"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

segunda-feira, março 05, 2012

A ANIMA



um PEQUENO CONTRIBUTO PARA ANIMA…

(ou a  minha fúria uterina…)

“Quando o arquétipo da mãe não é activado, a criança à falta dessa conexão vital, anseia por que tal suceda. (…) E o ardente desejo dessa ligação em falta pode continuar na idade adulta. Um mulher de 49 anos que participava comigo num grupo de mulheres, chorava ao falar da morte  da mãe, porque estando a mãe morta essa ligação tão desejada nunca viria a desenvolver-se.”  In AS DEUSAS EM CADA  MULHER – Jean Shinoda Bolen

DA ANIMA E DO ANIMUS…

Sinto-me cada dia mais revoltada com esse legado pernicioso para as mulheres de hoje, com as inúmeras confusões dos psicanalistas e psicólogos que fizeram escola e que mundialmente são referência...quando me apercebeo como quase todos eles nos tramaram. Falo à partida dos dois principais, Freud e Jung (mas também da grande maioria dos seus seguidores), que acabaram zangados e de costas viradas. Digamos que Freud já nem toca no assunto, mas Jung faz essa tremenda asneira de dizer que ao homem cabe a Anima e a mulher o Animus, embora de algum modo saibamos que dentro de cada um dos sexos exista o seu oposto, mas essa é outra questão, mais do domínio da Alquimia do que da psicologia em geral.

Sem dúvida que a sua anima, no caso de Jung – justiça lhe seja feita - a sua interioridade, a sua intuição, era mais notória certamente do que a das mulheres muito mais “masculinas” (regidas exclusivamente pelos valores do masculino e em conflito interno com a negação dos seus sentimentos), que na época conheceu e tratou, nomeadamente a rapariga do filme recente de Cronenberg ("o filme não inventa nada, e "é muito rigoroso". Todo ele se baseia em cartas e documentos onde Freud e Jung detalhavam "o que comiam, o que sonhavam, as suas vidas sexuais, quantos cigarros Freud fumava". E esta abertura entre eles, e com Sabrina - que veio dar "a perspectiva feminina, num tempo em que não era suposto que as mulheres tivessem uma educação ou uma vida sexual" )
  
Sabrina, personagem com quem se envolveu Jung e que sofria, como a maior parte das mulheres, do complexo de Édipo ou incesto - inicialmente atracção do filho pela mãe de acordo com o mito grego, mas a que Freud nem se deu ao trabalho de procurar outro mito que dissesse respeito à mulher - e por isso, neste caso,  resulta de um mito… invertido…ou ao contrário…não do filho pela mãe mas a atracção da filha pelo pai…E aí está de facto uma chave para a incapacidade de o homem entender ou perspectivar a Mulher fora de si. Esta noção mitológica, tão nobre e tão erudita e académica, aceite universalmente, esta visão…é afinal redutora e quase ridícula sobre o que são os complexos e os sexos…e é sobretudo no que diz respeito à mulher, uma CARICATURA de si mesma. E daí advir uma imagem caricata da mulher no seio da nossa sociedade. Uma imagem/caricatura que quase todas e  as mulheres, regra geral, intelectuais e espirituais aceitam para si e assim se definem, obedientes aos seus mestres…como o foram ao pai, ao marido ou ao padre – as autoridades vigentes – sem nunca terem percebido o fundamento da sua cisão psíquica e fragmentação anímica a que estão sujeitas desde que nascem desde há milhares de anos e cujos relatos bíblicos e outros referem escandalosamente.

Se posteriormente, à mulher, em dado momento histórico e cultural, os religiosos até lhe recusaram a Alma, os psicólogos contemporâneos colocam a Anima no homem (e o animus na mulher). Colocaram a linguagem como propriedade do Falo e do homem e o Silêncio da Mulher e de acordo com a sua própria inversão classificaram assim a mulher que do exterior e fragmentariamente se lhes oferece ao estudo ou a aversão/rejeição...

E a razão disso é nem um nem outro – no caso dos primeiros, Freud e Jung - se aperceberam de que as mulheres não se exprimiam de forma alguma ao nível da sua psique e menos ainda ao nível da sua alma e muito menos ainda ao nível do seu sexo verdadeiro... As mulheres daquela época e de épocas anteriores eram mulheres cindidas, reprimidas, totalmente fragmentadas e incapazes de assumir a sua anima, por assim dizer, a sua essência…a sua profundidade, e a sua vontade (impossibilitadas de manifestar uma vontade própria), divididas nos seculares estereótipos de santa e de prostituta, como meninas do papá, decentes e bem comportadas a ou então as ordinárias filhas de ninguém…mulheres da rua, pobres e desgraçadas que jamais entrariam nos seus consultórios. Algumas ricaças e intelectuais ou mesmo nobres que eram “histéricas” e tratadas como tal ou sofriam de esquizofrenia…Pudera…como não sofrer de esquizofrenia, prisioneiras de conceitos e com pais tarados, primatas e austeros e mães caladas esvaziadas, anuladas há séculos?

