quarta-feira, janeiro 11, 2012



PORTUGUÊS DE PORTUGAL, DO MUNDO

Ah, a língua! A língua, o poderoso fluxo que dá voz à minha alma, matéria-prima dos poetas, voz do amor e da saudade derramada no papel, espírito vivo de séculos de marcha e experiências de um povo banhado pelo mar salgado…

Querem-te à força uniformizar, dar-te contornos incoerentes, desligados, cortar-te as asas poéticas – por obsoletas, dizem – querem que eu seja “espetadora” do mais degradante espectáculo (passe o pleonasmo, que o não chega a ser pois falta o “c” no sujeito), querem-te igual aos que te escrevem sem te saberem originalmente, só porque são muitos, muitos mais que nós e se expressam lá tão longe do teu solo pátrio…

Querem-te simplificada, sem adornos de acentos, igual em todo o lado, ininteligível para quem te estudou e absorveu com o amor ao sangue próprio, querem-te feia e minimalista, os meses a perderem a sua maiúscula e eu sem saber se ato ou desato?!

Mas quem, quem avalizou este crime? Quem assinou aquilo que coage artificialmente a voz escrita de um povo a tornar-se de um momento para o outro aquilo que não é e que não quer ser, quem são os que me ignoram e a ti e ao outro, indiferentes aos nossos gritos de angústia e protesto? Quem lhes deu poder, encomendou o sermão, por que é que eles avançam apesar dos movimentos contrários, petições, luto na alma?

Não passarão, prometo-te, Língua-mãe, Pátria de Pessoa, Camões, Natália, Pátria minha, Shambala da nossa transcendência, colo dos meus sonhos, Voz inigualável de uma missão por cumprir!
Bela e ancestral, mulher e ventre, fértil seiva que as almas trabalham há tantos séculos, prometo-te respeito e obediência ao teu fluir natural que é feito de tantas coisas subestimadas pelos interesses políticos e comerciais…

Mar e terra, voz do vento, pássaros do dia e da noite, dor e poesia, o indizível que baila nos olhos do navegador e do camponês, cheiros, fome, sede e luar aceso sobre os montes do sul em noites de lua cheia, cantos desgarrados, vozes antigas, deslembradas, a memória e o sonho de quem quer ser…

Ninguém me arrancará de ti, escutarei atenta o bater do teu coração sobressaltado e nele hei-de verter sempre, com amor e devoção, as produções da minha alma.

mariana inverno

http://notasasombradostempos.blogspot.com/

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Deusa é uma palavra de ouro!


DA BANALIZAÇÃO DA DEUSA 
 Estou farta da Deusa! Desculpem-me pelo desabafo, Mulheres & Deusas, mas o meu compromisso com a minha escrita é o de um esforço de verdade e tenho de a expressar em conivência com a minha alma, como puder e o melhor que eu saiba. 
Estou farta de ouvir as mulheres se assumirem como deusas, embarcarem em folclóricas invocações, representarem a Mãe Primordial com longos cabelos, olhos azuis e vestes diáfanas, estou cansada de ver atribuir-lhe a responsabilidade de qualquer trivia com um arrogante “Foi a Deusa em mim, no meu coração!”
A este nível aconteceu à Deusa o que há muito se passou com a palavra Amor: de tão utilizada, a propósito de tudo e de nada, caiu na vala da banalização.

Creio que seria de alguma utilidade tentar definir a palavra “Deusa”, de modo a que possamos acercar-nos mais à sua verdadeira energia. Há um par de anos, uma amiga próxima contou-me que, num raro encontro com seres das Pleiades, havia sido informada de que ela, noutros universos, era/havia sido deusa. Contou-me a minha amiga que ficou perplexa e confundida com esta informação até que os Pleiadianos lhe explicaram que o ser deusa, nesses níveis vibratorios, se refere simplesmente a um nível de Consciência mais elevado, sem qualquer conotação com as mitologias e crenças da Terra e, sobretudo, sem conceito de hierarquia.
Tocou-me profundamente esta informação pois, no meu coração, eu sempre soube que devia andar por aí.

A deusa não é alguém exterior a nós, não está sentada num trono, não viaja pelos espaços siderais, não abençoa umas e condena outras. Sentir a Deusa em nós deverá corresponder a um estado vibratório cujo poder advenha de uma consciência mais expandida pelos infinitos mundos da Compaixão, Sabedoria, Intuição, Paz Interior e Auto-determinação. Estados que , infelizmente, ainda não são permanentes na maioria de todas nós. Mais a mais, muitas mulheres nem sequer iniciaram o inadiável trabalho com a sua consciência psicológica, base indispensável para a evolução pessoal.

