"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

segunda-feira, novembro 02, 2015

PORTUGAL IDENTIDADE E GEOMETRIA


O MEU TEXTO LIDO NO COLÓQUIO
(NO CONVENTO DOS CAPUCHOS)
 
MATER – O FEMININO INTEGRADO

 “No Quinto Império haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas de há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria – ou seja a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual; e o seu lado direito – ou seja o conhecimento oculto, a intuição, a especulação mística e cabalística.” - Fernando Pessoa (copiado de Templários na formação de Portugal)

O que eu me pergunto e algo perplexa é como tantos humanistas, poetas e homens sábios, de entre eles tão poucos ou mesmo nenhum se tenha lembrado da correspondência dos sexos quanto a esses dois lados do ser e em como o homem à partida, representa um dos lados, o lado racional e a mulher, naturalmente é a representante do lado intuitivo e emocional. Quer queiramos quer não homem e mulher cumprem papéis diferentes a nível biológico como cumprem papéis diferentes a nível cerebral. Por isso é muito simples e natural pensar que as duas funções são complementares e que uma sem a outra não cumpre o que é o propósito do SER HUMANO e portanto desta humanidade.

Precisamente por isso eu não entendo como é que estes humanistas, espiritualistas e até cientistas de hoje não compreenderam ou ainda não enxergaram, que o facto de a mulher se manter a “culpada”, reduzida a ínfima espécie, ignorada e ignorante da sua dimensão ontológica, impossibilitadas de viver a expressão plena da manifestação do princípio feminino, a que dá corpo, e dada a importância dos dois polos, feminino e masculino, e a urgência de equilibrar e integrar esses polos, não se tenha isso ainda em conta?  
Sim, eu não entendo como os homens continuam a ignorar ou a desrespeitar a mulher e a depreciá-la ao tomá-la por “histérica e bruxa” tal como o fizeram os santos da igreja, os filósofos e até os poetas que não elegem a Mulher, a Deusa e a Musa como fonte de inspiração e iniciadora dos mistérios do Amor, tal como iniciam o homem à vida dando-o a Luz?

Quando olhamos para a nossa sociedade actual o que vemos é uma mulher cindida em duas dando corpo a dois ou mais estereótipos – basicamente entre a santa e a prostituta, a mãe e amante de forma antagónica - e incapaz de se expressar emocional e intuitivamente dando voz ao seu lado cerebral, o direito – ou seja dar voz, como refere F. Pessoa, ao “conhecimento oculto, à intuição, á especulação mística e cabalística” sem que não seja logo acossada e ridiculizada…
Como é que esses doutos homens não viram que não há verdadeiramente uma Mística sem a Mulher e a Rainha tal como a mulher é referida e apresentado na obra alquímica, assim como não há espiritualidade sem a mulher integrada, e isso digo eu! 

 E é aqui que vos introduzo ao tema de hoje:

Mater e O FEMININO INTEGRADO, o que é?

Antes porém eu perguntar-me-ia como é que tantos autores de renome e de valor que continuam a subestimar o papel da mulher nem sequer discorrerem que a mulher ao ser minimizada e a sua natureza dividida, mantendo-se cativa dos preconceitos religiosos seculares que ainda se reflectem nos nossos dias em preconceitos vastos, impregnados de misoginia, do qual parece Fernando Pessoa também padecia quando muito novo…

Quase todos os escritores, historiadores, antropólogos, psicanalistas e cientistas em geral padeceram deste mal ao ponto dos antropólogos julgarem que as deusas de Willendorf, encontradas nas suas escavações e outras estatuetas de deusas, encontradas às centenas, representantes do princípio feminino e maternal, símbolos de fecundação e do sagrado, tal como era vivido e encarada a Deusa Mãe na antiguidade, serem para eles meros objectos eróticos à imagem do que hoje se fará com as mulheres na pornografia e na publicidade. Aí se percebe a mente tacanha do Homem em relação à mulher e se não fossem as antropólogas feministas dos meados do século XX tudo continuaria na mesma!

