segunda-feira, fevereiro 15, 2016

PORQUE NÃO SE SEPARAM AS MULHERES VIOLENTADAS?



A VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA ...


A "confusão" sentida e vivida pela mulher vítima de atrocidades psicológicas reside, na maioria das vezes, no equívoco de "confundir..." os sentimentos. Desvalia, ódio, rejeição. Esta mesma mulher que pensa que ama, pode não amar o marido. Muitos outros motivos podem estar contribuindo para que ela viva o sentimento de "confusão". Medo de encarar outra realidade que ela pensa ser mais difícil, que ela pensa que não vai conseguir alcançar. O medo da separação, do divórcio. O medo de ter "fracassado" no seu casamento e por fim, também a possibilidade de ela confudir-se no sentimento de culpa e perder-se no desconhecimento da auto-punição ou auto-destruição." (...)

in Violência psicológica, Maria da Penha Vieira


UM LONGO COMENTÁRIO DE UMA AMIGO

Hélder Pereira Infelizmente esta situação pode tomar proporções drásticas. De sofrimento extremo. Tudo parte da repressão de uma enorme dor. De um conjunto de sentimentos que são tidos como negativos (raiva, ódio, dor) e que a sociedade não sabe lidar e simplesmente reprime. Acumulamos esses sentimentos porque pensamos que os podemos extinguir, e às vezes resulta, e às vezes conseguimos entrar nessa espiral em direcção ao escuro. Esses sentimentos jamais se extinguirão, esses sentimentos são naturais e devem ser exprimidos na hora, no momento, devem se observados, e deve tornar-se um hábito saber lidar com eles. Enchemos um saco gigantesco de emoções reprimidas, lutamos diariamente para os manter ocultos em nós, procuramos estar ocupados, entretidos em uma espécie de hipnose confortável. Mas somos na verdade bombas relógio prontos a explodir à mínima provocação, de forma desproporcionada que nada tem a ver com o momento. São os fantasmas que não quisemos sentir nem exprimir para não nos sentirmos maus, feios, e horríveis, para não sermos excluídos. Mas apenas alimentamos um monstro maior no nosso subconsciente, um monstro que nos domina e nos ameaça a cada dificuldade. Memória e sentimentos reprimidos, um enredo de subterfúgios que nos permitem, nenhum prazer, apenas um alívio temporário de tensões inconscientemente acumuladas. Fica difícil lidar com nós mesmos e fica difícil manter alguém que nos ama por perto. Somos um imenso inferno de raiva e ódio acumulado e não conseguimos aceitar isso. Ai está um dos motivos que leva ao isolamento e à ausência de relacionamentos espontâneos e saudáveis que nos permitam e todos (homens e mulheres) encontrar o apoio necessário à vida saudável. Lógico que as mulheres vivem mais intensamente este problema, há mais subterfúgios aceitáveis para os homens e estes não sofrem de nem metade dos preconceitos. Mas nesta sociedade da doença, nesta indústria da doença, o remédio está escondido e o veneno se vende em tudo que é lugar (televisão à cabeça). E quem nunca foi excluído por exprimir raiva e ódio?

Há um bloqueio individual que não nos permite a espontaneidade, a abertura. Daí tanta superficialidade e tanto cultivo de ópios (futebol, pornografia, Hollywood, status e consumo). Estamos sendo bloqueados aos poucos, individualmente induzidos a um estado de perdição total. Há um monstro chamado Raiva e ódio que acumulamos por muitos motivos mas o principal é: Não queremos ser excluídos por sentir uma coisa que todos sentimos e todos condenamos, a raiva e o ódio da violência que sofremos na vida. Posso estar errado, é minha análise, mas tenho percebido isto nos meus relacionamentos e observando outros.
É preciso muita coragem para suportar a dor de entrar dentro das pessoas, não fugir nem condenar na primeira violência, para poder entender isso. Não é fácil e eu compreendo que as pessoas prefiram fugir. É uma dura realidade. Oculta e silenciosa. Não vai ser fácil mudar.

domingo, fevereiro 14, 2016

MOMENTOS DE VERDADE



MINHAS AMIGAS, NÃO esperem de mim (velha) outra coisa...

