domingo, março 03, 2019

EM QUE PENSAM AS MULHERES?



A mulher caminha sobre o fio da navalha… ela sangra para dar vida ao homem e é morta pelo filho que amamenta. rlp


As mulheres em geral, para não dizer quase todas, continuam a sonhar que são livres-emancipadas e que vivem em igualdade e democracia…e a pensar no homem que idealizam - que as subjuga e mata em vez de serem elas mesmas…
Elas não querem ver a forma como são continuamente abusadas e mal tratadas onde quer que estejam...sempre desconsideradas e postas em causa na sua idoneidade e contudo continuam fiéis aos homens e ao patriarcado.

"O que mais interessa às pessoas, digamos às mulheres?" 

- perguntou Clarice a um amigo ao telefone…
E "do fundo da sala enorme a minha amiga respondendo em voz alta e simples: "O homem" Rimos, mas a resposta é séria. É com um pouco de pudor que sou obrigada a reconhecer que o que mais interessa a mulher é o homem."*Clarice Lispector





NO CORAÇÃO DA ROSA



REGINA MUNDI

Imaculada Conceição, estás no centro da terra,
no coração da rosa. À tua volta está o mundo
em círculos...
Força de vida, enrola-me em ti.
Calada e funda. violenta e tão docemente.

A noite vai descer sobre a terra.
Os montes para o céu.


in A Força do Mundo
DALILA PEREIRA DA COSTA

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

QUANDO SE FALA DE MULHERES



O CORPO FEMININO 
COMO OBJECTO MÉDICO E "MEDIÁTICO"

"Quando se fala das mulheres e para as mulheres, o discurso sobre a corporalidade parece tomar rumos precisos: o corpo parece ser a ancora da mulher no mundo, sua razão de ser, para si mesma e para o outro, para o desejo do outro. Essa é a lógica que orienta o discurso dos midea e se torna visível tanto no discurso da publicidade, quanto dos programas femininos . Essa equação mulher=corpo se reafirma nos programas femininos, onde abundam médicos de especialidades diversas para falar de tudo aquilo que falta ou sobra na insubordinação fisiológica feminina”

(Excerto de um Estudo de L.Graciela Natansohn
Da Faculdade de Tecnologia e Ciência)


UM TESTEMUNHO

"A violência doméstica de que agora tanto se fala (que não é só doméstica e que há muito existe) é apenas a ponta do icebergue, um aspecto visível de uma violência global: uma violência moral, umas vezes quase subliminar, outras, tão descaradamente manifestada e assumida como normal, que consegue envolver-se numa capa de aceitação e/ou conivência social. Um todo a necessitar de ser urgentemente desconstruído e refeito.
Em início de adolescência, ouvia a minha mãe: “Não vistas isso, olha que os homens…”. Na minha inocência (e convencida de nada de mal estar a fazer) e na minha precoce auto-afirmação, desobedecia, e vestia o que a minha criatividade e gostos da altura me indicavam. Mas… as consequências foram duras (embora consideradas normais e, portanto, a “responsável” de tais situações… só podia ser eu, nós, todas as mulheres que… não obedeciam, ou que se achavam seres humanos livres). As jovens adolescentes eram facilmente insultadas, tratadas de prostitutas, abusadas fisicamente (caso percorressem algum caminho mais isolado). Tudo isso era frequente, toda a gente o sabia, nada se fazia. Uma saia curta simbolizaria uma vontade feminina de atiçar instintos mais que primários masculinos e, assim sendo, as responsáveis do que quer que fosse, eram sempre as gentes femininas. Assim, noutros… sítios, os homens embrulham as mulheres em tchadores, burqas e etc., para não os tentarem, de tão indefesos. A diferença entre o que está na base destas atitudes, no fim de contas, não é nenhuma, a não ser em detalhes.

“Não à violência-não à dor-não ao desamor”, dizia-se, há alguns dias, numa manifestação pelas vítimas de violência doméstica. A realidade é que há desamor a mais, e a fonte da violência… está nele. Por isso, não basta dizer que há homens a matar mulheres… Há uma violência moral demasiado presente ainda, e que pode provir de homens das mais variadas origens e nível de educação. E é esse novelo que se deve desenredar. Com persistência e sem ódio."

