quarta-feira, fevereiro 10, 2016

DUAS VISÕES DA MULHER E DA HISTÓRIA


COMENTÁRIO DE UMA LEITORA

"A mulher não nasce: ela é feita. No fazer, sua humanidade é destruída. Ela se torna símbolo disto, símbolo daquilo: mãe da terra, puta do universo; mas ela nunca se torna ela mesma porque é proibido para ela fazê-lo." - Andrea Dworkin


"Não há como voltar atrás. Não temos lembrança a que nos agarrar, de um tempo em que as mulheres não eram oprimidas. Não existe nenhuma mulher que saiba o que é ser mulher sem a opressão patriarcal. No máximo, temos histórias de mulheres que se rebelaram e tentaram viver de acordo, se conseguiam, com seus anseios.

O feminismo é composto por mulheres assim. Mulheres que não tem lembranças de como era a vida e a história das fêmeas da espécia, antes da dominação masculina, mas que querem construir uma nova mulher e um mundo novo.

O feminismo não tem obrigação de incluir o misticismo do Sagrado Feminino. Ou de uma busca por uma essência feminina porque não se tem um parâmetro por onde se começar. Podemos, sim, tentar nos livrar dos condicionamentos patriarcais e ver, quem sabe, surgir daí, a nova mulher construtora do novo mundo. O Sagrado Feminino no paganismo, me parece o mais próximo de um caminho que realmente respeite a mulher. No Sagrado Feminino do cristianismo da Igreja Católica, Maria é símbolo de virgindade e submissão, um aspecto que nós feministas rejeitamos por colocar a sexualidade feminina e as mulheres a serviço dos padres e dos homens. Mas também no paganismo, a contaminação do patriarcado está presente, vi em muitas comunidades pagãs em redes sociais, que adoravam a Deusa, demonstrações de misoginia machista, quando homens se punham a criticar a dicotomia santa x puta, que eles diziam ser algo imposto pelas religiões patriarcais monoteístas. Enquanto debochavam e atacavam a "santa", pregavam que as mulheres deveriam assumir seu "lado puta", liberando-se de todas as suas inibições e preconceitos. Só esqueciam de avisar que não faziam isso para o nosso bem e sim para proveito deles e que tanto a "santa" quanto a "puta", eram rótulos criados por eles para nos explorar. Não há religião ou caminho místico que não seja patriarcal e misógino. Todas as instituições humanas são contaminadas pelo desprezo pelas mulheres e convicção da inferioridade da mulher.

Não existe nenhuma mulher nascida hoje ou em qualquer época, que se lembre do que é ter essa essência, se algum dia existiu, se perdeu ao longo dos milhares de anos em que o patriarcado tem perdurado."

(Continua)

RESPOSTA A UMA LEITORA
Minha amiga, agradeço infinitamente o seu texto, toda a sua exposição e tentarei aqui respondera à sua ultima afirmação e na medida do possível a esta questão que surge da frase de "a mulher não nasce mulher" ("ela é feita") porque eu penso exactamente o contrário da frase inicial de Simone de B. mas estou de acordo com o sentido que aqui  Andrea Dworkin lhe dá . Todavia há aqui também uma nuance muito importante a destacar. Sendo esse um  ponto fulcral do qual partimos para algo - a busca de identidade da mulher-mulher ancestral  - quando a ideia de que se parte é de que a sua humanidade é destruída, no dizer da autora citada, quanto a mim é totalmente erróneo, pois a questão vital para mim não é a da sua humanidade-mulher apenas mas digamos a sua ESSÊNCIA PRIMEIRA e essa essência nunca é destruída porque ela está ligada à Anima, à sua Alma, é a parte intrínseca à sua especificidade de mulher - e ela permanece inviolável...Claro que pela sua narrativa nem a psicologia das profundidades nem a mística ou a transcendência do Ser e da mulher especialmente - negação  que é comum a todas as feministas e assim o afirma no seu texto - nega esta premissa e faz com que tudo o que digo lhe pareça estranho e risível talvez. 
 