Deusa é uma palavra de ouro! Há que preservá-la como tal e dar-lhe utilização com a cautela necessária para que não dê origem a mais simulacros dos que já empestam os ares da nossa manifestação na Terra.
Embora eu, enquanto ser encarnado no planeta, seja profundamente ritualística, aprecie sobremaneira a mitologia e o simbolismo, repugna-me contudo a confusão e falta de discernimento em que se cai. Vejo “deusas” que se degladiam e se traem umas às outras, “deusas” cuja mobilidade de afectos e de propósitos é no mínimo surpreendente, “deusas” que julgam com dureza a imperfeição alheia inconscientes da própria, “deusas” que esquecem rapidamente os seus votos de irmandade com as outras “deusas”, logo que um deus qualquer aparece no horizonte.
Vejo tantas coisas e tão tristes que, com frequência, me prefiro voltar para quem ainda não entrou conscientemente nestes domínios e concentrar-me nos actos despretensiosos do dia a dia. Como podar as roseiras, antecipando agradecida a beleza com que me hão-de presentear na Primavera ou embalar a minha Mãe velhinha nos meus braços feitos Amor e Desvelos.

Publicada por mariana inverno
http://notasasombradostempos.blogspot.com/2012/01/da-banalizacao-da-deusa.html?spref=fb

 

A ÚNICA FACE DA DEUSA


A Face verdadeira da Deusa é a face da Mulher integrada, da Mulher total. A mulher que une em si os fragmentos da sua persona ferida e dividida em estereótipos vários...
Óbviamente nunca defendemos uma Deusa num Altar nem mulheres consagradas, sacerdotisas, por um lado, e mulheres submissas e obedientes às mestras, por outro...Nunca aqui se defendeu tal coisa à imagem de deus pai no céu e os seus padres...Mas sabemos de antemão que há uma ConSciência da Deusa a integrar em cada mulher - unir a santa e a prostituta, cujos esterótipos dominam o nosso inconsciente,  assim como  Eva submissa e obediente ao macho e  Lilith que se negou a ficar por baixo de Adão e foi condenada aos infernos por Deus.

Eu sei que há algumas mulheres que já fazem consigo esse trabalho sério - um trabalho de cariz psicológico e ontológico - e outras que apenas seguem ideias, ou os rituais e crenças segundo o modelo tradicional católico ou o modelo ancestral matriarcal...ou ainda o modelo das deusas do Olimpo, já patriarcal, sempre em guerra com as outras mulheres por causa de Zeus... e aí temos as deusas no Olimpo que são as mulhertes já divididas pelo patriarcado em luta pelo homem, seja o pai, amante seja o filho, no caso de Afrodite e Psique, por causa de Eros...Nada de diferente do que as mulheres sofrem entre si neste sistema actual em que os mesmos arquétipos da cultura grega ou romana prevalecem e as divide: rivalidade, antagonismo, ciúme, competição, inveja, ódio da filha à mãe e vice-versa etc...
Daí deriva a ideia generalizada das muitas faces da deusa e que cada mulher encarna uma deusa em especial, mas essa face da deusa para além de, na sua característica ser mais Héstia ou Aquela, ou Afrodite e Demeter etc. não são mais do que os três aspectos da manifestação da Deusa na Mulher, ao longo da sua vida: a jovem, a donzela, a mãe e a anciã, que em cada fase ou é casta e virginal, depois sensual e aguerrida e por fim a velha que é sábia e matreira... 
Só há uma Deusa, a Deusa que encarna o Princípio Feminino, seja ela a Virgem Mãe, Sophia ou a Shekinad e portanto só uma Face da Deusa também. Essa Deusa é em nós  a nossa essência feminina integrada,  compreendida, não teórica nem especulativa, mas sim a consciência dessa totalidade em nós, vibrande de amor e compaixão, impecável, mas doce e implacável...que é o que a Deusa É.
rlp

sábado, janeiro 07, 2012

O ODIO DA FILHA À MÃE E VICE-VERSA...


"O grande motivo essencial dos Mistérios de Elêusis e, portanto de todos os mistérios matriarcais é a heuresis, a redescoberta de Core por Deméter, a reunião da mãe e da filha."


"Estou num momento particularmente crítico em relação à minha mãe...e não consigo aceitar determinadas coisas...não sei perdoar...às vezes isso me faz confusão porque eu acredito na Deusa, eu amo as mulheres, mas não todas e a primeira na lista é a minha mãe, cujo útero me gerou mas nem sequer por isso lhe sou grata...ela só precisava ficar grávida para obrigar um homem ao casamento... nunca me amou, nem me amamentou, sempre me tratou mal, sempre com violências físicas e psicológicas, tenho muitas lembranças ruins de maltratos e humilhações, mas não tenho uma única recordação de um abraço sincero ou de um gesto de apoio e carinho...Ela é má... perversa, manipuladora, mentirosa, ciumenta, invejosa... não vejo como resolver esse conflito...por isso é que insisto que determinadas questões não são apenas uma questão de gênero, afinal em várias reencarnações somos homens ou mulheres, ou animais, ou plantas ou minerais...então como ultrapassar isso...sei que ela é uma infeliz, não se ama,não se conhece, mas não quero ajudá-la" ***

