sábado, dezembro 12, 2015

O caminho da serpente está fora das ordens...assim Lilith...


 REVELAÇÃO SUPREMA
...
Way of the Serpent.

"O caminho da Serpente está fora das ordens e das iniciações, está, até, fora das leis (rectilíneas) dos mundos e de Deus. O carácter maldito, o aspecto repugnante, da Cobra, traz marcado a sua Oposição ao Universo — profundo e obscuro Mistério Magno. Ela é o Espírito que Nega, mas nega mais, e mais profundamente, do que em geral se entende ou se pode entender. Nega o bem no seu baixo nível, em que é só Serpente e tenta Eva; nega a verdade no seu segundo nível, em que é (…) nega o bem e o mal no seu terceiro nível, em que é Satã; nega a verdade e o erro no seu quarto nível, em que é Lúcifer; (ou Vénus); nega-se a si mesma e a tudo no seu quinto nível, e fuga, em que é SS, a Revelação Suprema. (…) e a si mesma se tenta e se mata.

Todos os caminhos no mundo e na lei são rectilíneos; o caminho da Serpente é a evasão dos caminhos, porque é, substancial e potencialmente, a Evasão Abstracta, o reconhecimento da verdade essencial, que pode exprimir-se, poeticamente, na frase de que Deus é o cadáver de si mesmo; a descoberta do Triângulo Místico em que os três vértices são o mesmo ponto, o segredo da Trindade e do Deus Vivo, que, em certo modo, é o Homem Morto em e através de Deus Morto."

Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio

INICIAÇÃO FEMININA E INICIAÇÃO DE OFICIO

Fazem-nos freqüentemente observar que parece não existir para as mulheres, nas formas tradicionais ocidentais que subsistem atualmente, nenhuma possibilidade de ordem iniciática, e muitos se perguntam quais poderiam ser as razões desse estado de coisas, que é certamente muito lastimável, mas que será sem dúvida muito difícil de remediar. Isso deveria aliás dar  o que refletir aos que pensam que o Ocidente concedeu à mulher um lugar privilegiado que ela nunca teve em nenhuma outra civilização; é talvez verdade sob certo ponto de vista, mas sobretudo nesse sentido que, nos tempos modernos, ele a fez sair de seu papel normal lhe permitindo atingir funções que deveriam pertencer exclusivamente ao homem, de modo que não é senão um caso particular da desordem de nossa época. Sob outros pontos de vista mais legítimos, ao contrário, a mulher está em realidade em maior desvantagem que nas civilizações orientais,  onde sempre lhe foi possível notadamente  encontrar uma iniciação que lhe convenha desde que ela possua as qualificações necessárias; é assim, por exemplo, que a iniciação islâmica tem sempre sido acessível às mulheres, o que, notemos de passagem, é suficiente para reduzir a nada alguns dos absurdos que se tem o hábito de debitar na Europa a respeito do Islã.

          Para voltar ao mundo ocidental, nem se precisa dizer que não pretendemos falar aqui da antigüidade, onde teria certamente havido iniciações femininas,  e onde algumas o eram mesmo exclusivamente, da mesma maneira que outras eram exclusivamente masculinas; mas, como teria sido na Idade Média?  Não é seguramente impossível que as mulheres tenham sido admitidas então em algumas organizações, possuindo uma iniciação que dizia respeito ao esoterismo cristão, e isto é mesmo muito verossímil (1); mas como estas organizações são daquelas  que, depois de longo tempo, não resta mais nenhum traço, é muito difícil falar disso com certeza e de maneira precisa, e, em todo caso, é provável que não tenha havido aí jamais senão possibilidades muito restritas. Quanto à iniciação cavaleiresca, é muito evidente que, por sua natureza mesma, ela não poderia de modo nenhum convir às mulheres; e é o mesmo para as iniciações de ofício,  pelo menos das mais importantes dentre elas e daquelas que, de uma maneira ou de outra, continuaram até nossos dias. Aí está precisamente a verdadeira razão da ausência de toda iniciação feminina no Ocidente atual: é que todas as iniciações que subsistiram são essencialmente baseadas em ofícios cujo exercício pertence exclusivamente aos homens; e é por isso que, como nós dizíamos acima, não vemos como esta deplorável lacuna poderia ser preenchida, a menos que encontremos algum dia o meio de realizar uma hipótese que iremos considerar em seguida.

