"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

sexta-feira, abril 04, 2014

AS FALSAS NOÇÕES TANTRICAS ...


E OS VERDADEIROS E FALSOS GURUS...
 
"Será primeiro importante dizer o que é o guru, etimologicamente guru significa "pesado", não significa mestre nem sequer professor embora seja utilizado para definir o segundo. De entre as várias definições de mestre destaco duas que facilmente refutariam o papel que Osho tentou representar:
"A pessoa sóbria que consegue controlar os impulsos da fala, da mente, da ira, da língua, do estomago e dos órgãos genitais é qualificada para fazer discípulos em qualquer parte do mundo."
E
"Um mestre é aquela pessoa que entende totalmente as conclusões das escrituras reveladas e cujo comportamento reflecte sua profunda realização. Tal pessoa é um exemplo vivo pois ensina o significado das escrituras, tanto por palavras como por actos."
Portanto, há imediatamente uma triagem que diminui consideravelmente o universo dos gurus auto-proclamados.
Bhakti é a absorção completa expontanea, na forma de amor e em pensamento na Divindade que se escolheu para adorar.
As definições de guru e de bhakti, apesar de parafraseadas dos Vedas e dos Purunas não são sectárias, são válidas tanto aqui como em qualquer parte do mundo.
Penso que a partir na última metade do seculo XX e com a globalização alguns nativos da Índia chegaram à Europa e aos Estados Unidos, oferecendo aparentemente uma via iniciática que reconciliaria a espiritualidade com o prazer sexual, o tantra. Mais uma vez e definindo, tan significa "expandir" e tra "instrumento para" , o tantra deve ser entendido como instrumento de expansão do conhecimento espiritual.
No ponto de origem, os textos tântricos são escrituras em que Shiva instrui Durga, deram origem ao Shavismo ou tantra de esquerda ; e, os textos agâmicos são escrituras em que Durga instrui Shiva, o tantra de direita ou Shakta. Posteriormente foi incorporado no tantra de direita a ideia de magia negra e o maithuna como união sexual, mas isso é um desvio filosófico.
Para praticar o Sakta Tantra e o Saiva Tantra é preciso ter um Guru e não significa, como ensinou o Osho, simplesmente um exercicio sexual. Há toda uma filosofia a ser seguida.

O principio dos ensinamentos do Osho já é um desvio do desvio tântrico. O primeiro desvio considera que toda a existência é formada da combinação dos princípios feminino e masculino Purusa e Prakrti. Os praticantes alegam que é possível harmonizar estes dois princípios dentro de cada pessoa através de um assim chamado amor, o qual é produzido por uma forma de união corpórea entre homem e mulher de acordo com a Tantra Yoga. Quando Purusa e Prakriti estão em harmonia, acreditam conseguir realizar o êxtase interno ao qual chamam Jiyante Mara ou "morto enquanto vivo" e, significa a cessação de todas as actividades físicas e mentais.
É importante perceber que Tantra Yoga é uma prática poderosa que desvirtuada, um exemplo da expressão pervertida da verdade é a teoria dos cinco Makaras (Panca Makaras) Madya do vinho, Mamsa da carne, Matsya do peixe, Mudra e Maithuna.
O significado esotérico destes cinco Makaras é: "Mate o egoísmo, controle a carne, beba o vinho da intoxicação de Deus e una-se ao Senhor Siva".
Na práctica original os aspirantes devem ser puros e dedicados e devem praticar Bhuta Suddhi, Nyasa, Kavaca, Mudra e adorar um Yantra.
Os Panca Makaras na prática original Tantrica são essenciais para adorar Sakti, no entanto não são considerados na sua forma literal.
Leite, manteiga e mel são substitutos pelo o vinho, o sal, gengibre, sésamo, alho, feijões, são substitutos pela a carne. Brinjal branco, radish vermelho, masur e sésamo vermelho são substitutos pelo o peixe. Paddy, arroz, e grão são Mudras e, por ultimo, oferecer flores com um Mudra específico é Maithuna (união sexual).
Na práctica original o esposo e a esposa estão unidos pelo Samskara do casamento e são guiados por um guru tantrico. Maithuna é feito simbolicamente e o guru enfatiza o desenvolvimento dos poderes latentes dos chakras.
Por norma, todas as pessoas acreditam num amor maior, é o svabhava ou uma qualidade inerente à Alma: a conecção divina com o Divino em Amor. Conhecendo este princípio, há sempre alguém com disposição a enganar, gurus como o Osho são o epíteto disso. Um outro princípio básico que depois é travestido no amor macho/fêmea é a bem-aventurança ou a felicidade na conexão com a Alma. A carência afectiva e de auto-confiança, a dependência emocional que é projectada numa segunda pessoa (aspectos que a maioria das mulheres possui  grandemente) , a introspecção insuficiente, são caracteristicas que conduzem as pessoas à credulidade, sem inquirir e sem aprofundar.

 Mas também é necessário restabelecer a posição de quem ensina com substracto. Negar a necessidade do mestre é uma das afirmações mais pueris e inconsistentes que existem.

Inconsistente porque numa era em que clamamos pelo resgate de valores ancestrais negamos a ancestralidade da transmissão de cultura, pela via da família e da formação pedagógica; numa era em que queremos a sabedoria e os valores dos ancestrais mas as crianças vão para a escola e batem nos professores, manipulam e agridem os pais enquanto assistem aos próprios pais colocarem os avós em depósitos de velhos. Pueris porque, colocando de lado a ideia de que a palavra mestre está muito mal representada, nas nossas vidas tivemos a presença da figura da mãe, que é o primeiro mestre, depois a figura do pai, os professores e, à medida que vamos maturando em conhecimento e inteligência, vamos encontrar mais tarde alguém que é a primeira tocha de inspiração e que vai ser a nossa referência de formação pessoal, a pessoa que está mais adiante no caminho para a meta que traçámos, e este é principio muito simples. Dúvidas não há que o mestre é o coração, Paracelso descrevia a sabedoria eterna como algo "que nasce directamente da luz do Espirito Santo" mas, para os comuns mortais, o coração pode ser o desejo, ou o pensamento, ou ainda a sabedoria, mas não será com certeza a Alma auto-realizada, é aí que entra a necessidade da bússola, no papel do mestre.
Nenhuma pessoa está sozinha e em parte alguma, está escrito ou provado que a solidão é imperativa para chegar à iluminação, pelo contrário, nós conhecemo-nos em essência pelas interacções sociais, o caminho em que nos encontramos agora já começou a ser percorrido há muito tempo atrás e as pessoas que encontramos agora já nos acompanham desde há muito tempo, em interacção de partilha e ajuda. Do ventre à morte estamos conectados uns com os outros, pessoas são gregárias, é a ontologia da sociedade, grupos de pessoas com mentalidades semelhantes agrupadas em países e em nações com tecidos sociais específicos.

Ananda Krishna LiLa

1 comentário:

Ana Nazaré disse...

Uauuu ... demais esse texto ..