"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

quinta-feira, maio 11, 2017

AS FILHAS NÃO AMADAS

E DE LUTO PELA MÃE QUE MERECIAM

“Será que vou parar de sentir que fui enganada por algo essencial?”

A estrada de recuperação de uma infância sem o amor da mãe, apoio e sintonia é longa e complicada.
Um dos aspectos da cura que raramente é tocado é o luto da mãe que precisávamos, que buscávamos, e sim – merecida. A palavra MERECIDA é a chave fundamental para o entendimento porque o motivo permanece esquivo para muitas mulheres (e homens): El@s, simplesmente não se vêm como merecedors@, porque interiorizaram o que as mães lhes disseram e fizeram como autocritica, concluindo erroneamente que têm uma falta, uma inutilidade ou simplesmente não podem ser amad@s.
Como filha não amada, aproximando-me da minha sétima década de vida, o papel que o luto desempenha na luta pela cura atingiu-me mais uma vez a semana passada, marcado pelo 16º aniversário da morte da minha mãe. Desde que escrevo com frequência sobre crianças não amadas, algumas pessoas acreditam erroneamente que penso constantemente na minha mãe. Nada poderia estar mais longe da verdade.
Após anos de ir e vir eu limpei a minha mãe da minha vida, 13 anos antes de ela morrer. A minha decisão foi tomada com quase 39 anos, quando motivada pela descoberta de que carregava uma filha, a minha primeira e única criança. Fui finalmente capaz de fazer pela minha filha ainda não nascida, aquilo que não tinha conseguido fazer por mim: livrar-me do veneno da minha mãe. Na expectativa de me tornar mãe, iniciei o processo de luto da mãe que eu merecia, não tendo nada a ver com a mulher que me deu á luz.
Quando eu aprendi que a minha mãe me estava a falhar há 16 anos atrás, eu deixei de a ir ver, com todas as pessoas da minha vida a dizerem-me que deveria ir para o “encerramento” - incluindo o meu terapeuta. Mas eu era sábia o suficiente para perceber que eles não caminharam o meu caminho sendo as suas perspectivas baseadas em romances e filmes de Hollywood. Momentos floridos em que as mães amam sempre. Na vida real, eu fazia a pergunta á qual sempre quis uma resposta: Porque não me amas? E ela se recusaria a responder, como sempre, mas desta vez o seu silêncio se estenderia pela eternidade. Também não assisti ao seu funeral. Mas sofri – Não por ela, mas por mim e pelas minhas necessidades não satisfeitas. E a mãe que eu merecia.

PORQUE É IMPORTANTE CHORAR A MÃE QUE PRECISAVAMOS – E PORQUE PODE SER TÃO DIFICIL

“Quando comecei finalmente a vê-la pelo que ela era e como ela nunca seria a mãe que eu precisava ou queria, comecei a defender-me e a estabelecer limites, e a sua raiva e insultos pioraram. Finalmente disse-lhe que não tolerava mais o seu comportamento e terminei todo o contacto. AGORA estou realmente de luto. Eu, finalmente vi a verdade e dói como o inferno. Encontro-me na idade em que alguns dos meus amigos começam a “perder” as suas mães para a velhice e suas histórias dos tempos das suas mães são dolorosas para mim…Acho que só agora iniciei o processo de luto e ainda continuou nele” – Annie.
Chorar a mãe que precisávamos é impedido por ambos os sentimentos, o de indigno de amor e, o mais importante, o que chamo de núcleo de conflito. Este conflito é entre a tomada de consciência da filha de como a mãe a feriu na sua infância e ainda assim ela sente a necessidade contínua de amor e suporte materno, mesmo na idade adulta. Este fosso despoleta a necessidade de se salvar e proteger contra a contínua esperança de que de alguma forma ela descubra o que poderia fazer para que a mãe a ame.
Este conflito pode prolongar-se por décadas, com a filha recuando e talvez sem contacto por um período de tempo, sendo puxada novamente para o turbilhão pela sua necessidade combinada pelas suas necessidades, esperanças e negação. Ela pode passar por cima da dor e arranjar desculpas para o comportamento da mãe, porque os seus olhos encontram-se no premio: O Amor da sua mãe. Ela coloca-se numa roda gigante sempre a girar incapaz de a desmontar.
Aquelas que cedem na batalha – evitando o contacto ou limitando a comunicação com as suas mães e/ou outros familiares – experimentam uma grande perda juntamente com um grande alivio. Para a filha curar a sua perda – a morte da esperança de que este relacionamento essencial pode ser salvo, necessita de ser chorado junto com a mãe que ela merecia.
A profundidade do núcleo de conflito pode ser vislumbrada na angústia daquelas filhas que permanecem na relação precisamente porque temem que se sentirão piores quando a mãe morrer. As palavras de Meg:
“Se eu a retirar da minha vida e ela morrer, sinto medo e vou-me sentir ainda pior, com mais dor do que aquela que sinto agora. E se ela mudasse e voltasse a si, eu ia sentir a falta dela? Então seria minha culpa. Como ela sempre disse que era.”

