quinta-feira, junho 28, 2018

Se eu fosse cego amava toda a gente.



Canção da Saudade

Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.


Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

DELIRIO POÉTICO



Mãe!

Mãe! a oleografia está a entornar o amarelo do Deserto por cima da minha vida. O amarelo do Deserto é mais comprido do que um dia todo!
Mãe! eu queria ser o árabe! Eu queria raptar a menina loira!
Eu queria saber raptar.
Dá-me um cavalo, mãe! Até a palmeira verde está esmeralda! E o anel?!
A minha cabeça amolece ao sol sobre a areia movediça do Deserto!
A minha cabeça está mole como a minha almofada!
Há uns sinais dentro da minha cabeça, como os sinais do Egípcio, como os sinais do Fenício. Os sinais destes já têm antecedentes e eu ainda vou para a vida.
Não há muros para que haja estrada! Não há muros para pôr cartazes!
Não está a mão de tinta preta a apontar — por aqui!
Só há sombras do sol nas laranjeiras da outra margem, e todas as noites o sono chega roubado!
Mãe! As estrelas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem quando luzem. Estão a luzir, ou mentem?
Já ia a cuspir para o céu!
Mãe! a minha estrela é doida! Coube-me nas sortes a Estrela-doida!
Mãe! dá-me um cavalo! Eu já sou o galope! Há uma palmeira, Mãe!
O que quer dizer um anel? Tem uma esmeralda.
Mãe! eu quero ser as três oleografias!


Almada Negreiros, in 'Antologia Poético

QUANDO A MULHER DESABA...




O QUE MUITAS  MULHERES NÃO QUEREM VER …

REPUBLICANDO

"...Então um dia a mulher acorda do seu cansaço, da sua tristeza ou amargura, da sua raiva ou da sua nostalgia, ou pela idade ou por uma doença fatal e súbita ou pelo desgosto da perda…da desesperança de obter aquilo que uma vida inteira não obteve: o reconhecimento do seu valor, da sua força, da sua coragem, da sua entrega, do seu sacrifício…e desaba…

Sim, ela cansou-se de tal modo que teve um esgotamento, uma grave depressão…e acordou, sim, finalmente percebeu que está vazia dela mesma...que há um enorme buraco no seu coração, uma enorme ferida de rejeição de si...e começa a buscar os seus pedaços, os seus fragmentos e assim, já quando tudo parece perdido, ela ergue-se como a Fénix…e começa a renascer das cinzas de si mesma...porque ela morreu…e vê que se deu sem se dar, que se abriu sem se abrir, que amou sem se amar…e que o seu coração sempre esteve partido em dois…em esforço e sacrifico, à família, aos filhos e a tudo o que exigiam dela…o marido ou o companheiro que a tolhia e lhe dizia: “tu não és esta ou tu és aquela” e que sempre a acusou de não fazer nada…de ser uma inútil ou uma incompetente, uma isto e uma aquilo, afinal…pois a mulher sempre foi o bode expiatório do homem…sempre foi e fez o que o homem quis…e porque hoje começa a enxergar um pouco mais e a não fazer tudo o que o homem quer…ela volta a ser perseguida e queimada nas novas fogueiras que não são da Inquisição, mas de um publico e de uma sociedade ávida de explorar a desgraça alheia e a miséria humana, através das vizinhas, alcoviteiras, revistas, televisão e cinema…

Esta é a história de mães e filhas, de avós e tias…de irmãs talvez…histórias que se repetem e se repercutem ainda em todas as telenovelas e filmes…e que afinal na realidade são mesmo assim ainda…"

Rosa Leonor Pedro

segunda-feira, junho 25, 2018

Cortar os laços energéticos de uma relação amorosa.





…"As mulheres podem custar até sete anos para cortar uma ligação com um homem. A eles, em vez disso, apenas 28 dias. Através da meditação, esta ruptura pode tornar-se mais fácil.

Ter relações sexuais com uma pessoa implica muito mais do que o prazer e a satisfação. Para a filosofia do Yoga, é uma instância onde se fundem duas almas através do Espírito. O ideal de uma relação sexual é o encontro amoroso entre dois seres que buscam a fusão total de suas almas, com princípios de vida comuns e com o pilar fundamental do compromisso, respeito e comunicação em que a mulher se sinta segura e amada, e que a mulher se sinta segura O homem sente-se contido e compreendido. Depois de ter sexo, que pode ser com um casal estável ou não, o corpo da mulher fica impregnado com a energia da aura do homem e a psique subconsciente masculina é absorvida pela psique feminina. Desta forma, uma mulher pode, literalmente, curar o seu homem se nesse acto sexual há amor. Caso contrário, se a mulher não é suficientemente forte produz muita confusão mental, é porque as mulheres que têm muitas relações sexuais com diferentes homens acabam por ter problemas psicológicos, já que esta energia deixa a sua marca durante um período de sete anos. Pelo contrário, a impressão feminina na aura masculina fica por um lapso de tempo de 28 dias, ou seja, um ciclo lunar. É aí que reside o problema das mulheres: a difícil tarefa de tirar um homem da cabeça e que do ponto de vista do Yoga, a cura, a meditação e o alinhamento de chakras poderia resolver esse terrível calvário para muitas. A razão para isso, reside na auto-estima da mulher porque é ela quem começa e termina uma relação, ou seja, são as mulheres que decidem se uma relação, tanto amorosa como sexual, se realiza ou não. A Mulher emite um sinal através das feromonas (hormonas de atração) que os homens são capazes de cheirar e que fazem com que acordem nele a sua sensualidade. Quando a mulher já não está entusiasmada com o relacionamento ou não quer nada com esse homem, não é capaz de segregar essa hormona por isso o homem não a sentirá. Assim se cria o que é conhecido como arco de luz (aqueles que se pintam aos anjos ao redor da cabeça), uma cúpula imaginária energética onde se projectam os pensamentos de ações conscientes.

Cortar laços
Os laços energéticos são criados quando existe uma ligação íntima especial entre duas pessoas. Estes "fios" São o meio por onde se manda ou recebe a informação ou a energia do ser. Esta seria a principal razão pela qual custa muito cortar uma relação humana com uma pessoa com quem tenha tido um vínculo afetivo, por muito curto que seja o período de tempo. Para poder cortar os laços afectivos com outra pessoa, é aconselhável praticar a meditação chamada kirtan kriyā, no qual é usado o mantra (som) do sa ta na ma onde vão se tocando por sua vez cada dedo com o polegar, e tem uma duração entre 11 e 31 minutos.

Sa evoca um sentido da emoção, da expansão e do conhecimento. Ta cria uma sensação de força e transformação, dando sabedoria, inteligência e paciência. Nd estimula um sentimento de amor universal dando vitalidade. A ma desenvolve a capacidade de se comunicar. Este tipo de meditação permite curar feridas emocionais e poder acessar e coordenar a capacidade mental e intuitiva. Além disso, ativa a "cadeia dourada", uma ligação esotérica entre a glândula pineal, que segrega a melatonina encarregada de ajudar a dormir, e a hipófise que mantém uma condição interna estável.

