"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

segunda-feira, fevereiro 29, 2016

das polaridades masculina e feminina



EQUILÍBRIO DAS POLARIDADES

Visto que Gaia é um holograma, todos os habitantes da Terra têm Sua “luz” dentro deles, tal como Gaia tem a luz dos habitantes da Terra dentro Dela. O local no corpo humano que tem a chave para o Equilíbrio das polaridades Masculina e Feminina é o Triângulo Sagrado do cérebro.
O casamento interior das polaridades masculina e feminina, o Casamento Místico no Triângulo Sagrado, equilibra as polaridades no cérebro. Assim que essas polaridades são equil
ibradas, o Pensamento com o Cérebro Todo é ativado.
As glândulas pineal e pituitária são polarizadas no que tange que a Glândula Pineal é feminina/receptiva e a Glândula Pituitária é masculina/projetiva.
Portanto, assim que essas duas glândulas conseguem compartilhar, combinar e fundir sua essência no terceiro ventrículo do cérebro, as cargas/polaridades são gradualmente equilibradas nos Vasos Terrenos de toda vida em Gaia.


O Sol Negro - Livro

sábado, fevereiro 27, 2016

SEM MÃE NÃO HÁ VIDA...



"O Amor da Mãe é a essência fundamental da feminilidade e identidade da mulher. A sua ausência na psique de uma mulher cria uma ferida profunda que deve ser curada. No actual estágio da experiência humana, a desconexão do amor da Mãe Original é uma ferida arquetípica generalizada para quase todas as mulheres.
O facto da Mãe Humana não ter estado lá leva a mulher a inconscientemente negar a existência da Mãe Divina.
A mensagem inconsciente profunda é de que a Mãe Sagrada não existe ou não está lá para a apoiar. E, assim, a mulher vira-se para os homens e para um Deus masculino na esperança de que eles possam dar-lhe o que lhe falta. No processo, ela compromete os seus valores, desliga-se da sua feminilidade, e vende-se por barato."


Guru Rattana

A MULHER QUE OUVE A SUA INTUIÇÃO

 
                                  
UMA MULHER DE VERDADE

"A mulher que ouve a sua intuição, que percebe os seu sonhos, que ouve a voz interior das velhas e das mulheres guerreiras de sua ancestralidade e que possui o olhar suspeito dos desconfiados, essa sim, é uma ameaça ao predador natural da história e da cultura. Por isso o predador tem medo dela quando ela percebe a violência de seu algoz.
Para dominar esse predador que está dentro dela, e fora dela na sua cultura, ela precisa tomar posse de seu instinto selvagem, de seus poderes intuitivos, de seu ser resistente, ser guerreira, ser questionadora, ter insight, ter tenacidade e personalidade no amor que procura, ter percepção aguçada, ter audição apurada, ouvir os cantos dos mortos, ter sensibilidade, ter alcance de visão, cuidar de seu fogo criativo, ter espiritualidade, mesmo que para tudo isso ela sofra, ela sangre, ela trema, ela se rasgue e grite ou que vá ao fundo do poço do sofrimento humano para renascer mais bela !!!!!
É UMA LUTA DELA CONTRA ELA MESMA. O predador natural da história faz com que ela se sinta ESGOTADA, mas mesmo assim ela vence, se quiser vencer. Ela renascida fará renascer também seus descendentes, inclusive os masculinos."


Eliane Potiguara (n.1950 Professora e escritora indígena brasileira)

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

QUE LONGE ESTAMOS DO SER...


A NOSSA FALTA DE PROFUNDIDADE E CONSCIÊNCIA...

...E assim, o amor faz transitar, ir e vir entre as zonas antagónicas da realidade, penetra nela e descobre o seu não-ser, os seus infernos. Descobre o ser e o não-ser, porque aspira a ir para lá do ser e o não ser; de todo o projecto. E desfaz todo a consistência.
Destrói e dá nascimento à consciência, sendo como é a vida plena de alma. Eleva ao obscuro ímpeto de vida; essa avidez que é a vida no seu fundo elementar, leva-a na ...
alma. Mas, ao mostrar a inanidade de tudo aquilo em que fixa, revela à alma também os seus limites e abre-os à consciência, fá-la dar nascimento à consciência. A consciência aumenta após um desengano de amor, como a própria alma se dilata com o seu engano.
Mas não existe engano algum no amor, que, por o haver, obedece à necessidade da sua essência. Porque, ao descobrir a realidade no duplo sentido do objecto amado, a consciência de quem ama não sabe situar essa realidade que a transcende. Se não houvesse engano não haveria transcendência, porque permaneceríamos sempre encerrados dentro dos mesmos limites. (...)


In A METÁFORA DO CORAÇÃO
Maria Zambrano

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

É PRECISO LEMBRAR...


O CORPO DA MULHER É DIFERENTE DO HOMEM
E A SUA PSIQUE TAMBÉM.

- O corpo da mulher tem uma especificidade própria e isso significa que a mulher tem uma função e uma forma de ser diferente do homem. O seu sexo virado para dentro, e os seus órgãos interiores, são diferentes dos homens…e para além de ter o Útero e conceber e alimentar no seu ventre a criança que se forma a partir do encontro entre o espermatozoide e o óvulo, que é um processo em sentido único e inerente à fêmea, no resto das funções são complementares, em nada superiores ou inferiores um ao outro. Simplesmente cada corpo-ser, cada forma, seja na procriação seja no prazer cumpre uma função e tem uma maneira própria, não só biológica como emocional e cerebral, mas têm o mesmo fim que é realizar essa complementaridade interiormente do ser macho-fêmea. E nessa união fusional têm como propósito mais elevado realizar o SER total, para deixarem de ser feminino ou masculino e ser apenas o SER EM SI. Quero dizer que o ser individual vai para lá da sua categoria biológica, sexual ou cerebral, para se encontrar no centro de si mesmo, independentemente de ser à partida homem ou mulher mas sempre através dessa complementaridade, dentro e fora. Admito que há variantes sexuais, questões endócrinas, e outras, sobretudo culturais e sociais, mas à partida o processo mais natural e simples é o da complementaridade sexual. Pelo menos da perspectiva alquímica.

Temos descurado completamente, no plano prático, a questão iniciática da activação dos dois cérebros. Nada ou pouco sabemos acerca do potencial da activação dos seus hemisférios e vivemos apenas uma metade também. Usamos e desenvolvemos o lado racional e lógico, o masculino, mas o intuitivo e emocional, feminino, não. E ao relegar as funções do lado feminino, ridicularizando o emocional, rejeitámos as funções do hemisfério que lhe corresponde e assim negamos também essa actividade dupla do nosso cérebro.
Até hoje considera-se o nirvana ou o samadi e o êxtase como manifestações espirituais, separados do indivíduo e dos seus processos na integração dos dois em Um através, por exemplo, do orgasmo. Apenas o Tantra nos dá uma ideia da necessidade do encontro supremo da mulher e do homem enquanto formas sexos e princípios diferenciados cuja complementaridade é essencial.

A Tradição patriarcal raramente evoca a mulher nesse processo quando não mesmo a retira completamente das suas “altas iniciações”… como nos processos ascéticos…nuns casos elevam-na ao céu sem a tocar na terra, outros banem-na simplesmente do mapa.

Quanto aos processos xamânicos ligados a Natureza e aos seus ciclos Lunares só agora começa a vir à tona através das "Tendas Vermelhas" e em Círculo das mulheres um pouco por toda a parte, resgatando rituais e práticas que buscam a sua ligação com a sua natureza, restabelecendo a sua ligação às forças telúricas e ctónicas da Terra que foram remetidas para o inconsciente e para mitologia/arqueologia etc. Com efeito conhece-se hoje menos das práticas das mulheres do que as práticas do lado  masculino, o caminho do guerreiro…
E conforme nos diz  Clarissa Pinkola  “A fauna silvestre e a mulher selvagem são espécies em risco de extinção”. No caso eu diria mesmo, a Mulher é um ser em risco de extinção  cada vez mais perseguida explorada e violentada - violada e morta - pelas Mafias e pelo Sistema patriarcal.

Portanto a função da mulher e a consciência do ser mulher além de nos dar uma ideia adulterada do seu verdadeiro ser não está de forma alguma nivelada à do homem pela perseguição secular das suas qualidades instintivas que a mantinha em contacto com a sua natureza íntima e portanto com a Terra. Ninguém me pode vir dizer que a mulher moderna está apta para se exprimir no expoente máximo das suas qualidades intrínsecas. Ninguém.

Rosa Leonor Pedro

AS MULHERES EXPLORADAS PELA NEW AGE...



QUAL É O LADO VENCEDOR?

"Ser uma mulher requer uma grande quantidade de força. O seu sistema glandular, a sua inteligência e a sua consciência têm que ser extraordinariamente fortes para que possam estar do lado vencedor. A radiância da Mulher é um workshop para você entender , aprender a desenvolver a força a partir de dentro. É no seu interior que existe Toda a força do Universo!"