OS ESTÁGIOS DE LUTO QUE ECOAM NA RECUPERAÇÃO DA FILHA DESDE A INFÂNCIA

No livro “On Grief and Grieving”, Elizabeth Kübler-Ross and David Kessler, mencionam os cinco estágios de perda pelo qual Kübler-Ross é famosa – negação, raiva, negociação, depressão e aceitação – não foram criados para “tornar emoções confusas em embalagens perfeitas.” Em vez disso, enfatizam que todos experimentam o sofrimento de maneira única e individual. Nem toda gente passará por todos os estágios nem pela sequência esperada. Dito isto, os estágios são esclarecedores, especialmente quando vistos no contexto do percurso de uma filha não amada fora da infância, deixando claro porque o luto é parte essencial da cura.

NEGAÇÃO: Como os autores dizem: “ É a maneira da natureza deixar entrar o máximo com o qual conseguirmos lidar.” Com a experiencia da grande perda, a negação ajuda a amortecer o golpe imediato, permitindo á pessoa absorver a realidade. Isto é verdade para a morte mas também se aplica ao reconhecimento da filha da sua ferida. É por isso que pode levar anos ou décadas para a filha ver o comportamento da sua mãe com clareza. De forma contra-intuitiva algumas mulheres só vêem isso em retrospectiva depois da morte das suas mães.

RAIVA: Na esteira da morte, a raiva é a mais acessível das emoções, dirigida a alvos tão diversos como o falecido por abandonar o ente querido, Deus ou as forças do universo, a injustiça da vida, os médicos e o sistema de saúde, e Mais. Kübler-Ross e Kessler enfatizam que, por detrás da raiva, estão outras emoções mais complexas, especialmente a dor crua da perda, e que o poder da raiva da pessoa em luto pode ser, por vezes, esmagadora.
As filhas não amadas, também, passam pelo estágio ou estágios de raiva á medida que trabalham as suas emoções para a recuperação. A sua raiva pode ser dirigida directamente para as suas mães ou para outros membros da família que se mantiveram como suporte e falharam para as proteger e também dirigida para si próprias pelo não reconhecimento do tratamento toxico.
A raiva no Eu, “self”, infelizmente pode bloquear a habilidade de sentir auto compaixão; mais uma vez é o acto de lamentar/fazer o luto da mãe que se merecia que permite a auto compaixão por forma a criar raiz e florir.

NEGOCIAÇÃO: Esta fase tem normalmente a ver com a morte iminente – a negociação com Deus ou promessas de mudança, pensando “se apenas” tivéssemos feito X ou Y, teríamos sido poupadas á dor da perda. Com a morte esta fase é para ser passada através da aceitação da realidade. O caminho das filhas não amadas é marcado por anos de negociações, suplicas faladas ou não faladas na crença de que se alguma condição for atendida a sua mãe a amará e a apoiará. Ela poderá embarcar num percurso de agradar e apaziguar a mãe ou fazer mudanças no seu comportamento procurando em vão a solução que lhe trará o desejo final: O Amor da sua mãe. Assim como no processo de dor, é somente quando a filha deixa de negociar que ela pode começar a aceitar a realidade de que ela é impotente para arrancar o que ela precisa de sua mãe.

