"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

AS FEMINISTAS RENEGAM A SUA ESSÊNCIA MULHER





"Vivemos numa sociedade em que os homens acham que os ovários e o útero são da humanidade e o seios e a vagina são deles."
(Albino Aroso, 1923-2013)


AS ACTIVISTAS E INTELECTUAIS "FEMINISTAS"


É por medo de parecerem religiosas e místicas ou fora do contexto social e político actual assim como do "politicamente correcto", que as mulheres hoje se negam e renegam a sua essência, porque têm medo dos seus lideres e patrões, mestres e mentores, que lhes falam de "paridade" ou vantagem económica ou a liberdade sexual ou da emancipação que elas sonharam possível  dentro da sua ideologia materialista histórica,  caso elas defendam, claro os trabalhadores e as classes desfavorecidas ou então as intelectuais que sonham ser escritoras e galgar o palco mediático ou as políticas nas Assembleias etc.. É por tudo isso a mulher feminista de hoje não quer olhar para a sua essência, para a sua natureza instintiva ou para a sua mística. Mas a sociedade patrista não só não lhe deu a verdadeira liberdade como lhe tirou toda a dignidade, como é incapaz naturalmente de as elevar à dimensão do verdadeiro feminino, afastando-as cada vez mais e mais dessa mulher essência, pois o Sistema em si vive à custa dessa cisão da mulher…eles dividiram a mulher em dois tipos de mulher, "a santa e a pecadora" para poderem reinar…

E o que é essa mulher essência, perguntarão…

A mulher essência é aquela que tomou de novo contacto com a essência do seu ser, do seu feminino vital, essa parte sagrada de si mesma, sim, instintiva, intuitiva, energética, mágica e que se consciencializa da sua divisão interna e histórica e não aceita mais culpar a "outra".
A mulher essencial é aquela mulher que se tornou consciente da sua cisão interna e que integrou o lado de si que lhe tinha sido negado ou escondido, essa "outra" censurada pela Sistema, banida da história  e que procura unir essas duas partes do seu ser que foram secularmente antagonizadas e não se conforma com a diferença entre as mulheres - as putas e as sérias - como se ela só continuasse a ser a pura (a boa) e a outra a pecadora (a má), etc.
 

AS MULHERES INTELECTUAIS OU RELIGIOSAS, NÃO PENSAM...

É notável como mulheres inteligentes e sensíveis, que se aproximam de uma consciência emergente, ainda não consigam perceber que nem o dogma católico nem a evocação das religiões mais antigas, e nem mesmos os mitos e lendas são a verdadeira fonte de uma realidade que já foi vivida e que ultrapassa os tempos e as ideias ou mesmo toda a força do obscurantismo religioso que afastou a mulher, não dos palcos de poder, mas de si mesma e da sua própria natureza o que é muito mais grave. Mais parece até que é isso mesmo que elas não querem ver. Que dentro de cada mulher reside um mistério. Que dentro de cada mulher há um poder. E esse poder tem a ver com a sua própria natureza e a natureza da Vida que nos gera e gera tudo o que existe ao cimo da Terra. Que esse Poder é sagrado por si mesmo independentemente da ideia de um deus criador ou de um qualquer culto mas sim com a VIDA! E a Vida é a Deusa é a Mãe. É evidente que esse poder também existe no homem mas aqui trata-se de um aspecto particular que é o da mulher ser a geradora da vida dentro de si e dar à Luz o homem…e que para além disso esse poder inato lhe dá uma consciência própria, como mulher mãe e amante e que lhe foi NÃO SÓ TIRADO como completamente desvalorizado pelas religiões e sistemas patriarcais.
 
rosaleonorpedro

6 comentários:

vania jones disse...