            Sabemos bem que alguns de nossos contemporâneos pensaram que, no caso onde o exercício efetivo do ofício desapareceu, a exclusão das mulheres da iniciação correspondente tinha por isso mesmo perdido sua razão de ser; mas é um verdadeiro absurdo, pois a base de uma tal iniciação não é de nenhum modo mudada por isso,  assim como já explicamos (2), este erro implica um completo desconhecimento da significação e do alcance real das qualificações iniciáticas. Como dizíamos então, a conexão com o ofício, completamente independente de seu exercício  anterior, permanece necessariamente inscrita na  forma mesma desta iniciação e no que a caracteriza e a constitui essencialmente como tal, de maneira que ela não poderia em nenhum caso ser válida para quem quer que seja inapto a exercer o ofício do qual se trata. Naturalmente, é a Maçonaria que temos particularmente em vista aqui, visto que, para o que diz respeito ao Companheirismo, o exercício do ofício não cessou de lhe ser considerado como uma condição  indispensável; de resto, não conhecemos nenhum outro exemplo de um tal desvio senão a “Maçonaria mista” que, por esta razão, não poderia nunca ser admitida como “regular” por nenhum daqueles que compreendam um pouco mais que seja os princípios da Maçonaria. No fundo, a existência desta “Maçonaria mista”(ou Co-Masonry, como ela é chamada nos países de língua inglesa)  representa simplesmente uma tentativa de transportar, do domínio iniciático propriamente dito, o que lhe deveria mais do que qualquer  outra coisa estar ausente: a concepção “igualitária” que, se recusando a ver as diferenças de natureza existentes entre os seres, chega a atribuir às mulheres um papel propriamente masculino, o que está aliás manifestamente na raiz de todo o “feminismo” contemporâneo (3).

              Agora, a questão que se coloca é esta: porque todos os ofícios que estão incluídos no Companheirismo são exclusivamente masculinos, e porque nenhum ofício feminino parece ter dado lugar a uma semelhante iniciação? Esta questão, na verdade, é bastante complexa, e nós não pretendemos resolvê-la aqui inteiramente; deixando de lado a pesquisa das contingências históricas que puderam intervir a esse respeito, diremos somente que pode  haver aí certas dificuldades particulares, das quais uma das principais é talvez devido ao fato de que, no ponto de vista tradicional, os ofícios femininos devem normalmente ser exercidos no interior da casa, e  não fora  como os ofícios masculinos. Entretanto, uma tal dificuldade não é intransponível e poderia somente necessitar algumas modalidades especiais na constituição de uma organização iniciática; e, de outra parte, não há dúvida que existem ofícios femininos que são perfeitamente suscetíveis de servir de suporte a uma iniciação. Podemos citar, a título de exemplo claro sob este aspecto, a tecelagem, da qual expusemos em uma de nossas obras o simbolismo particularmente importante (4); esse ofício é aliás daqueles que podem ser exercidos ao mesmo tempo por homens e por mulheres;  como exemplo de um ofício mais exclusivamente feminino, citaremos o bordado, ao qual se ligam diretamente as considerações sobre o simbolismo da agulha do qual falamos em diversas ocasiões, assim como algumas daquelas que concernem ao sutrâtmâ (5). É fácil compreender que poderia ter havido desse lado, em princípio ao menos, possibilidades de iniciação feminina que não seriam de modo algum desprezíveis; mas dissemos em princípio porque infelizmente, nas condições atuais não existe de fato nenhuma transmissão autêntica permitindo realizar essas possibilidades; e nunca é demais repetir, visto que esta é uma coisa que muitos parecem perder de vista que, fora de uma tal transmissão, não poderia haver nenhuma iniciação válida, esta não podendo de modo algum ser constituída por iniciativas individuais, que, quaisquer que sejam, não podem por elas mesmas resultar senão em uma pseudo-iniciação, o elemento supra-humano, isto é, a influência espiritual fazendo falta em semelhante caso.

