segunda-feira, junho 15, 2015

Quando as vitimas do patriarcado se tornam santas...


Maria Vieira uma menina da Ilha Terceira que no ano de 1940 foi abordada por um homem que a tentou violar, ela na luta que travou na tentativa de lhe fugir foi atacada na cabeça com um machado, tendo morrido. Parece que algumas pessoas ligadas à Igreja querem fazer desta menina vitima de tentativa de violação e de assassínio, uma santa não pela violência que viveu e que muitas outras crianças e mulheres têm vivenciado ao longo da história humana, mas sim pelo facto de ela ter dito algumas palavras antes de partir para outra dimensão, em que terá pedido para não fazerem mal ao seu assassino e que no fundo o desculpava pela violência a que foi sujeita.
Será este o exemplo que a igreja católica pretende passar da atitude que as meninas e mulheres devem ter em relação a tamanha atrocidade? Diz-se algures num jornal açoriano que a menina preferiu morrer a perder a sua virgindade e associam este crime ao culto mariano. Que sentimentos de culpa pretendem passar a todas as meninas e mulheres violadas fora e dentro de casa, a de culpadas por estarem vivas?!
Incredulidade é o que sinto pelos argumentos apresentados pelos que tentam que Maria Vieira passe de Mártir a Santa com este tipo de fundamentação.
Maria Vieira deveria ser santificada por simbolizar a inocência e a pureza de todas as meninas sujeitas a este tipo de atos violentos e desprovidos de espiritualidade. Maria Vieira simboliza toda a essência feminina que silenciosamente e invisivelmente têm sido sonegada à humanidade. O perdão de Maria Vieira ao seu agressor, deve ser visto à luz da sua inocência e credulidade, pois segundo pude ler, foi uma menina que frequentava a catequese, como todas as meninas da sua idade e o que aprendeu na vida foi a “perdoar, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido” e aprendeu o que lhe ensinaram a respeitar, os valores dominantes do poder patriarcal e por conseguinte da religião cristã pregada pelos padres.
O pedido da canonização desta menina com base no pressuposto do seu perdão ao agressor é um incentivo à perpetuação da violência física e psicológica do homem sobre a mulher, pior ainda sobre as meninas. É urgente esclarecer e chamar a tenção para o perigo que este tipo de argumento representa para a segurança da mulher. A igreja não pode compactuar com este modelo de santa que é quem prefere a morte à perda da virgindade, este não pode ser o modelo que as sociedades humanas defendem...
Maria segundo as escrituras concebeu o seu filho, Jesus sem a intervenção do homem, sem o espermatozoide fertilizador. A virgindade e a sacralidade de Maria está no facto de poder gerar um ser humano sem a participação de um homem, ela no seu útero gerou um ser sagrado sem a intervenção de um falo e de um espermatozoide. Sim, é nesta capacidade divina de gerar dentro de si o sagrado, a vida que reside a virgindade de Maria, não num hímen fechado ou aberto.
Maria Vieira é uma santa porque a divindade habita na mulher, porque como milhões de meninas e mulheres foram e são sujeitas à violência física que o poder dos homens tem tratado de desvalorizar, calar, esconder ou em última análise servir como exemplo que protege todos os violadores pois a menina, mulher séria é a que perdoa, silencia e escolhe a morte a ter que enfrentar o poder e o julgamento dos homens.
Por alguma coisa algumas partes do mundo muçulmano põe de parte considerando impuras as mulheres violadas, dizendo que a culpa é delas que provocam porque mostraram um pé, um dedo..., é este o caminho que a fé e a igreja católica quer percorrer?
A velha história da santa e da puta!... as mulheres santas não se deixam violar e se deixam são putas, escolhe!...

A todas as Marias Vieiras do Mundo, deixo aqui este texto. Deixo-o igualmente porque sinto que a mártir e espero que reconhecida santa Maria Vieira gostaria que alguém mais cedo ou mais tarde abordasse a sua história de uma outra perspetiva e com outro foco.


Ana Maria Ferreira Martins
13-06-2015

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