"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

sábado, maio 24, 2014

EM BUSCA DA VERDADEIRA FEMINILIDADE...

COMO AS MULHERES DEPENDEM 
DO OLHAR DO HOMEM PARA SER...
 “Mas, em primeiro lugar, notemos que o que é próprio da feminilidade é não poder ser reconhecida senão por um outro. Diante do espelho, uma mulher pode achar-se bela ou feia, jovem ou velha, mas nenhum cânon estético, nenhuma referência visível poderá garanti-la acerca do que é todavia o ponto focal da questão. A feminilidade é o que é atribuído pela confissão do homem, e é importante dizer-se que a investidura do seu estatuto de desejada não repousa para ela em qualquer referência de realidade objectiva. O que o homem deseja nela só ele pode dizer se ela o possui ou não.” *
" Uma prova de que certos psicanalistas acompanharam a mentalidade da época, em que se acreditava que o homem tinha de certificar o valor da mulher.
Mas as mulheres de todas as épocas no que diz respeito à imagem, embelezaram-se também para as outras. Nos tempos modernos, muito para si próprias e não dependentes da apreciação dos homens.
Como falar do olhar dos homens….Como falar do seu inigualável efeito?…"

Cristina Simões in incalculável imperfeição
SOBRE SENSUALIDADE E A EMOÇÃO...
Talvez à partida este texto que se segue tenha aparentemente pouco a ver com a citação e comentário inicial, mas ocorreu-me que o conceito de feminilidade está sempre associado à sensualidade da mulher e a sua relação com o homem, ao desejo do homem. Nunca à sua...
Ora a sensualidade da mulher e em geral é algo bem mais vasto do que a que se relaciona apenas com o homem e em função do homem - deixando sempre subentender a atracção sexual entre macho e fêmea, sendo que a fêmea vive exclusivamente em função desse olhar e portanto em querer  agradar ao homem - mas a sensualidade não é nem tem de ser forçosamente sexual e esse é o erro que maior que se comete na análise redutora do feminino ...
AS mulheres e os homens podem ser sensuais entre si sem querer significar sexo. Há sensualidade na música e há sensualidade num jardim, aliás nos sentimos a sensualidade nos aromas, no tocar de algo suave, sem ser só o corpo físico. O erro está na publicidade maciça e na mentalidade superficial que propaga isso  e na formatação destas gerações novas (de há um século?) que vivem obcecadas por sexo apenas, a genitalidade ... mas a sensualidade é algo mais, ela espalha-se e expande-se para lá do que é comum encarar como tal. Para mim a sensualidade é a relação sensitiva e também anímica com a vida e portanto não só do corpo, mas essencialmente da alma; ela  está no prazer de sentir emoções vivas diante de tudo o que é vivo e na  expressão desses sentimentos ou nas  sensações criadas entre seres vivos partilhadas  entre todos os seres vivos, é o desfrute e prazer do que ficava nas entrelinhas e do sentir suspenso de que a poesia era a expressão mais alta e mais bela!