Na verdade para mim A MULHER NASCE MULHER, ponto final. E nunca deixa de ser essa mulher; apenas é alienada de si, pois começa por reprimir a sua natureza instintiva e intuitiva, sexual e emocional mal nasce e esquece quem é. Mas uma vez adulta tocada por algo de cariz diria metafísico, ela volta a DESPERTAR para si. Há Ritos de passagem, há tradições seculares, há revelações, há iniciações. Mas digamos que ela acorda como a princesa do conto de fadas mas desta feita não pelo beijo do príncipe, mas sim pelo beijo da Maléfica ...quando ela integra o seu lado Sombra - Lilith ou se quiser Artémis -  e se torna então a mulher que sempre esteve nela escondida nos tempos. Diria prosaicamente que é como "andar de bicicleta" - nunca  se esquece...
O seu texto, ao contrário do que eu vivo e afirmo,  a noção que me é dada é de que agora, nestes tempos, e di-lo de forma categórica,  não há nenhuma referência dessa mulher primordial atávica. E mais uma vez está a basear-se apenas no saber masculino e mental racional da História contada pelos homens e esse, se me permite,  é o seu erro uma vez que se refere apenas à  mulher ocidental-intelectual que "acorda" para si apenas no plano mental e social sem qualquer dimensão interior, espiritual ou cósmica (certamente se rirá da minha "religiosidade" cósmica), que foi educada com as ferramentas do homem e que foi ensinada a pensar como ele  esteja a favor do sistema ou esteja contra ele...
 
O que aconteceu de facto e como tão bem diz,  foi que a sociedade machista e patriarcal impediu essa mulher autêntica de se expressar por ter medo do seu poder inato e intrínseco, fazendo com que  negasse em si mesma essa sua natureza selvagem, diria intuitiva, sensual, visceral, ctónica e telúrica,  destituindo-a de todas as característica femininas; sim, ela é destruída porque o seu poder e o seu potencial é anulado  pela mãe pelo pai pela educação pelos padres e pela igreja etc. e desse modo ela apenas obedece ao programa que a deformou, anulando a verdadeira mulher na expressão genuína dessa sua ESSÊNCIA. 
 
A mulher moderna de facto pode pensar-se... mas não se sente, não se sabe. a partir de dentro.  Ela reflecte apenas o saber teórico, ao nível mental, e tendo em conta a História e a ciência dos homens. Mas há mulheres Xamãs...há Mulheres Bruxas, Videntes, Curandeiras, parteiras,  há mulheres iniciadas, há Mulheres sábias...e elas são temidas e rejeitadas, ridicularizadas etc. consideradas loucas e histéricas perseguidas há séculos e ainda hoje pelos padres e queimadas nas fogueiras...mas essa essência feminina não morre, apenas não se pode manifestar pelos ditos condicionalismos do imperativo moral, social e religioso patriarcal, que anulou a mulher genuína só porque a teme!  
 
A mulher moderna manteve-se e mantem-se presa no pensamento masculino, à sua filosofia, usando as mesmas ideias e conceitos, partindo da "base de dados" dos registos do patriarcado, sendo apenas uma mulher corpo-sexo e mente-intelecto (cérebro esquerdo) que não entendeu essa MULHER de dentro, nem a ferida da sua Psique dividida,  e vendo-se apenas como esse subproduto da sociedade e da cultura machista, negando que se nasce mulher essência...
A Verdade para mim é que a Mulher nasce mulher tal como o homem nasce homem; essas são as coordenadas da Natureza biológica e anímica do homem e da mulher à partida e que a sociedade depois modela como quer e dai chegamos à deriva dos géneros, construção social e cultural porque precisamente lhe falta uma consciência psicológica e ontológica e o sentido de uma existência superior para lá das ideias e da vida concreta. 
Sim, o que eu digo só pode ser entendido ao nível de uma visão muito mais alargada e que não pode ser positivista, nem marxista, e por isso, apesar de concordar com algumas ideias das feministas, e até possa sentir grande afinidade com muito do que expõe aqui, e haver muitos aspectos que foca correctos, acontece que a partir dessa sua premissa, frase sua que destaquei,  teremos forçosamente caminhos opostos a desbravar - eu para dentro e você para fora?
 
Toda a minha escrita tem a ver com o mundo infinito da Mulher por dentro, percepcionado além dos 5 sentidos, algo que tem a ver com o Mistério da Mulher em si, que vem do sagrado da Mulher-Útero e não da mente intelecto...e compreendo que a  minha amiga não possa estar de acordo comigo, nem as mulheres feministas em geral. Aqui aconselhava-a vivamente a ler um livro único e basilar de Esther Harding - OS MISTÉRIOS DA MULHER  onde encontra e tem toda a história possível anterior ao patriarcalismo...e não precisa de ter fé para o ler...
 