Mulheres Radiantes – I e II
 
Programa Mulheres Radiantes

Yogi Bhajan nos ensinou que a excelência da mulher reside na alegre projeção do seu ser interior. É esse nosso caminho! Contatar nosso interior, para que possamos entender a força da nossa projeção, experimentando e sentindo a alegria de conhecer a nossa excelência. Que beleza!
Uma experiência profunda de autoconhecimento associada a vigor físico e clareza mental, com o uso de ferramentas que vão lhe permitir conduzir as transformações necessárias para a sua vida de maneira inteligente e com mais qualidade de vida.

Mulheres Radiantes Nível I – Criando uma comunidade consciente

Um mergulho no centro de força que reside em cada mulher. Oportunidade de autoconhecimento e transformação com o apoio de um círculo sagrado de mulheres. Por meio de técnicas de Kundalini Yoga, meditação e vivências pessoais e coletivas, você vai acessar toda a graça de ser quem você é, descobrindo-se próspera, abençoada e bela.

Mulheres Radiantes Nível II – Livres e destemidas

Um programa para mulheres que querem viver uma nova realidade, livres e conscientes. Por meio de técnicas de Kundalini Yoga, meditação e abordagem de temas atuais, você terá a chance de rever escolhas e acessar a força necessária para realizar as transformações que almeja. Uma experiência profunda de vigor físico, clareza mental e autoconhecimento nas trilhas de seu destino.
NÃO existe pré requisito para participar do Mulheres Radiantes.
Semestralmente, com duração de 12 encontros semanais de duas horas.
(...) (?)

MULHERES CONSCIENTES DE QUÊ?

Não pretendo alongar-me sobre o texto aqui apresentado de um curso para "Mulheres Radiantes" que já data de algum tempo mas apenas salientar a forma como todos estes mestres new age  se aproveitam da Mulher - sem referir nada de particular que diga efectivamente algo acerca da diferença de SER MULHER - e que vem propor a mesma fórmula que para os homens - a via espiritual patriarcal - e da forma como é apresentada não é senão  mais uma fuga da Mulher consciente de si a nível psíquico desviada para o caminho espiritual do homem.
O que aqui é proposto podíamos tirar a palavra mulher e colocar homem e era igual nessa perspectiva do SER HUMANO ESPIRITUAL, porque não faz qualquer diferença. Não há nada que diga respeito a Mulher em si, como mulher. A questão para mim porém coloca-se no sentido urgente que a mulher tem de se consciencializar do seu próprio processo interior sim, como mulher interior e exterior, corpo alma e espírito - mas para integrar as duas mulheres divididas dentro de si e acabar com a cisão do feminino entre vários arquétipos que dividem a sua personalidade, nomeadamente o da santa e da puta...acabar com essa dicotomia na mulher sim, seria um passo para a sua libertação e para a sua verdadeira emancipação do homem e  poder assim, irradiar a sua essência de Mulher e uma Natureza viva a partir de uma  consciência de SER MULHER INTEGRAL.
Tudo isto me cheira a mais um pacote vendido às mulheres e em vez de uma "operação estética" é uma "operação mental"...e cada vez há mais movimentos new age a querer explorar a cliente mulher e ao mesmo tempo mantê-la na dependência do homem e dos mestres...sem as deixar viver e descobrir-se por si mesmas, SEM precisar "ESTAR DO LADO DO VENCEDOR"...
Nenhum Mestre tem autoridade e conhecimento da Mulher - não sendo mulher - para transmitir qualquer conhecimento à mulher enquanto Mulher, isto independentemente da mulher ser um ser humano e como tal poder fazer um caminho espiritual paralelo ou não com o homem. Contudo eu penso que efectivamente a mulher tem um caminho interior próprio porque ela é Iniciada por Natureza e só tem que entrar em contacto com a sua essência. E isso será feito por e entre Mulheres e não por homens.
Na verdade tudo isto se trata de cosmética espiritual...vender o produto como na moda - há que explorar o filão mulher...
rlp .
 

 

terça-feira, fevereiro 23, 2016

A ROSA DO MUNDO

MÃE...
(...)
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo
s
aber viajar.
(…)
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo verdade!


In Rosa do Mundo, Almada Negreiros

DEZ MIL VEZES...



AS PURAS CANÇÕES DO AMOR


“ Dez mil vezes o coração se rompeu dentro de mim. Não posso contar os soluços que me sacudiram o coração.
Mas vi também outras coisas que me trouxeram lágrimas aos olhos e me abalaram como uma folha que se agita. Vi homens e mulheres dando vida, esperanças, dando tudo aos outros. Vi actos de uma tão alta devoção que chorei lágrimas de alegria. Estas coisas, achei-as belas, embora não tivessem o poder de redimir. São elas as puras canções do amor nos vastos montes de esterco do mundo.”



FERNANDO PESSOA, in “Pessoa Inédito”, Livros Horizonte, 1993, pág.161

MAS COM QUE AMOR AMAMOS



ALGUÉM ME PERGUNTOU
PORQUE SOFREMOS AO AMAR?

Bom, a questão é: nós sofremos por não saber amar...

NESTE PLANO, ou seja, no plano mental ou emocional  sujeito à dualidade, bem e mal, amor e ódio,  são como "As acções, as emoções e as palavras (que) raramente coincidem entre si..."*


Por isso diria que Amar é sofrer porque não sabemos nem podemos amar ...sempre foi assim Vivemos este mito do amor como o mito da felicidade...mas na pratica o que acontece é a vivência concomitante de dor e prazer, e desde que me conheço sempre foi igual e quanto mais tens prazer maior será a dor  e o desengano...
Amar é "um fogo que arde sem ver", dizia o poeta...mas é algo sobretudo que nunca poderemos agarrar, catalogar, definir, meter num quadrado, nem num coraçãozinho desenhado...é algo de que nunca teremos a certeza se amamos ou se somos amadas/os ou correspondidas/os, por mais que o coração esteja partido, às vezes é só o desejo de amar projectado, idealizado, inventado...porque queremos à força amar, nós mulheres, sobretudo sermos amadas, desejadas, queridas, preenchidas... - o problema  é que se parte, como toda as pessoas em geral que idealizam o amor partem de um premissa errada, a do amor  absoluto ou incondicional, total e cor-de-rosa sem espinhos.
Não existe tal coisa no mundo, este em que vivemos...
Lemos romances e histórias a vida inteira e vimos filmes e ouvimos canções que nos contam essa mentira  a cada momento...mas nunca o amor foi AMOR nem de confiança, o amor nunca foi  fiel sereno ou calmo ou garantido ou eterno, e o que aqui se confunde é a paixão  que é cega  e de extremos...e que "arde sem ver"!
Todas as pessoas que amamos ou julgamos amar e que são das nossas relações só servem para crescermos e onde há crescimento, movimento (emotion) há sofrimento, há dor...porque há conflito e confronto...E as pessoas que entram na nossa vida, mesmo que sintamos um imenso amor, dizemos nós,  acabamos um dia, quase sempre  por as detestar ou "odiar" e quanto mais amarmos mais odiaremos...Isso faz parte desse amor humano que não é Amor nem nunca foi! O que  nem é grave nem escandaloso, é só assim mesmo que é e vivemos apenas  sofrimento em nome do amor que é algo que nos escapa sempre e é complicado, paradoxal, absurdo e só quando olhamos sem enganos e sem idealizações ou projecções, se alguma vez o fizermos, vemos que nunca amámos, nem nunca ninguém nos amou...pois não há entre as pessoas - entre os seres humanos - um amor assim,  nem um amor absoluto, talvez nem no céu, como não há uma verdade absoluta;  é a mesma coisa, o mesmo erro. Porque nada  é estanque na vida, definitivo e nada é o que dizem ou nós pensamos que é...é tudo e só uma parcela, uma visão provisória, uma predisposição de humores e feridas em nós...
A ser Amor...era eterno e como diz na Biblia:

“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (1 Coríntios 13:4-7)

Sim para isso era precisa ter uma paciência de Job...e santos desses já não há...

Talvez o amor de uma filha/filho seja assim, ou parecido, digo de uma mãe, mas sofre-se na mesma...mais tarde ou mais cedo na separação ou na discórdia...o mundo é feito de antinomias, antagonismo, dualidades e os sentimentos também...
Seja como for o que nos faz sofrer é porque os outros e nós mesmas/os somos sempre egoístas, queremos possuir o outro/a e ter um ser só nosso etc. e assim prejudicamo-nos tanto a nós nesse desejo como aos outros que nós dizemos que amamos, tanto como quando nos deixam de amar ou temos ciúmes, posse e inveja, (invejar é desejar e vice-versa)... ou pior ainda quando sabemos que usámos o outro/a sem saber para suprimir as nossas carências e complexos e eles usando-nos ou servindo-se de nós ou defendendo-se da nossa posse...

O amor que projectamos em alguém e alguém projecta em nós é um puro e doce engano que dura o que dura até percebermos que não amamos, muito simplesmente.