Hécate Preside a Momentos de Verdade

Procurar a verdade em vez de permanecer na ignorância ou na negação ou dizer a verdade em vez de calar são decisões cruciais, de encruzilhada.
Sempre que diz a verdade a outra pessoa, sobretudo se a verdade abala uma premissa, esse momento, torna-se numa encruzilhada. Do mesmo modo, sempre que procura a verdade, Hécate é a sabedoria interior que a preparar para ouvir.
Por vezes pode sentir-se inesperadamente na encruzilhada da Hécate, quando alguém está a dizer ou a fazer algo que a porá numa situação difícil. Pode ser um momento de falar em público ou uma situação em que “calar é consentir”, talvez perceba por si que se trata de um momento de verdade que lhe exige que faça o que sabe ser difícil, mas verdadeiro para sí.
Além do efeito que pode ter sobre a própria situação, estes momentos moldam a alma.
Por vezes, quando sabe que o que está prestes a fazer parece “herético”, surge um temor irracional, uma reacção emotiva que parece antecipar o grito “Bruxas á fogueira!” Trata-se de um medo transpessoal existente na psique das mulheres, um terror de serem rotuladas de bruxas e perseguidas.
Sentir este medo e ainda assim fazer o que tem de ser feito, exige coragem. Tendo em conta as repercussões no campo da energia colectiva feminina, quanto mais mulheres enfrentarem este medo mais fácil será para outras.

in As Deusas em cada Mulher, a Deusa Interior, de Jean Shinoda Bolen, Planeta Editora.

A DIMENSÃO METAFISICA



"NÃO HÁ CRIAÇÃO SEM DOR, PODE TER-SE MAIS OU MENOS CONSCIÊNCIA DISSO, DEPENDENDO DO TIPO DE PROFUNDIDADE QUE SE ATINJA OU PROCURE ATINGIR. O MEU TRABALHO TEM UMA DIMENSÃO METAFÍSICA E ESSA TEM DE SER NECESSÁRIAMENTE DOLOROSA”. ana hatherly


A VERDADEIRA ALQUIMIA

Não há evolução sem dor como não há consciência sem sofrimento - temer o sofrimento e fugir à dor só nos atrasa e aliena do mais fundo e puro de nós mesmas...Há que vivenciar os dois lados do ser, seja o lado negativo seja o lado positivo, seja a lua e o sol...seja o dia e a noite... porque a Vida é feita de alternâncias...e quem não consegue integrar a sua Sombra também não pode integrar a Luz

Percebo que há por aí neste mundo virtual e não só muitas  mulheres (mais no Brasil) a terem sucesso dentro do chamado "Sagrado Feminino" a partir de meras idealizações e fomentando ideias new age de contrução positivista e muito criativas para quem tudo é muito bonito e muito fácil...
Fazem cursos e debitam uma quantidade de ideias feitas como qualquer padre e como se de uma religião se tratasse...só que variam o culto, no  caso a Deusa em vez de Deus,   mas não fazem mais do que procurar  protagonismo e dai tirar dividendos...O discurso é regra geral todo muito bem construído, convence as mais incautas porque  muito "coerente" e poético, todo ele paz e amor, união e compreensão, " vamos vencer" o patriarcado etc. Mulheres amem-se e pronto já está, como se fosse mais um pilula...
 

