INSULTAREM DUAS MULHERES DE HOLLYWOOD  BEIJARAM-SE EM PUBLICO NOS ÓSCARES...

….Sempre fui muito apaixonada e intensa com as mulheres, se calhar elas não gostavam da minha intensidade...muito mais intensa do que com os homens...estranho mesmo... Ao contrário das mulheres a que a Rosa se refere. Como se elas fossem a minha imagem no espelho, alguém que me compreendesse realmente em tudo, algo que nunca encontrei em homens...naquelas coisas que só as mulheres podem compreender...não sei se me faço entender...é complicado...


É complicado Sophia...
Mais tarde havemos de falar melhor, digo ao vivo, dessa intensidade de SER MULHER que só encontra eco no espelho de outra mulher. Esta é uma questão essencial e também de difícil abordagem, por isso, torna-se muito difícil para as mulheres veicularem sentimentos e emoções. Elas estão de tal modo centradas e formatadas para viver só a sexualidade, uma sexualidade que não é sequer a delas, viradas exclusivamente para os homens e o seu (deles) prazer, que nem sabem que o fazem em detrimento de si próprias. Elas não têm consciência de si no sentido ontológico nem da sua própria sexualidade sagrada. Porque foi isso justamente o que sistema ao longo de séculos anulou na mulher afastando-a da sua essência. Assim, as mulheres não sabem lidar com as suas emoções nem se conhecem intrinsecamente e facilmente negam a intensidade de emoções que não partilham com os homens, completamente bloqueada e distorcida nelas, e menos ainda a conseguem vivenciar com as mulheres, o que poderia ser uma ajuda para as desbloquear… Elas podem fazer terapias e massagens, mas aproximarem-se emocionalmente de outras mulheres isso as assusta porque sendo a emoção de cariz erótica elas não se sentem à vontade diante da intensidade emocional de outra mulher...têm medo e o filtro da ideia redutora de uma sexualidade grosseira, leva-as a temer uma aproximação homossexual. Às vezes desejam-na mas isso ainda as afasta mais.

Na verdade eu sempre senti como tu dizes; a atracção substancial, visceral quase pelo mundo feminino…o meu universo é e sempre foi essencialmente feminino e de facto também nunca encontrei nos homens a intensidade emocional ou nem sequer essa dimensão da emoção-sentimento…porque como também sabemos, da mesma forma que a mulher é desviada de si na sua essência, preparada para se dar-servir e vender-se ao homem, o homem também é à partida desprovido de sentimentos e emoções, o que cria esse grande fosse entre os sexos opostos…As sexualidades são no homem de resolução fácil e rápida…nas mulheres difíceis e elaboradas. O corpo de desejo de um e de outro diferem muito na intensidade…Os homens não suportam a intensidade das mulheres, a sua insatisfação…e têm pavor de ficar mal na fotografia então vá de estragar e denegrir o desejo da mulher e assim, a que passar das suas marcas e limites é tem um só destino: é puta…
Hoje em dia pode-se contestar em parte esta afirmação mas…Nós sabemos…um homem não chora e a mulher chora por tudo. O homem é sensato e racional, a mulher é uma histérica!

Basicamente aqui está a perfeita ilustração de como o sistema manietou ambos os sexos no seu interesse programado para a procriação (criação de escravos-trabalhadores) exclusivamente e dispondo ainda da mulher para a colocar ao serviço das pulsões violentas e de descarga dos homens (controlando a revolta e o sentimento de frustração) oferecendo-lhes as mulheres-prostitutas para que se vinguem delas na sua cólera contra a Mãe e o Mundo ou a sociedade e o regime que os oprime…
Na China e na Índia, matam as meninas ao nascer ou abortam ainda as filhas…Hoje já faltam mulheres e o sistema acaba por prostituir meninas escravas para controlar a ira e o vazio dos homens, que vendem as próprias filhas e as irmãs…
E em muitas partes do mundo ainda são as próprias mães que incitam as filhas à prostituição ou se não…as forçam a casar com homens ricos como antigamente os pais vendiam ou trocavam as filhas por vacas e rupias…carneiros?