Em suma, eu pergunto-me estupefacta: como é que ainda hoje os homens não vêem que essa divisão da mulher em duas e a sua cisão no ocidente (sexualidade para um lado e maternidade para outro) priva a mulher da sua totalidade e idoneidade como pessoa e que ao privá-la da sua sexualidade sagrada e capacidade mediúnica, a mulher tornou-se um ser amorfo e subalterno, obediente ao homem ao querer ser e corresponder aos modelos que ele define como “ ser mulher” e os filmes e os Mídea propagam, sem que ela possua um discernimento próprio, sem capacidade sequer para ser A Mãe do Homem e menos ainda a Amante Iniciadora, a Anima, a Soror Mística.

Perante tantos autores consagrados reparo que nenhum dos autores e as suas mais prementes questões de ordem metafísica ou social se debruçam sobre o que deveria ser o papel da mulher na vida da sociedade e da história – sem a cingir ao papel de instrumento ao serviço do Sistema - partindo do princípio de que a mulher é apenas o que eles quiseram que fosse e está muito bem assim ignorada e silenciosa, num total branqueamento da mulher real e do seu sofrimento.

Sim, pergunto como é que chegaremos a algum lado sem se elevar a mulher à sua condição integral e dar-lhe o seu lugar no mundo, o lugar de mulher amante e mãe com toda o respeito e dignidade que nos merece, num e noutro papel, se ela o escolher, tanto como qualquer Mulher só e solitária merece.
E pergunto-me ainda como é que os homens, salvo raras excepções, nunca lhes tenha passado pela cabeça que sem essa Mulher autêntica, a Mulher Integral, a Mulher Iniciada, a sacerdotisa dos templos da antiguidade, a que os padres cristãos destronaram para lhes ocupar os lugares e vestir as suas vestes, usar os seus paramentos, não podem chegar a nenhum lado?
Como é que os espiritualistas de hoje pensam chegar à paz do mundo, à não-violência sem o respeito pela Mãe e a Mulher, e se a mulher continuar a ser acossada e vítima de toda esta violência crescente contra a mulher especificamente, só por ser mulher, e em que todos parecem coniventes em querer branquear, a não ser que a mulher seja uma seguidora obediente aos seus deuses e ao Homem e se lhes submeter como a santa ou a nossa senhora no altar…

Será que não é tempo dos homens e mulheres se aperceberem-se deste clamoroso erro ou desvio histórico, antes religioso agora mais cultural e começarem a atribuir ao Feminino Verdadeiro, esse feminino intuitivo, visionário e místico, da mulher como mediadora das forças cósmico telúrico por excelência e cumprir o seu papel por inteiro e vermos afinal todos e todas que esta é a peça que nos falta a nós mulheres e ao Mundo, para fazer cumprir Portugal?

Ou poderemos nós sonhar cumprir Portugal, sem o espírito Mariano, sem o culto devocional da Deusa Mãe, sem que a Mãe e a Mulher ocupem o seu lugar de honra e sejam respeitadas primeiro que tudo como mulheres como o é a Nossa Senhora de Fátima, Sophia ou a Imaculada Concepção?

Pensarão que é Heresia? Não…

Apenas A NECESSIDADE DE EQUILIBRIO para fazer cumprir uma JUSTIÇA sem a qual não há Verdade no mundo.

Rosaleonorpedro

Sublinhado a vermelho está o que eu me censurei e não disse...
 

2 comentários:

Pedra do Sertão disse...


Tantas ideias que se encontram...acabei de dizer algo em outra linha...com a mesma dinâmica...Venha conferir...

Abraços do Pedra do Sertão



www.pedradosertao.blogspot.com.br

rosaleonor disse...

Vou sim - obrigada pela sintonia!
abraço
rlp