Para realizar esta meditação deve sentar-se no chão ou em uma cadeira com as pernas cruzadas e costas reta; colocar as mãos no colo; fechar os olhos e mover a cabeça em forma de l cada vez que você vai dizendo o mantra para que o A energia sai pela expressão. Depois cantar em voz alta o mantra por dois minutos para depois cantá-la em um sussurro forte por mais dois minutos. Em seguida, repetir o mantra na mente por três minutos e voltar para o passo anterior.

Para finalizar, inalar profundamente e expirar todo o ar dos pulmões, esticar os braços acima da cabeça o mais alto que se possa e abrir os dedos estirándolos para cima da coluna; respirar profundamente várias vezes para depois relaxar e descansar por um. Dois minutos. Para que este exercício seja realmente eficaz, recomenda-se realizar esta meditação por 40 dias consecutivos. Difícil ou não, vale a pena tentar."



A MULHER CONSCIENTE DE SI - É PRECISA

Levei uns dias a digerir isto….
Obviamente isto é uma ideia muito interessante e "romantizada" (a espiritualidade romântica) que pouco ou nada nos garante de concreto em relação aos tais filamentos que aprisionam as mulheres durante 7 anos aos homens com quem tem relações, mas é bonito e estimulante de ler e acreditar que sim…
Mas eu medito há quase 50 anos e garanto que não é nada assim tão técnico, nunca foi...não te curas da paixão nem do apego nem da fome nem da dependência de algo - sempre que houver razões para isso - mas é bonito de se dizer que agora basta meditar ou cantar um mantra...
Ah, o Youga e os Mantras...desculpem o cinismo, mas não, a meditação não cura constipações nem cancros nem quaisquer viroses e de certo não limpa filamentos nem tira ninguém da ignorância se a CONSCIÊNCIA interna e psíquica do individuo não estiver lá primeiro...mas acalma e relaxa, é um facto, dá recuo e talvez até te eleve um pouco o astral, depende da meditação e da seriedade da mesma, mas o que eu acho é que este texto está muito bem construído e ilude ou convence (escolham)  e leva mais uma vez as mulheres  para o relacionamento amoroso e o amor a dois, tendo o homem como foco da vida da mulher e não a própria mulher, como urge acontecer: obter  a sua autonomia e independência do sexo (como razão única da sua vida), ensinando-a a viver por si mesma para lá da mera sexualidade e do orgasmo ou do prazer…

HÁ MAIS VIDA PARA ALÉM DO SEXO!

Continua-se a querer olhar e ver a mulher apenas como um ser iminentemente sexual, em que só o corpo e o sexo parecem contar... Bem sei que é esse o programa e a formatação patriarcal que condiciona como ser social e cultural, sendo a mulher apenas um produto mental e moral das sociedade vigentes, iminentemente falocráticas, desde há séculos. Precisamos ABRIR outros campos de liberdade e de Consciência do Ser Mulher para que a Mulher possa ser um Ente e Ser ela mesma sem assa carga exclusiva do sexo e do casamento ou dos filhos.
Mais uma vez informo que não nego o sexo nemo  amor nem a maternidade, mas que não sejam esses os únicos objectivos da vida da Mulher e sim uma escolha consciente. Para que Não seja um padrão DOMINANTE nem uma obrigação social e moral.
Enfim, para mim é mais do mesmo com que se prende e angana as mulheres da New age; sim, para  mim a quarentena devia ser outra...mas eu já sou velha, claro, já não sonho com o par ideal, nem com o amor romântico...mas percebo muito bem que é isto que as mulheres gostam de ler...agora já podem curtir a vontade e depois meditam e isso passa… além do preservativo, claro.

rlp

domingo, junho 24, 2018

QUE SEXUALIDADE SE VIVE HOJE EM DIA?




E O QUE SIGNIFICA ESTA ABERRAÇÃO  DE QUERER ACABAR COM OS GÉNEROS:

Há tempos ouvi uma jovem escritora a falar do seu recente livro que escreveu sobre um casal homossexual dizendo que quis mostrar que um casal homossexual passava pelas mesmas vicissitudes de um casal heterossexual...como se isso acrescentasse alguma coisa à consciência do ser humano (homo-sexualis?) e não passasse de mais uma história superficial sobre os aspectos exteriores da vida de um casal (par hétero ou homo) no enredo típico do casamento em que apenas se equacionam questões de ordem social-económica e emocional ou sexual em primeiro plano, como se a vida fosse apenas esse enredo doméstico e sem qualquer aprofundamento da questão ou questionamento sobre o ser em si ou da alma. Justamente porque a alma nem sequer entra para o caso...

Nas suas palavras ela falava do homem, como homem e dizia que no livro, "Não só mostrava que tinha uma certa maturidade, mas era a questão de ser um homem. Portanto, eu teria uma escrita masculina. Ou, então, abordei uma temática de forma masculina. Ou tinha um nível de qualidade só atingido por um homem. Não sei, não faço ideia. Mas acho que foi uma pequena traição que cometi em relação às mulheres nesse dia, porque fiquei feliz." felipa martins

Pois aí está o absurdo e uma enorme contradição na mulher... sendo obviamente a grande maioria homens que querem ser mulheres...o inverso também é verdade, há mulheres que gostavam de ser homens; e por isso até se dispõem, para mudar de sexo, a fazer operações, porque não se sentem no corpo certo? Mas haverá alguém que se sinta totalmente bem e no corpo certo?

Esta questão da mudança de sexo é só mais uma sofisticada e perigosa manobra de não se querer conhecer a si mesmo para além do corpo-sexo e recusar ou ignorar uma identidade anima e espiritual. Trata-se também de uma enorme confusão psicológica por falta de um conhecimento ontológico e da pessoa humana.

Par mim é o facto de o feminino estar a manifestar-se como força emergente e dentro de cada pessoa, inclusive nos homens, que leva muitos homens a sentirem-se mal no corpo de homem mas isso não tem que os transformar em mulheres, nem de aparência nem de sexo. A feminilização do mundo, uma maior receptividade, compaixão e amor, não quer dizer que os géneros acabem, mas trata-se apenas de dar maior ênfase aos valores do feminino, há séculos em queda, para restabelecer o equilíbrio e a harmonia dos dois Principios. E é precisamente a falta desse feminino ontológico no homem e na mulher, essa falta de dimensão espiritual, que causa uma das grandes anomalias do nosso tempo: A mudança de sexos feita de forma aberrante através de meios técnicos e intervenção cirúrgica e quimicos...que não é mais do que uma forma quase criminosa de escamotear ou ignorar questões de primeira ordem, como seja uma verdadeira consciência do Ser Humano em essência, nem macho nem fêmea, e a crescente e galopante desumanização e perda de valores das pessoas manipuladas pelos média em função do dinheiro e do consumo.


Escrever sobre a homossexualidade, como variante do conflito dos sexos, que visa a definição de um aspecto diria secundário do ser, a sua sexualidade baseada na aparência, é um falso problema, dentro de uma perspectiva ontológica e universal, não meramente cultural e social, vendo o Ser Humano na sua totalidade integrada: corpo-alma e espírito - e não apenas nas suas partes constituintes, em separado, como funções biológicas e orgânicas e reprodutoras - pois não faz mais do que acentuar esta dicotomia do ser em si, invertendo os princípios (anima-animus) sem resolver a questão essencial dos dois lados em cada um dos sexos: macho-fêmea em si foi o Ser Humano criado.
Precisamos perceber antes de mais “que a masculinidade e a feminilidade são sempre relativos nos planos internos, e tal como o vigor físico dos indivíduos que formam um par oscila num sentido ou noutro, o mesmo se pode dar com a sexualidade; assim, um homem pode ser puramente masculino em suas relações com uma mulher e puramente feminino, ou negativo, em suas relações com outra. A forma determina o sexo do indivíduo no mundo físico, porém a força relativa é a que determina nos planos internos; e este facto serve de chave para muita coisa”.