é precisamente o medo que me leva a bloquear muitas vezes e então eu vou à procura das minhas próprias formas. depois dou mais atenção à Mãe à Mulher a todas essas nossas partes, tanto em mim como na minha mãe por exemplo. é o meu FOCO. é o que me faz sentido. é o q me faz cooperar comigo mesma. estou a arranjar novas formas de me entender. escolho dedicar me cada vez mais no Feminino sem descurar do outro lado em bora n lhe dê tanta importância .. estou lhe atenta mas não lhe dou atenção... por exemplo: nunca me faltaram as bicicletas desde criança... então incentivo meu pai a pedalar com rotina... eu faço o mesmo mas pedalo literalmente noutra direção... e quando culpo a outra corro o risco de a bloquear também e creio que as deva estimular continuamente. é me desgastante ver as Mulheres intelectuais e da politica na tv e saber à partida a imensidão dos seus dons e capacidades e vê las ir por ali a fora sem se olharem profundamente. lendo e relendo...

Anónimo disse...

"A mulher não nasce: ela é feita. No fazer, sua humanidade é destruída. Ela se torna símbolo disto, símbolo daquilo: mãe da terra, puta do universo; mas ela nunca se torna ela mesma porque é proibido para ela fazê-lo."
Andrea Dworkin

Não há como voltar atrás. Não temos lembrança a que nos agarrar, de um tempo em que as mulheres não eram oprimidas. Não existe nenhuma mulher que saiba o que é ser mulher sem a opressão patriarcal. No máximo, temos histórias de mulheres que se rebelaram e tentaram viver de acordo, se conseguiam, com seus anseios.

O feminismo é composto por mulheres assim. Mulheres que não tem lembranças de como era a vida e a história das fêmeas da espécia, antes da dominação masculina, mas que querem construir uma nova mulher e um mundo novo.

O feminismo não tem obrigação de incluir o misticismo do Sagrado Feminino. Ou de uma busca por uma essência feminina porque não se tem um parâmetro por onde se começar. Podemos, sim, tentar nos livrar dos condicionamentos patriarcais e ver, quem sabe, surgir daí, a nova mulher construtora do novo mundo. O Sagrado Feminino no paganismo, me parece o mais próximo de um caminho que realmente respeite a mulher. No Sagrado Feminino do cristianismo da Igreja Católica, Maria é símbolo de virgindade e submissão, um aspecto que nós feministas rejeitamos por colocar a sexualidade feminina e as mulheres a serviço dos padres e dos homens. Mas também no paganismo, a contaminação do patriarcado está presente, vi em muitas comunidades pagãs em redes sociais, que adoravam a Deusa, demonstrações de misoginia machista, quando homens se punham a criticar a dicotomia santa x puta, que eles diziam ser algo imposto pelas religiões patriarcais monoteístas. Enquanto debochavam e atacavam a "santa", pregavam que as mulheres deveriam assumir seu "lado puta", liberando-se de todas as suas inibições e preconceitos. Só esqueciam de avisar que não faziam isso para o nosso bem e sim para proveito deles e que tanto a "santa" quanto a "puta", eram rótulos criados por eles para nos explorar. Não há religião ou caminho místico que não seja patriarcal e misógino. Todas as instituições humanas são contaminadas pelo desprezo pelas mulheres e convicção da inferioridade da mulher.

Não existe nenhuma mulher nascida hoje ou em qualquer época, que se lembre do que é ter essa essência, se algum dia existiu, se perdeu ao longo dos milhares de anos em que o patriarcado tem perdurado.

Continua...

Anónimo disse...

Nós, feministas, queremos criar uma nova mulher e uma nova sociedade. Mas estamos tateando no escuro, porque não temos ideia do que é ser mulher sem os condicionamentos que nos foram impostos de inferioridade, subordinação, auto-sacrifício e submissão. O que nós fazemos, então, é questionar os comportamentos que são esperados das mulheres, questionar os valores machistas que nos oprimem e ainda temos que lidar com as coisas práticas da vida, como a sobrevivência dentro de um sistema capitalista e patriarcal.

A maioria das mulheres sempre teve que trabalhar para viver, seja no campo ou na cidade. Em tempos não muito distantes, as ocupações das mulheres se restringiam aquilo que era uma extensão do que já faziam em seus lares. Não podiam estudar ou possuir bens. Ou estavam subjugadas na família ou quando mais pobres, subjugadas e servindo nas casas abastadas ou aos homens na prostituição.

