segunda-feira, janeiro 23, 2012

“A erótica é um gesto sagrado"


"Num mundo desnaturado que confunde genitalidade e sexualidade, depois sexualidade e e erotismo, o (verdadeiro) erotismo ou melhor a Erótica permanece reservada, hoje como ontem, hoje mais do que ontem, a uma elite. A Erótica não é este desespero que os humanos confundem com Amor quando eles lançam cegamente uma ponte sobre o seu próprio vazio, para não enfrentar a sua ausênica, em relação a uma imagem que eles próprios criaram sem disso terem consciência”
(…)

Eleger a mulher e fazer a sua elegia num cântico erótico-místico,  é facilmente razão para o sorrir escarninho de mal dizer ou de maldade gratuita tal como é vulgar acontecer da parte de quem entende estas questões apenas à superficie, quando mais  procurar a dimensão do feminino sagrado e ao mesmo tempo denunciar o aviltamento a que ela foi votada no aspecto social e sexual e sendo ainda a mulher como é “Vítima da selvajaria, da brutalidade, do Horror sem nome da nossa Época". ** Mas,  mais estranho ainda é ousar evocá-la na sua grandeza e beleza e ao mesmo tempo falar da sua realidade concreta,  o que significa estar  portanto sujeita da parte de quem me lê sem entendimento verdadeiro à mais banal das vulgaridades ou mesmo abjecta torpeza.

Sim, nestes dias de caos sem nenhum sentido estético nem ético, dias da mais completa alienação do ser profundo, em que só se vive e propaga uma sexualidade vazia e mecanicista, sei que não é nada comum, bem pelo contrário, evocar a essência do sagrado que a mulher em si transporta e mais a mais sendo eu própria mulher - e em vez de denegrir o meu próprio sexo na outra mulher, como fazem em geral as mulheres - faça a sua apologia e forma amorosa... Facto que leva quase sempre a  essa banalidade  do "senso comum" a fazer confusões generalistas e para que não se confundam as dimensões, esclareço mais uma vez que faço a apologia da mulher na sua dimensão ontológica, metafísica e do feminino sagrado e não exclusivamente do seu corpo  ou da sua sexualidade, seja ela qual for e por motivos de mera “preferência” sexual…
Porque para mim,  


“A erótica é um gesto sagrado fundamental, que não se ensina, que não se transmite, ele brota do mais profundo do SER, para além dos tempos, do Querer estendido em direcção ao Real”.**

Aqueles que não conhecem o Ser “Real”, o interior e o íntimo do seu ser, e portanto a dimensão da sua Alma (anima) não podem compreender o êxtase nem a contemplação nem a revelação do feminino sagrado. Assim como o não podem abranger aqueles/as que se resumem a ver o ser e mais propriamente a mulher com uma visão redutora de cariz social e económica, quer ainda pela análise psicológica. Nem a mente nem o intelecto podem abranger a dimensão ontológica e sagrada do Ser Mulher e muito menos ainda os seus Mistérios. Aliás a sociedade contemporânea vê e olha o indivíduo a partir das suas neuroses e doenças e não a partir do Si mesmo, porque na verdade o ser humano está muito longe desse Ser Real, seja ele homem ou mulher, mas é a mulher que sofre directamente uma cisão fundamental na sua psique desde há milénios. E se todos os dramas começam no pai e na mãe...é natural que negando à Mãe a sua dignidade, tenhamos uma sociedade iminentemente neurótica e descompensada, anormalmente violenta.
Perderam-se nos séculos muito dos mistérios e dos arquétipos fundamentais  que explicavam o inconsciente e a sociedade de hoje,  cartesiana, do penso logo sou, perdidos os mitos que explicavam as emoções e comportamento não esteriotipados,  inventou e vive das doenças... As pessoas explicam-se pelas suas neuroses...Por isso temos de retomar as origens e o sentido ancestral de Ser Mulher e não continuarmos a olhar para a Génese cristã...onde toda a cisão da mulher e a sua culpa começa...E ver que,
“A mulher é por essência a animadora e a inspiradora,
É ela que faz jorrar a iluminação no coração do homem
E o homem tendo-se tornado consciente exprime-se como poeta,
Comporta-se como cavaleiro e age como Mago.
Mago-sacerdote que celebra um culto de que a mulher se torna Deusa.
A Mulher tornando-se ela, a sacerdotisa de um Deus
Que só pede abandono, liberdade e mistério.”**