               No  entanto, poderíamos entrever uma solução se imaginarmos isto: os ofícios pertencentes ao Companheirismo têm sempre tido a faculdade,  tendo em conta suas atividades mais especiais, de afiliar tais ou tais outros ofícios e de conferir a estes uma  iniciação que eles não possuíam anteriormente, e que é regular pelo fato mesmo de ser uma adaptação de uma iniciação pré-existente; não poderia se encontrar algum ofício que fosse suscetível de efetuar uma tal transmissão a respeito de certos ofícios femininos? A coisa não parece absolutamente impossível e talvez não o seja mesmo inteiramente sem exemplo no passado (6) ;  mas é necessário aliás não dissimular que teríamos então grandes dificuldades no que concerne à adaptação necessária, sendo esta evidentemente muito mais delicada que entre dois ofícios masculinos: aonde encontraríamos hoje homens que sejam  suficientemente competentes para realizar esta adaptação em um espírito rigorosamente tradicional, e se guardando de aí introduzir a menor fantasia que arriscaria comprometer a validade da iniciação transmitida ?   (7) De qualquer modo, nós não podemos naturalmente  formular nada mais que uma simples sugestão, e não é a nós que cabe ir mais longe nesse sentido; mas nós ouvimos muitas vezes deplorar a inexistência de uma iniciação feminina ocidental que nos pareceu que valia a pena indicar  ao menos o que, nessa ordem, nos parece constituir a única possibilidade atualmente subsistente.


RENÉ GUENON

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sexta-feira, dezembro 11, 2015

UM ERRO CRASSO


CONTRA A MULHER

Simone de Beauvoir disse e muitas mulheres citam - "Não acredito no eterno feminino, uma essência de mulher, algo místico. Ninguém nasce mulher, torna-se mulher."

A mim esta afirmação causa-me arrepios porque ela expressa o que há de mais erróneo que se possa pensar em relação à verdadeira Mulher. Justamente porque a Mulher nasce mulher, mas é desviada da sua essência que é eterna e mística, totalmente ao contrário do que ela afirma.
De facto o Homem e o patriarcalismo fez a mulher (transformou-a) no que ela é hoje - uma não mulher...uma mulher-homem, uma mulher objecto sexual (a prostituta)  por um lado e por outro a (esposa) mera reprodutora dos filhos do Pai...
Eu vejo que  mesmo mulheres ligadas ao "feminino sagrado"? mas sobretudo ao feminismo positivista, partem desta negação da mulher essencial  para a construção de uma mulher física (só corpo) e mental que não é uma mulher integral, mas apenas a expressão alternada de duas espécies de mulher, a santa e a puta...e depois a intelectual e ainda podíamos classificar uma outra divisão da mulher, a lésbica e agora querem afirmar também o homem transsexual como do âmbito do feminino. Isto só é possível porque a mulher feminista e a mulher intelectual perdeu todo o seu sentido de vida interna, de vida psíquica, de integralidade e  o facto é que a sua percepção/intuição  o aspecto instintivo e sagrado do seu ser LHE É NEGADO,  para ela se tornar apenas numa mulher mental seguindo os diferentes teólogos, filósofos e psicanalistas que negam a essência e a Mística da Mulher, tal como o faz aqui Simone de Beauvoir, por muito mérito que tenha tido na tomada de consciência da mulher no plano intelectual.

Esta citação é muito clara e  expressiva dessa alienação secular da mulher em relação ao seu Ser Mulher, e mais recentemente agravada pela suposta emancipação e igualdade com o homem, ela perde totalmente o sentido de que se nasce mulher, com todos os atributos que a caracterizam e mais ainda, além da maternidade, pela função superior do hemisfério cerebral esquerdo que nos prova que a mulher tem nele a sua correspondência anímica diria e portanto NASCE-SE MULHER  -  como se nasce homem pelas mesmas razões - ...e assim cada um nasce o que é  e o conceito de género vem depois e muito recentemente transformando-se numa grande trapalhada no entendimento do que é a dimensão ontologica e intrínseca quer num quer noutro sexo. A homossexualidade não muda o sexo da pessoa humana - seja homem ou mulher - , muda só a apetência e o desejo sexual e amoroso pelo sexo oposto...