Lamento dizer, mas tenho particular "antipatia" por essas mulheres porque na verdade acabam por atrasar mais os processos de uma verdadeira consciência psicológica do feminino ontológico, enganando as mulheres com promessas de paraisos e bondades artificias, do que ajudá-las a evoluir dentro da realidade de cada uma. Na verdade penso que tudo isso atrasa o processo real da vida das mulheres mantendo-as apenas distraidas e em cursinhos e escolas e "iniciações", afastando-as da vida real, dos problemas a enfrentar dentro e fora de si e dando uma ideia deturpada da vida, porque  ignorando os altos e os baixos, sem ter em conta o lado negativo ou negro da descida aos abismos e a sua dinamica com o positivo, alienando à força os sentimentos de duvida e de medo, estados depressivos que correspondem às fases mais complexas da própria natureza interior da Mulher e pelas quais ela precisa inevitavelmente passar quando faz um trabalho sério consigo mesma.
 

Não, para mim, o caminhar e integrar a consciência do ser mulher inteira não é um caminho propriamente cor-de-rosa e cheio de flores...cantos incensos e perfumes...há muita dor ainda e muita raiva, muita tristeza e vontade de chorar e gritar aos quatro ventos...para libertar a grande dor secular da Mulher. Ignorar isso é branquear questões fundamentais que nunca deixarão de nos atormentar...ao nível inconsciente.
Há muito pois a limpar antes de lá chegarmos...e quem negar isso...só nos está a querer desviar do processo alquímico e da Vida em Essência.

rlp

A alma é um corpo de Mulher



A DIFERENÇA ENTRE SEXOS ...


“O género humano tornou-se homogéneo do ponto de vista da cidade e das funções sociais que a constituem, mas, no seu seio, a oposição feminino-masculino subsiste, reduzida doravante à diferença entre uma melhor maneira para os homens e uma menos boa maneira para a mulheres de realizar cada uma das tarefas comuns aos dois sexos. Do ponto de vista conceptual, a imagem da mulher não ganha nada senão a ver-se sistematicamente amesquinhada.”
(...)
in A alma é um corpo de Mulher - Giula Sissa

sábado, fevereiro 13, 2016

A INFLUÊNCIA DA MÃE...


O PENSAMENTO GENIAL
DE UMA MULHER PORTUGUESA

"Dada a influência determinante da minha mãe em mim, sou uma pessoa marcada pelo signo materno. Tenho um apreço muito especial pela maternidade.
Só que à mulher não compete apenas uma maternidade de tipo fisiológico.
Cabe-lhe ultrapassar este aspecto na medida em que pode conquistar uma sabedoria de tipo maternal para intervir no mundo e orientá-lo.
Um mundo onde só o homem tem a palavra, palavra essa que é a origem de tantos desmandos, guerras, conflitos e soluções precárias de carácter económico e social.
Estruturalmente, a mulher é avessa, alérgica à ideia de guerra e de conflito.
A sua própria experiência maternal a predispusesse contra a guerra.
Dá vida mas não gosta de contribuir para a sua destruição.

É por uma actuação pacífica.
Este é um dos pontos fulcrais.
É necessário que a sua emancipação obedeça desde já a uma orientação intelectual no sentido da pacificação do mundo."

Natália Correia

UMA AMEAÇA REAL À MULHER



O PATRIARCADO
NÃO É UMA MERA "SUPERSTIÇÃO"...
É UMA AMEAÇA REAL À MULHER


"Patriarcado é uma cultura, um sistema, uma civilização, um sistema econômico, um sistema político, um sistema legal, um sistema religioso, um sistema científico, e assim por diante. Mas acima de tudo, o patriarcado é um PODER. Um poder que se manifesta em todos os lugares, instituições, pessoas, hábitos, culturas, religiões, ideologias, mesmo entre mulheres. Isto porque o patriarcado socializa com os papéis e as hierarquias de gênero ...que existem entre homens e mulheres. O patriarcado existe há tanto tempo pois promove a sociabilidade entre homens, que se tratam como irmãos (fraternidade), atribuindo-lhes poder. Enquanto isso, obriga as mulheres a reproduzirem e sustentar materialmente os homens, socializadas entre si como inimigas, servindo aos interesses do desejo masculino."