O feminismo veio se construindo ao longo do tempo, tentando e muitas vezes conquistando, um lugar melhor para as mulheres. Muitas profissões que antes as mulheres não tinham acesso, hoje tem. Se temos algum direitos, foi graças às lutas desses mulheres. Mas o patriarcado, notadamente, os homens que dominam o mundo, não viu esse movimento aparecer e ficou parado, reagiram e em cada época de luta das mulheres, houve uma reação para de uma maneira ou de outra nos recolocar no "nosso lugar". Mas como dizem as feministas: "nós mulheres resistimos e lutamos."

E continuamos na luta, pois o backlash está aí mesmo. Aliás, estamos vivendo uma tentativa de retrocesso mundial, não só nos direitos das mulheres, mas de todos e de toda classe trabalhadora. Mas é claro que nós e nossos filhos é que seremos mais prejudicados nesse retrocesso. E por isso a luta das mulheres é e será necessária nos próximos anos. Eu não tenho dúvida disso.

Toda feminista sabe que ganhamos algumas batalhas, mas ainda estamos lutando a guerra. Não temos ilusões a esse respeito. Nosso sonho coletivo de mulheres engajadas no feminismo, é viver num mundo onde o feminismo não precise mais existir. E quando esse dia chegar, nós poderemos nos reunir e encontrar nossa essência, porque a dominação e opressão não mais existirão, para nos lembrar que fomos relegadas e colocadas num lugar de inferioridade.

Continua...

Anónimo disse...

O processo de libertação, de encontro de uma essência ou desse essência feminina, só se dará numa sociedade livre de condicionamentos. E esse processo é vagaroso porque os homens agem e sempre agiram como nossos inimigos. Temem perder seus privilégios e os homens poderosos temem perder uma classe que eles podem explorar em todos os sentidos: no corpo, na sexualidade, na capacidade de trabalho e na capacidade reprodutiva.

Não acredito em soluções individuais, porque se você não ataca o sistema, apenas tenta solucionar o que te incomoda, esse mesmo sistema vai continuar criando e reproduzindo mais mulheres oprimidas. Temos que ir às raízes da discriminação e combatê-la coletivamente. Só unidas poderemos alcançar nosso objetivo. Eu sonho com o dia em que as mulheres nasçam nesse planeta e possam livremente crescer e ser mulher, na acepção verdadeira da palavra, sem medo e sem rótulos. A mulher em sua essência terá, então, surgido.

Que a Deusa Ártemis, a ursa, nos proteja e guie.

A. A.

rosaleonor disse...

Minha amiga, agradeço infinitamente o seu texto, todas a sua exposição e só lhe responderei aqui a esta questão que surge da frase de "a mulher não nasce mulher" porque eu penso exactamente o contrário da S. De B. Para mim esse é o ponto fulcral de que partimos para algo quanto a mim totalmente erróneo - pois a questão é essa mesma, mas vista do avesso que o estado em que a mulher ocidental acorda para si, só ao nível mental. Na verdade para mim A MULHER NASCE MULHER e porque a sociedade machista e patriarcal a negou em si mesma e a destituiu de todas as característica com que nasce, anulando-a do seu potencial e expressão natural do instintivo e desse modo a deformou e programou, anulando a verdadeira mulher e a sua ESSÊNCIA logo a partida esse lado que a caracteriza como ser feminino e anulando a mulher genuína que se deveria manifestar socialmente porque a teme e por isso a destrói. Simone de Beauvoir disse coisas magnificas, foi uma primeira pista para as mulheres da época, para as intelectuais etc. mas ela foi uma percursora do pensamento masculino, mente intelecto (cérebro esquerdo) e não entendeu essa MULHER de dentro, e viu-se a si mesma como esse produto da sociedade e da cultura, negando que se nasce mulher, mas fê-lo só através da cabeça, das ideias dos homens a que sempre esteve presa também, nomeadamente o homem a quem sempre quis agradar......a Verdade é que a Mulher nasce mulher tal como o homem nasce homem, essas são as coordenadas da Natureza biológica e anímica do homem e da mulher - mas isto só pode ser entendido ao nível de uma visão que não pode ser positivista, marxista, nem mental...e por isso, apesar de concordar nesse sentido com algumas ideias das feministas, e possa sentir afinidade com muito do que diz aqui, a partir dessa sua premissa teremos forçosamente caminhos opostos a desbravar - eu para dentro e você para fora?
Toda a minha escrita tem a ver com o mundo infinito da Mulher por dentro, tem a ver com o Mistério da Mulher em si, vem do sagrado da Mulher-Útero e não da mente intelecto...e com certeza a minha amiga não poderá estar de acordo comigo, nem as mulheres feministas em geral. Quanto à afirmação da Simone, já escrevi sobre ela...e tudo o que escrevo aqui pode responder a todas as questões que lhe possam surgir como refutação. Entretanto poderei voltar eventualmente a debruçar-me sobre o seu texto e as suas ideias, mas isso é uma coisa que eu tenho feito exaustivamente ao longo de todos estes anos...
Fico-lhe muito grata pelo seu contributo...e não me leve a mal eu colocar a minha visão subjectiva e espiritualista ou animista da Mulher essência...