Minha amiga:
Temos de óbviamente conversar sobre esse assunto pessoalmente! Mas antes disso queria dizer-lhe, pelo muito que o seu relato me tocou como exemplo claro da mulher típica comum, que é a sua mãe, vítima de uma sociedade que criou muitas mulheres assim; mulheres sobreviventes que não podem amar ninguém pois são crianças quase mutiladas emocionalmente. Essas mulheres tanto podem ser ricas como pobres, apesar das pobres sofrerem em acréscimo as dificuladades económicas, mas todas as mulheres sendo anuladas e desrespeitadas na sua essência, “que não se amam nem se conhecem”, acabam por se tornar “sobreviventes”. Elas aprendem as manhas e a frieza, o cálculo a perfídia, e como você diz:

“Ela é má... perversa, manipuladora, mentirosa, ciumenta, invejosa”…

Sim, a mulher comum, tirando algumas mulheres fantásticas, por assim dizer, ou digamos 80% das mulheres são assim e tudo isso e muito mais…É dessa mulher que também os homens se queixam sem saber que foram eles que a tornaram assim e que a mulher é o sub-produto de um sub-produto que os homens são de uma sociedade machista e misógina…
Um mundo onde se não ama nem respeita a Mulher e a Mãe...
Um dia porém há-de compreendê-la e querer ajudá-la. Só o não pode fazer agora porque é a sua criança ferida que pede ainda o carinho dela e a ajuda da mãe que não teve...
Mas justamente, você sabe o que ela sofreu com a mãe dela?

É esta a grande ironia na nossa vida, que as mulheres em vez de se unirem e amarem se começam por odiar e desprezar umas às outras...e começa tantas vezes com a filha e a mãe, ou vice-versa. Sem curar essa ferida voce vai sempre acusar e amar/odiar as outras mulheres.
Começam sempre por se disputarem entre si  por causa do pai ou do irmão, depois do amante...
Foi isso que o patriarcalismo fez muito bem feito ao longo dos séculos. Destruiu a união da Mãe e da Filha dos Antigos Mistérios (Eleusianos) para fazer valer e prevalecer só a autoridade do Pai...E foi desse domínio e abuso que a mulher aprendeu a defender-se como o prisioneiro no campo de concentração ou os reféns de uma qualquer guerra…
E assim acabam sempre por  atacar todas as outras mulheres como culpadas...mesmo as amigas...pois se sentem sempre traidas e inseguras e SE VOCÊ NÃO ENTENDER ISSO e parece que não entedeu, vai sempre acusar e vingar-se das outras mulheres que não correspondam aos seus anseios desejos ou ideias de menina mulher... *
rlp
* Excerto de texto publcado em 2006


DE ONDE NASCE O  ÓDIO À MÃE? QUE FERIDA É ESSA NA MULHER ?

Fala-se  com imensa frequência da "criança ferida", da nossa criança, ou de se ser como uma criança...Mas ninguém quer ver de onde nasce a criança ferida...de onde provém a ferida...

A Ferida fulcral, inicial, é a ferida da Mulher, da mulher cindida, da Mãe ferida, da mãe mal tratada, abusada e desrespeitada pela máquina social e pelo homem que faz da mulher mal nasce um ser destituído de identidade e educada para servir a comunidade, a família ...
Toda a mulher à partida nasce com o destino traçado...ou é procriadora ou objecto sexual- ou casa ou é uma vadia...e embora as estas  variantes são hoje bem mais civilizadas, em que se torna a mulher um objecto de prazer visual ou virtual, na moda, na publicidade, e mais concretamente no consumo/sexismo...e não me falem das mulheres "privilegiadas", educadas, bem nascidas, as filhas do papá, ou as bem casadas ou primeiras damas ou primeiras camas ou lá o que forem...porque esta é uma experiência transversal a todas as mulheres: ricas e pobres, negras e brancas.
A grande ferida da mulher é a grande ferida deste mundo, que começa no ódio a Mãe: uma mãe não amada e uma criança rejeitada cria todos os ódios e lutas...todos os excessos, fundamentalismos e crimes e  guerras. Esta é a realidade que ninguém quer ver...e que as mulheres infantilizadas também não querem encarar.
escrito em
rlp

***carta de uma jovem amiga


rlp
 

Ser Mulher...