"Não existe nenhuma mulher nascida hoje ou em qualquer época, que se lembre do que é ter essa essência, se algum dia existiu, se perdeu ao longo dos milhares de anos em que o patriarcado tem perdurado." 
 
Acabei de reler este seu ultimo comentário e sinto-me obrigada a refuta-lo veementemente porque conheço e trabalho com mulheres há mais de vinte anos e sei e posso afirmar-lhe que essa ESSÊNCIA é revelada à mulher de dentro para fora e não depende de uma informação qualquer sobre esse passado longínquo e sim de uma EXPERIÊNCIA, consciência de si que está apenas adormecida na mulher - mas se quiser ler um livro fundamental sobre o tema e baseado nas descobertas de antropólogas feministas, escrito por uma mulher consciente e lucida,  leia O CÁLICE E A ESPADA de Riane Aisler...
 
Ainda referindo a sua frase e como é evidente, você parte da premissa mental e intelectual, da visão materialista da história e da cultura - que filtra o conhecimento e a origem do ser (mulher ou homem) através da mente intelecto, baseando-se porventura nas "ciências" politicas socias e  outras e por conseguinte associando a noção de transcendência e do sagrado feminino à religião patriarcal - submissão da esposa e da santa no altar, da nossa senhora imaculada etc. sem ter em conta a mulher ancestral e pagã de antes do evento do patriarcalismo...
O que eu digo porém e afirmo de voz alta é que  a mulher de hoje e todas as mulheres que se dispuserem a isso poderão ter acesso à sua PSIQUE, e terem acesso a sua natureza profunda, ao lado numinoso do seu ser, ao seu lado lunar, à sua subjectividade e por experiência própria se assim se ABRIREM de alma e coração.
 
Quanto a mim o drama das feministas é ao imitarem o homem e lendo da sua cartilha o ABC da vida mesmo que negando-a - partem dessa visão materialista e mental ou cientifica deles - e só conseguem raciocinar e ver objectivamente as coisas, tendo-se perdido do seu Útero e da sua INTUIÇÃO.  Elas apenas vêm a mulher dentro do Sistema que assim educa há séculos a mulher e o homem e partindo sempre da sua  razão e da logica cartesiana apenas como fonte de saber da mulher e negando uma Fonte de saber intrínseco, vindo de dentro da própria mulher, de onde também a Vida é gerada, como um potencial celular (memória celular); são as mulheres que lutam pela libertação da mulher que continuam a  negar a mulher instintiva e mediúnica, negando igualmente a intuição e a percepção, em suma, negando o polo cerebral feminino - o hemisfério direito e as suas funções.
 
É esta posição redutora da mulher e a sua tese que eu combato...- justamente as ideias e a posição que você acabou de exprimir de forma muito clara, e que eu  agradeço, porque me mostra claramente também como a mulher se afastou da sua essência primeira, da Matriz original e é dela descrente ou ignorante tal como é  do seu próprio Útero para ser e defender  apenas as razões e as teses medicas e cientificas provenientes do materialismo, mesmo que negando o seu domínio...
 
Só posso acrescentar para finalizar que a minha visão do FEMININO SAGRADO NADA TEM A VER COM O PATRIARCALISMO, NEM COM A RELIGIÃO DOS HOMENS, que reduziram as mulheres a servas e a ínfima espécie...
Considero que a VIDA É SAGRADA EM SI mesma e há uma Visão que transcende os nossos sentidos e a nossa mente-intelecto e só a percepcionamos se houver abertura e humildade verdadeira .
Ninguém é mais adverso a religião patriarcal e ao Sistema do que eu ...mas a minha ALMA E A INTELIGÊNCIA DO CORAÇÃO (a síntese dos opostos integrados ao centro) FALA MAIS ALTO... 
 rlp

1 comentário:

Ana Nazaré disse...

Os estudiosos falam que há "repressão sexual" na nossa civilização.
Eu acho que, mais ou menos como a Rosa falou, a mulher NASCE mulher, mas ELA é reprimida, ou seja, não deixam que ela cresça, quando menina . Ou seja, há uma repressão, mas espiritual, da mulher. E o homem ele não é reprimido espiritualmente, mas é ensinado a ver a mulher como alguém diferente, que ele precisa dominar. Porém, depois que ele domina, o desejo dele para de fluir (a mulher fica muito excessiva). Por isso vem a prostituição. Se ele não tiver a "outra" ele não aguenta, pode ficar doente, etc. (nesse sentido a Igreja católica se torna perversamente cruel, porque ela institucionaliza não só o casamento, mas a fidelidade nele).