"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

quarta-feira, maio 01, 2013

MORRER É TÃO NATURAL COMO VIVER


A Eutanásia
(REPUBLICANDO)

A ideia de suicídio ou de crime associada à eutanásia suscita indignação e repulsa na maior parte das pessoas apavoradas pela ideia de morte antecipada. É natural que para algumas pessoas sem qualquer noção de morte ou do seu significado profundo queiram agarrar a vida para além do sofrimento e da “indignidade” da doença. Há sempre uma esperança de “vida”... mesmo com oitenta ou cem anos! Antes, as pessoas morriam de velhice ou doença, mas agora as pessoas ficam indefinidamente amarradas a uma cama ou ligadas a uma máquina... para manter essa esperança “de vida”, certamente aos familiares. Ou cria-se um novo dogma que é o imperativo dos impérios farmacêuticos: vender a todo o custo mais medicamentos e máquinas! Faz-se tudo para impedir a pessoa de morrer naturalmente... Agora, vamos enfrentar a ideia oposta, o contrário...ou o extremo oposto.
O equívoco tremendo a que a ciência incorre em reduzir a vida e a morte a umas opções científicas e morais dá lugar aos maiores conflitos e pior do que isso à grande alienação do espírito ou de Deus... Não Deus como castigo, mas como justiça suprema que não entendemos. Não Deus como todo-poderoso e misericordioso e outros slogans da Igreja, mas o Deus origem de vida e de tudo na terra e arredores...que os humanos andam em vão a bisbilhotar, ou seja, a olhar para o quintal do vizinho e não tratam do seu...
Eu sei que isto parece pequenino, mas os paradoxos humanos é que são de estarrecer.
A minha ideia é que poucas pessoas têm consciência do valor intrínseco da vida em si ou da qualidade da sua vida em essência. O apego e a posse quer à vida fictícia que se criou e não a vida em essência ou seja aos bens que se acumulam uma vida inteira, levam as pessoas a identificarem-se com o exterior e pouco com a sua essência que desconhecem. O prazer aleatório, a fuga à dor, ou ao peso da consciência adormecida como busca de felicidade ao nível superficial, cria outro grande equívoco: considerar o sofrimento inútil ou indigno. A essência da vida está muito além da forma física e da aparência de tudo que consideramos ser a realidade ou a felicidade. Não é apenas uma questão de fé ou de crença, mas de consciência de que o ser humano é mais muito mais do que a sua corporalidade ou o seu intelecto.
A Alma é essa essência invisível que só a experiência directa do nosso ser confirma e nos dá, não a esperança de continuidade, mas de perenidade. Se assim fosse, e esse é o ponto de evolução individual que devia também ser social senão dos especialistas da doença que são os médicos em geral e cuja maioria não tem consciência nenhuma da consciência ou do espirito ou da alma como partes integrantes do nosso ser, muitos desses problemas deixariam de existir. A ciência redutora e impotente como é, só pode buscar soluções exteriores ou sejam técnicas e mentais... Na medicina não há cura para as doenças mas remédios. E nos remédios, há mais efeitos colaterais e portanto mais doenças do que as que são naturais e a Industrias farmacêuticas vivem dessa atrocidade que é vender a todo o preço mesmo a custo da vida…e sem qualquer interesse pela vida humana. São máquinas de dinheiro que só se interessam com o poder e domínio das suas empresas. ..
E Porque a ciência ignora o espírito ou a essência do ser, debruçando-se apenas sobre a substância e a matéria, não pode tecnicamente responder às questões essenciais que fazem dessa ignorância o drama humano. O médico não é senão um técnico sem formação humanista nem psicológica adequada, e por isso não pode lidar com a morte, o grande ritual de passagem da substância à essência, tal como o nascimento é passagem da essência à substância... Um dar à Luz que é descida à escuridão quando a morte é uma subida á energia - luz - essência. O padre que supostamente depois da morte cumpre um ritual, embora alegórico, também ele é só um “técnico” ; só que baseado na crença da alma e essa é a única diferença entre crentes e ateus.
A questão que temos de nos colocar em profundidade é qual é a nossa verdadeira humanidade… e saber que ela tem de passar pela transcendência e mesmo pelo divino, uma vez que o ser humano é um todo indissociável, corpo-alma-espírito.
É desta questão fundamental, a da experiência do ser ou da sua essência que não é crença nem técnica (ou ciência), mas consciência interior da dimensão do nosso Ser e das suas partes constituintes, inalienáveis (e eu não estou a falar de órgãos vitais, como é evidente), que parte ou começa numa tomada de consciência do Si mesmo como diria Jung e também na sua aproximação científica A. Damásio, saber primeiro ou ter a consciência psicológica a que se refere aos nossos complexos e traumas, recalcamentos etc. e uma segunda, aos mitos e símbolos, referência aos arquétipos, que correspondem à consciência da Consciência, ou ao que o vulgo chama Deus. As forças cósmicas ou as energias cósmicas ou telúricas que são activadas e dinâmicas entre o interior e exterior, actuam através dessa consciência ligando-nos ao universo. O livre arbítrio ou a vontade do indivíduo é determinante na procura dessa consciência que é inata. Dá-se numa iniciação que corresponde à vontade sincera do ser humano em se encontrar consigo mesmo e quando este olha para dentro de si e no amago do seu ser. É dentro de nós que está o reino dos céus dizem todos os livros sagrados. Portanto tal como Cristo disse, “ procura e encontrarás, pede e ser-te-á dado “.