Assim a resposta humana só do ponto de vista social e física (baseado na forma e na aparência) à questão sexual é a negação da androginia psíquica e estrutural de todos os seres humanos ao nível ontológico e não ao nível morfológico e psicológico que é condicionado pela educação e a moral...

O amor entre os seres humanos não é meramente do foro da sexualidade, mas também da química e diria até de uma energia quântica que eleva a consciência do ser muito para além do prazer tout court ou da procriação. O Amor Humano pode ser iniciação, iluminação e acesso a outra dimensão do ser, não material, não física, quando experiência vivida e não idealizada ou intelectualizada.

É mais fácil criar sub mundos e guetos do que olhar as questões de Principios e de fundo que se prendem com a perda do feminino ontologico e do sagrado no mundo e que se reverteu na masculinização da mulher e feminização do homem e como as relações humanas e sexuais se tornaram apenas ou de comercio/consumo e meramente genitais e sem sentimentos...

O Ser Humano, homem e mulher, é chamado neste milénio a viver como um todo indivisível e não como um fragmento de um outro imaginado, não importa que “sexo” represente...


Quando a Mulher for encarada como uma totalidade em si, - não mais dividida em duas espécies de mulher (a santa e a puta) - o Homem também A reconhecerá dentro de si e a sexualidade por si só deixará de ser apanágio de uma cultura decadente e promiscua que reinou no obscurantismo e na confusão do “pecado” durante séculos, expressando uma genitalidade apenas para se afirmar depois em meio século, numa degeneração e libertinagem que nada tem a ver com a sacralidade do mesmo.


Sexo pode e deve ser iniciação ao Amor, não prática desregrada e deslocada do sentido da alma e do coração. Não se ensina a sexualidade às crianças, mas respeita-se a Mulher e a Mãe. Depois a Natureza do Amor encarrega-se do resto. Para isso a sociedade tem de ser equilibrada e harmoniosa o que só se consegue quando Homem e Mulher coabitarem em paz e em harmonia viverem esses aspectos, dentro de si mesmos. Para isso tem que abrir-se ao Amor universal cuja Sede se encontra no centro do seu coração. Ouvir o coração é o que nos resta. Só ele nos poderá orientar no caos deste fim de mundo em ebulição...em que a destruição do ser humano enquanto homem e mulher estão a ser destruídos e a origem da espécie posta em causa na assumpção de géneros e transgeneros...na criação de seres hibritos mais perto de monstros do que de seres humanos em harmonia...Quando a biologia é afectada e transformada deste modo pelos químicos de laboratório e pela "ciência" médica algo está em plena decadência e o perigo é total para a Humanidade.


rosaleonorpedro

O PATRIARCADO É UMA CULTURA



O PODER PATRIO - o poder do homem sobre a mulher
"Patriarcado é uma cultura, um sistema, uma civilização, um sistema econômico, um sistema político, um sistema legal, um sistema religioso, um sistema científico, e assim por diante.
Mas acima de tudo, o patriarcado é um PODER.
Um poder que se manifesta em todos os lugares, instituições, pessoas, hábitos, culturas, religiões, ideologias, mesmo entre mulheres.
Isto porque o patriarcado socializa com os papéis e as hierarquias de gênero que existem entre homens e mulheres.
O patriarcado existe há tanto tempo pois promove a sociabilidade entre homens, que se tratam como irmãos (fraternidade), atribuindo-lhes poder.
Enquanto isso, obriga as mulheres a reproduzirem e sustentar materialmente os homens, socializadas entre si como inimigas, servindo aos interesses do desejo masculino."

Elida Aponte Sánchez

sexta-feira, junho 22, 2018

PORQUE A BELEZA É PUNGENTE



ALÉM DA BELEZA...


"Há em tudo um sentido para além da beleza: e que sinto ainda não consegui desvendar por fraqueza minha, falta de concentração. Parece que o mistério está ali, indefeso, prestes a rebentar, a dar-se, e que a culpa de sua negação é só minha.
Talvez que a beleza seja assim, transcendente. Contendo em si um sentido que não lhe pertence. Mistério que sinto para além do meu poder e que faz a dor da sua contemplação. A inatingível. Dura impossessão.
Talvez que ela seja aqui o único porto de abrigo. Mas aberto somente através do sofrimento. Porque a beleza é pungente.
E é esta a única marca da sua verdade."*

«Dentro do nosso corpo material ... existe um corpo espiritual que se ergue e conhece dentro de nós, quando sonhamos ou quando, na vigília, atingimos um momento de suprema contemplação ou iluminação... "

«Será neste futuro alargamento de nosso mundo conhecido e vivido, que devemos depositar toda a esperança para uma vera sabedoria e liberdade."**


*DALILA PEREIRA DA COSTA,
 in "A Cidade e o Rio"
**Dalila pereira da costa
Portugal Renascido

quinta-feira, junho 21, 2018

O paradigma da conquista e consumo...




QUANDO SE ESCREVE OU FALA SOBRE MULHERES…

"Vigora a ignorância mais crassa que, aliás, se exprime abertamente todos os dias. Pode dizer-se e escrever-se sobre as mulheres as asneiras mais infames, sem que isso provoque a menor indignação. A gaiola de vidro funciona muito bem. O sexismo provoca muitos danos e isto não é sabido. Não é denunciado, não é descrito, não é deplorado, não são analisados os efeitos que influenciam os nossos comportamentos, sem nos darmos conta. Como se não existisse.
- Isso é estranho, nestes tempos de comunicação em todos os sentidos.
- Não é nenhum fenómeno novo. A isso chama-se censura.”*

(…)

"As mulheres, sem se aperceberem, são o mais fiel retrato da sociedade de conquista e consumo criada pelo homem. Sociedade esta que por endosmose, opera no campo energético sensível da mulher.
O paradigma da conquista e consumo passou a permear o quotidiano uma vez que foi incorporado na identidade psicológica individual de maneiras que estão longe de ser evidentes. O verbo "conquistar" é na sua natureza diametralmente oposto à espiritualidade feminina que está intrinsecamente ligada à diversidade da vida como reflexo da biodiversidade da Mãe Terra, ao espaço para respirar, à liberdade de espiritualidade. A raiz da palavra espiritualidade é "spiritus" a palavra latina para respirar, a essência de Vida de que a Mulher é o Cálice.

A aderência aos grupos New-Age do Sagrado Feminino parecem ser um esforço desesperado de mulheres que tentam encontrar a sua identidade numa civilização que se afirmou como cultura dominante. A dinâmica de sobre-poder da actual civilização é um produto da conquista e subjugação que cresceu no feudalismo europeu, no patriarcado, na ditadura teocrática, na possibilidade de exercer o poder sobre outros seres. O que aprendemos sobre o conceito de civilização é a soma de histórias de conquista escrita pelos conquistadores. A espinha dorsal do materialismo e da psicologia materialista é o elemento da conquista que permite aceitar outras pessoas como objectos que podem ser manipulados para ganho egoístico. Esta conquista, passou a incluir para algumas mulheres as outras mulheres, as suas ideias e os frutos das suas ideias.