 
POR MAAT
ESCRITO EM 2002/2012
(adequadamente ampliado)

UNI+VERS+ELLE...
Eu sou digamos uma feminista radical! Transcendental...(e não do fio dental...)
Sim, sou-o no sentido de ir à Matriz e á raiz, á origem do universo feminino - para além da Cultura da História e da Psicologia - na pesquisa e busca da sua essência primeira muito para além do seu corpo/objecto/sexual, tido como único atributo que o Homem  e a sociedade  concedeu à mulher, seja para procriar seja para dela desfrutar, como esposa concubina escrava ou hetaira.
... Eu não procuro nem preciso de me afirmar ou evidenciar sexualmente para ser mulher. Não preciso de modas, implantes, estéticas nem de silicone...Não sou amante, nem preciso de o ser para ser mulher, não sou mãe nem preciso de ser mãe para ser fêmea e saber dos meus seios nem das minhas entranhas e do meu útero intacto!
Não sou escrava dos meus instintos básicos. Nem me vergo aos meus apetites súbitos, as minhas pulsões sexuais e outras....como não as nego...mas não faço da mulher sensual ou da mulher sexual a minha bandeira. Nunca fiz...Sempre me vi um SER para além da aparência...do corpo e da mente...
Eu sou corpo e mente sim, mas mais do que  corpo e mente eu sou Alma em harmonia com a minha Psique e o meu Espírito e reivindico a minha totalidade como ser humano inteiro independentemente da minha não-função ou do valor que esta sociedade me atribuiu enquanto parideira, mulher casada ou mãe solteira, acompanhante de luxo, prostituta ou objecto sexual e não preciso de me medir pelo meu prazer, pela quantidade de orgasmos, nem pelas caricias que recebo ou do prazer que dou ou não dou. Não sou um objecto sexual nem procriadora nem mãe nem avó ou tia ou empregada doméstica, artista, rainha ou escritora ou dona de casa! Eu sou apenas MULHER-MULHER! 
Eu sou um ser inteiro e livre sem necessitar de outro complemento que não seja a minha consciência e o meu coração. Sou capaz de toda a plenitude em mim mesma sem nenhum outro atributo e não confundo as minhas carências nem os meus apetites e desejos com a minha essência primeira. Sou  senhora do meu ser sem o precisar submeter a  apetites, desejos, regras ou a ideias preconcebidas e a conceitos para ser eu mesma! Nem sequer preciso estar contra as regras ou estabelecer outras...
Não me vejo nem revejo nas outras mulheres, não sou mais nem sou menos nem igual, SOU DIFERENTE  e todas somos diferentes. Não estou a favor nem contra ninguém, mas tenho o direito a ser o que sou. Como sempre fui e fiel a mim mesma. A ninguém peço permissão para ser nem condeno ninguém por ser o que é...Não tenho que pertencer a nenhum consenso entre mulheres nem entre homens, nem estar contra ninguém, grupo ou sociedade! Essa é a minha liberdade de ser e amar, ambos os aspectos indissociáveis em si.
 
NINGUÉM PODE AMAR SEM SER...
 
Ninguém que não atinja um grau de consciência individual e maturidade ao nível do seu ser total, ao nível "transcendente" é verdadeiramente livre ou pode amar realmente quem ou o que quer que seja, para além dessa dicotomia permanente de bem e mal e antagonismo sexual, social, psicológico, histórico e político...
O meu amor à Mulher como ao SER Humano não é transversal...é Universal...
rlp

quinta-feira, janeiro 05, 2012

A CONFUSÃO DE SEXOS...

O CULTO DO RAPAZ BONITO E O ADOLESCENTE GREGO… VERSUS MODA MULHER/RAPAZ (BONITO)
O CULTO DE APOLO - A NEGAÇÃO DA MULHER E DA NATUREZA 

“O rapaz bonito é uma censura à mãe natureza, uma fuga ao labirinto do corpo, com as suas lúgubres entranhas, o seu útero sombrio. A mulher é o miasma dionisíaco, o mundo dos fluidos, o pântano ctónico da procriação. Atena, diz Campel não estava “corrompida pela prosaica sisudez de um compromisso heterossexual com a mera existência”. Sim, a mera existência é de facto recusada pelo idealizante estilo apolíneo. Um divino privilégio dos homens é o de criarem ideias mais grandiosas do que a natureza. Nascemos na indignidade do corpo, com os seus infatigáveis movimentos internos empurrando-nos minuto a minuto em direcção à morte. Mas o apolinismo grego, ao congelar a forma humana numa absoluta exterioridade masculina, representa o triunfo do espírito sobre a matéria.

Quando mata a Piton em Delfos, o umbigo do mundo, Apolo detém o curso do tempo, pois a serpente enrolada que trazemos no abdómen é o eterno movimento ondulatório da fluidez feminina. Todo o rapaz bonito é um Ícaro ascendendo para o sol apolíneo. Mas se ele foge do Labirinto, é apenas para se precipitar no mar de dissolução da natureza. Os cultos da beleza têm sido persistentemente homossexuais, desde a antiguidade até aos salões de cabeleireiro e casas de alta-costura dos nossos dias. O embelezamento profissional das mulheres às mãos dos homossexuais masculinos é uma espécie de reconceptualização dos factos brutos da natureza feminina. Como fin de siecle oitocentista, os estetas são sempre homens, nunca mulheres. No lesbianismo não existe nada que se assemelhe à adoração grega pelo adolescente. A grande Safo pode ter-se apaixonado por raparigas, mas tudo indica que ela interiorizava, mais do que exteriorizava, as suas paixões. (…) É por demais evidente que o lascivo deleite do olhar não existe no erotismo feminino. O idealismo visionário é uma forma de arte masculina. Uma esteta lésbica é coisa que não existe. Mas se existisse seria a partir da perversa mente masculina A intensa busca da beleza através do olhar é uma forma apolínea de rectificar a vida no nosso corpo, nascido de uma mãe.