Texto adaptado de: “O que é feminismo” de Dra. Elida Aponte Sánchez

É bom lembrar que:

"A sociedade patriarcal valoriza e promove apenas os aspectos masculinos, subestimando e até mesmo reprimindo os aspectos femininos.
O resultado é que a mulher se esvazia, perde a sua identidade feminina essencial, e se torna uma “cópia” caricatural do homem.
O homem, por sua vez reduzido à masculinidade bruta e unilateral, perde a ligação com os valores femininos do seu mundo interior, e passa a ter uma relação opressiva para com a mulher.
Como restaurar a feminilidade, despotencializando a unilateralidade do mundo patriarcal, a fim de reequilibrar a identidade psicológica dos sexos e planificar a relação entre o homem e a mulher?"

Rissa Cavalcanti
in, O Casamento do Sol com a Lua

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

O DOMÍNIO DO PATER


A PATRIX DOMINA O MUNDO
- através da Misoginia dos padres e das "mentes importantes"...

"A desconexão ambiental da psicologia moderna é de facto uma conspiração: a colaboração de muitos séculos entre as melhores e mais importantes mentes da nossa sociedade para manter a natureza humana distante, diferente e desvinculada o mais possível da natureza." Theodore Roszak

Essa desconexão começou e permanece desde que se alienou o lado feminino do ser (no homem) e da mulher em particular, afastando-a da sua essência vinculada à Natureza Mãe e sua fiel depositária. Por isso não se pode amar a Terra nem o Planeta, as árvores e as plantas ou os animais, quando se ignora, despreza, violenta e maltrata a Mulher numa sociedade...e não se respeita a Mãe...
Há "mentes brilhantes", homens de ciência e de boa fé, tanto como santos e mestres que continuam a ignorar este facto...

 
"Sem mãe não se nasce, sem Mãe não se morre..."


Desde o princípio dos tempos - desde que o patriarcado emergiu e subverteu todos os valores da Grande Deusa Mãe - destruindo uma sociedade equalitária e pacífica - que no mundo nunca mais houve seres saudáveis ao cimo da terra...mas APENAS dominadores e dominadas...senhores e escravas - antes mesmo dos escravos. Foram as mulheres primeiras escravas: passaram depois, de escravas a concubinas, a amantes e esposas - e continuam a sê-lo hoje de forma moderna - presas a outras correntes - o dinheiro e a fama, o cinema e a pornografia, o sadomasoquismo na alienação total do seu ser Mulher - vemos isso na corrida a filmes  de sodomia e abuso; livros escritos, divulgados e consentido pela "mulher", onde se comete  toda a violência sobre si em nome dos valores mais baixos deste mundo comercial e imundo; sim, ai vemos o estado de in-consciência das mulheres em geral.

A auto-estima das mulheres e das raparigas actuais e em geral é muito baixa e a ignorância do seu poder interior, da sua dignidade ou do seu valor pessoal é total - as mulheres continuam escravas do amante, do sexo, da moda, da cosmética, da propaganda televisiva de bordel sado-maso ( big brothers e outros) ...de perversões várias e alta prostituição do seu ser, o que nada tem já a ver com a prostituição real das mulheres desgraçadas que nada  tinham na vida e foram obrigada a vender o corpo e o sexo para comer...
Agora são as mulheres e raparigas desde logo que permitem a violência dos rapazes no namoro e que "educadas" pelo Sistema, dominadas pela ideia do "amor livre" e de uma falsa emancipação, que incentivam o sexo e se tornam  acompanhantes de luxo, supostamente cultas e formadas nas suas universidades, e que se prestam a todas as baixezas (incluindo filmes de pornografia) em nome do Deus Dinheiro e da fama...
Milhares de mulheres jovens no mundo andam em busca de fama e de sucesso sujeitando-se às maiores ignominias...sem qualquer escrúpulo nem dignidade pessoal. Elas sujeitam-se a programas de televisão como a "Quinta" e outros programas abjectos televisivos movidas pela ambição de se tornarem atrizes...Elas são proclamadas e aceites como "mulheres modernas, desinibidas" e aclamadas pela "arte e cultura" ministrada pelo Sistema falocrático...
rlp

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

HÁ UM SÉCULO...