E será que amamos, mas como? Sofrendo...ou fazendo sofrer, pedindo, exigindo, criticando, caluniando, julgando o outro que não corresponde as nossas expectativas e carências...às vezes violentando, matando - a violência conjugal...ah! eu amo-te tanto e tu não me amas como eu te amo...
Ou será que há outro Amor que não conhecemos, sim, ele esse Mito pode haver algures no firmamento e é isso que se pensa ser Deus...mas eu falo aqui só do que é humano, neste plano...Aquele que conhecemos e que se debate entre o amor ideal das escrituras e dos romances e histórias e a realidade concreta...que é não haver amor nesta humanidade e a nenhum nível que não seja idealizado. Basta olhar ao redor e ver com olhos de ver...
Neste caso, o sofrimento quando se acha que se ama, o que quer que seja, é sempre a dor dessa impossibilidade, o amor de algo que queremos alcançar...porque ele nunca  colmata essa carência e nem sequer mata o desejo... O Amor sempre foi  a dor do impossível mas cuja ilusão adiamos  para outro tempo outro par outro engano. Na verdade o que nos é permitido viver é apenas esse sofrimento misto de  prazeres e dores, alegrias e tristezas, ilusões e desilusões, no fundo é isso  que  acontece ... e nunca a certeza ou o saciamento; E isto nada tem a ver com sado-masoquismo.

Parece que ao fim de tantos anos descobri finalmente o que se passa de errado neste mundo...os seres humanos não sabem nem podem amar porque é algo que não faz parte da sua natureza humana. 

Os seres humanos estão no Planeta para sofrerem (no sentido latino do termo: non cogitat qui non experitur) e é através do sofrimento (forma de conhecer-se), que é a experiência fulcral da sua existência na Terra, que se aprender a respeitar o sofrimento dos outros e a sere-se SOLIDÁRIO - SIM SOLIDÁRIO...nada mais do que isso, porque AMAR é um dom que não pertence a esta espécie degenerada...mas como nos impingiram aquela de nos "amarmos uns aos outros"...andamos neste engano há séculos!
Só sofrendo somos humildes e capazes (às vezes nem assim!) de perceber o próximo, mas com as malditas religiões perdemo-nos todos do unico propósito desta Vida e desta Dimensão...e não andar para ai a imitar e a copiar e a cantar as glorias dos deuses e dos anjos como de outras dimensões onde não estamos...
 

E a haver um Amor Maior É a Natureza do próprio Amor Maior nunca se deixar converter ao pequeno mundo em que vivemos nem a nada daquilo que mais queremos...e essa é a razão pela qual   há tanto sofrimento neste amor que projectamos.  Porque sendo o Amor Maior o que mais todo/as nós queremos viver...não o poderemos viver  enquanto o quisermos dominar e controlar, tê-lo à nossa mão ou aos nossos pés... que ele seja feito à nossa vontade, à nossa maneira e para o nosso beneficio ou ego...tantas vezes...vencer-dominar-possuir...
O homem faz sempre isso a Mulher e a mulher?

E como queriam AMAR SEM RESPEITAR E SEM SER SOLIDÁRIO com o próximo - o da tua casa, da tua rua, da tua família; portanto deixemo-nos  de teorias evangelizações e hipocrisias...porque se admitíssemos isto erámos muito mais coerentes...e começando por ai talvez o mundo pudesse mudar alguma coisa!
Esse  amor que todas/os idealizamos e sonhamos é a coisa mais ambicionada e perseguida por toda a humanidade desde os tempos mais remotos ...mas como todos/as tão bem sabemos é em nome dele que se fazem e fizeram  as coisas mais abomináveis cruéis e loucas e obscenas e criminosas. Sim  em nome dele, e do Amor de deus...e por isso ele nunca deixará que ninguém o veja ou o toque a não ser no momento fulminante em que somos cegas por ele, quando morremos ou naquele momento de luz e dor...quando a seta que acerta em pleno no nosso  coração e depois o dilacera - e piora quando a queres arrancar...etc. etc. etc. vou almoçar...
rlp
in A Fonte de Possessão  - Marion Z. Bradley

POR TUDO ISTO,

"Quem ama
Fica cheio de não-saber
Não pára de procurar..."*


*Ana Hatherly - Rilkeana

DE ONDE EU VIM...



QUEM SOU EU E DE ONDE SOU EU?

“Quando temos uma experiência mística sentimo-nos a superar a fragmentação usual da mente e do corpo e a alcançar um estado de união e inteireza. Transcendemos a distinção sujeito, objecto e experienciamos uma união extática com a humanidade, a natureza, o cosmos ou Deus. Esta experiência está ligada a sentimentos intensos de alegria, felicidade, serenidade e paz interior (…) sentimo-nos a abandonar a realidade comum, onde o espaço tem 3 dimensões e o tempo é linear. Entramos, numa dimensão (…) onde este tipo de categorias já não tem aplicação. Neste estado, o infinito e a eternidade tornam-se realidades experienciais. A qualidade numinosa deste estado nada tem a ver com as crenças religiosas (…) reflectindo, antes, uma apreensão directa da natureza divina do real ”.*

Aqui temos um verdade insofismável...quem experimenta não o pode negar...mas pergunto se o que viemos fazer a esta vida na terra é procurar esses estados para lá desta realidade...sinceramente me pergunto isso há muitos anos e por experiência desses mesmos estados alterados...como propósito e finalidade de vida mais alto e que parece toda a gente persegue. No entanto, sendo eles raros e dificeis de atingir - e não permanentes - como é que vamos viver os outros estados de alma e de espírito e os estados comuns da natureza comum aqui no Planeta?
E como é que destinguimos a crença e a fé da vivência ou da experiência em si mesma? Esta é outra questão em que parece toda a gente fica muito confusa...Sim, muita gente vive apenas a acreditar no que pensa que é e o que será...Mas será que por acreditarmos nas coisas ou em alguem, algum deus, as coisas são - um produto da nosso mente co-criadora - e faz com que para quem crê se torne verdadeira, mas em que plano?...
Tenho pensado muito na crença, em como vivi de crenças - sim a acreditar que isto e aquilo ia acontecer, que o mundo ia mudar ou eu... que eu ia ser diferente um dia, talvez quando fosse mais velha? E afinal estou a ver - à beira dos 70 anos - que pouco ou nada mudou na minha vida nem eu mudei quase nada e as questões que me avassalavam e que me limitavam, assim como os meus supostos defeitos (e qualidades) estão todos lá...assim, o que é que mudou depois de tanta coisa que acreditei anos e anos e até fiz tudo para mudar? Meditações, canalizações, regressões, retiros, viagens iniciáticas, radiestesia, sessões de todo o tipo de terapia...e o que é que mudou em mim? Muito pouco afinal, e a minha ferida, a minha dor, a minha ansia de qualquer coisa está lá na mesma...Talvez a unica coisa que tenha mudado tenha sido a maior consciência que tenho de como ...afinal nada muda e que eu não sei nada...mas também tenho CONSCIÊNCIA de que a Natureza humana é composta desta amálgama de sentires e contradições, de estados opostos, de sentimentos vorazes ou caóticos ou sublimes, assim como de ideias e por vezes visões de infernos e paraisos... e que todos e todas somos maus e bons à vez...
E claro, tive muitas experiências misticas e continuo a ter acesso a estados alterados...que como diz o autor faz-nos sentir superar a fragmentação usual da mente e do copro e do espírito - ficamos coesas unidas, integras, sim, mas ...e depois? Podemos fugir a esta realidade que nos oprime ou fascina? Ah sim, a meditação atenua e acalma o nosso ser terreno - e ficamos à espera dos deuses...desses estados...vamos a uma consulta de cientologia ou a uma sessão de Reiki...ou meditamos sentadas...e a luz de dentro vem...mas tal como nos dizem coisas tão belas os seres doutras dimensões e planos ou os anjos...para quem acredita, serão essas coisas parte da nossa humanidade de 3ª dimensão? E se estamos cá  nesta dita  3ª será para experimentar o que se passa na 4ª ou na 5ª dimensão e ser como os de Sirius ou as Pleiades? Bolas...há aqui algo que não entendo e até me dizem que eu escolhi vir para esta ...e então onde está a minha experiência da 3ª dimensão?
Onde está a minha realidade na Terra? Onde está a Consciência de Ser humano e não dos seres de Arturus ou do Asthar Sheran...
Bom, eu não nego nada,  como sabem...apenas pergunto...e perguntar não ofende...
rlp


*Stanislav Grof, Spiritual Emergencies: Understanding and Treatment of Psychospiritual Crises

Nota á margem:

Estava a falar só para mulheres num grupo e portanto no feminino e agora que estou a publicar para ambos os sexos não me apetece trocar isto e por no masculino...aguentem-se com a sensação de exclusão os homens porque nós convivemos com isso há muito tempo...

MULHERES - UMA ESPÉCIE DE ATRASADAS MENTAIS...