Suspenso no tempo, o rapaz bonito é uma fisicalidade desprovida de fisiologia. Ele não come, não bebe nem se reproduz. Dionísio está profundamente imerso no tempo – ritmo, música, dança, embriaguez, gula, orgia. O rapaz bonito flutua como um anjo acima do turbilhão da natureza. Também no judaísmo os anjos desafiam a feminidade ctónica. É por isso que o anjo, embora sem sexo, é sempre representado como um jovem do sexo masculino. As religiões orientais não têm nada de similar aos anjos de pureza incorpórea, e isso por duas razões. Primeiro, porque um “mensageiro” (angelos) ou mediador entre humano e divino é para eles algo desnecessário, já que consideram que as duas esferas são coexistentes; e segundo porque no Oriente existe uma relação harmónica e simbolicamente equivalentes entre o feminino e o masculino – o que não significa, contudo, que isso tenha contribuído para melhorar o estatuto da mulher.

O rapaz bonito de faces coradas representa a frescura emocional, a Primavera. Ele é a afirmação parcial acerca da realidade. É exclusivo, é um produto do gosto aristocrático. Ele recusa a superabundância da matéria, o útero da natureza feminina que devora e cospe as criaturas. Dionísio, dissemos nós atrás, é Múltiplo, sempre mutável e que tudo abarca. A totalidade da vida é Verão Inverno, floração e devastação. A Grande Mãe, simultaneamente benévola e malévola, representa ambas as estações. Se o rapaz bonito é branco e rosado, ela é o vermelho e púrpura das suas fauces labiais. Ele representa uma desesperada tentativa de apartar da imaginação a morte a decadência. É a forma a separar-se da criadora-de-formas, a natura naturata a sonhar-se livre da natura naturata. Qual epifania, criada pelo olhar, ele aglutina a pluralidade na fugaz visão do único, tal com o faz a prórpia arte.”

Camille Paglia in Personas Sexuais pag.s 127/8


A MULHER ACTUAL

Este texto, cuja leitura para mim se baseia numa interpretação cultural do nosso mundo por uma escritora acutilante e cultíssima, escreve de uma perspectiva global e abrangente sobre a história e a arte, a partir dos opostos masculino-apolíneo e feminino-ctónico. E é a sua visão particular de como essa separação funciona no nosso mundo cultural de facto, com a qual eu não concordo em muitos aspectos, embora o que eu queria aqui destacar e do meu ponto de vista pessoal é ver como esses aspectos aqui focados estão patentes e se reflectem nos relacionamento entre as ditas "personas sexuais" (que somos todos), mas particularmente entre a mulher e o homem de hoje. Para mim o que é mais curioso ou espantoso é ver como a mulher com quem eu falo e conheço…se anula a si mesma e em muitas circunstância que não são só o casamento, nessa pretensão e vontade do homem de a transformar num rapaz bonito (a Moda), quer do lado mundano, social comum, quer também no lado espiritual new age através dos conceitos de uma pretensa nova espiritualidade, que transforma igualmente as mulheres em anjos, (rapazes bonitos e puros). Também esta "nova espiritualidade" continua a negar a mulher original e a negar-lhes a feminilidade essencial, ctónica, na forma dos seios abundantes, nas formas arredondadas ou na gordura, (tirando a pornografia que procura sempre aviltar a mulher e representa a posse e o ódio do homem à mulher e a vontade de violação -agressão) como até mesmo lhes retira as entranhas e aí muito particularmente toda a ciência se encarrega de limpar as mulheres das suas vísceras. Quando a medicina "preventiva" lhes arranca o útero e os ovários e mesmo as seios, com a maior das facilidades, está a obedecer a esse imperativo do mundo apolíneo que abomina a mulher e a natureza. Fazem-no, dizem, para “prevenção” das doença do colo do útero, e forçam-nas a tomar desde cedo toda uma série de comprimidos e artefactos para esconder ou interromper a menstruação, afectando todos os processos naturais da vida da mulher e os seus ciclos, começando pelos anticoncepcionais de que a mulher é escrava para não engravidar…e ter de obedecer como cobaia a todos os apetites do homem sobre o seu corpo-objecto-rapaz-bonito. Portanto o rapaz bonito, seja ele homossexual ou não, é o modelo inconsciente de beleza da nossa sociedade e admirado por homens e mulheres.

Esse rapaz bonito enquanto homossexual (ou não) recusa a sua mãe (por excesso de afecto ou por carência) – ou o ter sido concebido por ela - ou quer ser ele a mãe …como se a mulher fosse de facto e apenas um animal reprodutor que já deixou de ser a esposa e a mãe para ser agora, apenas uma barriga de aluguer.