Não há aqui seriedade nem aprofundamento do Ser Essência, e da alma, à luz de uma verdadeira consciência. Há sim uma falsa democratização no corrente contexto cultural e educacional e até espiritual dos nossos dias em quase todo o mundo...por isso a superficialidade com se abordam estas questões são comuns a todas as abordagens são só supostamente cientifica e filosóficas com as ditas espirituais.
Dizer isto pode fazer de mim uma conservadora nesse mesmo olhar falsamente democrático, aberto, falsamente solidário e fraterno e  demagogo...que é o de igualdar os sexos, as classes, as raças e tudo e todos na mesma base,  sem se ter em conta quaisquer diferenças entre aquilo que faz essas diferenças naturais e legitimas, e aceitá-las como diferenças é que é ser humano  porque sabemos que sejam elas brancas negras ou amarelas são todas HUMANAS...
Não, hoje em dia é tudo igual e  banalizado,  é tudo tratado  de qualquer maneira, sem se ir ao fundo das questões mais sérias e verdadeiras...é tudo abordado pela rama e tudo se vende em pacote...tudo se compra...

rlp


 

O CASAL ALQUIMICO



O NASCER DE UM NOVO SER:


"Uma troca vibratória de tal modo intensa entre dois seres que transcende cada um deles. Nesses momentos privilegiados, sentimos uma energia muito especial invadir o nosso ser. Somos irradiados de luz, transformados. Quando dois tipos de energias vibratórias complementares se encontram, elas podem se fundir se não existir nenhum freio da parte de um dos dois protagonistas e um novo ser começa a emergir: o casal alquímico. É um momento inesquecível e não é possível falar de complementaridade strictu sensu: devemos invocar então uma verdadeira sinergia, que tem sua fonte nos espaços-tempos transcendentes, dando acesso, ao menos, ao menos transitoriamente, à eternidade. É condição necessária para que o germe do casal comece a crescer.
(...)
Quando falo de casal alquimico, é geralmente homem-mulher, mas, como esta é uma escala distanciada da sexualidade strictu sensu, é possível imaginar casais homem-homem ou mulher-mulher."


in O HOMEM ENTRE O CÉU E A TERRA - UMA NOVA ABORDAGEM DA REALIDADE -

De ETIENNE GUILLÉ - prof. adjunto de fisiologia-bioquímica, autor de vários livros. Doutor ex-sciences. É professor pesquisador da universidade Paris-Sul

AS GRANDES ALMAS NÃO TEM SEXO...



PREFÁCIO - Não encontro dificuldade em definir-me...

"Não encontro dificuldade em definir-me: sou um temperamento feminino com uma inteligência masculina. A minha sensibilidade e os movimentos que dela procedem, e é nisso que consistem o temperamento e a sua expressão, são de mulher. As minhas faculdades de relação — a inteligência, e a vontade, que é a inteligência do impulso — são de homem....
 

Quanto à sensibilidade, quando digo que sempre gostei de ser amado, e nunca de amar, tenho dito tudo. Magoava-me sempre o ser obrigado, por um dever de vulgar reciprocidade — uma lealdade do espírito — a corresponder. Agradava-me a passividade. De actividade, só me aprazia o bastante para estimular, para não deixar esquecer-me, a actividade em amar daquele que me amava.
Reconheço sem ilusão a natureza do fenómeno. É uma inversão sexual fruste. Pára no espírito. Sempre, porém, nos momentos de meditação sobre mim, me inquietou, não tive nunca a certeza, nem a tenho ainda, de que essa disposição do temperamento não pudesse um dia descer-me ao corpo. Não digo que praticasse então a sexualidade correspondente a esse impulso; mas bastava o desejo para me humilhar. Somos vários desta espécie, pela história abaixo — pela história artística sobretudo. Shakespeare e Rousseau são dos exemplos, ou exemplares, mais ilustres. E o meu receio da descida ao corpo dessa inversão do espírito — radica-mo a contemplação de como nesses dois desceu—completamente no primeiro, e em pederastia; incertamente no segundo, num vago masoquismo." 