O que se passa justamente com as mulheres, sim, sobretudo com as mulheres, e que nos é dito desde adolescentes, quando não antes, e que é tudo o que nós lemos e é difundido através dos manuais de psicologia e nos meios audiovisuais e até literatura e arte nos nossos dias, é que a mulher só deve ser sensual para o homem e no amor sexual ou como forma de sedução  ou na cama e que ela tem de se enfeitar, "produzir" para ele e o sentido todo da sua vida é concentrado nesse objectivo e também nesse investimento. Dai a cosmética ser a Indústria mais rica do  mundo e que viva da exploração dessa "inferioridade" da mulher, baseada num conceito de Beleza artificial que faz  a  mulher viver do “olhar do homem” exclusivamente…e sem esse “olhar de vida”…a mulher não é nada…
Por isso nós mulheres estamos condicionadas num sentir restrito e pobre, redutor do nosso potencial, na direcção da relação macho/fêmea e tudo o que não seja relação sexual objecto-homem, não nos interessa muito. Somos prisioneiras desse único campo de sentir, o da nossa sensualidade por suposto e presas e condicionadas na concentração desse olhar e dirigidas para um único objecto; daí a obsessão da mulher, a sua paranóia, a sua perseguição ao homem, que vai da paixão à loucura, à total alienação de si mesma ou ao desígnio "superior", por acréscimo de ter filhos... uma casa, um carro etc.
O que eu queria pois referir aqui, ao abordar este tema, é que há uma sensualidade em toda a comunicação e vida humana se nós aprendermos a nos libertarmos desse condicionamento que é viver em função dessa paranóia e obsessão do sexo...
O facto de a mulher ter sido “destinada” ao olhar do homem como única valorização do seu ser, essa é uma das causas da falta de sensualidade na sua vida em geral e considero que  se nos abríssemos ao sentir mais lado e a toda a gama de afectos e emoções que vêm da vida e que nos possam surpreender...poderíamos ganhar sentido na nossa vida e interesse para além do sexo e do homem, casamento-filhos e amantes .
Para isso precisamos de nos abrir a uma outra dimensão do nosso SER MULHER.
No início desta abordagem o que eu queria realmente referir e salientar era em como não havendo essa emoção – sensualidade - em geral no convívio entre mulheres, não temos interesse em nos abrirmos umas às outras e permanecemos rivais e opositoras em competição do macho, porque não temos essa espectativa de amor entre mulheres (sem sexo) uma vez que a nossa emocionalidade está bloqueada à partida, e assim partimos desinteressadas e indiferentes para as situações...de convívio com as outras mulheres…
Na verdade as mulheres não nos interessam nada…a não ser por suposto se formos lésbicas, e é como se pensa dentro desta perspectiva abortada; não, não é acto falhado. É só a partir dessa abordagem que está errada a questão, bem mais complexa, pois as mulheres podem ser amigas e terem experiências emocionais profundas, sensuais para lá do sexo….
Isso é particularmente notório no facto de nunca as mulheres se focarem nelas próprias, e mesmo em conversas e assuntos entre mulheres elas serem sempre sobre os homens, o sexo o "amor" (deles) ou dos filhos ou dos animais... etc.
 Mesmo nos grupos de mulheres que buscam saídas alternativas, temos o Tantra (o homem e o sexo como objectivo) a espiritualidade (o Deus como objectivo) ou os anjos ou a evolução espiritual (o céu como objectivo) ...mas a Mulher em si e a Terra ficam quase sempre para trás...como se a Natureza Mãe e a Mulher não tivessem qualquer razão de ser…ou ligação com o SER MULHER…e tem na verdade tudo a  ver…
A Terra ignorada e a mulher ignorante de si mesma e sempre dedicada aos outros ou a viver em função de algo...vivendo em função do olhar masculino, seja do Pai, seja do filho ou do amante, mas nunca ela mesma, ela nunca irá despertar para si, para as suas emoções e a sua sensualidade em geral, PARA A VIDA EM SI e ao amor da Vida plena, sem depender de nada nem de ninguém.
O que eu queria dizer no fim é que há um Caminho da Mulher, sensual e cheio de emoção e que ele é para dentro de si, onde Ela sabe que tem esse Poder interior e que pode ser plena sem depender de nada nem de ninguém...e essa é a sua descoberta, o Coração é o Manancial...ainda fechado!
Por a Mulher ter esse Conhecimento/Sabedoria em si mesma ela foi afastada dele e dividida em duas mulheres - para que não lhe tivesse acesso e pudesse assim, ficar presa e cativa do homem, do seu “olhar de vida” (mais morte do que vida!) e ser dominada e explorada por ele. Esta divisão da mulher, esta cisão fulcral é a fonte de toda a separação dentro e fora da Mulher e  é a meu ver igualmente a causa de todos ou quase todas as doenças e males sociais, claro, ninguém quer ver isso e a questão tem sido persistentemente branqueada por religiosos, padres, sociólogos, antropólogos, escritores  e até psicólogos como vimos no inicio do texto…
Só à Mulher pode mudar isto…
 ROSA LEONOR PEDRO
*Citação de Pierra Aulagnier-Spairani -  Observações sobre a feminilidade e os seus avatares , In Desejo e Perversão Moraes Editores

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