"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, janeiro 28, 2014

A MÃE...



UM ASSUNTO MUITO SÉRIO...

“Correndo o risco de destruir muitas ilusões na vossa cabeça, devo dizer-vos um pouco mais sobre a origem do amor da mãe pela criança. Acontece que a criança é feita da sua própria substância, e, durante muito tempo, relativamente longo, esse elo material e físico, substancial, entre mães e filho é extremamente próximo - é como se se tivesse pegado um bocado da sua carne e a colocasse à distância – e só muito tempo depois esse elo entre os dois é completamente cortado. Há uma espécie de ligação, uma sensação de tal modo subtil que a mãe sente exactamente o que a criança sente, como ela o sentiria se acontecesse em si mesma. Esta é a base física e material da ligação da mãe com a criança. É uma base de identidade material, nada mais do que isso. O sentimento vem muito tempo depois (pode até vir antes, mas depende das mulheres), mas eu falo da maioria das mulheres: o sentimento só vem depois e é condicionado. Há muitas espécies de coisas… podia falar-vos durante horas sobre esta questão. Mas enfim, não podemos misturar isso com o amor. É uma identidade material que faz com que se sinta intimamente, sentir de uma forma concreta e física o que o bebé sente: se o bebé sofre um choque, a mãe sente. Isso dura pelo menos até aos dois meses. “ - Mère

Temos aqui um texto de uma Mestra, altamente influenciada pelo pensamento do seu Mestre, Sri Aurobindo, e que estabelece a diferenciação entre o sentir da mãe pelo seu lado físico e carnal/material – como mecânico e inferior e o lado espiritual como superior a que se liga a ideia de um sentimento posterior como verdadeiro tentando subtrair valor efectivo a uma ligação de carne e do corpo da mulher à criança como uma coisa não espiritual.
Ora esta ideia de negação da Natureza e das forças instintivas da Natureza e da matéria e da vida na manifestação como ser inferior é uma ideia puramente yogui baseada na ideia de renúncia e uma visão ascética do Caminho espiritual que nega o corpo e a vida material como "baixos instintos" tendo como único objectivo de vida a ascese e a evolução da alma e do espírito, a fim de se libertar da carne e dos apegos deste mundo…
Essa ideia e pensamento filosófico e espiritual, com raízes  no pensamento hindu (e védico?), nega efectivamente a Natureza da vida na manifestação e da Mulher e do Paganismo  tido como a origem da filosofia ocidental à partida, em que a Natureza e a Mãe são sagradas; sabemos no entanto que os orientais e os yoguis de um modo geral, que consideram a manifestação, Maya ou ilusão, como ilusória, tentam a todo o transe - através das mais variadas práticas e meditações e mantras - libertarem-se do sofrimento causado pelo Samsara, originado na encarnação.

Sabemos que há uma Consciência e uma evolução e que existem os baixos instintos como existem as mais baixas e primárias manifestações do ser humano em tudo e que é preciso elevar o nosso ser   a um nível superior de entendimento e realização humana, mas a meu ver sem negar  a Manifestação e a Natureza em si nem a natureza do ser na sua encarnação, corpo-alma-espírito, e menos ainda da MÃE e da Mulher como geradora da vida humana na Terra. 
Creio que poderemos viver  na Terra em paz e harmonia e de acordo com  a alma e o espirito,  inclusive tendo em conta as  ideias mais recentes de que a Matéria é Luz e energia e que não há divisão entre a matéria e o espírito…acredito na evolução da Humanidade sem negar o corpo e os sentidos...desde que consigamos integrar os opostos complementares e ligar o que está em baixo  ao que está em cima...
É aqui que chegamos a um grande impasse que é o das religiões orientais em princípio, incluindo a cristã, em que quase todas começam e acabam com a negação da Mulher como tentação e pecado apara o Homem, a mulher como representante negativa da própria  Natureza e da Terra,   para se elevarem apenas aos valores do Céu e do Espírito.
Voltando a questão inicial,  tendo em conta a mulher como indivíduo responsável pelo nascimento da criança e a sua amamentação, porque é através dela Mãe  que passa para a criança fluidos essenciais para a formação e estabilidade física do bebé, o futuro homem e mulher, acho  fundamental no nascimento da criança, a assistência e dedicação da mãe, insubstituível por quem quer que seja… pois são precisamente esses laços físicos e materiais que são também laços psíquicos e anímicos muito importantes que formam o ser inicialmente e por mais que se queira negar ou diminuir isso em nome de uma espiritualidade que nega as funções naturais do corpo, os “apegos”, os afectos e o desejo tanto de um sexo como do outro, reduzindo o ser humano a uma única aspiração, a do mundo divino e não da Terra…
É aqui que se levanta uma grande dúvida no meu espírito…acerca de todos estes caminhos de renúncia e pureza…em nome da alma e do espírito.
Se alguém tiver dúvidas disto que me responda...

rlp

2 comentários:

Anónimo disse...

Tirei férias e estava viajando. Acabo de retornar e atualizei todas as leituras. Todas brilhantes. Bjs.
Agenor RIO.

Rosa Leonor disse...

Seja bem vindo de novo!

Bjs

rl