AS DIFERENTES VISÕES 
do lado FEMININO e do lado MASCULINO


"Para o homem a dependência da mulher de um principio interior, cuja principal característica é a mudança, faz-lhe parecer volúvel e não confiável, justamente como a lua, também chamado de "planeta volúvel". Certas mulheres, sem dúvida, exploram as prerrogativas que lhes foram atribuídas pela sociedade e mudam de opinião arbitrariamente para satisfazer as suas próprias conveniências. Mas esse abuso de seus privilégios não altera o facto de que a natureza da mulher seja cíclica em si mesma, e bem separada de seus desejos pessoais ou egoístas. A natureza da mulher é impessoal e nada tem a ver com os seus próprios desejos; é alguma coisa inerente a ela como ser feminino que é, e não pode ser considerado meramente como algo pessoal. Realmente, o próprio facto de essas prerrogativas terem sido atribuídas à mulher, e de que ela não é julgada por critérios masculinos, é uma evidência bastante forte de que a humanidade reconhece que ela é governada por leis interiores diferentes das que regulam os homens. Para entender a mulher, então é necessário levar em conta o seu carácter semelhante ao da lua e compreender a lei da mudança que a governa.

Para uma mulher o carácter cíclico da sua vida é a coisa mais natural do mundo, mesmo que isso permaneça como um completo mistério para os homens. Qualquer mulher irá apoiar-me quando eu disser que a vida é cíclica. Se esta afirmação tiver que ser colocada psicologicamente precisamos de dizer que a vida não é cíclica, mas que a mulher experiencia a vida através da sua natureza sempre mutável e que, portanto, para a mulher, a experiência da vida é cíclica. Uma percepção subjectiva desse tipo é, no entanto, naturalmente projectada, porque ninguém em regra, questiona qual a parte das suas percepções pertence correctamente ao objecto, e qual a que depende das suas próprias qualidades como observador. Nesse caso, obviamente, se uma mulher está bem num dia e mal noutro, lhe parecerá que os objectos ou condições mudam ritmicamente, assim como o trabalho que é fácil hoje e será difícil amanhã. as coisas vão bem esta semana mas provavelmente estarão difíceis na próxima. Mudanças mais marcantes acontecem com os seus sentimentos: tudo se torna auspicioso e alegre no momento, mas pouco tempo depois estará melancólica e deprimida. Dessa maneira, a sua percepção subjectiva da vida é projectada no mundo exterior e ela sente a mudança cíclica como uma qualidade na própria vida.

Os homens que experimentam a vida principalmente através da sua natureza racional, o Logos, são incapazes de apreciar a qualidade da percepção (intuitiva e emocional) da mulher como sendo igualmente válida. É uma verdade o facto de que não temos nenhuma conhecimento exacto das coisas como são, enquanto todos temos preconceitos de que elas são como as vemos. Mesmo a nossa ciência, produto do ponto de vista masculino, pode bem ser preconceituosa e unilateral. Assim, naturalmente, não temos nenhum meio de saber se os homens não estão iludidos pela sua natureza masculina, tanto como as mulheres estão, obviamente, ludibriadas pela sua natureza feminina."
(continua)

in Os Mistérios da Mulher de Esther Harding (escrito em 1933)