(a continuar)

Paula Alcarpe, 19-2-19 

Quadro Lena Gal 

A VISÃO DO SAGRADO



O VERDADEIRO EROTISMO


"Num mundo desnaturado que confunde genitalidade e sexualidade, depois sexualidade e erotismo, o (verdadeiro) erotismo ou melhor a Erótica permanece reservada, hoje como ontem, hoje mais do que ontem, a uma elite. A Erótica não é este desespero que os humanos confundem com Amor quando eles lançam cegamente uma ponte sobre o seu próprio vazio, para não enfrentar a sua ausência, em relação a uma imagem que eles próprios criaram sem disso terem consciência” *

in Kali A força do Feminino de Ajit Mookerjee 

“No seio das múltiplas culturas indianas, a visão do sagrado na aparência de uma mulher existiu sempre”.

"A mulher, não importa qual, representa a feminilidade primordial na sua forma mais pura, uma personificação da totalidade, pela essência do arquétipo: a anima, definida por Jung.
No Shaktismo, mulheres e homens não estão em guerra, mas, através da sua unicidade colectiva, eles realizam-se na plenitude feminina do universo. Na terra, eles representam o princípio cósmico. Juntos precisam de se tornar Um na relação macho/fêmea afim de, segundo as palavras de Vivekananda, de “restaurar o equilíbrio essencial das energias e das qualidades femininas e masculinas no mundo. O pássaro do Espírito da humanidade não pode voar com uma só asa”. 



Tantra – O Culto da Feminilidade - Outra visão da vida e do sexo de André Van Lysebeth





O ABUSO E A VIOLAÇÃO



 AS MULHERES NÃO SÃO IGUAIS AOS HOMENS!


"As mulheres não são apenas consumidoras na economia de mercado; elas são consumidas como mercadoria. É disso que fala o poema de Oles, e isso é o que Tax chamou de “esquizofrenia feminina”. Tax constrói um monólogo interior para a dona-de-casa-mercadoria:

"Não sou nada quando estou sozinha comigo mesma. Em mim mesma, não sou nada. Só sei que existo se sou desejada por alguém que é real, meu marido, e pelos meus filhos”. *



O ABUSO E A VIOLAÇÃO e a esquizofrenia feminina…

Uma amiga perguntava-me há dias se o facto de as mulheres denunciarem os homens de poder dos abusos e dos seus crimes de violação - como é o caso do Meeto e outros movimentos que surgiram recentemente - não estariam a fazer com que eles atacassem mais ainda as mulheres por vingança.


Não. Penso que não é por denunciar os abusos que estamos a acicatar os homens a estas monstruosidades como é o Feminicídio, a violência doméstica e o abuso sexual, embora em alguma medida haja essa possibilidade, mas a questão começa na infância - naquilo que a criança vê no modelo do pai - começa portanto no casal...na intimidade, na sexualidade, na relação do homem com a mulher…

A sexualidade é o aspecto menos resolvido da vida humana porque foi sempre incómodo e imprevisível e por mais que se julgue já liberto de tabus e preconceitos atávicos - ele foi na verdade camuflado de um pseudo amor e de ideias liberais sobre a atração e o desejo em que tudo se tornou permissivo e libertino ou pornográfico e já não há fronteiras para nada, principalmente depois da mulher se tornar "igual" ao homem. Ela mesma defende a promiscuidade sexual, o ter muitos parceiros etc. como normal e já não se importa com a "virgindade"… e o casamento está em queda...homens e mulher já não precisam casar para ter sexo e agora são os homossexuais e os trans. que querem fazer esses papéis tradicionais mas derrubando os alicerces da família e da identidade de género. O mundo está numa total confusão de narizes. Vale tudo… até mutilar-se.


Eu creio no entanto e voltando a questão inicial é que a grande maioria dos homens não está a aguentar essa liberdade da mulher e a sua exposição sexual, sendo ela mais sensual ou provocante, tomando muitas vezes as iniciativas do "engate", porque se julga emancipada, sobretudo da parte da mulher madura, e isso é demasiado confrontativa segundo os padrões masculinos e porque as mentalidades atrasadas são as mesmas de há um século.