OU AS NOVAS CINDERELAS

Cada dia que passa sinto sou mais impopular nas redes sociais e pouco me importa a simpatia que possa granjear, embora também saiba que estou a pregar aos peixinhos...mas cada dia que passa fico mais estupecfacta e irritada a pensar como é que mulheres jovens que se acham minimamente inteligentes ou espertas vá lá, e que se anunciam conscientes de qualquer coisa, seja a nível ideológico, cosmológico, esotérico ou politicococo...e continuam a sonhar e a imaginar e a efabular a ideia de um "príncipe encantado" - um novo modelo em série...já não aquele do cavalo branco e do beijo que a desperta...mas uma coisa inventada tão ou mais "romântica" do que a que nos impingiram durante séculos...
Em vez de olhar a realidade e ter em conta as diferenças as causas e as consequências de tanta guerra entre os sexos e o aproveitamento regra geral do homem da mulher e como tudo se processa neste sistema brutal, resolvem sonhar e escrever sobre um amor idealizado, ridículo, fora de todos os contextos, absurdo e impossível de se viver...
Quase que vomito as tripas ver estas meninas-mulheres-modernas e emancipadas... a sonhar e a delirar com um companheiro eterno que as respeite e as amem como elas são...ah...suspiro, um homem doce e sereno e amante e apaixonado e viril e cordato e querido e igual a ela, sensual, compreensivo etc. e tal...
ah ah a h ah...só rindo destas fadinhas mal paridas que consomem romances de cordel...
Meu deus...como é que há tantas gajas a escrever estas baboseiras do homem ideal...digo eu, sim, claro, impopular, azeda e velha...bruxa, adoro "empatar as fadas"!
Enfim digo o mesmo para todas essas promessas de mundos novos e dimensões superiores em negação da nossa dimensão terrena...
rlp

O LADO NEGRO

 
Grande mãe negra que está em todas nós...
Obrigada pela sua feiúra, seu lado obscuro, seu medo sombrio
Grande mãe que a todas conduz
a olharmos para dentro e trazer a chama da vida
a mais completa verdade sobre tudo
.

(Regina Rodrigues)

Todas e todos temos algum ponto obscuro em nossa vida, algum aspecto que provoca dor, insatisfação, infelicidade. Muitas vezes nem temos consciência do que seja, mas este aspecto, este foco de escuridão ou vazio, nos faz ir em busca de algo, mesmo que não saibamos o que procurar. Qual é o ponto negro em sua vida interior?
Ansiar por algo e não saber o que seja pode gerar muita angústia, uma vez que não sabemos em que direção ir e o que fazer para alcançá-lo. E não temos como saber, porque isto que nos atrai é desconhecido. Ou talvez seja mais correto dizer que é algo ainda não criado, algo que aguarda nossa ação para ser criado. Criar isto é nossa tarefa como seres criativos que somos. E como acontece com todo ato criativo, não sabemos o resultado da nossa criação, antes de realizá-la.
Portanto, precisamos ir adiante, sem saber aonde vamos chegar. Precisamos confiar que chegaremos a algum lugar. Permanecer no espaço do não saber, atentos e abertos para o que se apresenta, é um grande desafio, pois saber é o maior instrumento de controle que desenvolvemos. Portanto, precisamos abrir mão do controle, o que naturalmente nos amedronta.
Em Love and the Soul [Amor e a Alma], Sardello nos fala de um fluxo de tempo que vem a nós do futuro e que se sobrepõe, no presente, a um fluxo de tempo do passado. Isto nos confunde e nos leva a atribuir isto que nos atrai para o futuro a algo que aconteceu no passado. Seja pequeno ou grande, este ponto obscuro na nossa vida, que não quer calar, pode ter sido ativado por um evento que podemos localizar com bastante clareza em algum lugar no passado, mas que mesmo assim é algo do futuro, que nos atrai para realizarmos nosso propósito, aquilo que verdadeiramente nascemos para realizar.
Em minha própria vida, o fator que me atraiu para o futuro foi a morte de minha mãe quando eu era muito pequena. Um evento pesaroso em si, ele continha a força que me atraiu para realizar o trabalho em busca de minha própria alma que, como todas as almas, está sempre voltada para o futuro, em busca de expressão criativa.
A interação da alma com o fluxo de tempo do futuro se dá, quando a alma individual entra em contato com a alma do mundo. Esta conexão acontece por intermédio do Eu, esta instância da nossa individualidade que é diferente do ego. Enquanto o ego resulta de nossas experiências passadas e tem a função de nos distanciar do mundo, o Eu não é algo que adquirimos, é quem somos e que se expressa espontaneamente, à medida que desenvolvemos nossa individualidade. Mais envolvido com o futuro, com aquilo que podemos nos tornar, o Eu é criativo e livre. E o que é mais importante, nos orienta em direção ao mundo, ligando nossa alma individual com a alma do mundo.
Considerando que o ego interage com o mundo a partir de crenças e conceitos, quanto mais ele predomina em nossa vida, mais nos distanciamos do mundo da experiência direta, para nos adaptar aos padrões culturais que nos são apresentados como valiosos. E mais nos separamos da nossa alma individual, tendo em vista que ela interage a partir do coração, da percepção direta do que vivenciamos a cada momento, ressoando com aquilo que toca nosso verdadeiro ser. E quanto menos contato temos com nossa alma individual, menos estamos conectadas com a alma do mundo.
Diz Sardello que nossa alma entra em conexão com a alma do mundo pelo tato, nosso corpo etérico funcionando como uma membrana que nos separa e conecta ao mesmo tempo. Ou seja, nossa alma está imersa na alma do mundo, separada dela e conectada com ela por uma membrana sutil, do mesmo modo que a criança está imersa no corpo da mãe, separada e conectada pela placenta.
A alma do mundo, este “fator desconhecido que faz da multiplicidade do mundo ao mesmo tempo uma unidade e nos dá a sensação de que podemos dizer que vivemos no mundo, não simplesmente no meio de uma multidão de coisas separadas”, sempre é concebida como feminina. Na tradição ocidental, é personificada como Sophia, a Sabedoria Divina. Na tradição alquímica vamos encontrá-la como a anima mundi, uma mulher nua, com seu usual halo de estrelas, um pé na terra e o outro na água, expressando seu domínio sobre terra e mar. Seu seio esquerdo é a lua, que também figura em seu púbis. Seu seio direito é uma estrela ou o sol irradiando bênçãos ao mundo.
A palavra anima (alma) é formada pelas raízes an=celeste e ma=mãe, correspondendo à palavra grega psyche e ao sânscrito shakti. Todas as almas são emanações da Mãe Celeste, a Alma do Mundo. Com sua presença viva, ela permeia o mundo fenomenal e traz à manifestação a maravilhosa ordem do universo.
Nascida do poder feminino primordial Silêncio, Sophia foi atraída pela luz da Profundidade, que ela viu refletir-se no Caos. Motivada pelo amor, ela desceu para a região do caos, onde experimentou muito sofrimento psíquico. Do fluxo de sofrimento que passava através dela formaram-se terra, água, fogo e ar, elementos que se condensaram para formar a Terra. Antes de retornar às regiões celestes, compassivamente dividiu-se em duas, uma delas retornando luminosa para Silêncio e Profundidade, enquanto a outra permaneceu na terra, velada e escura, esperando as almas humanas se desenvolverem em direção à unidade.
Como alma do mundo, Sophia está velada em tudo que nos cerca. Em seu aspecto escuro, ela vivifica a matéria. Mas quando rejeitamos o mundo, a matéria, estamos nos distanciando dela e, simultaneamente, nos distanciando de nossa própria alma individual.
Quando nos distanciamos da nossa conexão com a sabedoria divina, perdemos nossa vitalidade e criatividade. Ficamos des-animadas, isto é, sem alma.
Mas Sophia não deixa de nos chamar, pois ela é este ponto obscuro, velado, que, como uma mãe amorosa e compassiva, não desiste de suas filhas e filhos. Com seu amor, ela nos atrai. Sendo ela a própria fonte desta força que chamamos de amor, é apenas quando nossa alma individual trabalha em colaboração com a alma do mundo, que somos capazes de criar amor verdadeiro.
Para fortalecermos nossa conexão com a alma individual, é necessário mergulharmos nas nossas profundezas, na escuridão em nós mesmas. Quando nos aventuramos pelo ponto escuro que nos atrai para o futuro, encontramos a nós mesmas em contato com a alma do mundo. Não importa o que tenha acontecido no passado, nossa vida será o que criarmos no futuro. Para isto, precisamos começar de onde estamos e com os recursos que temos. Precisamos honrar tudo que conseguimos até aqui e valorizar todos os elementos que compõem nosso mundo, principalmente aqueles que mais temos rejeitado. Precisamos valorizar e regenerar a matéria, começando com nosso próprio corpo.
E quando mergulhamos nas profundezas do nosso viver corporal, vamos encontrar Lilith, esta figura escura que nos introduz ao aspecto de nós mesmas que desconhecemos. Em seu artigo na Revista Junguiana nº15, intitulado "O renascer de Lilith", Suely Engelhard a define como a forma feminina da sombra transpessoal, cuja característica é a criatividade aquém ou além da racionalidade científica. Quando nos aventuramos até esta sombra profunda de nós mesmas, podemos recuperar e integrar partes nossas que foram excluídas, negadas, reprimidas. Podemos estabelecer um novo equilíbrio interno, que então refletirá um modo mais integrado de estar no mundo, em que nossa alma individual está em conexão com a alma do mundo.
Mesmo que se manifeste como um poder pessoal, Lilith de fato representa um poder coletivo. Ela configura a força escura que nos integra a todos em um mundo que não pode ser conquistado, apenas compreendido. E não é por acaso que encontramos pouca referência a ela na história documentada, pois ela representa nossa parte intimamente conectada com a natureza, aquela que predominava quando ainda não havíamos nos separado totalmente de nossa origem e nos colocado arrogantemente acima dela. Quando ainda nos deleitávamos no abraço amoroso da Grande Mãe.
As populações nômades do Oriente Médio usam a designação lilith para nomear o espírito do vento e, neste sentido, a identificam com “o desapiedado Vento do Sudoeste que sopra, quente e perturbador, dos profundos desertos da Arábia e sobe em direção ao Norte e ao Oriente, nas regiões da bacia do Eufrates e do Tigre, com uma ação ruinosa especialmente no clima da Caldéia, onde era com certeza capaz de enfraquecer a vida humana”, escreve Roberto Sicuteri em Lilith. A Lua Negra.
É este mesmo vento sul que, no épico sumério Gilgamesh e a Árvore Halub, derrubou um choupo que crescia às margens do rio Eufrates. Encontrado pela deusa Inana, esta o plantou em seu jardim e cuidou dele, esperando ele crescer, para que pudesse fazer de sua madeira um trono e uma cama. A árvore cresceu e engrossou, e em sua base uma serpente imune a encantamentos fez seu ninho, a fêmea da feroz ave Anzu instalou seus filhotes na coroa, enquanto no meio a escura donzela Lilith construiu sua casa. Gilgamesh, o heróico rei pastor de Uruk, matou a serpente e espantou a ave para a montanha, fazendo com que Lilith destruísse sua casa e fugisse para o deserto.
Mas a forma mais conhecida de Lilith é como a serpente do paraíso, guardiã da árvore da vida, esta árvore que se ergue entre muitas no jardim primordial e que estabelece uma conexão entre os mundos, aprofundando suas raízes nas entranhas da terra e elevando sua copa às alturas celestes. O tronco representa o espaço do mundo criado, a conexão entre céu e terra.
Comer de seus frutos foi a primeira proibição do deus masculino aos seres humanos, numa tentativa de romper esta conexão. Mas Eva, a mãe de todos os viventes, dando ouvidos à sabedoria ancestral da serpente, trouxe a consciência discriminativa para a humanidade, com todas as suas consequências. E a Árvore da Vida se transformou na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. O estado paradisíaco se transformou na percepção da dualidade, que demanda de cada pessoa um posicionamento diante do bem e do mal, da vida e da morte. Como transmissora da consciência discriminativa, a serpente constitui igualmente nosso caminho de volta para a centelha divina interior.
Mas para seguir este caminho, precisamos acolher em nós aqueles aspectos que foram rotulados de ‘mal’ e que suprimimos e ocultamos na mais profunda escuridão interior. Quando empreendemos nossa jornada em busca dos aspectos obscuros e esquecidos de nossa alma, precisamos enfrentar todos os nossos demônios e é de grande ajuda saber que eles apenas se tornaram isto, porque foram excluídos da nossa vida, assim como Lilith foi excluída e se retirou para o deserto, onde incessantemente gesta e pare uma legião de demônios, os filhos de sua criatividade original rejeitada.
Mas são exatamente estes aspectos perdidos de nossa alma que nos atraem, que nos chamam para esta jornada em busca de nós mesmos. Quando somos capazes de acolher em nós todos os nossos aspectos, todo nosso poder, todo nosso brilho, manifestamos plenamente nosso ser e nos tornamos aquilo que somos desde a origem: emanações individualizadas da sabedoria divina.
Quando vamos ao encontro do desconhecido, encontramos a nós mesmas e a totalidade do cosmos. Reinserimos nossa alma individual na alma do mundo. Unificamos em nós a criatividade humana e a sabedoria divina. Lilith e Sophia, enfim juntas!

