"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

segunda-feira, julho 07, 2014

na penedia do meu peito


 

 
“…Como uma rosa é o meu coração,
abrindo as asas na penedia do meu peito…"
L.C.
(na penedia do meu peito...os penedos, os penhascos,  as ravinas e as pedras...do meu peito...)

Depois de uma conversa intensa com uma amiga…senti que me devia a mim mesma uma explicação…Essa explicação para mim mesma não é fácil…tenho de ganhar balanço e recuo…Trata-se nem mais nem menos de me por em causa (a mim mesma e não ela a mim ou eu a ela como minha leitora…) quando me é dito que: “começo a constactar um desfasamento entre o que escreves e o que sentes de facto…será a tua escrita uma forma de exorcismo das tuas sombras?”
Eu, como todas as mulheres, sinto-me sujeita a todas as reveses do sentir, às contradições e paradoxos nas minhas vivências e dos meus afectos, para não falar da paixão…que isso extrapola sempre qualquer sentido de lógica e de coerência humana…e a idade já não me permite? ou as paixões são sempre cegas…tal como o amor no plano estritamente humano, quando se fala de sentimentos e emoções  à flor da pele, e não quando ele é divinizado ou teorizado, como incondicional ou superior aos instintos, onde não existe a posse e o ciúme etc.. O que não é o caso entre os seres humanos que se atraem e que se reflectem nas suas dinâmicas e que por isso trabalham as suas sombras em conflito ou confronto quase sempre…O amor tem um plano de manifestação ao nível da psique e outro diria ao nível das essências e não podemos confundir estes dois níveis embora, o primeiro trabalhe para atingir o segundo e nunca o contrário….

Talvez por isso não há amores no plano humano ao nível da psique, que sejam pacíficos e ordenados…nunca houve…nem nunca haverá no plano da nossa humanidade…embora possam haver projecções fantásticas e sublimadas…quando alguém encarna o arquétipo em falta numa das pessoas…e aí temos de lidar com transferências e contratransferências e passar por mortes e renascimentos ao nível do trabalho alquímico que o amor sempre é, porque o amor é a OBRA máxima a atingir através de todos os planos até chegar à  Monada e elevar-se ao Puro espírito?

 Creio que o amor ao nível da alma e através do reconhecimento das almas, não havendo envolvimento energético e físico, pode ser muito pacífico, isso sim e altruísta e incondicional e sem apego, mas não quando se estabelecem laços a vários níveis de envolvimento, diria que isso e quase impossível porque lida com a nossa sombra e os nossos complexos e cristalizações. Nenhum ser humano pode ter a pretensão de se encontrar num estadio de perfeição nem de “maitrise” do seu ser inferior, digamos…Pelo menos eu não tenho essa pretensão… posso aceder estados transcendentais ou ter experiências alteradas de consciência viver estados de graça e de ressonância vibratória elevados…mas volto sempre ao meu ser tridimensional….em que o corpo a alma e espírito se unem pouco a pouco através deste processo de consciência da psique humana. Porque o caminho e a integração da psique e tudo o que implica o processo vivencial são fundamentais e inaliável no plano terreno…
Ninguém sobe aos céus sem ter vivido e integrado todos os seus aspectos psíquicos e humanos na terra…
Por outro lado nenhum ser humano vive ainda inteiramente no plano da alma, nem da essência, mas sim da psique onde todo o trabalho de introspecção e interioridade e consciencialização necessária se estabelece e visa a ligação com a alma como acontece na busca do verdadeiro self. Para a Mulher não é diferente, só que no caso da mulher ela tem antes desse processo ou a par dele perceber que ela sofre de uma cisão profunda, uma divisão na sua psique original que a impede de aceder à inteireza da sua natureza feminina à partida…o que não acontece com o homem…

Mas voltando a minha possível incongruência no meu discurso sobre as mulheres que é o que me importa hoje…direi e admito haver com certeza a olho nu, contradições entre o que prego…e o que faço…entre o que verbalizo e teorizo e o meu sentir em progressão…ou o que sinto muitas vezes em contextos e vivências que me apanham a mim mesma desprevenida do que julgo saber e tenho como referências certas…e aí…sem pretender agarrar certezas eu deixo-me ir no “erro” de me sentir contraditória por que nada é estanque e é preciso ir sempre mais longe dentro de nós e não formarmos ideias fixas sobre o que é a realidade interior de uma mulher…eu falo da mulher completa e integra quando ela consegue integrar a “outra” mulher que a antagoniza e assusta e se revê nela como parte integrante de si mesma, ela pode ter acesso de algum modo a grande parte da sua psique e fazer bem mais depressa a integração dos opostos….mas nunca antes de fazer essa integração em si mesma uma vez que ela está alienada de uma parte substancial instintiva de si mesma…
Portanto é aqui que normalmente me foco e mantenho um discurso diria algo didáctico…sabendo de antemão que o caminho da consciencialização de si da mulher, como mulher, como imperativo de género, enquanto ela se busca completar na mulher integral unindo as duas mulheres separadas em funções pelo pater, é uma coisa e depois como ente, alma e ser espiritual é outra, sem que contundo deixem de estar interligadas.

Assim, direi que como ser humano eu estou sujeita às vicissitudes da encarnação e do meu processo individual de evolução, o que me fará passar pelo “buraco da agulha” não poucas vezes e sobremaneira… no amor…e na paixão… caso ainda a vida (ou Eros) me faça cair nesse “piège” (armadilha) formidável em que as almas se afundam ou submergem …nas suas misérias e grandezas …nas suas contradições e paradoxos …entre o sagrado e profano, entre o prazer e a dor…onde talvez nasça a poesia ...
rosaleonorpedro

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