Sim, ai sim, sentem-se provocados e porque muitos são infantis, inseguros e outros são impotentes, ou correm o risco de o ser, como não conseguem dominar ou controlar-se e se sentem rejeitados logo à partida, ou o medo de serem traídos ou abandonados pelas mulheres, eles reagem brutalmente, violentamente nas casas, nos bares e mesmo nas ruas...

Os abusos e as violações vem de tudo isso, mas não podemos ignorar também um facto que custa muito a aceitar: As mulheres que se acham livres vão reagir mal se eu disser que um dos seus erros é pensarem que podiam vestir-se ou despir-se como queriam, e que isso não traria problema nenhum. Como se o homem também tivesse evoluído...mas o sexo animal no homem primário não evolui nem o homem vulgar aceitou essa liberdade da mulher, habituado a ficar por cima…

A posse exclusiva da mulher é uma condição do macho que se preza…é o programa do patriarcado, é o casamento versus prostituição, a mulher vendida no Sistema que não muda. E as mulheres sem identidade focadas no homem e esvaziadas de si também lhe dão todas as oportunidade de abuso...elas confiam ingenuamente, elas sonham com o príncipe encantado, elas vão para encontros de facebook, elas vão para a televisão vender-se e exporem-se na sua "inocência" para "engatar gajos"… tal como os gajos vão...e mantem relações doentias de sado-masoquismo etc..

Agora, dizer, "mas eu sou "livre" e estou-me nas tintas para os homens"? Eu exijo os meus direitos? Então ai estão os direitos iguais aos dos homens… e eles sentem-se no direito que é o seu de exercer a sua posse...o abuso e a violação. Ela começa em casa…ele vê o que o pai fez com a mãe. Essa é a sua liberdade desde sempre num Sistema patriarcal e falocrático.

Não, não podemos continuar a achar que podemos expor-nos e vestirmo-nos como queremos, irmos a qualquer lado em liberdade, ou metermo-nos na "boca do lobo" - pelo menos de forma sensual e provocante -, ou não é provocante a moda? Então para quê o silicone e as operações plásticas e as maquilhagens e todos os cosméticos e artifícios senão para seduzir o homem? Como ficar espantada quando o homem reaja com o falo em riste? Aliás a cabeça do homem vulgaris está sempre lá mais abaixo… e onde quer que a mulher vá está exposta ao predador… eles andam por todo o lado e já nem disfarçam. Não, afinal esta humanidade não evolui muito nesse sentido.
rlp

*[Meredith Tax, “Woman and Her Mind: The Story of Everyday Life”, Boston: Bread and Roses Publication, 1970.]

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

ler a palavra



Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.




Maria Gabriela Llansol

Há mais vida para além do sexo!!!



A INFANTILIZAÇÃO DOS SERES E DO SEXO É UM PERIGO 


Tudo muito certo do ponto de vista de uma análise psicológica, bastante profundo e muito interessante o texto que se segue, mas falta A CONSCIÊNCIA de si - a consciência que o adulto - tem de ter a um outro nível que não é o mental e emocional, a consciência não ordinária, mas mais lata que corresponde à maturidade pressuposta do ADULTO quando este  faz esse caminho e só essa Consciência alterada que vai além dos 5 sentidos pode elevar o ser humano a uma ÉTICA interior de não fazer aos outros aquilo que nos fizeram a nós…
Sem essa consciência da Consciência temos o ciclo vicioso e permissivo das emoções primárias que é inconsciência e como agem-pensam as "crianças"...  Mas a vida não é só primária, instintiva  e sexual… há mais vida para além do sexo!!! Freud desatou um nó mas não saiu do complexo de Édipo… É certo que o homem nunca evolui muito para além da criança,  como disse  Jung…


Gostei muito deste pequeno excerto,  bem analisado do ponto de vista psicológico, mas deixa um rasto de permissividade encaixada na desculpa do trauma da criancinha, na infantilização dos seres e não a sua evolução. Não li o livro, mas este trecho ignora e omite que  o adulto tem  uma responsabilidade grave que é a nível espiritual (nem só de sexo vive o homem) elevar a sua Consciência do plano meramente físico-sexual-mental e superar traumas e complexos provenientes da encarnação. Sem essa consciência de facto tudo se mantem no signo da imaturidade e do primário instintivo…