Estão as mulheres conscientes disto?

Não…nem as mulheres comuns nem as mulheres que se julgam emancipadas e livres pois essas são as que melhor correspondem aos padrões da moda homossexual. Elas continuam submissas ao modelo, ao cabeleireiro, ao estilista, ao médico, ao astrólogo, ao padre antes, agora ao guia e mestre ou ao guru…
Nesta sociedade falocrática a mulher sofre todo o tipo de doenças que são o resultado da repressão do seu ser feminino e a recusa em ser mulher em todas as suas formas e utilizar o seu poder interior, o seu saber intrínseco para não perder justamente o quê? O falo, a famosa inveja do pénis que Freud percebeu sem perceber que a mulher tinha sido primeiro desventrada pela inveja que os homens tinham do útero …É a mulher sem Útero que inveja o falo e se cola ao rapaz bonito…ou ao velho rico que lhes permite ter acesso ao rapaz bonito em que ela se transforma, acedendo à moda e aos símbolos de poder. Ver o culto da "bunda", cada vez mais pronunciado, especialemnte no Brasil …


rOSAlEONORpEDRO

quarta-feira, janeiro 04, 2012

SER MULHER EM SI E POR SI SÓ...


Este texto que publiquei no Grupo Mulheres & Deusa no Facebook, serve também para enfatizar aqui o meu posicionamento em relação ao Blog. E apesar de não haver a mesma interecção nem a dinânima que o facebook permite, eu resolvi publicar aqui também a minha questão porque é uma questão, embora radical, de princípio...
Aproveito para sugerir quem quiser fazer parte do grupo no facebook é muito bem vinda...


SOU RADICAL POR UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIO... 

 De vez em quando eu venho aqui pontuar uma questão de princípio... Este Grupo trata de Mulheres & Deusas...trata do Principio Feminino e da sua integração em particular e apenas isso. Não em função do masculino nem em conflito com ele...apenas trata das questões que nos aprofundam a nós mulheres no sentido de integrar o nosso feminino sagrado e através da compreensão do que foi em termos históricos e culturais a cisão fulcral da Mulher. Falamos dessa cisão interior dessa divisão da mulher em duas espécies...e procuramos integrar essas duas mulheres em nós que a sociedade patriarcal dividiu...na santa e na puta...

Portanto neste momento e neste espaço não estamos em princípio, e por princípio, e creio que já posso falar por muitas mulheres aqui, interessadas em resgatar o amor do homem...mas sim o amor da mulher...o amor de si mesma e como eu não sou homem também não me ocupo do seus problemas NEM DOS MEUS AMORES SEJAM ELES QUAL FOREM, nem sequer do erotismo, mas dos meus sentimentos e consciência COMO MULHER em mim e das mulheres em geral. Espero que me entendam de coração aberto e não de mente fechada...

Senão vejamos: 


A Mulher tem de uma vez por todas de Ser Mulher sem que seja em relação ao homem ou ao filho. É urgente que a mulher compreenda isto. E quando compreender e integrar isto pode ir se quiser tratar do homem e do mundo social ou o que mais queira, eu não tenho nada a ver com as opções das mulheres no seu campo amoroso ou social. A questão aqui é a mulher ver-se em relação a si mesma SEM RELAÇÕES e sem o amor do "outro"...mas com o amor de si mesma!
Não sei se me entendem bem, mas é um ponto de vista único talvez, novo, complexo, que implica um grande recuo da mulher, pois trata-se de um ângulo radicalmente diferente daquele que sempre olhámos para nós...Pois sempre a mulher foi e existiu em função dos outros...sempre em função do amor do homem em função do amor do filho ou de deus ou da família ou da comunidade.

Basta! Sim, BASTA!

A mulher tem de se OLHAR A SI MESMA sem mais projecções, sem mais amores nem ódios e lutas e medos...ELA TEM DE COMEÇAR A OLHAR PARA SI MESMA SEM MAIS NENHUM SUPORTE. Só ELA. Custa???? Pois custa. Na maior parte das vezes as mulheres nem sabem nem entendem do que se fala aqui...e acham que é arrogância minha, uma espécie de misoginia invertida, que não gosto de homens ou gosto de mulheres etc. É-me indiferente o que pensam as mentes urbanas e dialéticas dentro do sistema e os seus conceitos. Para mim BASTA. NÃO é por aí que nós vamos. Quem quiser ir neste sentido faça o esforço e será muito bem vinda, quem não quiser...faça então o seu tabalho ou seu percurso onde quiser mas não empata...nem nos desvia do nosso propósito. A vida sentimental e amorosa da mulher não concerne este espaço. Mas a sua IDENTIDADE UNICA E PROFUNDA. 