E não ficou por aqui...
O elemento de conquista que caracteriza o materialismo da sociedade ocidental tornou-se num fundamento que passou a contaminar as inclinações espirituais, perdendo-se a possibilidade de relacionamento com pessoas e objectos que não seja o de um sistema dissimulado de conquista aplicado ao que se entende como espiritual. O sentido da Vida e de realização pessoal manifesta-se no "Eu" e no "Meu" em termos de poder, querer e ter mais coisas. Isto significa a possibilidade de apropriar-se da espiritualidade de outras culturas, depois de desperdiçado e profanado fatalmente o património matriarcal primevo numa atitude materialista de conquista e posse.
Nesta busca por uma nova identidade cultural revivem-se antigos cultos ou opta-se pelo facilitismo da apropriação da sabedoria de antigos mestres, adopta-se a espiritualidade de outras culturas. A busca espiritual transformou-se em conquista, saque, estupro de outros legados culturais e espirituais.

Temas relacionados com a Nova Era do Sagrado Feminino passaram a ser objectos de consumo, enfatizando simultaneamente que a integralidade de se ser Mulher pode ser adquirida num produto vendido em forma de livro, encontro, formação ou workshop.

E assim, são oferecidas às mulheres técnicas atraentes que as levam a enveredar pelo trilho da ilusão de um estado superior da conciência de si , saltando de uma prisão para outra, descobrindo que, após o fascínio desgastado num curto período de tempo, continuam profundamente insatisfeitas, sentem que algo está errado mas estão tão absorvidas em escapar à dor que não suportam a ideia de centrar-se o tempo necessário para aprender a verdadeira natureza da doença . A Pedra de Toque não está à venda nem pode ser adquirida por processos de troca materialista em cursos de xamanismo, yoga, tantra, anjos, astrologia, danças, cânticos, tendas vermelhas, oráculos. É possivel apenas adoptar temporariamente uma maquilhagem e ser a caricatura desajeitada de uma personalidade sacerdotal de outra cultura para, no final, retornar ao ponto de partida, a um estado de insatisfação omnipresente.
Frustrado o intento, voltam à mesma rede de comércio, um sub-produto da cultura do materialismo para atender à angústia pessoal, perpetuando um círculo de enganadoras e enganadas.

O estado superior de consciência da Mulher Integral é uma etapa posterior à consciência do estado actual, que examinou a natureza dos sentimentos, a causa dos sentimentos, a cultura e a estrutura social que os produziu. A Mulher Integral venceu a necessidade de afirmação como desenvolvimento de poder pessoal para passar a abordar a cura da sociedade feminina como um esforço colectivo."

ANANDA KRHISNA LILA

*Citação de "todos os homens são iguais ...mesmo as mulheres"
de isabelle alonso

Todo o sonho de amor da mulher...



UMA REALIDADE INCONTORNÁVEL:



A POSSE ATRAVÉS DO CASAMENTO…
(Todos os dias um homem mata a "sua"mulher…)


“Nuestro cuerpo de mujer está colonizado y responde a la ideología del colonizador. La liberación sexual de los años sesenta no fue en realidad para la mujer sino en el sentido masculino del término y en relación a los intereses de os hombres”. Leonor Taboada

  “Na medida em que o Pátrio Poder se desenvolve e a lei do mais forte se instala, o uso da agressão se impõe nas relações humanas gerando competitividade, poder, conquista, luta pela posse de um território, guerras. Surge a questão da herança, institui-se o casamento. E a posse sobre a mulher, sua sexualidade, prazer e direito à própria vida se concretiza. Ao dominar a função biológica reprodutora o homem passa a controlar a sexualidade feminina. O poder cultural passa a desenvolver-se em oposição ao poder biológico nato na mulher. A vulnerabilidade permeia a função de parir, a mulher se inferioriza, torna-se dependente e o homem trabalha e domina a natureza.” 

”Um casamento deve ser considerado válido somente se a mulher for virgem; se a mulher não for virgem para o casamento deverá ser condenada à morte e executada por apedrejamento” (Deuteronómio 22:13-21)

Todo o sonho de amor da mulher se reflecte deste modo e para isso ela foi programada, na posse e entrega ao dono...ao homem, o senhor das leis e do seu corpo, o senhor dos seus filhos, o dono do Nome, da propriedade privada, a esposa, e através da exclusividade do seu corpo, o casamento mantem a mulher presa e condenada a uma vida exclusiva de serviço ao homem e a família, prisioneira uma vida inteira de sujeição psicológica e emocional e quase sempre sofrendo de maltrados provenientes de uma moral católica e do poder pater que a subjuga e mantem presa ao Sistema que a impede de ter vida própria. Esta padrão subsiste embora a mulher hoje em dia trabalhe e até tenha profissões o facto é que a nível inconsciente e colectivo a ideia pater de domínio permanece das formas mais subtis ou subliminar, nos filmes e na cultura…
É verdade que as feministas não viram que o trabalho remunerado e igual não traria a mulher a verdadeira liberdade porque não só ela continuaria sujeita ao marido e aos filhos como a sua prisão seria dupla...Porque a mulher é um ser colonizado e esses espírito está totalmente enraizado na sociedade patriarcal ainda nos dias de hoje. Isto poderá parecer muito exagerado a algumas das minhas leitoras habituais...mas se olharem para os casais amigos e como os maridos tratam as "suas" mulheres sobretudo as gerações mais velhas, (porque as mais novas se divorciam logo) verá que o que eu digo está perfeitamente patente em pequenos detalhes e nadas...
Isto pode  parecer de facto inverosímil aos olhos das feministas que pensaram ter adquirido liberdade e terem-se emancipado dos homens, mas isso não é verdade porque o Mito amoroso e o romance, o Príncipe encantado ou Os Tons cinzas de Grey, dominam o seu imaginário e assim se olharmos para o que está a acontecer no mundo inteiro neste momento vemos como o quadro e o padrão psicológico pouco se alterou na sujeição ao homem e como este está a reagir a liberdade da mulher da forma mais infame, pelo abuso sexual, atacando-a, violando-a e matando-a...
O Feminicídio não é pois uma palavra vazia...há perseguição as mulheres em todo o mundo… e a razão fundamental, além dos fundamentalistas islâmico que invadem a Europa, a grande parte dessa violência crescente é que o homem em geral sente-se a perder o controlo sobre o corpo e o sexo da mulher…

HÁ MUITAS VERDADES DISSIMULADAS...

“Os homens querem amor, mas o círculo vicioso da sua” superioridade”, leva-os a produzir mães incapazes de darem verdadeiro amor aos seus filhos. Isto já é mau que baste .
Mas como as mulheres têm de disfarçar a sua inimizade em relação ao sexo masculino perante si próprias e diante do resto do mundo, justamente por serem tão adaptadas, tais filhos encontram-se numa situação contraditória: as suas mães fingem aceitar os seus filhos, mas na realidade, recusam-nos.”