SEGUE O TEXTO retirado pelo autor Luis Coelho 

Excerto do livro A Síntese (im)Perfeita

«Na relação com o "outro", encontramos nossos fantasmas, os progenitores que nos encorparam. Uma "relação" é sempre um "incesto", factível e "puro", como o que reside entre os espaços da "psique". O amor é tal-qualmente "auto-amor", ele existe para compensar a falta do "outro" em nós. O "eu" refastelado do "outro" abandona-se, já não requer amor. O "eu" prejudicado pela "culpa", repleto de "realidade", de "outros" ("outros-eu"), jaz violentado, violado, profanado. Até que cresça e se sacralize, o "eu" será sempre criança, persistindo em violência, do "outro" e da parte do "outro". Ora, o homem nunca é plenamente "ele mesmo", é sempre "criança" crescendo, daí serem todas as relações práticas pedófilas. Sempre fornicamos uma "criança", violamos um "infante", tenha ela quinze ou oitenta anos (se bem que, sendo essa criança parte de nós, é então vero que sempre nos fornicamos a nós mesmos - na pedofilia, a criança "violentada" é sempre reflexo do vitimizador, aquela "criança" é ele mesmo infantilizado, buscando sua dimensão prematura(mente) -, à parte de nós que já vem de um "outro" que é parte do "eu" - não havendo, assim, muitas vezes, violência no que outros poderiam considerar como tal, visto parte dela fazer parte do que somos -; de modo semelhável, quando fornicamos/"violamos" é sempre um "outro" que fornica/viola, e o "violado" é sempre inviolável). É certo que mor idade implica mais peças de gestão da "realidade", do "eu" nela e dela no "eu", mas quem pode decidir onde começa a "maturidade"?, há "crianças" de setenta e "adultos" de dez anos, e a maturidade (esta implicaria que fossemos completamente "nós mesmos", ou seja, um "outro" primário pronto a abandonar(-se a)o "outro" em nome de um "todo", que, não obstante, é a violação absoluta da "egocidade"), como defini-la ou a operacionalizar?, mais vale medir o "sofrimento", este aumenta quando o "eu" não se adapta ao "outro", quando as ferramentas não permitem gerir eficazmente o embate da realidade. (...)»

Luis Coelho


 A CONSCIÊNCIA ORDINÁRIA E CONHECIMENTO DE SI

"PARA A MAIOR PARTE DOS HOMENS (E MULHERES), aquilo que eles classificam de consciência é o registo de noções, de impressões e de convicções compostas pela reflexão cerebral e pela educação. Essas formações são tão fugitivas como o reflexo das nuvens num espelho. Elas não nos pertencem de si, porque podem ser modificadas pelas mais diversas influências. Nada, neste conjunto de ideias e conceitos, sobrevive à dissolução do ser físico, emocional e mental. É uma consciência que não se inscreve no nosso ser imortal.
Quantos homens e mulheres na Terra acordarão em si a Consciência real, aquela que os tornará "conscientes e responsáveis"? É portanto necessário, para falar "conscientemente", entendermo-nos quanto às palavras, depois considerar os meios de acordar essa consciência".
(...)
In L' OUVERTURE DU CHEMIN  ISH SCWALLER DE LUBCZ



domingo, fevereiro 17, 2019

A INVERSÃO DOS MITOS DE ORIGEM


OS CASAMENTOS FORÇADOS DAS DEUSAS...

Texto de Anália Bernardo

(…)

"Gimbutas comprovou a tese de Jean Ellen Harrison, especialista em mitologia grega de Cambridge nos anos 30, a primeira a assinalar que as deusas gregas procediam de uma época histórica pré olímpica, e que o casamento de Hera e Zeus, não existia em suas origens. Este casamento forçado refletia o trânsito, às vezes dramático e violento, das culturas matrilineares para as patriarcais, após a conquista armada, e a inversão dos mitos de origem. Inclusivamente diferenciava os deuses guerreiros dos agrícolas da idade matrilinear: Hermes, Pã, Dionísio, indicando que o culto às deusas não excluía o Sagrado Masculino, porém não adorava um deus pai guerreiro e dominador, nem deidades masculinas que violentavam e matavam deusas e mulheres, como ocorre nos mitos tardios, surgidos daquela conquista e reforma.