ASSIM: "A Mulher não existe" - para  Lacan

Mas o que mudou no último século?
Como é que as mulheres durante décadas – a partir do momento que acedem as universidades e ainda aos movimentos feministas – continuam a seguir fielmente os patronos da psicologia masculina, Freud ou Jung ou Lacan - Nome-do-Pai e o Falo - e Foucaul (autoproclamado homossexual, morreu vítima da AIDS em 1984) – estes últimos ambos, obviamente misógino o primeiro e homossexual o segundo…

O que é que estes homens podem discernir e aprofundar da psique feminina a partir do exterior e do conceito e pior ainda a partir do preconceito MILENAR e do dogma religioso instituído nunca posto em causa e que é no fundo a supremacia do homem e a inferioridade da mulher…

Sim, como é que estes patriarcas, pederastas e misóginos poderiam pensar ou intuir a MULHER? Se eles de facto só consideravam a importância do Falo?

E mais grave ainda como é que as mulheres podem continuar sem VER nem saber que elas foram sistematicamente alienadas da sua essência feminina, do seu sexo interno, do seu clítoris, dos seus seios, do seu útero, da sua natureza intrínseca, que elas próprias continuam a negar, por puro desconhecimento e recusa do seu lado instintivo ou intuitivo, mediúnico, de ligação às forças ctónicas e telúricas, à sua capacidade orgânica e uterina de poder interior de fazer de forma privilegiada a ligação entre a Terra e o Céu; ou seja, de as mulheres serem dotadas inatamente de uma capacidade de leitura daquilo que não é apenas racional nem lógico e do plano linear e por isso terem acesso a dimensões e estados e níveis de conhecimento que não são apenas o conhecimento meramente intelectual e psicológico e com o qual nunca chegarão a si nem ao fundo ou totalidade da sua psique. A Mulher só por si pode ir além desses 10% do seu cérebro e aceder quer ao inconsciente quer ao supra-consciente se não anular essas suas capacidades e as desenvolver de dentro. Ora acontece que de facto, é negada às mulheres essa capacidade, ridicularizada pelas elites intelectuais, para que e por essa mesma razão, dividir as mulheres entre si e em si, neste caso em duas partes…para anular o seu poder intrínseco, que representava um perigo para o domínio patriarcal religioso, e para a hegemonia masculina: e assim  ela foi desligada do útero e dos seus ovários – fonte ontológica do poder feminino e da sua expressão, e por isso se lhos tiram (os médicos)  a qualquer pretexto… por serem a fonte do Oráculo, anulando-as como videntes de um outro mundo. * (Ver nota sobre Delfos, no fim do texto)

E a partir daí os homens, quer do “conhecimento” quer da espiritualidade continuam a negar e a desconhecer essa Mulher que negam e da qual têm medo e que receiam do mais profundo e inconsciente de si mesmos…eles continuam a ter MEDO de serem engolidos pela sexo — vida – caverna – túmulo - iniciação que é o corpo Vaso da Mãe terra e da Mulher corpo e…por isso, impelidos por esse medo atávico, a violam a desprezam e a negam em todos os planos da existência. Ora acontece que o homem ao fazer isso ele também é joguete das forças de controlo que dominam o planeta e o mantém em separação e em guerra. A guerra dos sexos só existe por isso…pelo ódio e medo da mulher para que esse estado se possa reflectir também nas outras guerras de ódio e controlo no mundo.

A falta da Mãe…gera o ódio e a guerra no mundo.

 É curioso notar que em filmes de guerra assim como nos filmes de aventuras e ficção, esse padrão dominante filha/pai é mesmo nos dias de hoje uma constante subliminar…em que a rapariga heroína aparece a defender o papá, marcada com o abandono do pai ou decepcionada por ele não ser como ela o projecta ou não lhe dar a atenção que ela busca, e que acaba sempre por ser o seu grande herói, amor ou fixação…Isto é deveras estranho. É como se de facto a mãe não existisse e não tivesse qualquer importância e explora-se o amor da filha pelo pai ou fazendo o pai ser o bom da fita e a mãe bêbada prostituta ou drogada… Assim se faz, como no mito grego em que Zeus engole a deusa Metis para lhe roubar a gravidez da filha Atena que ameaça tirar-lhe o seu trono quando crescer,  Atena  acaba  por nascer saindo  da cabeça de Zeus ou da sua perna. Aí acabou o reino da Rainha Mãe para o reino do Pai. Esta é a mensagem que passa num universo masculino de culto do pai e onde a mulher e a Mãe é desprezada/anulada. Portanto, ligando essa psicologia das “profundidades” com a psicologia das massas  de hoje e a new age com os seus filmes (realizado por artistas escritores e intelectuais actuais) aos famosos psicólogos, não há dúvida que a Mulher não tem Anima nem sequer tem uma referência maternal. Ela é apenas a amante sexual potencial do pai e do amante, o futuro herói que irá preenche-la e tomar conta dela, dominando-a. Ainda há meia hora vi um bocado de um filme na televisão com a Angelina Jolie em que ela era essa mesma protagonista rodeada de homens à procura do paizinho que era um Iluminati…

