"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, abril 12, 2016

O PODER DA MULHER



“Obviamente existe outro tipo de poder que foi e é encarnado pelas mulheres, e que não tem menor intensidade que aquele [o que se relaciona mais com as estruturas que regem o contexto social], embora executado por diferentes canais: o poder sobre as relações, aquele que se exerce não através do distanciamento emocional, mas antes através da intensidade dos vínculos emocionais, o que controla o “outro” através da emoção e não da razão.
Hernando* exemplifica estes dois tipos de exercício do poder como “ética da realização”, da identidade do género masculino vs. “ética do cuidado” da identidade do género feminino. O primeiro exige individuação e baseia-se na objetivação do outro, o segundo requer vinculação e dependência, e baseia-se no conhecimento explícito ou intuído da subjetividade do outro. Tende-se a acreditar que o primeiro é mais potente que o segundo, mas neste último:

“A sensação de poder é tão grande que, em minha opinião, compensou em muitas mulheres (de mentalidade patriarcal) a ausência de outro tipo de poder, o racional e político, até à Modernidade, ao tempo em que muitos homens com essa mesma mentalidade atribuem às mulheres um imenso poder, o que faz com que não entendam como podem elas queixar-se de não o terem.”


O PODER DA MULHER aqui referido como um poder intrínseco e natural -  é, neste caso, um ponto fulcral que diz muito do poder da mulher ao olhar do homem patriarcal. Sim, na ausência de presença por ausência de poder politico, social e económico, sem se poder afirmar na sua individualidade e por conseguinte na situação de dependência económica do homem, a mulher valeu-se do seu poder de sedução, sexual e não só, (diria então magnético) em relação aos homens (a mulher fatal e as suas variantes, dependentemente da cultura e da classe social a que pertencia) e de amor empenhado em relação aos filhos (amor maternal), de forma exacerbada em compensação para a sua cisão interior (a santa e a puta), sendo vista como uma ou outra e cuja divisão interna e psicológica o homem não percebeu (nem o psicólogo nem o antropólogo) e agindo ela, diz bem aqui o autor, por compensação,  pela sua limitação racional intelectual e politica imposta e por não ter liberdade justamente de ser ela espontaneamente, uma mulher plena, ela exerceu um PODER  excessivo em termos passionais e maternais, tendo uma influência óbvia na família e no homem.
O Olhar do Homem erudito ou do psicólogo ou escritor sobre a mulher - essa mulher em si dividida em dois estereótipos - o que viu foi a mulher potenciada nos seus atributos  extremos ao ponto de lhe dar essa sensação de grandeza do seu poder, claro, como mãe déspota e temerária, castradora de filhos ou amante promiscua e dominadora ou destruidora de corações e fortunas. Assim eles ficaram com “A sensação de poder é tão grande que, em minha opinião, compensou em muitas mulheres (de mentalidade patriarcal) a ausência de outro tipo de poder, o racional e político, até à Modernidade, ao tempo em que muitos homens com essa mesma mentalidade atribuem às mulheres um imenso poder, o que faz com que não entendam como podem elas queixar-se de não o terem.” - MAS SEM NUNCA A ENTENDEREM...
Quem sabe, só dos nossos dias poderemos rectificar esta consciência da divisão-cisão da mulher e a forma como ela marcou a história dos homens pela sua ausência...
rlp

E AQUI TEMOS UM RETRATO PECISO DA MULHER PATRIARCAL NOS SÉCULOS ANTERIORES:

"Woman are sublimated into something symbolic without presence" (Susana Sidhe Aguilar, Ancient Roots of Goddess Culture)

Referência ao conceito de Eterno Feminino introduzido por Goethe:
...
“Empurra para o alto poetas e filósofos, ideal de pureza contemplativa, de mulher passiva e vazia de poder, compêndio de nobre feminilidade e canonização do “anjo do lar”, dedicada integralmente a ser a intercessora do homem entre ele e o seu bem-estar, encarnada numa santa ou numa obra de arte, condenada à abnegação, carente de história ou morta em vida. e como se não bastasse, enfrentando eternamente a dicotomia anjo ou monstro, pomba ou serpente, Branca de Neve ou madrasta, em definitivo, “a principal criatura gerada pelo homem, “a mulher criada por, a partir de e para o homem, as filhas dos cérebros, costelas e engenhos masculinos*.”

*Angie Simonis, La Diosa: un discurso en torno al poder de las mujeres, aproximaciones al ensayo y la narrativa sobre lo Divino Femenino y sus repercusiones en España; Universidade de Alicante;

*Hernando Gonzalo Almudena, “Sexo, Género y Poder. Breve reflexión sobre algunos conceptos manejados en la Arqueologia de Género”
em Angie Simonis, La Diosa: un discurso en torno al poder de las mujeres, aproximaciones al ensayo y la narrativa sobre lo Divino Femenino y sus repercusiones en España; Universidade de Alicante; 2012
* EXCERTOS  retirados  no blog O ETERNO FEMININO OU A ANULAÇÃO DA MULHER REAL - in a Deusa no coração da Mulher -  Etiquetas: ,   de Luiza Frazão

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