domingo, maio 13, 2018

LER SOBRE UM PAIS ESTRANGEIRO



“Nós as mulheres escrevemos de maneira diferente da dos homens. Temos muita conversa sobre a vida doméstica e a nível mais pessoal. As mulheres  sentem-se  confortáveis falando de si, ao contrário dos homens. Mas as mulheres sempre compraram livros escritos por homens, e se deram conta de que não eram livros sobre elas. Mas continuaram a fazê-lo com grande interesse, porque era como ler sobre um país estrangeiro. Os homens nunca devolveram a gentileza.”  - Grace Paley (1922-2007).

Mas precisamos nós dessa "gentileza" ou respeito?
Sim, porque não leem os homens os livros escritos por mulheres? E porque continuam as mulheres a ler só os livros escritos  por homens? Porque aceitam que sejam os homens a ditar tudo incluindo a maternidade o sexo e a moda etc?
Esta grande confusão continua actual - e não são só os livros em geral, mas todo o conhecimento universitário como o ensinamento  social e cientifico e académico é dos homens sobre o Homem...e as mulheres rendem-se a essa estranha lacuna de um mundo onde as mulheres não tem a palavra nem se dizem no feminino nem quando falam entre si no geral...Sim, mesmo falando delas elas dizem o Homem e falam sempre no masculino... 

E o que fazem os homens quando ouvem as mulheres?
Tal como relata Virginia Woolf neste trecho ele tem de destruir tudo o que a mulher diz...

O que contava sempre "Era ele – o seu ponto de vista. Quando elas falavam sobre algo interessante, pessoas, música, história, qualquer coisa, simplesmente comentavam que fazia uma noite bonita, por que não iam sentar lá fora, então o que elas se queixavam a respeito de Charles Tansley era que, enquanto ele não tivesse virado a coisa toda do avesso, fazendo com que, de alguma forma, se refletisse a ele próprio e as rebaixasse a elas, enquanto não deixasse todas elas, de alguma maneira,  frustradas (...), todas elas com os nervos à flor da pele, ele não ficava satisfeito.”* 

*Virginia Woolf, no livro ‘Rumo ao Farol’.

RLP

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