22/04/2013
monika von koss

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

TU EXISTES



"Em verdade eu te digo: felizmente tu existes. A mim me bastaria apenas a existência de uma criatura sobre a terra para satisfazer o meu desejo de glória, que não é senão um profundo desejo de vizinhança. Porque eu me enganei quando há tempos imaginei como real minha antiga vontade de "salvar a humanidade", "malgré" ela. Agora só desejo mais alguém, além de mim mesma, para que eu possa me provar..."


clarice Lispector
(a estrangeira)

sábado, fevereiro 20, 2016

VIRADAS UMAS CONTRA AS OUTRAS


PORQUE SÃO AS MULHERES
CARRASCOS PARA AS OUTRAS MULHERES?

Regra geral as mulheres são os maiores carrascos das mulheres, sempre o foram, mas temos de ter em conta que elas são todas marcadas pelo mesmo Sistema de Hegemonia masculina que as formata assim, criando o antagonnismo nessa divisão da mulher em duas mulheres... fazendo com que esta seja uma forma de sobrevivência das mulheres no mundo dos homens, sempre foi: competir entre elas e contra elas pelo "seu homem" (o mercado) ...
Infelizmente é assim há séculos, hoje em dia disfarçado...ou escamoteada pelas pseudos liberdades da mulher moderna. O pior disto é que os/as intelectuais e os teóricos/as modernos e mesmo psicólogos partem desta visão generalizada como é o caso de análises "cientificas e psicológicas"...que se fazem como se essa fosse a verdadeira natureza da mulher e NÃO É! Este comportamento é apenas uma consequência da sua divisão interior e da sua subalternidade social e económica e dominio exclusivo dos homens.
A Mulher luta permanentemente dentro de si própria contra a "OUTRA" que é ela mesma...ou a sua Sombra. A Sombra da Mulher está projectada na outra mulher que ela se recusa a ver em si mesma - dentro deste ciclo vicioso que é a eterna rivalidade entre "a santa (boa esposa) e a puta (a má mulher)"...divisão que corresponde à mulher "virgem" e casta, pertença de um homem só ...e à mulher sensual que se vende ou dá a muitos homens e que estão em oposição na sociedade patriarcal. Isto nem as feministas mesmo na melhor das intenções não NUNCA viram NEM QUEREM VER AINDA.



rlp

Para todas as mulheres...

Memórias caladas de todas as mulheres...avós, mães e tias e irmãs...amigas, vizinhas, comadres - que sofrem e sofreram caladas todas as afrontas... 
(in memorian)

Mundos e Fundos

Os dados foram lançados mas o jogo ainda não terminou. Mary continua a desdobrar o passado. António ficou a entrar naquela boca do metro. Um fundo que ela viu como uma viagem interrompida no centro dos seus olhos.
Debruçada sobre as memórias, insiste em matizá-las com as cores, cujos movimentos proclamam um efeito transcendente e não contraditório à luz. Era a idade da inocência.
Um tempo marcado por um único conhecimento de si. Saber-se deitada sobre o manto verde dos campos a sentir o efeito da terra húmida no seu corpo. As luzes do candeeiro afrouxaram. Os seus olhos fecharam-se.
Quer ainda saber, se o que a levou a abrir as pernas, ainda que forçada quando era uma criança, fizeram de si uma mulher pronta para seguir viagem, rumo ao mundo do prazer consentido por ela. Prazer esse, que ela já definiu como sendo o início de tudo; prazer em ser mulher, prazer em amar e ser amada, prazer sem ser filha, irmã, esposa, amante e mãe.
Prazer sem ser mãe. É este que retornará com tudo o que perdeu, quando assediada por dois homens mais velhos, já homens feitos à espera que ela os satisfizesse nas suas necessidades mais básicas. Esvaírem-se pelas suas pernas. Seguiam-lhe os passos sem que se desse conta disso.
Ela só sabia que era um caminho a abrir novos. Ali estaria a forma mais inequívoca de satisfazer o prazer de se sentir gente, apesar de ter nascido mulher. Primeiro a sedução camuflada por se encontrar entre os seus.
Família não muito chegada, mas família. Depois as conversas banais e triviais de acontecimentos presentes. A seguir, uma mão dele entre as suas pernas e uma dela conduzida ao sexo dele, já pronto.
Assediada para dentro de casa e entre os seus escombros, convencida a deixar-se levar, até que se abrisse num mundo desprovido de valores e de ideais consentâneos com o que a levaram a nascer no meio do nada.
Permitiam-se viver naquele submundo, onde só quem vive por lá, sabe de um vazio profundo. O prazer é assim, inconstante no tempo, subjugado também às variações atmosféricas da pele.
Imperfeito até na forma que dá ao corpo. Ela tinha consciência, que aquilo era também uma forma de prazer. Maria, a dos prazeres camuflados até que a vergonha do seu prazer fosse desvendada quando adulta, perante a certeza de ser mulher e pudesse deitar a boca no mundo. Gritar até que a ouvissem.
Quantas vezes terão passado por esta vergonha, muitas delas deitadas com o homem com quem casaram, forçadas a deixar que se afundasse nelas?
Conduzidas como presas, vítimas do seu próprio sonho quando se sentem cansadas a precisar descansar o corpo, e eles se limitam a pedir que se mantenham quietas e caladas? Era coisa rápida a precisar que se libertasse para um fundo que eles próprios criavam. Um fundo inexistente de vida.
Ali, era só uma criança.
Mary que nasceu mulher para dar luz ao mundo, tem o seu olhar para o seu agora. As suas pernas estão fechadas, as suas mãos, uma sobre a outra no seu peito, o seu corpo na posição horizontal mas verticalizando os modos que a fizeram até hoje ser o que é.
As janelas de sua casa ainda se encontram fechadas. Espia o dia dirigindo o olhar para o tecto branco da sala. Em branco tem sido também parte da sua vida, tal uma página de um livro que aguarda para se completar a sua história.
(...)
Mary (Eu)

