segunda-feira, janeiro 15, 2018

“a liberdade de importunar”?




"Catherine Deneuve é um ícone de beleza do século XX, lugar comum que não serei eu a contestar. Seja como princesinha (en)cantada, mulher de dupla vida ou musa fria, enigmática, fogo que arde sem se ver — dependendo do homem que a filmou/fotografou, e foram tantos e tão diferentes —, ela cristalizará como poucas esse objecto de desejo tão conveniente, tão aparentemente subversivo mas afinal conservador, tão útil na manutenção do status quo, que é a senhora-na-sala-puta-na-cama. Aquela mulher toda-imagem mas que se adivinha carnal, sem demasiada autonomia nem demasiada revelação, a que faz sonhar, excita, conforta, perpetua esse desejo. A que de certa forma existe em função do homem heterossexual, da imagem que ele tem de si enquanto conquistador. Ou seja, a que vive para ser eternamente desejada.

Talvez pouco disto corresponda ao que Deneuve é fora das câmaras, nem seria humano, nem é isso que está em causa. Falo de como as suas imagens públicas formam uma ideia de mulher, apurada pelo que escolheu mostrar e dizer, ou não mostrar e não dizer. Uma construção com décadas em que se enquadrou e foi deixando enquadrar.
E, de certa forma, o actual manifesto — que Deneuve não redigiu mas de que aceitou ser a cabeça-de-cartaz — é uma espécie de corolário de tudo isto. Deneuve é a prisioneira de uma moldura. Para sempre bela, e, até hoje, prisioneira. O que ela faz no manifesto é, ainda por uma vez, mais uma vez, servir o clichê da sedução masculina. Apaziguá-lo, dar-lhe alento neste tempo em que tudo o acossa. Dizer, com todo o seu lastro de musa-objecto: queridos homens, nós, que não vos odiamos, que gostamos de sexo, estamos convosco, pela liberdade."

Alexandra Lucas Coelho


Com o título "Defendemos a Liberdade de Importunar" 

Indispensável à Liberdade Sexual, a carta aberta agora criticada foi assinada por cerca de 100 mulheres, entre escritoras, artistas e académicas. No seguimento do escândalo de assédio sexual de Hollywood – que despoletou a denúncia de inúmeros casos, como o de Kevin Spacey –, estas defendem que "aquilo que começou como algo que dá liberdade às mulheres para falar alto se tornou o oposto" e que agora "intimidamos pessoas a falar correctamente" e "gritamos com aqueles que não se metem na linha". Falavam inclusivamente de uma "caça às bruxas".

Deneuve e 100 escritoras, artistas e académicas defendem que os homens devem ter “a liberdade de importunar”
Outras personalidades, como a actriz Asia Argento – que acusou Harvey Weinstein de a ter assediado sexualmente, na década de 1990 – expressaram também a sua opinião relativamente à carta aberta. Catherine Deneuve e outras mulheres francesas contam ao mundo como a sua misoginia interiorizada as lobotomizou de forma irreversível", escreve no Twitter. A ex-ministra francesa da Igualdade, Laurence Rossignol, usou a mesma plataforma para condenar a carta, falando da

MULHERES FRANCESAS ARTISTAS E ESCRITORAS...

ELAS DEFENDEM O DIREITO DOS HOMENS AS IMPORTUNAR: ou seja, aborrecer, enfadar, amofinar, atormentar, incomodar, inquietar, molestar, aporrinhar, assediar, azucrinar, chatear, infestar...

A seguir a essa carta das 100 artistas e escritoras vem a respostas das feministas francesas...a contrapor...

Resposta a Catherine Deneuve: "Os porcos e os seus aliados estão inquietos?"
Assinado por 30 activistas, a primeira subscritora é a feminista Caroline De Haas. O texto critica fortemente os argumentos defendidos por Deneuve e tantas outras personalidades. "Esta carta é um pouco como o colega constrangedor ou o tio irritante que não percebe o que se está a passar", defendem as activistas francesas. "Assim que a igualdade avança um milímetro sequer, almas bondosas alertam-nos imediatamente para o facto de que arriscamos cair em excesso", aponta ainda num tom sarcástico, alertando que todos os dias em França acontecem "centenas" de casos de assédio sexual e violação.
Em relação à questão do flirt, respondem: "As signatárias da carta confundem deliberadamente a relação de sedução, com base no respeito e prazer, com a violência"


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