Fernando Pessoa

OUVIR O CORAÇÃO...


Hoje e sempre...o meu assombro é como é que nós SERES VIVOS nos distanciamos tanto de uma natureza humana, de uma humanidade natural, simples, relacionável...e nos convertemos nesta espécie robotozida, empedernida, completamente fechada no seu interior, recalcados os sentimentos e emoções e que só na superfície papagueia e busca remédios e receitas ou recita fórmulas sem conteúdo, inventando mundos frígidos onde pairam estrelas e hierarquias como donos do universo, sem nenhuma ponta de humanidade ou de amor...
Uma nova religião, mais vazia e perigosa do que as velhas e maléficas religiões do velho mundo, instalou-se na sociedade e se estendeu à superfície da Terra via tecnologia... a religião cassete...a religião blá blá bla...a religião do há de vir dos novos deuses do cosmos...e o fim do mundo...e tu aí completamente só...porque na realidade ninguém te estende a mão nem ninguém de dá ouvidos ou se interessa por ti como pessoa...(se tu não ouvires o teu coração...e só o teu coração), pois nada mais nos resta nesta terra profanada pelas religiões!

  

Rosa Leonor Pedro

quinta-feira, dezembro 10, 2015

MÃE NEGRA



Grande mãe negra que estás em todas nós...
Obrigada pela sua feiúra, seu lado obscuro, seu medo sombrio
Grande mãe que a todas conduz
a olharmos para dentro e trazer a chama da vida
a mais completa verdade sobre tudo.

...
Regina Rodrigues

quarta-feira, dezembro 09, 2015

MÃE


 

A CURA ESTÁ EM TI...



A CURA


"Quando identificares intelectualmente uma experiência, toma consciência de como a sentes no corpo. Permíte-te senti-la fisicamente. Se não, nem teu comportamento nem tua saúde vão mudar. Uma vez que, com plena consciência damos nome a uma experiência e a interiorizamos, física e emocionalmente, ela já não pode afectar inconscientemente. Então começamos a ver como temos sido influenciadas pelos nossos problemas e os temos perpetuado. Identificar algo que nos afecta de modo adverso faz parte da nossa libertação e da sua contínua influência. Muitas vezes curar as feridas abertas isso não pode começar enquanto não nos permitimos sentir o peso que as coisas tiveram ( no passado). Fazer isto liberta energia emocional e física que estava acumulada, escondida e por nós negada ou desapercebida durante muitos anos. Logo que possamos começar a perceber exactamente o que sentimos, sem julgamento, começámos a libertar a nossa energia. Só então poderemos avançar para o que queremos."

ENTÃO...

"Vi mulheres saudáveis e estou a tornar-me uma delas. Estou a começar a saber como é estar bem, e o primeiro passo é abraçar o nosso corpo. Imagína-te saudável, completa, curada e profundamente conectada com a sabedoria de teu corpo feminino. Como é que te está a sentir? O que é que sabes, no fundo, da medula dos teus ossos? Nada é mais emocionante do que saber que o nosso corpo e os nossos sentimentos são um caminho aberto e aberto para o nosso destino."

Christiane Northrup
Corpo de mulher, sabedoria de mulher

terça-feira, dezembro 08, 2015

MÃE...

 

A Bicicleta pela Lua Dentro - Mãe, Mãe

A bicicleta pela lua dentro - mãe, mãe -
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha -
mãe, mãe - as tellhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro - mãe - com as suas praças
descascadas.

A neve sobre os frutos - filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto - meu filho - os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome -
minha mãe, minha máquina -
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.

Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.

E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.

O alfabeto, a lua.

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
la dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.

O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra - mãe. Resplendentes,
estátuas negras no teu nome,
no meu colo.

Era a neve que nunca mais acabava.

Começo a lembrar-me: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário, sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.

Era novembro.

Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio
crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe - se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me: os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.

Ó mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário, com tanta força.

Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais pelo tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.

O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.

Herberto Helder, in 'Poemas Completos'