(obrigada Dakini por este original...)

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

...entre dois continentes...




“Enterrar o rosto entre dois seios, entre dois continentes da Morte…” emil cioran


A MULHER TEM OU NÃO UMA NATUREZA FEMININA?

SEGUNDO Simone de Beauvoir...NÃO...é ela mesma que diz: "não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornarem-se seres humanos na sua integridade."

É o que as feministas pensam e sendo  essa a sua cartilha, com isso negam o feminino inato e a natureza ontológica e sagrada da mulher, negam os aspectos fundamentais da sua natureza ctónica ou a sua natureza lunar, os aspectos de que a mulher é constituída em termos biológicos e energéticos, e isto porque estas mulheres intelectuais se desligaram completamente da sua Natureza instintiva-intuitiva para serem apenas racionais e usarem a ciência dos 5 sentidos - o pensamento masculino - e com estes argumentos falaciosos, o estrito pensamento cartesiano,  o terrível que é a negação da mulher mística, manifesta-se numa profunda  ignorância  do seu SER inteiro, e ameaçam todas as mulheres modernas e "emancipadas"  com este pensamento linear, lógico e redutor de si mesmas!. 
Esta e outras afirmações da escritora, uma intelectual feminista à partida e que inspirou muitas mulheres nos anos 60, (incluindo a mim mesma e por isso o digo) leva-nos à total negação da natureza intrínseca da mulher original,  da mulher que, afirmando que o homem a mitificou para a oprimir, sim isso é verdade, mas ela ignora a sua verdadeira essência que nunca poderá ser debatida e explicada no plano intelectual e do pensamento logico, sendo esta a leitura comum que as feministas fazem da questão essencial e que é haver ou não haver uma Essência Feminina e um sagrado...que elas negam à partida; assim não vejo como conciliar a visão feminista cartesiana com o lado sagrado e ontológico da mulher se a sua cartilha e as suas mentoras pensam assim ainda racionalmente e tout court como Simone de Beauvoir...
 

(texto a desenvolver - acho que muitas de vocês já conseguem ver o erro crasso desta premissa...se assim é, digam-me e ajudem-me a desenvolver esta ideia.)

rlp

O SAGRADO NÃO  PERTENCE A NENHUMA RELIGIÃO NEM EU DEFENDO  A FÉ CRISTÃ OU OUTRA, MAS NÃO HAJAM DUVIDAS DE QUE:

 "A nossa cultura, a partir do assim chamado século das luzes (1715-1789) aplicou de forma rigorosa a compreensão de René Descartes (1596-1650) de que o ser humano é “senhor e mestre” da natureza podendo dispor dela ao seu bel-prazer. Conferiu um valor absoluto à razão e ao espírito científico. O que não conseguir passar pelo crivo da razão, perde legitimidade. Daí se derivou uma severa crítica a todas as tradições, especialmente à fé cristã tradicional." [... ] Leonardo Boff
 

A MUNUTENÇÃO DA HEGEMONIA MASCULINA



TEMOS DE TER EM CONTA QUE A VIOLÊNCIA contra a mulher está initimamente ligada à hegemonia masculina, na linguagem também, nos seus discursos, na suas análises, nas suas abordagens do feminino etc....

"A violência contra as mulheres é uma arma crítica na manutenção da hegemonia masculina; é o meio pelo qual os requisitos patriarcais de conformidade e obediência se estendem a, e se fazem cumprir pelas mulheres. Nos sistemas hierárquicos, os homens podem obedecer por medo a perder os seus trabalhos, por status ou por poder; as mulheres são forçadas a temer a violência. Já que a violência está intimamente ligada à hegemonia masculina, só o fim desta hegemonia poderá reduzir a violência e persuadir os cidadãos de que é um problema de âmbito social e não algo privado, isolado."


(Desenvolvimento e as Mulheres,  Dorienne Rowan-Campbell e Deborah Eade)

A PSICOLOGIA OCIDENTAL



A PSICOLOGIA OCIDENTAL, não se interessa pelos processos da ConSciência em si e a sua elevação, mas com os efeitos perniciosos da falta de ConSciênica dos indivíduos, a que chamam doença...
(...)
"A psicologia ocidental em quase sua totalidade só se interessa pelos estados outros de consciência que não o usual quando estes são patológicos, isto é, não integrados no indivíduo. Esquizofrenia, psicoses, neuroses, este é o campo que tais escolas lidam. Escolas como a junguiana e... a transpessoal são exceções importantes, que embora de forma tímida, dão os primeiros passos no estudo dos níveis alterados de consciência nos quais ela não se fragmenta ou descompensa, mas se amplia. De uma forma primária ainda chamam tais estados de transe, muitas vezes considerando-os ocorrência fugidias , como acessos que vem e vão.
Mas outras escolas de psicologia mais sofisticadas como a budhista, tanto o ramo Chan e Zen, como o Tibetano, a Taoista, compreendem que existem outros estados de consciência e podemos não apenas incidir neles mas ampliar a tal ponto nossa percepção que um novo mundo se descortina aos nossos olhos, ampliado por podermos perceber mais. Um desses estados é conhecido como o estado de Arhat. Após um trabalho disciplinado o ser passa a interagir de forma mais consciente com o meio e assim ao invés de estados ilusórios passa a perceber o mundo como ele de fato é, com seus fluxos e mutações. Costuma-se dizer que o Arhat vê a essência das coisas e não apenas a superfície. Todo trabalho é realizado em etapas."
(..)
Nuvem que Passa
( em pistas do caminho)

A CONSCIÊNCIA REAL

O que é o CONHECIMENTO DE SI?


 

"PARA A MAIOR PARTE DOS HOMENS (E MULHERES), aquilo que eles classificam de consciência é o registo de noções, de impressões e de convicções compostas pela reflexão cerebral e pela educação. Essas formações são tão fugitivas como o reflexo das nuvens num espelho. Elas não nos pertencem de si, porque podem ser modificadas pelas mais diversas influências. Nada, neste conjunto de ideias e conceitos, sobrevive à dissolução do ser físico, emocional e mental. É uma consciência que não se inscreve no nosso ser imortal.
Quantos homens e mulheres na Terra acordarão em si a Consciência real, aquela que os tornará "conscientes e responsáveis"? É portanto necessário, para falar "conscientemente", entendermo-nos quanto às palavras, depois considerar os meios de acordar essa consciência".

(...)
In L' OUVERTURE DU CHEMIN
ISH SCWALLER DE LUBCZ

A "CONSCIÊNCIA SIMPÁTICA"



"A Inteligência do Coração, que estabelece a relação da Consciência inata com a observação do facto, é a Identificação.

Identificação significa viver com e no feito observado, sermos nós próprios o feito, experimentar e actuar, sofrer, alegrar-se com ele. Esta é a “Consciência Simpática” e não uma consciência subjectiva que a lógica pretende opor à Consciência objectiva. Sem dúvida, presta-se a confusões: a consciência cerebral se inscreve de maneira cerebral como acabamos de dizer e a Consciência inata inscreve-se na natureza dos organismos, ou seja, que o móbil da sua função é o impulso da sua necessidade, a Ideia o princípio de Harmonia. No ser humano, no animal superior, isto cria a emotividade.
Quanto maior é a sensibilidade emotiva, melhor se pode expressar a Consciência inata. Se o feito observado provoca uma “sensação”, uma reacção tipo egocêntrico, com que estamos ante a consciência subjectiva. Se o feito é observado por uma pessoa em estado de neutralidade, um estado impessoal, estamos diante da Consciência simpática. Daí todos estes problemas se resolverem numa cultura que implique um desprender-se do egoísmo e do domínio da parte mental (do filme cerebral).
(...)

in “ESOTERISMO E SIMBOLISMO” - R.A. SCHWALLER DE LUBICZ

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

GRANDES MULHERES...



