"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, março 29, 2016

A SABEDORIA DO AMOR...


"A sabedoria do amor consiste na aprendizagem pelo sofrimento, do prazer nele contido. " Tisanas - ana hatherly


Não sou apologista de que devamos fugir à dor ou à tristeza...acontece o que aconteça, passem-se as coisas que passar, as mais terríveis, ao nível consciente ou não, sejam elas passadas ou presentes, elas devem ser integradas naturalmente e transformadas em saber, mas só depois de sentidas, vividas com coragem e dignidade - como as mortes e as doenças graves etc. -  e compreendidas em nós, embora nem sempre isso seja possível ao nível da razão e da lógica...

Pensamos demasiado na felicidade e somos demasiado instigados/as a ter medo da dor e do sofrimento tal como da morte, ignorando os dois lados da vida sempre em interacção. Cultuamos apenas a alegria e esta falsa felicidade...como se de um suposto garantido se tratasse e a vida não é assim, nunca foi. Por essa razão criamos paraísos artificiais, lutamos contra tudo e contra todos em busca desses paraísos - ganhar dinheiro, lutar, subir na vida -  e levamos a vida a fugir para lugares de sonhos e vivemos de idealizações que só nos fazem perder o contacto com a realidade e o nosso sentir verdadeiro.

Sinto e sei que devemos sempre aprofundar o sentir  aquilo que estamos a viver o que vem a nos em forma de sofrimento e deixar fluir as sensação em nós, sejam elas boas ou más, sem censura sem as bloquear por medo...Devemos deixar vir ao de cima tudo o que nos oprime ou às vezes revolta...sejam memórias passadas, acontecimentos presentes ou pressentimentos...tudo o que nos afecta e incomoda e não queremos ver...
A nossa Depressão é quase sempre uma necessidade de interiorizar, uma etapa importante quando vivemos alienados e a fugir de nós mesmas/os...tal como as doenças...é a nossa necessidade de parar e olhar para dentro...

Não, não sou daquelas pessoas que pensa que tudo tem de ser curado imediatamente e que há terapias, comprimidos ou mezinhas para tudo o que sentimos. Prezo e respeito o sofrimento em si como expressão natural do meu ser face a uma realidade aparentemente confusa e caótica: uma realidade (tanto interior como exterior) tantas vezes dramática ou trágica onde nada é realmente como sonhamos ou idealizamos e por isso aceito e respeito dignamente o meu sofrimento sem medo e o das outras pessoas nomeadamente das mulheres quase como uma coisa sagrada.
Para mim sofrer/sentir em silêncio é tantas vezes uma forma de oração superior, de interiorizar o saber que vem do coração e conhecer a fundo o que ele nos diz...em vez de fugir e recitar de cor mantras e rezas...ou recorrer a químicos e remédios e a médicos...psiquiatras e afins!
Eu alquimizo a dor em mim pela aceitação porque sei que há o outro lado que se revela quando o fazemos sinceramente e sem medo. É daí que vem a luz de dentro ou uma serenidade única...inefável...a colmatar essa transformação. Todos/as temos essa capacidade.
Esta sociedade de plástico, consumista e belicista,  que faz guerras e mata e destrói  tudo  à nossa volta e o mundo em que vivemos, ao mesmo tempo quer tudo feliz e contente, tudo nivelado  pelo mesmo padrão de escravidão e nos vende constantemente pacotes de mentira em nome do "amor e da paz" ou da "felicidade"...na verdade, a única coisi que quer é ver-nos alienados, em busca de sucedâneos e a consumir tudo o que nos vende e promete prazer e alegria constantemente.


Há dias em que vomito essa praga de curas e remédios na montra da "espiritualidade" e do positivo new age  com que nos bombardeiam por todo o lado. Sim, prefiro a minha dor e a minha tristeza a essa alegria fictícia que abunda por ai a qualquer preço! Às vezes muito alto...
rlp

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