Para Harrison os mitos gregos consistiam em tentativas, às vezes grosseiras e desesperadas de tentar modificar as crenças na Grande Mãe, suplantando-as com conceitos político-religiosos, como o mito de Atena, nascida da cabeça de Zeus, armada como uma guerreira, substituindo a ancestral Atena, uma deidade sem pai, padroeira de sabedoria e da inteligência, e assim apresentar os deuses arquipatriarcais (como Harrison os qualificou) como sendo primevos, melhores e supremos.
(…)
"Robert Graves difundiu fora do âmbito académico o trabalho de Harrison, porém foi Gimbutas quem proporcionou as provas arqueológicas sobre as ondas invasoras patriarcais, assim como a cosmovisão cultural e religiosa quanto às Deusas Mães, até então considerada por muitos como simples “cultos de fertilidade”.
Por sua parte, a antropóloga Margaret Murray apresentou provas da Tradição das Bruxas como um Xamanismo europeu cujas origens se remetem aos Xamãs paleolíticos e siberianos.
As neojunguianas Silvia Brinton Perera, Marion Woodman, Jean Shinoda Bolen e Clarissa Pinkola Estés, realizaram uma tarefa similar à arqueológica, com o intuito de desenterrar o arquétipo da Grande Deusa, das profundezas do inconsciente pessoal e coletivo, de mulheres aonde a cultura e o ego patriarcal o mantinham recluso, reprimindo-o, para que as deusas não outorgassem poder espiritual, emocional e cultural ao corpo, à sexualidade, à liberdade e à consciência das mulheres.
Para as junguianas, os mitos tardios, como o de Atena nascendo da cabeça de Zeus, foram apreendidos profundamente pelas mulheres que cresceram sendo educadas segundo o ideário feminino da mentalidade patriarcal, tendo que adotar nos últimos períodos modos patriarcais, a fim de serem reconhecidas como “Filhas do Pai” e obter êxito profissional e intelectual."

sábado, fevereiro 16, 2019

Do Sexo e da VIOLÊNCIA sobre as Mulheres...



O ESTADO É CUMPLICE 

"Sejamos honestos - em Portugal, o combate à violência doméstica é um falhanço. Esta evidência pode doer a muita gente que se perpetua à frente das respectivas instituições e políticas mas, de facto, os negros números deste crime estão aí para o demonstrar a todos capazes de uma pinga de lucidez e de humildade.
De resto, esta luta lembra a saga contra os incêndios- todos repetem o que é preciso fazer, a receita diz-se e rediz-se como uma ladainha ensimesmada e catatónica mas, ano após ano, mês após mês, semana após semana, a tragédia retumba: outra mulher assassinada. Já se sabe: a proteção legal das vítimas é fraquíssima, a punição dos criminosos é pálida e tímida, verificam-se falhas graves na aplicação da lei, na articulação institucional ou na decisão judicial,
são necessários mais meios e, definitivamente, prevenção, educação nas escolas, meios de comunicação social, empresas, centros de saúde, enfim, formação de todos os agentes envolvidos.
Pois, já se sabe. E que tal fazer, fazer definitivamente, de uma vez por todas? Esta violência contra as mulheres é uma epidemia grotesca num país europeu do século XXI. Já a impunidade dos agressores e o fracasso ou até mesmo a cumplicidade do Estado e da Sociedade são absolutamente repugnantes." - joana amaral dias

A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA É ENDÉMICA AO SISTEMA 

Por, RLP


Há uma violência doméstica, sabemos isso sobejamente...fala-se muito e não se diz nada. Apresentam-se estudos e mulheres de alto gabarito, mulheres que pertencem a uma elite e que  vão para a televisão dizer que sim mas também e o pior  é que se continua a mostrar e a escrever e a dizer as maiores barbaridades sobre as mulheres sem que ninguém faça caso...  Continua-se a criar e a contribuir para isso e de todos os modos, na empressa e nas próprias televisões dando imagens das mulheres de forma ultrajante e depois vem as tentativas de "solucionar" o problema...