EM PORTUGAL TAMBÉM HÁ MULHERES
QUE CONTAM A NOSSA HISTÓRIA...

"Esta é a dinâmica desta nossa dimensão e tempo, levantar o véu e ver, crer para ver, nem que seja um sinal de cada vez de que a Deusa está sendo reconsagrada e despertando pela nossa intuição, busca, sentido de justiça, desejo de viver uma vida de alegria e prazer."
Malu Moreira


"São seis e meia da manhã...e estou acordada desde as quatro...voltei a pegar no livro da Luiza Frazão que me chegou ontem, O Jardim das Hespérides...e estou a dar-me conta comovida de um trabalho muito sério e aplicado de uma mulher estudiosa e dedicada à causa da Deusa que nele faz uma abordagem muito conscienciosa e alargada da nossa história (não contada) e de toda esta ânsia que temos de nos reencontrarmos com a nossa Memória ancestral e sentir esta imperiosa necessidade da volta da Deusa Mãe. Como é reconfortante reencontrar e saber dos lugares de origem do Culto e da tradição da Mãe na nossa terra em que a Mulher era soberana e senhora de si. Em que a mulher era Sacerdotisa, e sobretudo Mulher inteira!
Ah como é sensível acordar para as nossas memórias mais recônditas...e como eu me lembro delas...como tenho saudades de um tempo assim... e como sonhei revivê-lo na pele...
Obrigada Luiza Frazão por me ajudar a reviver esse sonho que tanto desejamos que se torne realidade para todas nós!"

PS

Estou muito grata por os nossos caminhos se terem tocado e haver uma mulher tão séria como a Luiza Frazão que levou tanto a sério a Deusa como eu...

rosa leonor pedro

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

SENTIMENTOS...

Bert Hellinger - o mentor das Constelações familiares




 "Sentimentos primários e secundários:


A diferença principal entre sentimentos primários e secundários é que o primeiros estimulam a acção construtiva, enquanto que os secundários consomem a energia que, de outro modo, iria estimular mudanças. Sentimentos que geram acção efectiva fortalecem as pessoas. Os que embaraçam ou substituem a acção efectiva, ou ainda que justificam a omissão, enfraquecem-nas. Chamo, pois, os sentimentos que geram acção construtiva de sentimentos primários, e os outros de sentimentos secundários.
Os sentimentos primários são simples e não exigem descrição minuciosa. São fortes sem ser dramáticos ou exagerados. Por isso, embora excitantes e vívidos, trazem uma sensação de segurança e calma. (…)
Muitos sentimentos com que lidamos em terapia são secundários. Sua função principal consiste em convencer os outros de que não podemos encetar acção efectiva, razão pela qual têm de ser sentimentos dramáticos e exagerados. Quando sob o império de sentimentos secundários, somos fracos e os demais presentes sentem a necessidade de ajudar. Se as emoções forem suficientemente dramáticas, os que pretendem ajudar não percebem que, na verdade, pouco há a fazer em tal situação.
Quando as pessoas cultivam sentimentos secundários, evitam contemplar a realidade. Esta compromete as imagens interiores necessárias para manter esses sentimentos e prevenir mudanças. Quando essas pessoas “trabalham” com terapia, frequentemente fecham os olhos e se recolhem ao seu mundo particular. Respondem por outro lado ao que lhes é perguntado, mas quase nunca percebem o que fazem. Convém lembrá-los de que devem abrir os olhos e observar o mundo. Eu costumo dizer-lhes “Olhem para cá. Olhem para mim.” Se conseguirem abrir os olhos e ver realmente, mas ainda assim continuam com o mesmo sentimento, é porque se trata de um sentimento primário. Mas se o sentimento lhes fugir logo mal abrem os olhos e começarem a ver, podem estar certos de que foram envolvidos por sentimentos secundários.
Quando sentimentos primários emergem na terapia ou na vida, os presentes demonstram naturalmente compaixão, mas sentem-se também livres para responder de maneira adequada. A pessoa que ostenta esses sentimentos mantém-se forte e capaz de agir efectivamente. Dado que eles conduzem a um objectivo definido, não duram muito tempo: surgem, executam o seu trabalho e vão embora. Não fazem rodeios. Resolvem-se graças a uma expressão apropriada e a uma acção efectiva, correcta.
Os sentimentos secundários, por sua vez, duram mais e pioram com a expressão, ao invés de melhorar. Esse é o motivo básico pelo qual as terapias que encorajam a expressão de sentimentos secundários são demoradas.
Desejo corrigir também outro conceito erróneo sobre a perda de controle, é algo eu aprendi com a Terapia Primal. Muitas pessoas supõem que curvando-se a uma necessidade ou sentimento premente, perdem o controle. Não é verdade. Quando acedemos a um sentimento primário – por exemplo, à dor elementar de uma separação, a uma cólera justa ou a um forte desejo -, e confiamos plenamente nesse sentimento, tanto esse quanto a necessidade são naturalmente controlados.
Os sentimentos primários vão até onde convém. Ninguém fará nada vergonhoso por causa de um sentimento primário, pois este sabe reconhecer os limites da vergonha. É muito raro que se zombe de uma pessoa que exibe um sentimento primário. Ao contrário, os outros em geral se comovem profundamente e participam da experiência.
Isso se aplica apenas aos sentimentos primários. Os sentimentos secundários não conhecem os mesmos limites à vergonha e é muito fácil passar por idiota expressando-os. Não se pode confiar neles.
Mas os sentimentos secundários têm o seu fascínio. São dramáticos, excitantes, dão a ilusão de vida. Todavia, o preço dessa vida é as pessoas ficarem eternamente fracas e indefesas.
(…)
O luto, por exemplo, pode ser primário ou secundário. O luto primário nada mais é que a dor lancinante da separação. Se nos submetemos à dor, permitindo que ela execute o seu trabalho, o luto finalmente encontra a sua própria saciedade e nós ficamos livres para começar de novo. Muitas vezes, entretanto, as pessoas recusam a submissão ao luto, transformando-o, ao contrário, em sentimento secundário, auto-piedade ou tentativa de atrair a piedade alheia. Esse luto secundário pode durar a vida inteira, inviabilizando uma separação limpa, e negando a evidência da perda. Trata-se de um mau substituto para o luto primário.
A culpa primária conduz à acção saneadora. Se aceitamos a culpa, fazemos naturalmente o que é possível e necessário para corrigir os erros, endireitar a situação e viver com o que não pode ser mudado. A culpa secundária transforma acção em preocupação. Não promove mudanças: na verdade, previne-as. As pessoas podem remoer um bom problema durante anos, como o cão rói seu osso, mas nada muda. Atormentam-se e atormentam os outros, sem nenhuma alteração produtiva. As pessoas que precisam evitar mudanças positivas, por uma razão qualquer, devem converter a culpa primária em culpa secundária.
O desejo de vingança pode ser também primário e secundário. A vingança primária possibilita a reconciliação porque liberta tanto a vítima quanto o agressor. A vingança secundária preserva a agressão e o desequilíbrio sistémico, impedindo que se chegue a uma solução. Exemplo disso são as lutas de clãs herdadas de gerações anteriores. Os vingadores se acham no dever de cobrar prejuízos que não sofreram e seus actos se voltam quase sempre contra os que não fizeram nenhum mal.
A cólera tem formas primárias e secundárias. A cólera primária purga um relacionamento e passa sem deixar cicatrizes. A cólera secundária contra alguém frequentemente se segue a um dano que lhe infligimos, e o ofendido tem boas razões para odiar-nos. Ficando encolerizados, rebatemos seu ódio. A cólera secundária, como a culpa secundária, é muitas vezes um pretexto para não agir. Nos relacionamentos, a cólera costuma ser utilizada para não pedir o que se quer, como: “Você nunca percebeu que eu necessitava de alguma coisa.” (…)
Quando o sofrimento é primário, os clientes suportam o que tem de ser suportado para, em seguida, juntar os pedaços de suas vidas e começar de novo.
Quando o sofrimento é secundário, iniciam outra rodada de dores. Queixar -se de algo não passa, geralmente, de uma distorção secundária da aceitação da realidade.
A diferença entre o que fortalece e o que enfraquece aplica-se também a várias outras áreas, como o conhecimento e a informação. Podemos perguntar-nos:
“Esse conhecimento facilita uma solução ou a impede?
Essa informação estimula a acção ou a embaraça?
O que está a acontecer fortalece ou enfraquece as pessoas, impulsiona ou anula a acção efectiva em prol de mudanças?”
Estou menos interessado em ajudar pessoas a “pôr para fora os seus sentimentos” do que em promover mudanças construtivas.
Extravasar sentimentos às vezes é bom, mas frequentemente obstrui a mudança.