Normalmente a mulher quando é elevada de algum modo é-o apenas pela sua elevação "moral", católica, tendo sido considerada como Musa para os poetas românticos e a inspiradora para muitos escritores…e ainda a Virgem para os religiosos, a anima para os psicólogos, tal como refere o autor aqui citado. No entanto há sempre a outra mulher, aquela que não é eleita, a desgraçada a prostituta e que é sim negada e denegrida...tendo apesar disso havido cortesãs e concubinas famosas pelas sua influência junto de um "grande homem"ou memso um Rei...

Efetivamente assim foi durante séculos. Contudo, como mulher, pela minha própria experiência, relevo que hoje é a mulher, como antiga representante da Deusa  e sacerdotisa da  Grande-Mãe e não do Deus-Pai, não pede só abandono e mistério, mas é também a guerreira que aje e quer defender a sua vida dos dois lados do seu SER, e assumir o andrógino - porventura Lilith a primeira mulher -  que ela mesma é.  Ela esqueceu a Deusa Mãe e a Amante Consagrada pela Deusa que ela foi, obrigada a esquecer-se de si mesma em função do pai e do filho, e ao anular-se a si mesma perdeu a sua identidade para viver em função exclusiva do homem-deus-pai, quer como musa inspiradora, mãe de família ou dona de casa ou ainda a virgem no altar ou a prostituta na rua…

Sendo mulher eu própria, muito deve estranhar o “vulgo” que eleja a mulher para o meu canto quer na minha poesia, quer na consciência que aqui partilho com outros seres todos os dias...O meu único fito é elevar a alma (a começar pela minha!) e o feminino por excelência quer na mulher quer no homem ao seu expoente máximo, sabendo que sem isso não chegaremos a nenhum lado. Sei também, estou plenamente consciente disso,  que não será tarefa fácil nestes dias que correm, de tremento laxismo do corpo e do sexo, o extremo oposto do  antigo puritanismo, consegui-lo fazer pois tudo se confunde com genitalidade  numa tremenda e quase abjeta vulgarização do Eros em que já se  não  destinguem os sentimentos mais elevados dos sentimentos mais abjectos...
Contudo, mais do que nunca, a Nova Mulher Sacerdotisa de um Novo templo, ela mesma, a mulher emergente, “a mulher que vem do futuro”,*** não é já só o complemento do masculino, quer no plano prático quer o plano místico, mas essencialmente ela é chamada a realizar a sua própria complementaridade, aquela que une o yin e o yang em si mesma e pede um parceiro igual, não separando os dois lados de si para viver apenas uma sua metade, e a outra reflectida no “outro” eternamente. Do mesmo modo que a mulher, também o homem terá de assimilar o seu feminino interior e integrá-lo e não ser só activo e poderoso, ou “afemininado”, para que ambos os seres e o mundo ganhem com a dimensão do verdadeiro Eros filho legítimo da Deusa Artémis unidos pelo amor do Céu à Terra e à Natureza Mãe.

Para que assim faça sentido toda a criação e toda a criatura na sua unidade cósmica ou telúrica…Para que o de cima seja igual ao de baixo, para que a não se separe a espiritualidade da matéria, nem o homem da mulher…

ROSA LEONOR PEDRO

**Thesaurus Magia de Valentin Bresle
**Citado In O LOUCO DE SHAKTI – REMI BOYER
*** Poema de Mariana Inverno

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