Mas deixando a ignomínia desta história e voltando a intensidade da Mulher, essa busca de espelho que a mulher não encontra sequer na mãe…porque a mãe nega a filha e elege o filho – só o filho varão é o filho, como se a filha e isto é uma memória atávica que perdura nos nossos dias a nível inconsciente, não passasse de um útero para encher ao serviço da espécie (e que espécie – quem está a mulher a servir?) e sujeita a todas as vicissitudes…A mãe sabe isso e foge da filha que sabe vai só sofrer e ser anulada como ela…Então a filha volta-se para o pai “bondoso” à procura da mãe…e nega a mãe em carne e osso; prepara-se para servir o seu “propósito” de fêmea exclusivamente e esquecer quem é… Tudo está sob controlo…da psique masculina, do ideal patriarcal, desde Zeus, o senhor que controla ainda o nosso mundo arquetípico…até ao deus pai todo-poderoso dos católicos que continua a perseguir e matar as mulheres em nome da sua fé…

Voltando de novo a essa intensidade de que falas, esse fogo peculiar que a mulher vivencia na Grande emoção de Ser Mulher, a grande Mística do feminino, quando está em contacto com a sua essência, a mulher que descobre essa intensidade em si e a manifesta-expressa a outra mulher e lhe espelha essa intensidade ou mesmo o seu amor solidário (devia dizer lunar?) ambas podem ficar confusas e uma delas preferir fechar-se a si e à outra mulher que lhe espelha uma emocionalidade reprimida; ela prefere reduzir-se a si e à sua vida a uma sexualidade genital e depois refugiar-se na maternidade compulsiva onde acaba por castrar o filho….e repudiar a filha...

Ela não conheceu o amor da Mãe nem da irmã…uma outra mulher é-lhe estranha…como ela é estranha para si mesma…

Realmente isto nada tem a ver com sexo à partida e seria demasiado redutor trazer aqui essa consideração embora não seja, a um outro nível, totalmente descartável, porque a homossexualidade existe, mas não é obrigatória em todas as relações nem em todas as emoções partilhadas entre mulheres por mais intensas que estas sejam. Estamos a falar de amor entre mulheres sim, mas de
Amor e não de sexo. Sexo não é amor…e pode haver sexo com amor e sem amor. Mas nem sempre a atracção por outra mulher por parte de uma mulher significa sexualidade ou desejo sexual. A sensualidade existe nas relações e na vida…a sensualidade emoção erotizada existe no amor mais “puro” (deploro o termo porque não há amor impuro a não ser quando tomamos por amor a relação abjecto-abjecta quando vivida como mera descarga do macho, com violência e pelo abusador). Lamento mas o Sado-masoquismo é uma manifestação mental doentia de negação do amor e da consciência ontológica… e não me venham dizer que é a liberdade nem o prazer o seu mote…ou que a natureza-instinto é violenta – não comparemos o lado instintivo humano com o animal porque há uma grande diferença!).

Na verdade o que se passa é que há séculos e séculos que a mulher e a mãe e a natureza são violadas…A Mãe é negada ao homem e à mulher na sua dimensão maior e na sua condição humana. E porque o homem e a mulher não conhecem o amor da mãe nem da irmã, (sem ser nos moldes de um domínio e sujeição da mulher e onde pode haver afecto, mas não igualdade) não podem sentir nem partilhar dessa intensidade feminina excessiva e intensa…a não ser que uma mulher nasça com essa intensidade e isso a faça romper esses condicionantes, o que é o meu caso e talvez o teu…Sophia…ou da Ana V., mas, o pior ainda, nos nossos dias, é que como tudo é pautado por uma baixa sexualidade, não vendo as pessoas na sua vida, regulada por padrões medíocres, mais do que sexo nas relações entre as pessoas, vão projectar isso também entre sexos iguais, sem discriminação nem compreensão dos profundos sentimentos que podem unir os seres independentemente dos sexos… E quantas mulheres e homens não foram empurrados para uma homossexualidade forçada só porque amavam e sentiam profunda emoção entre pessoas do mesmo sexo?
Nós todas passamos por esses confrontos e fomos perseguidas…
Tu porém casaste e tiveste filhos…uma filha de um mau casamento, típico, e um segundo, atípico talvez de quem tens um filho…A Ana também. Mas eu não. Não casei nem tive filhos. A minha experiência de vida forçou-me a concentra-me exclusivamente nessa intensidade e a descrevê-la…em poemas e textos, livros… Eu passei por todos os confrontos e vivências na senda única do SER MULHER e na busca de encontrar o sentido e a expressão cabal dessa intensidade.
A conclusão a que agora chego é que as mulheres que não se encontrem a si e a essa intensidade de mulheres, a esse amor delas mesmas que se reflecte nas outras mulheres, não estão preparadas para viver a sua totalidade…Aí quando muito, como mulheres crianças que são, voltarão à procura da Mãe na Deusa e serão apenas as filhas… e o seu comportamento com os homens será o mesmo…e de competição com as outras mulheres!

