"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, junho 12, 2012

Não vem no dicionário mas devia vir.


Um grito no palácio dos sussurros.



"...As mulheres dão. Não vem no dicionário mas devia vir.

Uma mulher dá à luz ou dá a vida, dá a honra ou dá a virgindade.
A mulher dá educação e mimo. A mulher dá calor, entendimento e um inesgotável amor, a mulher dá o seu pão para que os outros não tenham fome. Dá o tempo e uma mão fria na testa para que passe a febre, o sono em troca da certeza do descanso alheio.
São as mulheres que alimentam os vivos e lavam os mortos.
Conhecem alguma mulher que retire para si o melhor bife, a maior fatia de bolo? Não há.
Quando uma mulher faz uma birra ela acaba rápido porque nas costas dela assenta a felicidade do mundo que é coisa para não se comprometer.
A natureza é tão homem que até nos deu um corpo capaz de alimentar... Não podemos fugir de quem precisa de nós. Damos leite, nutrimos. E levamos essa merda dessa premissa pela estrada inteira.
São as mulheres as maiores vítimas de engodo porque acreditam na humanidade, pois se foram elas a parirem-na? É natural.
Uma mulher que engana é puta porque isso não está no roll paper. Normal, é ser a enganada.
Não há filme ou romance que fale de uma mulher com várias famílias e já no género contrário é um cliché (honrosa excepção à D. Flor do Jorge Amado, mas essa tinha um deles morto que embora não seja problema fácil de gerir não é propriamente a mesma coisa), nessas histórias é sempre o homem que se divide entre cidades e mulheres e filhos e vidas e isso tem uma explicação simples: Uma mulher entrega-se tanto que não existiria hipótese metafísica para o fazer a dobrar. Só se uma fossem duas. Não é possível.
Damos tudo. Até a história da nossa vida em troca do nome do outro.
O limite da anulação.
Há muito menos mulheres presas por homicídio passional .
São menos os casos de violência doméstica perpetuados por mulheres.
Ou de pedofilia.
Nós não somos assim e ponto final sem dois primos apensos a criar dúvida.
Por mais que estudemos, sejamos infinitamente eficazes profissionalmente ou com desvelo aumentarmos a nossa erudição, seremos sempre a mulher de soldado ou de pescador que aguenta a solidão, a fome, a luta inteira sozinha e no fim abre as pernas para se completar.
É essa a nossa minha condição.
Mas também é verdade que ninguém pode esvaziar-se de si em troca de nada.
São muitos exames de fim de semestre, muitos ordenados em atraso, muitas birras, muitas ausências, muitas pequenas e desconcertantes coisas que desafiam a minha força. Muito medo de me perder de mim mesma.
Muitas as vezes que o carro não pega e que durmo sem uma palavra de alento.
Muitas as vezes em que o que mostra entender é coisa fraca comparada ao que entendem dela. Às suas necessidades.
Ser mulher é antever as dores dos outros de camarote e descer sem medo de cair para salvar. Ser mulher é dar por mal empregue o tempo em que se dorme porque é tempo em que não se cuida.
Dar, dar, dar. Com medo de pedir não vão os outros melindrar-se. De porta de dentro trancada.
Olha, escancarei-a e saí a gritar e quero lá saber se algum dia irão à minha procura.

 - Mas vais sozinha?

 -Vou. Afinal foi sempre assim que andei."

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