Assim, de um lado os crentes e do outro os agnósticos, nunca chegaremos a nenhum lado. A Visão é interior e dá-se na integração dos pólos opostos complementares sendo essa a grande Lei Alquímica da vida, a Pedra Filosofal dos alquimistas e que contem as respostas a toda esta temática.
Separar a morte da vida e o ser vivo da doença é um erro...
Deste ponto de vista a Eutanásia é um erro porque a morte deve acontecer naturalmente de acordo com a dinâmica que o indivíduo estabelece entre a vida e a morte e a consciência da substância animada pela essência... A sua liberdade não é escolher morrer mas Ter consciência dessa dinâmica interna-externa. Mas como nem a ciência nem a religião lhe oferecem respostas senão separando o corpo e o espírito, o ser humano debate-se com a mesma dualidade que só essa “dupla” (unida) consciência pode atenuar ou resolver. A doença está directamente conectada com a atitude humana do indivíduo a vários níveis e começa justamente nessa separatividade que causa a sisão do ser tanto a nível mental como psicológico e físico. A doença é a somatização da nossa alienação do espírito ou consequência de acções na continuidade da Existência ao nível das encarnações. Claro que a ciência não crê e os crentes não acreditam... Mas a consciência da Consciência depende da evolução interior da pessoa que integra os seus opostos ou que supera a sua dualidade e nunca do conhecimento intelectual por acumulação de informação técnica ou filosófica. Digo que o ser humano tem uma inteligência superior ao nível do coração...ou ao nível do coração inteligente e que não vem dos livros... Cristo, dizem, não tinha Biblioteca, mas era certamente Iniciado... e o seu testemunho é claro: O reino dos céus encontra-se dentro... é dentro que temos de ir. Como?
Depende de cada um procurar e encontrar!
A Eutanásia é um absurdo como fuga ao sofrimento por piedade ou humanidade quando a condição humana depende do sofrimento-conhecimento como forma de evolução. E a ciência acaba sempre por trazer mais sofrimento e guerra que paz... O reino cor de rosa da felicidade, é uma ficção neste mundo paradoxal em que idealmente o ser pensa (a Ciência) o mundo e na prática faz tudo ao contrário sem perceber esse paradoxo e persistindo nas suas contradições ente o ideal e a realidade tal como os católicos vivem separando o céu e o inferno o deus e o demónio, sem consciência dessa separação essencial. Aquilo que falta ao ser humano é a consciência da sua totalidade. Ao Ter consciência da sua totalidade a compreensão do que está em cima que é igual ao que está em baixo, trar-lhe-ia a paz que precisaria para viver e morrer em paz com a sua consciência sem medo da morte nem medo da vida! Porque a vida só se enfrenta sem medo do sofrimento. Porque há um sofrimento que é a dor de parto e há a alegria do que nasce da dor inicial. Todo o nascimento implica dor... (o simples romper da casca da nossa ignorância dói ao nosso ego... Aceitar que nada se sabe.)
Quanto aos médicos e a sua deontologia ou ética profissional também mudaria com um pouco de consciência do que lhes escapa dos seus bisturis... Nem Eutanásia nem máquinas ou o fictício prolongamento da vida. Deixemos as pessoas morrer em paz NATURALMENTE, porque a morte depende da vida e da Consciência que desenvolvemos enquanto vivemos. Sim, podem dizer-me que uma pessoa em estado terminal não pode consciencializar-se... que a devemos ajudar a aliviar-se da sua miséria, como se fôssemos vítimas apenas, sem perceber que colhemos o que semeamos.
Deixemos a morte vir por si só, ninguém precisa de a encomendar... Ela é infalível e sabe quando e como tem de vir. Quer queiramos quer não a doença é um processo iniciático, uma forma de aprender que a vida não depende de nós nem da ciência. Pode parecer absurdo mas é uma forma de humanização. Minimizar o sofrimento só é possível através do amor humano e nós sabemos que todas as doenças, e nem sei se há a excepção à regra, começa na falta de amor e como nos falta o amor tentamos a técnica... Mas nós não somos robots! Tudo o que o ser humano precisa é de uma Consciência Superior. E ela existe dentro de si...começa no Amor da vida e da morte.

Eu sei, isto parece utopia. Escravos que somos das sociedades, da produção e consumo obrigatório, como poderíamos morrer em paz se não nos deixam viver em paz ou antes, se nem sabemos o que é PAZ?

Não tem o ser humano liberdade de como o elefante escolher o lugar privilegiado para morrer com dignidade, entregue à natureza mãe porque ele destruiu tudo o que era natural. Nascemos a ferros e morremos com químicos...

Onde estará a Alma do Mundo?!

Rosaleonorpedro

In  Publicado in "Espaço & Design " - 2002

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