Bert Hellinger
In, A Simetria Oculta do Amor

ÀS ROSAS...



Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas
Não dar sentido do futuro humano;
O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo
Não ser mais, e até o próprio nome...

Deixar de lado como um brinquedo quebrado.
Estranho, não desejar mais os desejos. Estranho,
Ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto
No espaço. E estar morto é penoso
E cheio de recuperações, até que lentamente se divise
Um pouco da eternidade. - Mas os vivos
Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes
Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
Arrebata através de ambos os reinos todas as idades
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.
...

RILKE

terça-feira, fevereiro 16, 2016

COMO PODE UM GRANDE POETA SER ASSIM...



As Pessoas Riam-se de Mim...


A minha susceptibilidade a certo tipo de sustos (medo) era grande. Na rua, um homem caminhando na minha direcção, isto é, na direcção contrária, tirou da algibeira um lenço à minha frente; comecei de imediato a pensar, inconscientemente, acho, que estava a tirar uma arma ou um revólver.
A minha vista curta — nem sempre, mas excessivamente no que respeita aos traços das pessoas, aos gestos — afectava o meu cérebro desequilibrado. A minha imaginação interpretava mal o carácter dos seus olhares. Distorcia, não sabia explicar porquê, a intenção e o significado dos seus gestos. O meu próprio sentido de audição era débil; aplicava a mim próprio, retorcendo-as, as palavras que captava. Via em cada palavra um termo destinado a ofender-me, em cada frase, mal apanhada, a sombra e o vislumbre de um insulto.
As pessoas na rua riam-se: riam-se de mim. A minha vista débil não me deixava destruir esta ilusão. Não me atrevia a pôr os óculos que tinha no bolso, pois temia que as minhas desconfianças se revelassem fundadas.
Ansiava por ter uma grande auto-estima, para que a minha pessoa me fizesse esquecer de mim próprio. Desejava, oh, como desejava! — o impulso de me dedicar aos outros para que eles me fizessem esquecer de mim. Ansiava por morrer, por me esvair da minha personalidade, por deixar a vida esvair-se. Ansiava livrar-me de tudo, ir para longe, para muito longe. Desejava nunca mais olhar para o rosto dos homens.
Nessas horas de intensa dor, desejava, muitas vezes, ter um amigo que pudesse corresponder-me: o meu maior sonho era ter um cão. Sonhava frequentemente ter como companheira uma criança, encontrada na rua, abandonada. Mas nas minhas agonias mais profundas, nas minhas crises mais agudas de dor, não desejava nada senão esquecer. A terra, a natureza, os homens, as formigas, os bichos, os pássaros — desejava estar em sossego longe deles. Ansiava por um sono que nada na vida pode dar. Os meus pensamentos relacionavam-se com a morte, com a completa mortalidade da alma. Ao caminhar nos passeios, parecia-me que despertava risos, que era objecto de troça.
[...] O meu ouvido, meio fraco, revelou-se de uma extrema acuidade para conversas que se desenrolavam atrás de mim. As palavras que apanhava, interpretava-as mal para meu próprio desgosto e sofrimento.

Fernando Pessoa - manuscrito, original em Inglês (1904-1908)

NÃO SEI COMO DIZER-TE

 
 


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

  Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

 Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.


HERBERTO HELDER
(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)




O Mundo Transformado em Poder da Palavra


O poema é um objecto carregado de poderes magníficos, terríficos: posto no sítio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e começa. Aliás não é exactamente um objecto, o poema, mas um utensílio: de fora parece um objecto, tem as suas qualidades tangíveis, não é porém nada para ser visto mas para manejar. Manejamo-lo. Acção, temos aquela ferramenta. A acção é a nossa pergunta à realidade: e a resposta, encontramo-la aí: na repentina desordem luminosa em volta, na ordem da acção respondida por uma espécie de motim, um deslocamento de tudo: o mundo torna-se um facto novo no poema, por virtude do poema — uma realidade nova. Quando apenas se diz que o poema é um objecto, confunde-se, simplifica-se; parece realmente um objecto, sim, mas porque o mundo, pela acção dessa forma cheia de poderes, se encontra nela inscrito: é registo e resultado dos poderes. E temos essa forma: a forma que vemos, ei-la: respira pulsa move-se — é o mundo transformado em poder da palavra, em palavra objectiva inventada em irrealidade objectiva. Se dizemos simplesmente: é um objecto — inserimos no elenco de emblemas que nos rodeia um equívoco melindroso, porque um objecto pode ser útil ou decorativo, e a poesia não o pode ser nunca. É irreal, e vive.

Herberto Helder, in '(Auto-)Entrevista, Jornal Público, 4 Dezembro 1990'

 
 

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

O MASCULINO É UM FALSO NEUTRO

"A mim, o que me dá cabo dos ouvidos e apertos no estômago é estar numa plateia, composta por homens e mulheres (e pessoas de outros géneros, já agora), e dirigirem-se a mim no masculino. Não interessa se estão 100 mulheres e um homem, 3524 mulheres e um único macho." A. O.

 

MULHERES:

Não se calem perante o sexismo!

O masculino é um falso neutro. O masculino é masculino, o feminino é feminino. O masculino não inclui o feminino, tal como o feminino não inclui o masculino. Não “somos todos portugueses”

Chamar “portuguesas e portugueses” ao conjunto das pessoas com cidadania portuguesa não é um erro, nem um pleonasmo, nem uma estupidez, nem uma piroseira, nem uma redundância, como diz o M.E.C., na crónica de sexta-feira, dia 12 de fevereiro, no Público. Usar a expressão “portuguesas e portugueses” é, antes, optar por uma linguagem inclusiva não sexista. É ter preocupação em não fazer discriminações de género. É ter cuidado com o que representa aquilo que dizemos. É, enfim, utilizar uma linguagem objetiva, transmitindo a mensagem da melhor forma possível.

O masculino é um falso neutro. O masculino é masculino, o feminino é feminino. O masculino não inclui o feminino, tal como o feminino não inclui o masculino. Não “somos todos portugueses”. Há cidadãos portugueses e há cidadãs portuguesas. Sim, “somos o povo português ou a população ou a nação portuguesa”, mas “povo”, “população” ou “nação” são nomes com um único género. Contrariamente a português/portuguesa, cidadão/cidadã, humano/humana. “Ser” é um nome masculino, sem que exista um equivalente feminino. “Humano” é um adjetivo masculino que tem o seu igual feminino. Daí que, por condordância nominal, não se diga que as mulheres são seres humanas, mas se diga que as mulheres são humanas. Dizer “somos todos portugueses e basta”, é um erro. E se um só exemplo bastar, eu cá estou para comprová-lo. Eu, de facto, não sou português. Sou portuguesa.

A mim, o que me dá cabo dos ouvidos e apertos no estômago é estar numa plateia, composta por homens e mulheres (e pessoas de outros géneros, já agora), e dirigirem-se a mim no masculino. Não interessa se estão 100 mulheres e um homem, 3524 mulheres e um único macho - eu acho que até nem interessa mesmo se não estiverem machos porque, de acordo com a lógica de alguns seres que ainda vivem no passado, se há um conjunto de pessoas ele é necessariamente masculino. Pois, já se sabe, homem com agá grande representa a humanidade. Assim: simples e inquestionável, porque as regras não são para questionar, mesmo que sejam discriminatórias. O que importa aqui é questionar essa regra linguística segundo a qual o masculino no plural inclui ambos os géneros, por se tratar de algo que hoje é um anacronismo cultural. Uma língua viva evolui e que a faz evoluir é quem a fala. Portanto, somos nós que temos de a mudar. A igualdade de género é ou não uma boa razão para essa mudança?

A linguagem cumpre várias funções e está imbuída de poder. Poder esse que se situa, muitas vezes, no domínio simbólico. Usar o masculino como a regra a que se subordina o feminino patrocina a invisibilidade de metade da humanidade, tira-lhe poder, é sexista. É incompreensivelmente machista. E, isto sim, pior do que piroso, é perigoso. A lógica da dominação masculina, de que a linguagem se encontra tomada, tem servido para oprimir as mulheres. Serve a quem acha, por exemplo, que esse domínio se pode estender até à violência numa relação de intimidade. Ou, se quiserem uma notícia fresquinha a ilustrar de forma clara, justifica que um em cada três rapazes ache legítima a violência sexual no namoro.

Provavelmente, muitos dos que usam o masculino e o feminino nas situações a que o MEC se refere, como em tantas outras, são - aí estamos de acordo - machistas ignorantes. Fazem-no de forma acrítica. Constroem essas frases porque acham que lhes fica bem. A mim, que sou mulher com consciência feminista e que entendo as discriminações em função do género, sabe-me bem. Talvez porque prefira um machista ignorante e que utiliza linguagem não discriminatória a um machista intelectual que discrimina em função do género e que se orgulha disso.

ALEXANDRA OLIVEIRA - in PUBLICO
Copiei do Publico este excelente texto - espero que não seja proibido...
rlp