In, “ A Traição do Eu”
Arno Gruen

LITHA

LITHA

"Há uma infinidade de lendas e ritos que envolvem a noite do Solstício de Verão: Um dos costumes mais populares na Europa e Norte da África é a colheita de ervas medicinais e mágicas nesse dia. Acredita-se que a plenitude da força do deus está impregnada nessas ervas e contém todo o poder sanador e mágico para a cura de doenças. O visco e o basílico, como outras muitas ervas, são colhidos ritualisticamente e usados para preservar a energia nos tempos frios em encantamentos e sortilégios.

Banhos purificadores e curas milagrosas são realizados nas noites mágicas em fontes, rios e cachoeiras. Acredita-se também que tudo aquilo que for sonhado, desejado ou pedido na noite de Litha se tornará realidade.

Os antigos Povos da Europa acreditam que, nessa noite, criaturas mágicas andam correndo pelos campos e florestas e poderiam facilmente ser vistos e contatados.

É costume dar continuidade a grande fogueira de Beltane, como também pula-la para se livrar dos infortúnios e da negatividade. Tradicionalmente essa fogueira é acesa com gravetos de abeto e carvalho, duas árvores consideradas mágicas pelos neopagães." - wikipedia


LITHA E A ÁGUA

Litha é o festival em que celebramos a Mãe da Água a Rainha de todas as Emoções.
A água é o Sangue da Mãe Terra. Brota das fontes, das nascentes, dos poços, dos rios, dos mares, dos lagos e da chuva e é o princípio do feminino no planeta Terra.
Nos textos Védicos é dito que existem sete tipos de águas: nascentes, corredeiras, rios, lagoas, lagos, aquíferos e o mar. Os lagos e lagoas representam o ventre, os rios e as cachoeiras a fertilidade e virilidade das águas e os oceanos representam o líquido amniótico.
Os mares e oceanos são conhecidos em muitas tradições como a mãe das águas.
Sendo que o elemento água é o sangue do nosso planeta, os rios são as veias da Terra e por natureza, as mulheres cuidam e abençoam a água. O princípio feminino é nutrir, manter seguro. As mulheres têm a responsabilidade de agir como guardiãs das águas. Toda a água que flui traz a marca da nutrição, da mãe, da cuidadora.


Tal como a Mãe Terra, também as mulheres têm no seu sangue o fluir das águas:
 As marés: maré cheia na ovulação, maré vazia na menstruação.
 As águas da gestação
 As águas da sexualidade - a lubrificação e a ejaculação feminina
 As águas da digestão – a saliva
 As águas da purificação - lágrimas e suor

A vulva da Mulher é associada ao peixe, viajante das águas, pela sua forma oval e pelo seu cheiro a maresia. A mitologia da sereia e o símbolo da vesica piscis têm origem nesta mesma semelhança.
O útero da mulher é associado ao berço das águas - da destruição na menstruação e da criação na ovulação e gestação.
Em muitas religiões, a água simboliza purificação e a cura. Na religião católica, a "água benta" e o baptismo, onde a água representa o elemento principal de limpeza espiritual, é jorrada sobre a cabeça do recém-nascido para lavar os “pecados”.
No hinduísmo, a água serve para a limpeza e purificação das imagens rituais do divino e dos fiéis. Esse ritual acontece no dia do ano novo simbolizando a regeneração.
No Taoismo a água é um elemento associado ao feminino, Yin, e simboliza a sabedoria, as virtudes.
Na Alquimia, a água é o segundo dos quatro elementos, depois da terra, e tem a função sentimento. A operação alquímica, Solutio, fala-nos da sabedoria da água que não luta contra as dificuldades, apenas acompanha o terreno e se adequa às circunstâncias. A água com seu movimento fluido contorna os obstáculos sem se deter perante eles. A sua persistência e a sua maleabilidade são sua força.
A água simboliza a origem da vida, a fecundidade, a fertilidade, a transformação, a purificação, a força, a limpeza.

Irene Crespo

segunda-feira, junho 18, 2018

FALTA DE DIMENSÃO ESPIRITUAL



O Marxismo carece de Metafísica e de Psicologia - e o Feminismo também, por isso falharam…

"A civilização é definida pelo direito e pela arte. As leis governam o nosso comportamento exterior, ao passo que a arte exprime nossa alma. Às vezes, a arte glorifica o direito, como no Egito; às vezes, desafia a lei, como no Romantismo.

O problema com abordagens marxistas que hoje permeiam o mundo acadêmico (via pós-estruturalismo e Escola de Frankfurt) é que o marxismo nada enxerga além da sociedade. O marxismo carece de metafísica – isto é, de uma investigação da relação do homem com o universo, inclusive a natureza. O marxismo também carece de psicologia: crê que os seres humanos são motivados apenas por necessidades e desejos materiais. O marxismo não consegue dar conta das infinitas refrações da consciência, das aspirações e das conquistas humanas.

Por não perceber a dimensão espiritual da vida, ele reduz reflexivamente a arte à ideologia, como se o objeto artístico não tivesse outro propósito ou significado além do econômico ou do político."

Camile Paglia

sábado, junho 16, 2018

AS ALMAS NÃO TEM SEXO

"A rosa foi comparada à alma do homem por causa do seu desabrochar gradativo, do seu doce perfume e da sua exuberante coloração e manifestação de maturidade." - Harvey Spencer Lewis

"Enquanto que existimos no nosso corpo terreno, estamos sujeitos à lei da Natureza que é dualidade; e esta dualidade cria a afinidade entre os complementos separados.
Esta dualidade, que é a base e o mal inicial da Natureza, é também a base da nossa experiência terrestre cuja finalidade é ultrapassar esta mesma Natureza na procura do retorno à Unidade.
Ela é a base da nossa cultura de consciência, uma vez que lhe damos a possibilidade da escolha entre as qualidades opostas, entre o que é real ou relativo, bom ou mau para a nossa consciência actual.
A dualidade sendo a causa da sexualidade -- portanto, a afinidade entre os complementos -- é a causa do desejo que o ser humano chama amor.
O erro está em confundir amor, desejo e necessidade."*


AS ALMAS NÃO TEM SEXO, MAS A ANIMA É MULHER...