Este aspecto da mulher ser una em si e capaz de se exprimir sem medo é dos mais complexos; este como outros que referem as emoções mais profundas e ainda mais quando se trata de emoções, ou atracção entre os seres, direccionados culturalmente apenas para o casal procriador, têm sido escamoteadas e analisadas de um ponto de vista redutor que é a visão rudimentar da filosofia patriarcal, e principalmente dos místicos que não só baniram a mulher e a Deusa como condenaram todas as suas expressões de amor e paixão com diabólicas e que uma ciência e uma psicologia em geral, já materialistas que só tiveram basicamente em conta os aspecto do conhecimento linear, o lado racional e o empírico e só agora – fim de sec. XX e princípio do sec. XXI - começa a enveredar por uma maior abrangência do universo humano e cósmico…

Ora nós temos de inovar, ainda que indo buscar aos confins da nossa memória a nossa ancestralidade, temos de trazer algo de novo ao universo da mulher e do homem…Mas a nós mulheres compete-nos não escrever sobre os homens, mas escrever a parte da história que não foi escrita por nós e em que sofremos todo o tipo de conceito e ideias absurdas acerca do que é ser mulher, acerca do que é a nossa sexualidade e do que são as nossas emoções. Nós temos todo um trabalho inédito pela frente e não temos recursos nem história do nosso lado…Somos pioneiras. Só nos temos a nós e a nossa coragem de finalmente sermos quem somos com toda a ousadia e afirmarmo-nos sem complexos!
Para isso precisamos umas das outras…não como amazonas…não como revolucionárias, mas como fiéis dignitárias de um Poder imenso de Amor em nós.

rlp

2 comentários:

Anna Geralda Vervloet Paim disse...

Oi Rosa, concordo contigo em tudo,exceto quanto a(...)"e voltando a intensidade da Mulher, essa busca de espelho que a mulher não encontra sequer na mãe…porque a mãe nega a filha e elege o filho – só o filho varão é o filho"(...)Escrevi um poema, FEMININO SER,que transcrevo aqui

A primeira vez que senti a Essência Feminina
Não foi quando peguei minha primeira boneca
Nem quando começei meus ciclos de sangue
Nem quando coloquei meu primeiro salto
Meu primeio baton
Meu primeiro sutiã
Nem quando dei meu primeiro beijo
Nem quando deitei com meu primeiro homem
Nem quando pari meu primeiro filho.
A primeira vez que senti a Essência Feminina
Foi quando vi minha primeira filha
Boca botão entre meus seios
Sugando o leite sangue de nossas ancestrais
Vi o reflexo das avós
De minha mãe
De mim
No espelho do róseo corpinho
Feminino em flor
E assim floresce a Essência
O Mistério Feminino
Abençoadas sejam todas as Mães
Abençoadas sejam todas as Filhas
Elos da mesma corrente
MULHER

Porto Alegre,07/11/2009

Senti uma ligação profunda com o feminino através do nascimento de minha 1ªfilha,como coloquei no poema, e para terminar penso que haverá um tempo em que as mulheres reconhecerão que todas somos uma
em nossa origem, e espero que este tempo esteja sendo construído agora por todas nós, e por cada uma,quer seja através de palavras ou de pequenos gestos.
Sempre coloco meus poemas pois é a maneira com que melhor me expresso, não sou muito boa em prosa...

(...)Olho no espelho e revejo meu reflexo
Vejo uma mulher
Vejo muitas mulheres
Vejo a Deusa
Pois de um jeito homozigótico
De uma forma univitelina
Só uma Mulher sabe de outra
Só uma Mulher conhece outra
Só uma Mulher conhece seus Mistérios
Que nos vem desde as cavernas
E nos é sussurrado pelas avós
Minha Alma-Gêmea é feminina
É a Deusa
Cada Mulher
São todas as Mulheres
Sou Eu...
04/11/2008

Abraços

Rosa Leonor disse...

Oh Ana, claro, só as mulheres que nasçam com a força das feiticeiras...com a memória do dom da deusa...que se relacionam com o seu feminino sagrado podem sentir o significado do que é o nascimento de uma filha e aceitar a filha como uma benção, mas é evidente que eu não estou a falar de nós mas das milhares de mulheres como referi no mundo que rejeitam as filhas e isso é muito comum, e pouco consciente normalmente...mas a prórpia filha sente e isso reflecte-se na sua vida! Como falo do mundo em geral não fiz a menção dos muitos casos de mães que adoram as filhas...e saiem do quadro da compulsão patriarcal. Mas regra geral, note é assim memso. Mas abençoadas as mães que reconhecem e amam as filhas!Obrigada Ana por comentar!
abraço rl