Sim, matam-se e assassinam-se TODOS OS DIAS mulheres de todas as maneiras, em casa e na rua...SIM, todos os dias, vertiginosamente…e aumentam os casos para além do que são relatados e conhecidos em todo o mundo…
Mas Há ainda a violência física e verbal mais subtil nas mais diferentes situações da vida de uma mulher, todos sabemos que há.
Há contra a mulher uma espécie de perseguição e culto da violência de género baseada no sexo e é muito mais grave e persistente do que a que sofrem as minorias, quaisquer minorias ditas descriminadas, porque em muitos casos elas aparecem quase diluídas e disfarçadas pelas situações de hipocrisia vigente e pelos preconceitos das mulheres em denunciar maridos e patrões ou colegas, de assédio sexual e violência verbal…

SIM, ENTRE TODAS AS VARIANTES DE VIOLÊNCIA SOBRE A MULHER, HÁ MAIS UMA, A VIOLÊNCIA DO SEXO ESCRITO…

Sempre houve, todo o tipo de violência contra a mulher, mas há esta nova violência camuflada de “literatura” e romance…e escritores homens e mulheres inclusive que escrevem as maiores barbaridades CONTRA A MULHER e o mercado e o público e a lei não se dão conta…porque a palavra do “escritor/” passa pela ideia tabu de “liberdade…de expressão”…e tudo bem, e nisso gera-se a maior confusão…mas o que está em questão não é que se seja livre de escrever o que se quiser e dizer tudo o que se queira, mas NUNCA de forma agravada e violenta contra a mulher…ou em nome do “seu prazer” ou em nome neste caso…por definição de… “uma mulher com classe…”

“É pela forma como pratica sexo oral que uma mulher te merece ou não. Mas não porque o faz melhor ou pior – muito menos porque te dá mais ou menos prazer. É pela forma como pratica (como te pratica) sexo oral que uma mulher te merece ou não porque é nesses instantes que - se olhares para o que não se vê, se esqueceres a pele e a boca e os lábios e te concentrares nos olhos que olham e nos gestos que envolvem - uma mulher que te ama te mostra, em plenitude, que tem classe. E que, para ela, oferecer-te um fellatio é tão digno como oferecer-te um Rolex ou um perfume Chanel. Mais ainda: para a mulher com classe, oferecer-te um fellatio é oferecer-lhe um fellatio. Oferecer-se um fellatio. Porque, quando se ama, não existe dar e receber. Amar é uma dádiva dos dois lados de dar e receber. Não existe dar amor – como não existe dar um fellatio. O que se dá no amor é exactamente, sem tirar nem pôr, o que se recebe no amor. E isso sim é classe.” P.C.

Esta Violência da pornografia VERBAL, o abuso da expressão contraditória e incoerente que gera esta confusão de valores, é um ataque à sanidade da pessoa humana e de uma violência enorme à integridade e liberdade de “escolha” da mulher; ela é uma aviltação da mulher em forma de romance, na escrita deste “escritor” pop – que ensina a escrever – e que dezenas de mulheres cegas seguem fascinadas com a sua audácia, o seu vazio, a sua esterilidade, o seu ego, a sua obsessão fálica, a sua verborreia, a sua falta de ética e de estética, o seu absurdo, e sem a menor profundidade no que escreve e que ataca de forma desabrida, indecente, sim, digo INDECENTE, DESONROSA, PARA TODAS AS MULHERES, mães, filhas, irmãs e sobretudo as amantes…só é possível pela ignorância da própria mulher em se honrar, em se dignificar a si própria, em se dar valor, em se saber ao certo, em se realizar a partir de si …

Não se trata aqui de discutir que forma de sexo preferem as mulheres…mas de uma indução a uma prática como forma de “exaltação” da “dignidade e da classe”…de uma mulher perante o sexo…