Precisamos perceber “que a masculinidade e a feminilidade são sempre relativos nos planos internos, e tal como o vigor físico dos indivíduos que formam um par oscila num sentido ou noutro, o mesmo se pode dar com a sexualidade; assim, um homem pode ser puramente masculino em suas relações com uma mulher e puramente feminino, ou negativo, em suas relações com outra. A forma determina o sexo do indivíduo no mundo físico, porém a força relativa é a que determina nos planos internos; e este facto serve de chave para muita coisa”.**

Independentemente desta visão esotérica acerca da ambivalência sexual do ser humano, só a um nível da estrutura do par, eu não entendo como é que eles os homens poetas e sábios, não compreenderam ou ainda não enxergaram, que o facto da mulher se manter ignorada e ignorante do seu papel na sua dimensão ontológica, na manifestação dos princípios, feminino e masculino, não pode expressar nem dar corpo à sua parte integrante se os homens continuam a omití-la como o faz o poeta sobre a rosa e portanto sem dar significado espiritual a mulher nem humano, sem respeitá-la e continuando a depreciá-la como o fizeram os doutores da igreja, os filósofos e até os poetas que não elegem a Deusa e a Musa como fonte de inspiração. E que não há verdadeira Mística sem a Mulher e a Rainha tal como é dito e apresentado na obra alquímica, como não há espiritualidade sem a mulher integrada!
Ela a Rosa ...
Eu pergunto-me como é que tantos autores de renome e de valor subestimaram ou nem se lembraram que a mulher ao ser minimizada e a sua natureza dividida mantendo-se cativa dos preconceitos religiosos seculares que se reflectem nos nossos dias em sentimentos bastante vastos e empedernidos de misoginia, do qual nem sei se Fernando Pessoa também não padecia…mas era fruto do seu tempo, (depois ele mudou).
Quase todos os escritores, historiadores, antropólogos, psicanalistas e cientistas em geral padeceram deste mal ao ponto dos antropólogos julgarem que as deusas de Willendorf, encontradas nas suas escavações e outras estatuetas de deusas, encontradas ás centenas, representantes do princípio feminino e maternal, símbolos de fecundação e do sagrado tal como era vivido e encarada a Deusa Mãe na antiguidade, serem para eles meros objectos eróticos à imagem do que hoje se fará com as mulheres na pornografia e na publicidade. Aí se percebe a mente tacanha do Homem em relação à mulher e se não fossem as antropólogas feministas dos meados do século XX tudo continuaria na mesma! Também algumas psicanalistas abordaram a questão, como Marie-Louize Von Fraz np seu livro Alquimia que diz:

"A experiencia da anima para o homem e do animus para a mulher está de facto, inteiramente fora de uma experiência real com um parceiro humano. A extensão em que o parceiro humano desempenha um papel – apenas como uma imagem longínqua ou como uma conexão genuína – varia de caso para caso, mas essa experiência é a suprema experiência, que culmina na experiência de Si – mesmo. (…)
A Igreja não encorajou esse género de literatura mística e religiosa, que, portanto, afectou profundamente a literatura semi-religiosa dos romances medievais, sobretudo a poesia do ciclo do Santo Graal e as suas lendas.”

- Precisamente por causa desta sua atitude a igreja provocou o afastamento da mulher, que por isso mesmo, com o passar do tempo, deixou de ser a musa inspiradora dos poetas e a Dama para os cavaleiros. Não só a mulher foi privada da sua essência como também toda a humanidade se perdeu da sua matriz. Nessa medida temos o homem isolado, rejeitando o seu próprio feminino.
E eu pergunto estupefacta, como é que ainda hoje os homens não vêem que essa separação da mulher e a sua cisão em duas no ocidente (sexualidade por um lado e maternidade por outro) priva a mulher da sua totalidade e idoneidade como pessoa e que ao privá-la da sua sexualidade sagrada e capacidade mediúnica, a mulher tornou-se um ser amorfo e subalterno, obediente ao homem sem discernimento próprio e sem capacidade sequer para ser mãe nem amante.

(republicando)
rosa leonor pedro
* in "L'OUVERTURE DU CHEMIN" DE ISHA SCHWALLER DE LUBICZ
* Dion Fortune

O MEDO DO HOMEM



O HOMEM TEM MEDO DA MULHER ABSOLUTA

J. K
.: Eu sinto-me portadora de uma Tradição de Amor independente de todas a forma particular e religiosa. Em cada mulher existe essa dimensão de Dama com Unicórnio, de Maria Madalena, de Rainha do Sabá. Mulheres de todas as origens, de todas as classes sociais, de todas as idades, reconheceram-se na personagem de Maria Madalena. Quando eu escrevi este livro, recebi principalmente cartas de mulheres. O amor é o último sonho transportado pela mulher.


R.B: - O homem está assustado com a ideia de encontrar a mulher autêntica. Ele receia ficar submerso sob a sua própria natureza e de perder um poder ilusório sobre ele mesmo, ao qual ele se agarra desesperadamente.

J. K.: Acredito que sim. Certos homens criticaram-me pelo facto de eu falar do corpo, da carne, numa colecção consagrada à espiritualidade! Eu interroguei-me antes de compreender que Maria Madalena representava a mulher de conhecimento, de liberdade, que assusta tanto o homem pela sua autenticidade. Existe o medo da mulher absoluta. O homem fica completamente assustado com essa sede de absoluto, de infinito, com a incondicionalidade da mulher.
(…)
in ERÓTICA & EROTISMO Jaqueline Kelen
(entrevista de Rémi Boyer)

sexta-feira, junho 15, 2018

vá lá...



VÁ LÁ FAÇA UM ESFORÇO, E IMAGINE…

..."Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, todos os homens foram subjugados, violentados, assassinados, podados, controlados. Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, só mulheres foram cientistas, físicas, chefes de polícia, matemáticas, astronautas, médicas, advogadas, atrizes, generais. Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, nenhum representante do seu gênero esteve em destaque, na televisão, no teatro, no cinema, nas artes. Na escola, você aprende sobre a história feita pelas mulheres, a ciência feita pelas mulheres, o mundo feito pelas mulheres." - claudia regina



quarta-feira, junho 13, 2018

ELA ERA MINHA

"Felicidade clandestina"

"No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como uma coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume. (...) 
Até chegar à rosa foi um século de coração batendo. (...) 
O que é que eu fazia com a rosa? Fazia isso: ela era minha."

Clarice Lispector, em "Felicidade clandestina".

Os destruidores vieram do deserto.




"A Chegada das Trevas" é a história largamente desconhecida – e profundamente chocante – de como uma religião militante pôs deliberadamente fim aos ensinamentos do mundo clássico, abrindo caminho a séculos de adesão inquestionável à “única e verdadeira fé”. O Império Romano foi generoso na aceitação e assimilação de novas crenças. Mas com a chegada do Cristianismo tudo mudou. Esta nova fé, apesar de pregar a paz, era violenta e intolerante. Assim que se tornou a religião do império, os zelosos cristãos deram início ao extermínio dos deuses antigos – os altares foram destruídos, os templos demolidos, as estátuas despedaçadas e os sacerdotes assassinados. Os livros, incluindo grandes obras de Filosofia e de Ciência, foram queimados na pira. Foi a aniquilação. Levando os leitores ao longo do Mediterrâneo – de Roma a Alexandria, da Bitínia, no norte da Turquia, a Alexandria, e pelos desertos da Síria até Atenas –, "A Chegada das Trevas" é um relato vívido e profundamente detalhado de séculos de destruição"

Os destruidores vieram do deserto.

