Hoje
acordei a meia da noite, como vem sendo meu hábito…e fiquei a pensar em como se
confunde tão facilmente os estados de alma, os estados do SER com a
sentimentalidade, com as emoções básicas e superficiais. Porque as há ou são
essas e não as outras que predominam. A mesma coisa acontece com a dor…Não
podemos confundir a dor com o sofrimento…A dor da alma ou a dor do Ser nada tem
a ver com o sofrimento que tantas vezes é mero orgulho ou estupidez humana…apego
e vaidade, na maioria dos casos. É óbvio que não falo aqui do sofrimento pungente vivido
na pele das pessoas que têm fome e vivem na miséria ou que vivem qualquer tipo
de violência ou em guerra, para que fique bem claro.
Esses
estados de alma que nos mergulham na essência do ser, nada têm a ver com o
estar apaixonada por alguém, como alguém me sugeriu ontem para meu espanto…não
que eu não compreenda a questão humana…Não. Eu sei que esse é o foco das
mulheres todas…apaixonar-se é tudo o que sabem fazer para sentir vida e
amor…mas da mesma maneira que caiem (fall in love) literalmente no amor…do
outro, da mesma maneira se enterram no vazio cada vez maior ou no desespero de
perda ou no sofrimento cego do apego, à medida que esse “amor “ se esvai…nos
trai nos engana e violenta…E justamente eu escrevia, a meio da noite…que todos
os acasos “amorosos” são mais ou menos e
ao fim de um certo tempo, enganos…consentidos e alimentados pela nossa mente e
pela nossa cultura. E a maneira como as pessoas estão neste mundo, nomeadamente
as mulheres, apegadas à ideia obsessiva do amor do outro…como complemento que
colmate o seu vazio de mulheres divididas, leva-as a acreditar em décadas de ficção
cor-de-rosa e romances de cordel, a acreditar que esse amor é real e existe…e que
existe algo em comum entre homem e mulher que os torne felizes…quando afinal
décadas de engano e ilusões não provam nada disso, bem pelo contrário;
assistimos agora á grande derrocada de todas essas fantasias e ilusões ditas amorosas.
A razão disso é que finalmente caminhamos para o encontro com o indivíduo, com
o ser em si, com a alma…por isso nenhuma relação é viável e as pessoas
continuam a forçá-las até à indignidade até à violência… E, à medida que
envelheço, estou cada dia mais consciente de que as relações são quase sempre
uma mentira senão mesmo uma espécie de promiscuidade…Sim, uma espécie de promiscuidade
do ser consigo mesmo ao aceitar vivenciar a sua intimidade no seu corpo sem que
a sua alma seja tocada e tocar o corpo do outro sem tocar a sua alma. Porque
nunca ninguém nos toca a alma, a não ser no caso da “alma gémea” a existir uma
alma gémea ou irmã…Mas nem nisso eu creio. A alma gémea é mais uma ilusão fantasmagórica
projectada pelo indivíduo tal como o mito da felicidade, tal como a ideia do
amor a dois…Claro, esta é apenas a minha visão pessoal…a minha experiência
humana…
Deixo
que pensem à vontade o que quiserem, e podem até discordar…e ficar chocadas com
o que eu digo, mas creio que só as mulheres próximas da minha idade e da minha
geração…diria, me compreenderão. Deixo às mulheres mais jovens a legitimidade
de terem ilusões e desilusões e sofrerem como bem lhes aprouver…até se
encontrarem a si mesmas e livre. Eu só falo por mim.
Tenho
o privilégio de na minha idade e no meu percurso ter-me libertado da tendência
viciante de CAIR na…ARAMADILHA comum a todos os seres e manter a minha
integridade e o meu discernimento acima das malhas da ilusão que nos aprisionam
aos mitos…e mesmo que alguém me atraia particularmente e isso pode sempre
acontecer…eu sei que é um ECO da minha natureza mais profunda e felizmente e
graças a minha Consciência e Caminho Percorrido eu já não caio…porque não me
foco nem me fixo em alguém para SER EU e AMAR-me…Esse é ainda o erro das grande
maioria das mulheres. Por isso sofrem estupidamente e julgam que amar é sofrer
e não conhecem a dimensão iniciática da dor que é a mola que nos impulsiona
para o caminho de dentro…para o caminho do ser individual e a sua totalidade
dentro. Essa totalidade tão urgente na caso especial das mulheres fragmentadas
em estereótipos.
rleonorpedro

1 comentários:
Sempre com reflexões magistrais e atemporais... É a primeira vez que comento aqui, pois só agora resolvi criar um blog :) Mas sou fã de suas publicações. Um abraço caloroso, minha gentil senhora.
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