Só quero que fique quem está está à vontade com o tema e em sintonia e não em desacordo. Eu não acho que a discussão nos sirva de alguma coisa, por isso NÃO ESTAMOS AQUI A DISCUTIR IDEIAS...nem filosofias! Estamos a criar empatias, sintonias, portanto não quero batalhas nem lutas...Já não preciso de antagonismos na minha vida, nem da afirmação do meu ego sun. E por reflexo aqui também não. Quero harmonia e empatia, compreensão e abertura...quero um "Círculo de Mulheres" onde os homens não entram, de maneira nenhuma...me desculpem as mulheres que não conseguem viver sem os seus "apêndices"...ou sem romances, porque aqui não há espaço para o tema. Mas todas podem abordar esses temas onde melhor se adequarem e há muitos grupos adequados onde podem debater as relações e os amores. Aqui trata-se só de mulheres. Radicalmente e irreversivelmente.
rlp

segunda-feira, janeiro 02, 2012

A MULHER COMO PORTADORA DO MUNDO TRANSCENDENTAL...


"Chegarei mesmo a dizer que, nessa evolução do conhecimento, a mulher leva vantagem, mas não tenho a certeza se ela sabe disso. Ainda mais que em relação à situação actual ela se choca com o poder do homem. Sejamos claros: constitutivamente, não existem relações de superioridade ou inferioridade entre homem e mulher. Tudo depende do contexto sociocultural da época considerada cujas consequências extremas se manifestam nas sociedades do tipo patriarcal e matriarcal." E.G.*  

A MULHER E O SEU POTENCIAL


A mulher já é DE SI a portadora do mundo transcendental, e é-o inatamente, mas para ser uma mulher activa e consciente neste mundo ela tem de ser integral...Ela tem de unir em si aquilo que foi separado e dividido e até que a fusão de si, pela integração dos aspectos fragmentados do seu ser abissal e ctónico não se unirem, a mulher não passa de um ser de superfície, mental, masculinizada e sujeita às leis do homem que a controla e submete. Pensar que a mulher atingiu já esse patamar onde todas as mulheres são "iguais" e leais umas às outras é pura utopia e não ajuda ninguém, nem mulheres nem homens, a fazer a sua parte. Porque à partida ela é apenas um potencial...mas não tem acesso ainda à sua verdadeira natureza. Pensar que toda a mulher é Mulher só porque o é biologicamente é um erro crasso...pensar que a mulher é mulher porque tem líbido ou é mãe é uma fatalidade...é estar do lado da matriz de controlo...é fazer exactamente o que o patriarcado quer...é cair na armadilha que sempre nos separou e impediu uma verdadeira cumplicidade entre mulheres.

Não HÁ, como diz o autor que citarei de seguida, nenhuma diferença constitutiva entre homem e mulher, mas face à separação das duas mulheres iniciais, Eva e Lilith, Maria Madalena a pecadora,  e a  Virgem Imaculada, face à manipulação milenar do ser mulher, há grandes diferenças que são aquelas que impedem justamente a mulher de atingir o seu verdadeiro potencial...e se em vez de a mulher servir o homem como  tem servido e de continuar a perseguir apenas o seu orgasmo, ela não vai atingir esse potencial nem saber quem verdadeiramente ela é. A mulher segue cegamento o seu instinto sexual...persegue incansalvelmente a "sua metade",  mas a mulher devia sim procurar a sua totalidade, saber primeiro quem ela é no fundo e ser essa totalidade antes de tudo e perseguir incansavelmente o seu POTENCIAL porque é o seu portencial que gera potência infinita, orgástica e universal e lhe dará maiores e ininarráveis prazeres orgásticos cósmicos e telúricos...só asssim ela será uma mulher Realizada e plena, da Raiz e na Matriz dela mesma.
E se a mulher tem sede de se sentir em todo o seu ser e estremecer e vibrar em toda a plenitude do seu SER, de corpo alma e espírito, então que vá para lá desse pequeno prazer-morte...dessa masturbação, desse prazer de escrava... A mulher para ser MULHER  tem de começar por si mesma e trabalhar a fundo os aspectos que nela foram negados, destruidos, apagados, difamados pelo clero e pelos padres durante centenas de anos. Daí a "descida aos infernos" da Deusa ou aos abismo da noite escura da alma...nenhuma mulher coneherá a Luz sem primeiro descer ao seu fundo negro...porque é lá que ela vai buscar a Prima Matéria para a consumação das suas núpcias  secretas, resgatar a Rainha da Noite para pode unir-se ao seu cavaleiro se assim o entender...
A Mulher que não se conhece na sua profundidade não é mais do que uma marionette nas mãos da cultura, da sociedade e dos media e até nos movimentos sejam eles feministas ou da "deusa"...
RLP

 PORQUE A MULHER É EM SI TUDO

"A mulher potencialmente está ligada ao conhecimento e à sabedoria que são duas forças complementares na grelha de base. A mulher realizada domina a dualidade e ajuda o homem a transcendê-la. Enquanto o homem tem acesso ao conhecimento que está no início de tudo e além disso tem a vontade."
  (...)
A mulher já é portadora do mundo transcendental - a Virgem Maria, Ísis, as Virgens negras. O homem, em contacto com a mulher, teria acesso ao germe da iluminação. E o casal alquímico exteriorizaria isso."*2

*2 In O HOMEM ENTRE O CÉU E A TERRA
De Étienne Guillé

NA BUSCA DA MULHER DESAPARECIDA...