E assim ficamos, nós mulheres,  apagadas da História, da Igreja e entregues aos Iluminatti…
Até quando permitirão as mulheres que assim seja?
 Rosa Leonor Pedro


* NOTA: - Oráculos Ofídios de Delfos =Útero que foi destruído por Apolo ao destruir o culto da Grande Deusa Mãe e da Terra e do conhecimento transcendente. Durante esse período que vai até ao cristianismo assistimos à fragmentação da Deusa inicial e da Deusa-Mãe/amante/sacerdotisa, às muitas faces da deusa dividida em imensos estereótipos, desde a Héstia e como eu gosto de ironizar à Aquela…e que são  todas divididas entre si e a bulha por causa de Zeus  e que hoje consideramos arquétipos, mas que apenas representam a partir de um dado período, a mulher cindida em muitas faces, a mulher dividia que resulta nossos dias ainda na dicotomia extrema entre Maria Madalena e a Virgem Maria como arquétipos da mente feminina moderna mas não como arquétipos básicos que são  anteriores ao patriacalismo – e que são os correspondentes do homem: a rainha/mãe, a amante-sacerdotisa e a  amazona/heroína …
rlp

1 comentário:

Ana Nazaré disse...

Esse filme é muito bom não pra observar as "escolas" dos psicanalistas ou a história de Jung, mas a situação das mulheres!!!!!!! Emma Jung ; a mulher "tradicional" - cuida da casa, dos filhos, chifruda : sempre lá disponível e não faz nda no mundo- e ainda sabia que seu marido tinha outra e ainda convidou a outra viver na casa junto com eles ! (não mostra isso no filme mas ver biografia sobre Jung de Deirdre Bair ). Vocês acham que uma mulher dessa estava bem ???? Imagine o quanto de sofrimento carregava essa alma! De não ser amada, de imaginar o homem que amava desejando outra ! E vejam Sabina Spielrein , agredida quando criancinha pelo pai,aparentemente sem uma mãe forte pra protege-la ; se tornou amante de Jung : entregou-se toda a ele sem ao menos significar algo pra ele ; ela mesma permitiu ferir sua própria alma !!!! pois não é só o físico que a mulher deseja de um homem, ela deseja troca emocional !!! E depois Toni Wolff, mais uma que se tornou " a outra". Uma mulher desprezando a outra: Sabina ou Toni nunca se importaram com Emma, nunca imaginaram como ela se sentiria triste por ser traída. ESSAS HISTÓRIA NOS SÃO FAMILIARES E ATUAIS : Mulheres em papéis secundários, sem possibilidade de causar admiração em si mesmas, em suas filhas ou nos homens em sua vida. Me assusta a distância que estamos do Arquétipo da Deusa, do feminino integrado !!!! Penso quantas pessoas assistiram esse filme e nem param pra pensar na DESVANTAGEM que tá a mulher nesse triângulo amoroso, a dor que cada uma delas carregou em sua alma!!! Aliás , como não temos nenhuma educação que leve em conta a mulher de fato , é capaz de assistirem esse filme e acharem que traição é uma coisa boa ainda! Isto é resultado de mulheres sem MÃE... mães que não tinham seu próprio espaço, sua liberdade, pra oferecer pra suas filhas...pra que estas tivessem a si mesmas antes de ter um homem !! Mas não ! A mulher virou um objeto, uma propriedade do homem..Ela deixou de poder viver dignamente como um ser humano!! E este ( o homem), fica como Jung, um infeliz, trai e se culpa mas não consegue parar..Pq é óbvio, como ele pode amar alguém que não ama a si mesma?????? Não existe orgulho de ser mulher, e este filme deveria ser um clássico pra mostrar ISSO ( e não a história de Jung/Freud). Pra mostrar o que causa na alma de todos a divisão da SANTA (Emma) e a prostituta (Sabrina/Tomy) e o quanto precisamos resgatar a Deusa, a mulher forte querida livre e leal, o feminino verdadeiro.