grata pela sua boa vontade

rlp

rosaleonor disse...

PS

Acabei de reler o seu ultimo comentário e como é evidente você parte da premissa mental e intelectual, a visão materialista da história - que filtra o conhecimento e a origem do ser através da mente intelecto, baseando-se porventura na "ciência" politica e outra... e por conseguinte associando a noção de transcendência e do sagrado feminino para a religião patriarcal- da esposa e da santa da nossa senhora etc. sem ter em conta a mulher ancestral e pagã...) e apenas vê a mulher dentro do sistema que assim educa há séculos a mulher e o homem e tendo a razão e a logica apenas como fonte de saber da mulher e negando uma Fonte de saber intrínseco, vindo de dentro da própria mulher, de onde também a Vida é gerada, como um potencial celular (memória celular) pela negação da mulher instintiva e mediúnica, negando igualmente a intuição e a percepção, em suma, negando o polo cerebral feminino - o hemisfério direito) e essa é a tese das feministas que eu combato...- e que você acabou de exprimir de forma muito clara, e isso eu agradeço, porque me mostra claramente também como a mulher se afastou da sua essência primeira da matriz e do Útero para ser apenas mente intelecto e razão...e por ai eu não vou...pois esse foi o caminho que acabou por afastar mais ainda a mulher de si mesmo e fazer o que o homem sempre quis...uma mulher com cabeça de homem...esse era o propósito do patriarcalismo: dividir a mulher em duas...a santa e a puta e depois dar-lhe liberdade económica e sexual para ela o servir melhor ainda...
O MEU FEININO SAGRADO NADA TEM A VER COM O PATRIARCALISMO, NEM COM A RELIGIÃO DOS HOMENS...que reduziram as mulheres a servas e ínfima espécie...a VIDA É SGRADA EM SI e há uma Visão que transcende os nossos sentidos e a nossa mente - só não vê quem é cego...e se não houve abertura e humildade verdadeira também não. Ninguém é mais adverso a religião patriarcal e ao sistema do que eu ...mas a minha ALMA E A INTELIGÊNCIA DO CORAÇÃO (a síntese dos opostos integrados ao centro)dos FALA MAIS ALTO...
Espero bem que não fique zangada comigo e se não me conhece devo dizer-lhe que fui feminista e lutei concretamente no meu tempo e QUANDO NÃO HAVIA LIBERDADE E ERAMOS PERSEGUIDAS PELA POLICIA POLÍTICA que torturava as mulheres para podermos votar etc...mas já lá vão 50 anos...e vemos agora que pouco ou de nada serviu tanta luta e tanta conquistas - a violação o abuso, a pedofilia a prostituição e o feminicídio continuam em grade e a perseguição às mulheres do mundo inteira também...Este é um retrocesso histórico e cultural mas se quisermos ficar na teoria, na ideologia, na utopia e na mente...orgulhosas do nosso poder intelectual...fiquemos...eu não vou mais por ai...não me meto mais na boca do lobo...
obrigada pelo seu tempo e energia e pelo esforço de dizer

rlp