Os seus ataques eram primitivos, brutais, e muito eficazes. Estes homens moviam-se em matilhas.
Os seus alvos eram os templos...Grandes colunas de pedra que se erguiam há séculos caiam numa só tarde...
A estátua fazia eco de outras que se erguiam na Acrópole se Atenas...esta versão em especial tinha sido criada numa oficina a centenas de quilómetros de Palmira, transportada e seguida para ali com dificuldades e despesas consideráveis, de modo a criar uma pequena ilha de cultura greco-romana junto às areias do deserto sírio.
Ter-se-ão os destruidores apercebido disto, ao entrarem?
Terão eles, nem que fosse por um momento, admirado a perícia necessária para crias uma boca de aspecto suave, que apetece beijar, com o mármore duro?
Aparentemente, não. Pois, quando entraram no templo, os homens pegaram numa arma e atacaram a parte de trás da cabeça de Atena com um golpe, tão violento, que decapitaram a deusa. A cabeça caiu no chão, perdendo o nariz, esmagando as faces outrora suaves.
A mera decapitação não foi suficiente. Seguiram-se mais golpes, tirando o escalpe de Atena, arrancando o elmo da cabeça da deusa, partindo-o em pedaços...A estátua tombou do seu pedestal, depois os braço e os ombros foram cortados. O corpo foi deixado sobre a terra, de barriga para baixo...
Só então estes homens - estes cristãos - se sentiram satisfeitos, pois o seu trabalho estava terminado. Voltaram a desaparecer no deserto. Atrás deles, o templo caiu no silêncio. As lâmpadas votivas de quem já ninguém cuidava, apagaram-se. No chão, a cabeça de Atena começou, lentamente , a ser coberta pelas areias do deserto sírio.
O "triunfo" do Cristianismo tinha começado.

Excerto do prólogo do livro "A chegada das trevas"
Como os cristãos destruíram o mundo clássico
Da autora Catherine Nixey

O AMOR...


"E eis que sinto que em breve nos separemos. Minha verdade espantada é que sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Que as vezes extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que a solidão pode se tornar em dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em silêncio. Preciso de segredos para viver."  

 in ÁGUA VIVA - Clarice Lispector


O AMOR A PRIMEIRA VISTA


“O amor à primeira vista, irresistível vaga pulsional, transporta o individuo para fora de si mesmo, provoca o êxtase, um orgasmo mental, de certo modo. Irrupção angustiosa, em certa medida, sem duvida, desdobramento de exaltação, criador de prazer e de alegria, por outro lado, sem dúvida também. Impressão de se ser levado por qualquer coisa de mais poderoso que nós e que nos ultrapassa. Ao mesmo tempo o sentimento de uma coincidência inesperada, de um... encontro milagroso entre o real e o imaginário. Impressão, finalmente, de uma espécie de predestinação, como se, desde sempre, aquele individuo nos estivesse prometido ou destinado. Dir-se- á que se trata de uma repetição, de uma redescoberta, que a longa preparação imaginativa do amor elaborou pacientemente a partir de determinado modelo ou substituto edipiano – que se trata de uma imagem, de um protótipo inconsciente do objeto, a descobrir, a seduzir, e pelo qual se será descoberto, seduzido?”


Christian David

O estado amoroso, ensaios psicanalíticos 1971
Publicada por cristina simões

escrever...



QUEM ESCREVE SABE...

"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente."



Clarice Lispector, em "Água viva".

terça-feira, junho 12, 2018

SÊ CONSCIENTE


O BRILHO DA CONSCIÊNCIA

“Na medida em que realidade é não só o que o pensamento pode captar e definir, mas também isso que permanece indefinível e imperceptível, isso que rodeia a consciência, destacando-a como ilha de luz no meio das trevas”
- MARIA ZAMBRANO, in"O Homem e o Divino"


"As pessoas normalmente sentem-se presas pela vida, presas pelo universo, porque elas imaginam que  estão realmente no universo, e portanto o universo pode esmagá-las como um inseto. Isto não é verdade. Você não está no universo; o universo está em você.

A orientação típica é esta: a minha consciência está no meu corpo (principalmente na minha cabeça); o meu corpo está nesta sala; esta sala está no espaço circundante, o próprio universo. Isso é verdade do ponto de vista do ego, mas totalmente falso do ponto de vista do self.

Se eu descansar como testemunha, a forma sem forma, torna-se óbvio que, neste momento, não estou no meu corpo, o meu corpo está na minha consciência. Estou ciente do meu corpo, por isso não sou o meu corpo. Sou a testemunha pura em que o meu corpo está agora a surgir. Não estou no meu corpo, o meu corpo está na minha consciência. Portanto, sê consciente.

Se eu olhar para fora desta corpo que é a minha casa, para a área circundante - talvez uma grande extensão da terra, um grande pedaço de céu, outras casas, estradas e carros - se eu olhar, em suma, o universo à minha frente - e se o eu como testemunha, o sem forma eu-Eu, torna-se óbvio que, neste momento, eu não estou no universo, o universo está na minha consciência. Sou a testemunha pura de que este universo está agora a surgir. Não estou no universo, o universo está na minha consciência. Portanto, sê consciente.

É verdade que a matéria física do seu corpo está dentro  da casa em questão, e a  casa está dentro da questão do universo. Mas você não é apenas matéria ou corpo físico. Você também é consciência como tal, do qual a matéria é apenas a pele exterior. O ego adota o ponto de vista da matéria, e, portanto, é constantemente preso pela matéria,  preso e torturado pela  dor fisica. Mas a dor, também, surge em sua consciência, e você pode estar em dor, ou encontrar a dor em você, para que você cerque a dor, são maiores que a dor, transcender a dor, enquanto você relaxa  na vasta extensão do puro vazio que você é profunda e verdadeiramente.

Então, o que é que eu vejo? Se eu vejo  como ego, parece que estou confinado ao corpo, que está confinado à casa, que está confinado ao grande universo em seu redor. Mas se eu  me relaxar como testemunha - à vasta, aberta e vazia consciência - torna-se óbvio que eu não estou no corpo, o corpo está em mim; eu não estou nesta casa, a casa está em mim; eu não estou no Universo, o universo está em mim. Todos eles estão surgindo no vasto, aberto, vazio, puro e luminoso espaço da consciência primordial, neste momento e agora e para sempre, agora mesmo.

Portanto, sê consciente."

KEN WILBER

O EGO


Estava a pensar como a verdadeira humildade enobrece e dá dignidade ao ser humano! É perante ela que nos curvamos ao reconhecer alguém que a transparece...e o contrário dela o ser se degrada...por isso o ego é tão assustador...seja ele manifesto nas pessoas comuns seja em religiosos, intelectuais, escritores, psicólogos, filósofos, lideres ou ditadores...

rlp


" Quando você pensa ou fala a respeito de si mesmo, quando diz "eu", está se referindo a "eu e a minha história". Está falando do ego com seus gostos e desgostos, medos e desejos, o ego que nunca se satisfaz por muito tempo. Essa é a noção que a sua mente tem de você, condicionada pelo passado e buscando encontrar sua plenitude no futuro.
Você se dá conta de que esse ego é fugaz e passageiro como uma onda na superfície do mar? Quem percebe isso? Quem compreende que sua forma física e psicológica é passageira? É o Eu Sou. Esse é o "eu" mais profundo, que não tem nada a ver com o passado e o futuro."

Eckhart Tolle

A GUERRA E A IGNORÂNCIA




CADA DIA É MAIOR A IGNORÂNCIA DAS PESSOAS

"Eu condeno a ignorância que reina neste momento nas democracias tanto como nos regimes totalitários. Essa ignorância é tão forte e muitas vezes tão total, que diríamos que ela é querida pelo Sistema senão pelo regime. Tenho reflectido no que deveria ser a educação das crianças. Penso que seriam precisos estudos de base, muito simples em que a criança aprenderia que ele existe no seio de um universo, num planeta do qual ele devia tomar conta dos seus recursos e que ele dependeria do ar da água e de todos os seres vivos e que o mínimo erro ou a menor violência arriscaria de tudo destruir. Ele aprenderia que os homens se entretiveram com as guerras, que não fizeram mais nada do que produzir guerras, e que cada país arranja a sua história, feita de mentiras, de maneira e afagar o seu orgulho. "

marguerite yuorcenar

NÃO...



