"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, julho 12, 2016

GANHÁMOS O QUÊ?



A ILUSÃO DE SERMOS GRANDES?

Estou francamente perplexa...um misto de sentimento de incredulidade e espanto, de tristeza e alegria...consternação e exultação, honra e vergonha, tudo ao mesmo tempo, sem saber o que pensar desta humanidade - pelo que nos movemos e o que nos move na vida...
Como entender a exaltação de um povo num jogo...este empolgamento colectivo...este sonho, esta entrega, esta raiva, esta paixão...por uma coisa de nada, quando a Pátria está na falência e é ac...ossada por bandidos financeiros e roubada por árbitros económicos ...que não nos roubam penalties...roubam-nos a dignidade e a sobrevivência,
Milhões de seres engalfinhados, a vibrar, a gritar ...
Não, desculpem os aficionados, mas não entendo este empolgamento num jogo de bola e de milhões de euros, quando milhares de pessoas morrem de fome e na guerra e o mundo todo está a ruir diante dos nossos olhos todos os dias - uma crise planetária sem precedentes, de destruição maciça do mundo ...e os seres humanos aos gritos histéricos por causa de uma bola que rola no relvado...
Não, não queria estragar-vos a festa pá...gostava de embalar nesta heroicidade, nesta união...nesta fé...mas nada me faz sentido...o meu coração queria rejubilar nesta falsa glória, mas a minha alma não deixa...
Ah, sou lucida, merde!



UMA NOTA, depois de várias reacções...

Não tenho que me justificar de não saber viver em pleno uma ilusão de amor por mais bela e evocativa que ela seja...nem de ter um anseio maior para Portugal...
O meu sonho para Portugal é de um amor assim vibrátil sim, mas de justiça e verdade, de respeito e dignidade, de universalismo e pluralidade, de igualdade e fraternidade social...Desejo-o de corpo e de alma inteira...mas não me revejo neste delírio despropositado, nas alegorias forçadas, nem nas colagens feitas ao Dom Sebastião...ao Hino, a Pessoa e a Camões - que me perdoem os mais optimistas de que isto é um principio do despertar da Nação nobre valente e imortal...
Não nego esta vitória merecida com todos os atributos já mencionados, a garra e o coração na boca dos portugueses, a humildade face à arrogância; eu não tirei o mérito a ninguém, treinador e jogadores, adeptos e devotos do desporto, mas não consigo participar do excessivo empolamento que lhe damos...
Reconheço estes jogadores e este feito como uma coisa brilhante e merecida e congratulo-me por eles, pelo povo, mas pelos imigrantes principalmente, vitimas diárias de descriminação em França e para onde foram escorraçados, mas não os confundo com os verdadeiramente grandes que sonham e que anseiam do fundo do coração um Portugal Maior.

rlp

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