EM BUSCA DA MULHER MÍTICA


"A satisfação das necessidades materiais mesmo não elementares não conduzirá nunca a progressos correspondentes da consciência. O inverso não é verdadeiro, ou seja, não é necessário privar as pessoas a todo o custo, fazê-las sofrer de qualquer modo, para as fazer evoluir, o que significaria que temos que adoptar um comportamento masoquista ou sádico. De facto, penso que existe no casal alquímico uma dinâmica subtil. Pode ser que eu tenha acesso melhor ao meu duplo descobrindo-o no olhar do outro, o olhar do outro desempenhando o papel de espelho para ver a outra face de minha dupla alquímica, e reciprocamente. Estou interessado na busca do absoluto. Humanamente, eu só tinha três soluções. Seja a mulher mítica, seja todas as mulheres com os seus limites desesperantes, seja nenhuma, e minha liberdade estava condicionada pelos meios que eu utilizaria para descobrir essa mulher ideal. Para mim esse esforço e esse caminho de conhecimento são ligados ao sagrado, à busca da mulher mítica." *

 * IN O HOMEM ENTRE O CÉU E A TERRA - ETIENNE GUILLÉ


O homem a mulher, o casal alquímico.


"(...) no homem existe a vontade, vontade de se realizar e de fazer isso em contacto com a mulher. Enquanto a mulher tem em si a sabedoria, um tipo de sabedoria inata, um catalisador único da realização. (...)

A mulher potencialmente está ligada ao conhecimento e à sabedoria que são duas forças complementares na grelha de base. A mulher realizada domina a dualidade e ajuda o homem a transcendê-la. Enquanto o homem tem acesso ao conhecimento que está no início de tudo e além disso tem a vontade. (...)

A busca da verdade é também a busca do outro. Essa questão toca bem claramente o problema da dualidade masculino /feminino, dia/noite...Quando essa dualidade é dominada, leva a um outro nível de consciência, tal como a expressão na grelha integrada. A mulher - conhecimento/sabedoria - tem um substrato de facto, enquanto o homem precisa partir sem demora em busca de si mesmo. A mulher é para ele uma iniciação ao progresso, um catalisador de futuro. Nesse sentido a mulher parece Ter vantagem em relação ao homem. (...)

Chegarei mesmo a dizer que, nessa evolução do conhecimento, a mulher leva vantagem, mas não tenho a certeza se ela sabe disso. Ainda mais que em ralação à situação actual ela se choca com o poder do homem. Sejamos claros: constitutivamente, não existem relações de superioridade ou inferioridade entre homem e mulher. Tudo depende do contexto sociocultural da época considerada cujas consequências extremas se manifestam nas sociedades do tipo patriarcal e matriarcal. (...)

A mulher já é portadora do mundo transcendental - a Virgem Maria, Ísis, as Virgens negras. O homem, em contacto com a mulher, teria acesso ao germe da iluminação. E o casal alquímico exteriorizaria isso."*2


*2 In O HOMEM ENTRE O CÉU E A TERRA

De Étienne Guillé



A BABEL DO MUNDO E OS SEUS REBANHOS...



CONFUNDIMOS ATRAVÉS DA NOSSA VISÃO PESSOAL LIMITADA, AQUILO QUE VIMOS NA VIDA DE SUPERFÍCIE,  COMO  UM VERDADEIRO DISCERNIMENTO DO REAL QUE ESTÁ MUITO PARA LÁ DA NOSSA "APRECIAÇÃO" SUBJECTIVA E PARCIAL DOS FACTOS...

"A maior perturbação da época que atravessamos vem da confusão e da multiplicidade de crenças e de opiniões. A agitação da vida utilitária, os falsos limites de uma moral convencional e de uma estética artificial, desviaram-nos do verdadeiro discernimento pessoal, e desse modo parece-nos que só um grande cataclismo poderia acordar a consciência.

Mas a nossa mentalidade confunde o discernimento do real com a mera apreciação pessoal, e o julgamento cerebral com o julgamento “verdadeiro”.
(…)
A massa dos seres humanos, cuja consciência é ainda nebulosa não experimenta a impulsão de um acordar individual, agrupa-se sempre em rebanho numa prudente expectativa.
(…)
A perturbação da nossa época caótica tem ao menos a vantagem de ter levantado as barreiras, e fazer estremecer os valores aos quais a sociedade não ousava tocar."
(…)

L’ Ouverture du Chemin – Isha S. de Lubicz