UMA BREVE NOTA

Acontece que no período de quase... cem anos (de 1933 a 2016) as mulheres modernas, ditas emancipadas, adoptaram como seu o padrão do pensamento masculino exclusivamente e perderam completamente o contacto com o seu lado feminino, lunar e intuitivo e as mulheres mais modernas e intelectualizadas até negam mesmo esse lado instintivo e toda a manifestação cíclica da vida da mulher ligada ao seu lado lunar, à sua menstruação, as fases da lua e às marés, à gravidez e à mística do feminino, assim como às suas mudanças de humor atribuídas ao histerismo, falta de sexo etc. característico do principio do século XX e que passaram a ser hoje portadoras de novos sintomas e síndromes. Assim esse desafazamento entre o seu ser interior ignorado e calcado dá origem a todo o tipo de doenças novas como a fibromialgia e a bipolaridade ou as neuroses várias, para não falar do cancro da mama e dos ovários...

 Nada as move já do seu interior e subjectivo sentir, mas sim do exterior e objectivo, do lógico e do concreto, vivendo em total negação do seu feminino ontológico. E esta é a grande doença que se estende a quase todo o planeta civilizado. Mulheres e Mães sem nada de si para darem, apenas funcionais ao serviço do Sistema funcionais ao serviço do Sistema Patriarcal.

rleonor pedro

OS ARQUÉTIPOS...

 
A mãe terrível e o feminino negativo

" Existem dois polos de expressão do arquétipo da mãe: a grande mãe, que encarna o alimento, o apoio e a protecção sem limites, e a mãe terrível, que representa a asfixia, a estagnação e a morte. Estes modelos arquetípicos são elementos da psique humana, que se formam como resposta da típica dependência dos humanos durante a sua infância. Na maioria dos casos, a mãe é o primeiro objeto de dependência de uma criança, e sua tarefa consiste em afastar-se desta fusão simbiótica, para a separação, a individualização e autonomia. Se a mãe é percebida pela criança como uma fonte de nutrição e ajuda, este a experimentará como uma força positiva; pelo contrário, se visto como negligente ou sufocante, a experimentará como destrutiva.
Muitos adultos respondem ao poder feminino e, com frequência, às suas próprias mães em relação ao polo arquetípico da mãe terrível. Não podem ver a vida de suas mães no contexto do período histórico em que viveram, de seu passado familiar e das poucas oportunidades disponíveis para as mulheres naquela época; e assim, mais as suas falhas como parte da mãe negativa interna ...

Uma jovem procura em sua mãe as chaves do que significa ser mulher, e se esta não pode dar, a filha se sente humilhada por ser mulher. Em seu desejo de não ser como sua mãe, talvez se esforce por conseguir poder em detrimento de outras necessidades. Muitas filhas sentem raiva contra suas mães por ter aceite com facilidade e de maneira passiva "as coisas como são". Até que fazem consciente esta reação inconsciente, continuam a funcionar em reacção às suas mães.
A filha afasta-se rapidamente da mãe devoradora que tenta encerrar por ciúmes e inveja de seus talentos e liberdade potencial. Distancia-se da mãe que não a apoia, é rígida e continuamente está a emitir juízos. Foge ao arquétipo da mãe-Mártir que sacrificou sua própria vida ao serviço de seu marido e de seus filhos. Pode ser que a amargura da mãe, causada por seus próprios sonhos quebrados exploda em cóleras  súbitas  ou se manifeste em um comportamento passivo-agressivo contra a filha que teve mais oportunidades...

A maioria das mulheres não podem esperar para se distanciar da mãe ameaçadora e negativa. Todos temos ouvidos que dizem: "não quero ser como a minha mãe, nem quero parecer com ela". Algumas mulheres não temem só ser comos suas mães; na verdade temem se tornar elas. Esta matrofobia está tão enraizada na nossa cultura que, com frequência, as mães se sentem abandonadas e rejeitadas quando os filhos abandonam o lar "*

*Maureen Murdock - Ser mulher. Uma viagem heroica 

QUEM É A MÁ MÃE...