A Realidade não Está nos Livros

Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes últimos serem considerados frívolos, e devo-lhes talvez mais informações do que as que recebi das situações bastante variadas da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.
Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros. Os menos hábeis, por falta de palavras e de frases onde possam abrangê-la, traçam da vida uma imagem trivial e pobre; alguns, como Lucano, tornam-na mais pesada e obstruída com uma solenidade que ela não tem. Outros, pelo contrário, como Petrónio, aligeiram-na, fazem dela uma bola saltitante e vazia, fácil de receber e de atirar num universo sem peso. Os poetas transportam-nos a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais doce que este que nos é dado, por isso mesmo diferente e praticamente quase inabitável. Os filósofos, para poderem estudar a realidade pura, submetem-na quase às mesmas transformações a que o fogo ou o pilão submetem os corpos: coisa alguma de um ser ou de um facto, tal como nós o conhecemos, parece subsistir nesses cristais ou nessas cinzas. Os historiadores apresentam-nos, do passado, sistemas excessivamente completos, séries de causas e efeitos exactos e claros de mais para terem sido alguma vez inteiramente verdadeiros; dispõem de novo esta dócil matéria morta, e eu sei que Alexandre escapará sempre mesmo a Plutarco. Os narradores, os autores de fábulas milésias, não fazem mais, como os carniceiros, que pendurar no açougue pequenos bocados de carne apreciados pelas moscas. Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira.


Marguerite Yourcenar, in 'Memórias de Adriano'

segunda-feira, junho 11, 2018

NO PAIS DOS ANÕES...



A RONAL-LÂNDIA


O PAIS DOS ANÕES...

Era uma vez um povo de anões pobres e pequeninos que não tinham como viver de forma digna e quase nada que comer e andavam todos andrajosos e que um dia foram para outras terras em busca de ganhar  e com um sonho de voltar e comprar uma casinha lá na terra...trabalhavam arduamente, dia e noite, muitos eram quase escravos, as mulheres era bonnes ou porteiras de prédios luxuosos e os homens pedreiros...mas no pais dos anões havia de vez em quando um que se salientava porque sabia fazer uns truques com uma bola numa arena - uma coisa pequena do tamanho de uma cabeça - que eles levavam entre as pernas e iam sempre em frente fazendo piruetas e depois metiam a cabeça, digo aquela coisa chamada bola dentro de umas redes e gritavam todos frenéticos, como enlouquecidos: GOOOLOOOOOOOOOOO ...gooollloooo...e atiravam-se para cima uns dos outros com selvagens.

E quando as suas cores ganhavam eles bebiam muito e ficavam muito felizes e aos saltos e cantavam dias e noites...e quando chegavam a casa batiam nas mulheres para descarregar a sua fúria os que perdiam e outros tinham em casa as fotos dos seus heróis e também erigiam monumento de bronze e pedra aqueles que levavam nos pés as bolas e corriam muito para meter e pelota nas redes do  lado contrário do campo com relva.
Esses anões que se espalharam pelo mundo viviam em muitos países, chamavam-se "tugas" e nunca esqueciam o seu país de origem a que eram muito fiéis...eles mandavam o dinheirinho todo que ganhavam para a sua santa terrinha e o Espirito Santo dizia que o guardava mas afinal abotoava-se era com ele...
E assim foram correndo os anos e os anões continuaram a adorar os seus santos, o maior de todos e a que todos rezam diante da sua catedral onde ficava a estátua, foi Eusébio, um que meteu muitos goooooooooooolos e corria como uma pantera, diziam e depois houve outro que lhe chamavam um Figo da Igreja do lado...e agora veio um outro Cristão, um anão muito pobre de um região ainda mais pobre que se tornou no actual herói da nação dos tugas, todo muito penteadinho e vaidoso, com amigos pugilistas e meninas anãzinhas modelos e muitos carros de corrida e por fim, como eles eram tão famosos e ricos e donos de tudo e o povo ficou todo convertido aquela coisa redonda que rolava e rolava de um lado para o outros entre as pernas dos anões e de vez em quando eles andavam a porrada e andavam assim de trás para frente horas e horas...
Eles eram tão famosos que até o presidente da republica dos tugas e o seu ministro foram para Paris para os ver e juntar-se aos heróis da bola e os anões, os pobres, quase analfabetos, que lá viviam há anos vieram todos com bandeirinhas e gritavam vivam, vivam os tugas, e queriam à viva força ver os seus heróis, tão ricos e famosos com tantos carros que eles sonhavam ter e passavam assim os dias à porta onde se encontraram por fim, no dia do País, que já fora de poetas e navegadores - quando havia gigantes - mas essa é outra história, a de como os gigantes pereceram todos com uma peste e só ficaram os anões - o senhor presidente e sua eminência o Treinador, uma espécie de sumo-sacerdote eleito pelos padres da bola e os seus correligionários, ex jogadores de cabeças, tipo xulos, também famosos. E finalmente assistiu-se a uma coisa incrível, por fim quando o País todo estava convertido àquela coisa redonda que rolava na relva como uma cabeça... o presidente e o treinador e o ministro, conseguiram esquecer a peste que os assolara e os gigantes que morreram e mantinham aquela paz podre entre os anões muito muito ricos e os mais pobres, os desgraçados que eram escravos no estrangeiro e até lhes deram medalhas por isso, e beijinhos por serem fiéis porteiros dos ricos e os adoravam; e assim o Pais ficou muito unido e permaneceu não sei quantos séculos em coma profundo na Ronallândia.

rlp 

PS Uma pequena alegoria ao mundo do futebol escrita há dois anos...

quinta-feira, junho 07, 2018

GILANIA




ANDROCRACIA E GILANIA

Como termo mais preciso do que patriarcado para descrever um sistema social governado por homens através da força ou da ameaça de força, proponho o termo "androcracia". Já com algum uso, este termo deriva das raízes gregas "andros", ou “homem”, e "kratos" (como em democrático), ou “governado”. 

Para descrever a alternativa real a um sistema baseado na graduação de metade da humanidade acima da outra, proponho o termo "gilania". "Gi" deriva da raiz grega "gyne", ou “mulher”. "Na" deriva de "andros", ou “homem”. A letra "l" entre as duas tem um duplo sentido. Em inglês, representa a associação (no original inglês "linking") de ambas as metades da humanidade, em vez de, como na androcracia, a sua graduação. Em grego, deriva do verbo "lyein" ou "lyo", que tem por sua vez um duplo sentido: solver ou resolver (como em análise) e dissolver ou libertar (como em catálise). Neste sentido, a letra l representa a resolução dos nossos problemas através da libertação de ambas as metades da humanidade da rigidez estultificante e destorcedora das funções impostas pelas hierarquias de dominação inerentes aos sistemas androcráticos.


Riane Eisler, O Cálice e a Espada, Via Óptima, Porto