DEPRESSÃO: No contexto de uma grande perda, Kübler-Ross e Kessler apontam que estamos muitas vezes impacientes com a tristeza profunda ou a depressão que a acompanha. A sociedade quer pessoas que saiam da tristeza rapidamente e insistem em que se a tristeza persistir é porque necessita de tratamento. Em vez disso, eles escrevem que na dor “a depressão é a maneira pela qual a natureza nos mantém protegidos, fechando o sistema nervoso, para que possamos nos adaptar a sentimentos com os quais não conseguimos lidar”. Eles vêem isto como um passo necessário no processo de cura.
O terreno para a filha não amada é igualmente complicado. É normal sentir tristeza e depressão, pela forma como a mãe a tratou. Esta tristeza é muitas vezes expressada por sentimentos profundos de isolamento – acreditando que ela é a única filha não amada do mundo – e vergonha. A vergonha emerge do mito da mãe (que todas as mães são amorosas/que amam) e da sua preocupação de que a culpa é sua pela forma como a mãe a trata.
Da mesma forma de que as pessoas bem-intencionadas incitam para sair deste estágio de dor, também amigos e conhecidos, pessoas em quem a filha confia podem inadvertidamente marginalizar com comentários "Não poderia ter sido tão mau porque você acabou tão bem! "E outros comentários deste género.

ACEITAÇÃO: Kübler-Ross e Kessler, dizem que o mais importante é a aceitação da realidade embora não seja sinonimo de que está tudo bem com a realidade, mas é um ponto-chave. Trata-se de reconhecer a perda, identificar a permanência e até mesmo os seus aspectos infinitamente dolorosos, as mudanças permanentes a realizar na sua vida e em si e aprender a viver com tudo isso a partir desse dia.
Na perspectiva Kübler-Ross e Kessler a aceitação permite “remover a energia da perda e começar a investir na vida”.
A aceitação permite que o enlutado forje novos relacionamentos e conexões como parte da sua recuperação.
Tudo isto se aplica também às filhas não amadas, embora a aceitação permaneça, para muitas, fora do alcance. É por isto que chorar a mãe que se merecia é crucial.

A HISTÓRIA DE UMA FILHA

Uma das minhas leitoras usou o quadro de Kübler-Ross para descrever seu próprio luto como um trabalho em andamento. A sua mãe ainda está viva, portanto esta história ainda está a decorrer. Acho que seu relato na primeira pessoa, citado na íntegra, mas anonimamente, será de grande ajuda para muitas filhas que ainda se debatem.
Negação: “Eu não queria acreditar que uma mãe escolheria fazer isto á sua própria filha. Como poderia ela não me amar?
Raiva: “Eu fiquei com raiva durante muito tempo. Raiva pela sua atitude, pelo que nós poderíamos ter tido. Mas raiva acima de tudo por ela ter feito a escolha de preferir estar CERTA do que ter um relacionamento comigo. Ela poderia ter escolhido largar o seu ego narcisista. Isto foi o que mais me deixou chateada.”
Negociação: “Eu acho que não tive esta fase. Existiram sentimentos de “se apenas”, mas não se pode negociar com uma pessoa como ela. Simplesmente não funciona.”
Depressão: “Esta fase durou décadas. Quando a pessoa ainda está viva, penso que existirá sempre uma profunda esperança de reconciliação. Talvez ela venha por ai. Talvez no seu leito de morte ela tenha alguma epifania e perceba o que fez. Num último momento de clareza e confissão. Não sustenhas a respiração. Tem sido difícil ver os meus amigos e as suas mães terem boas relações. E tu pensas: “Porque não tenho isto? Também o mereço, porra!”
Aceitação: “Não sei se passarei plenamente por este estágio até que ela se vá embora. Uma das formas com que melhor lidei com ele foi ser a melhor mãe possível para os meus filhos. Eles conhecem a história da família. Eles entendem porque eu fiz o que eu fiz.”

O QUE SIGNIFICA CHORAR A MÃE QUE VOCE MERECIA?

Exactamente o que lhe parece – lamentar a ausência de uma mãe que a ouviria, que se orgulharia de si, que precisaria de si para a compreender da mesma maneira que você a compreendia. Uma mulher disposta a assumir os seus próprios erros e não a culpabilizá-la por eles, e - sim – alguém com quem rir e chorar.
Olho para o relacionamento com a minha filha e às vezes consigo ver como o meu Eu jovem a teria invejado.
Ainda me é difícil olhar para o passado e ver a inúmeras oportunidades que a minha mãe desperdiçou.

 Peg Streep - escritora

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