A violência que nesta escrita é feita à mulher e que ela aceita passivamente, deve-se à sua falta de consciência do feminino profundo, deve-se ao enorme vazio da sua vida, à sua falta de valor como ser humano, à falta de sentido que não encontra em si como pessoa, e a não ser viver pelo homem, projectada no homem, projectada no filho e agora no sexo, no falo, ela acha que não vive…e que NÃO É PREENCHIDA e tudo isto porque a sua vida foi destituída de significado para além de servir o Homem; a mulher foi assim programada para obedecer e servir a deus, o pai, o marido e o filho e agora vê inverter-se a sua situação de mulher legítima e séria… ou.. prostituta, a ser “enaltecida” já não no altar, ou no bordel, mas exclusivamente na cama, na mulher-objecto, só sexo, uma mulher degradada pela sexualidade mais abjecta para servir ao seu “deus falo”, baseado na sua anulação e na mais vil submissão, na mais completa sujeição “ao prazer” anulando todo o seu ser na mera escravidão sexual aos padrões machistas e falocráticos que agora se destacam não só nos Mídea e Publicidade como é o tema preferencial destes escritores pop-pornográficos, cito o caso deste Pedro Chagas, realmente uma chaga literária…um verme literário e uma vergonha para quem tiver um mínimo de sentido do que é a literatura. Sim, digo vergonha…porque esta gentinha sem princípios sem educação nenhuma, sem integridade humana, sem qualquer noção do Ser em si, para além de uma mente perversa e insana, são o fruto de uma sociedade podre, alienada e de um Sistema – FALOCRÁTICO – que atingiu o seu auge de decadência e que é a pouca-vergonha de não se ter já qualquer noção do que é a verdadeira dignidade nem a classe de uma mulher ou de homem! Esta geração rasca, realmente rasca, pensa que ter vergonha na cara não é moderno nem comercial, e o que importa é Vender e comprar a todo o transe…e pensam que dizer todas estas barbaridades a qualquer preço e que dizem em nome da “mulher” do “amor” do “desejo” e até de “deus”…é o máximo…e é “arte”…ou literatura…de lixo!

Este é o maior LIXO tóxico ao cimo do Planeta, porque ele é mental e moral e quase toda esta geração proveniente do Sistema mercantil e económico é a expressão máxima dos dias em que vivemos…Prova-o a poluição verbal neste caso e a violência camuflada, o despotismo e a demência disfarçada de arte…

rlp

ESTE CORPO



SOBERBO TEXTO

“Em Um Quarto Só para Si, Virgínia Woolf descreve satiricamente a sua perplexidade perante os volumosos catálogos da biblioteca do Museu Britânico: porque é que há tantos livros escritos por homens acerca das mulheres, pergunta-se ela, e nenhum escrito por mulheres acerca dos homens? A resposta a essa pergunta é que desde o começo dos tempos os homens se têm debatido com a ameaça do domínio feminino.
Essa torrente de livros foi instigada não pela fraqueza das mulheres, mas pela sua força, a sua complexidade e impenetrabilidade, a sua omnipresença aterradora. Ainda não nasceu o homem, nem sequer Jesus, que não tenha sido tecido, a partir de uma pobre partícula de plasma e até se converter num ser consciente, no tear secreto do corpo feminino. Esse corpo é o berço e a fofa almofada do amor feminino, mas é também o cavalete de tortura da natureza.”*



(…) "É correcta a identificação mitológica entre a mulher e a natureza. O contributo masculino para a procriação é fugaz e momentâneo. A concepção resume-se a um ponto diminuto no tempo, apenas mais um dos nossos fálicos pico de acção, após o qual o macho, tornado inútil, se afasta. A mulher grávida é demonicamente (diamon), diabolicamente completa. Como entidade ontológica, ela não precisa de nada nem de ninguém. Eu defendo que a mulher grávida, que vive durante nove meses absorta na sua própria criação, representa o modelo de todo o solipsismo, e que a atribuição do narcisismo às mulheres é outro mito verdadeiro. A aliança masculina e o patriarcado foram os recursos a que o homem teve de deitar a mão a fim de lidar com o que sentia ser o terrível poder da mulher. O corpo feminino é um labirinto no qual o homem se perde. É um jardim murado, o hortus conclusus do pensamento medieval, no qual a natureza exerce a demónica feitiçaria. A mulher é o construtor primordial, o verdadeiro Primeiro Motor. Converte um jacto de matéria expelida na teia expansível de um ser sensível, que flutua unido ao serpentino cordão umbilical, essa trela com que ela prende o homem.”*



**CAMILE PAGLIA