Este pequeno excerto exprime a visão Junguiana da Mulher quando fala da Mãe terrível, dividindo a mãe em boa mãe e má mãe, partindo de uma visão simplista da mulher que ignora e esconde esse aspecto sonegado e não integrado da sua natureza instintiva, ctónica  e telúrica que corresponde ao seu lado sensual sexual e mediúnico, não integrado no modelo patriarcal da mulher mãe  que não vê nem fala da divisão da mulher em si, da mulher reprimida na sua expressão telúrica,  ligada aos seus ciclos e á Lua, que a torna frustrada e ressentida e portanto facilmente ligada à ideia da má mãe...
Que mãe pode ser uma mulher tolhida e condicionada a ser apenas uma parte de si, a parte que o patriarcalismo escolheu para o servir anulando-a na sua essência?
Neste sentido a leitura junguiana da mulher é parcial e redutora - não dando qualquer solução a mulher em si mesma - a de ontem e a de hoje - e deixando isso por conta dos arquétipos, condenando-a assim á cisão interior da sua psique em que está dividida há séculos de catolicismo que divide a mulher em santa e a puta. Não entendo como os psicólogos não se aperceberam dessa cisão nem falaram da forma como essa divisão da psique feminina fez mal à mulher colocando todas as mulheres debaixo dessa condenação social e à permanente suspeita da sua integridade  dependente do seu comportamento, sendo que se aceita as mulheres se forem sérias e as outras que fogem as regras e aos padrões são as más...
Jung e os seus seguidores e muitas mulheres dentro do sagrado feminina partem desta mesma visão e ficam condicionadas à divisão ancestral da mulher nos tempos pré-históricos e não tem  uma compreensão da cisão  que a mulher sofreu ao ser dividida em duas espécies não apenas de mãe terrível e boa mãe, mas de mulher boa - santa e fiel esposa, contra a ideia da mulher má, sensual, que fascina e seduz e que é vista como a puta -
 Por isso eu não concordo com esta visão psicológica nem com a leitura do mito...
A Mãe terrível é a mulher instintiva não realizada, é a mulher incompleta que o catolicismo dividiu e assim continua nos nossos tempos, continuando a ser  a mulher sofrida e condenada pela religião a viver apenas uma parte de si mesma e sendo castigada ou castigando-se a si própria se sair das regras ou normas do sistema.  Neste sentido a psicologia não evoluiu nada...
rlp
 

O TEMPO ESTÁ A CHEGAR


O TEMPO ESTÁ A CHEGAR...

"Hoje pus na mala a minha saia branca e ao fazê-lo o aroma suave da sálvia encontrou o caminho para o meu nariz. A sálvia. A sálvia e as minhas irmãs. As minhas irmãs cheiram a sálvia. As minhas irmãs são feitas de sálvia. Nós somos sálvia. E a saia lá se aconchegou tranquilamente mas não sem antes me apaziguar: "não te preocupes é só por um tempo, um pequeno e curto período de tempo, porque eu estou em ti, na realidade... nunca saí de ti, as tuas irmãs também não. Tens cada uma bordada nos folhos de mim mesma e quando giras nas rodas antigas de tempos ainda mais antigos são elas que giram contigo e te fazem girar e me fazem esvoaçar. São elas que me levantam no ar em cada rodopio que dou, que dás, que damos. E nos teus pés descalços está gravada a memória das batidas da terra, das batidas da Mãe, por isso não te preocupes, é só por um momento que na realidade não existe porque os momentos são uma invenção dos homens e tu não és regida pela lei do Homem, a tua lei vem da Mãe e do Pai que viveram antes da vida e da morte, a tua lei não se verga à vontade daqueles que se têm como vergadores, a tua lei É e por isso está fora do alcance de tudo isso.

Não tenhas medo. O tempo está a voltar. O sangue que sobe é também o sangue que desce. O tempo está a chegar. O tempo está a chegar. E as irmãs vão-se levantar e a terra vai gritar porque as filhas vão acordar e Mãe vai-se abrir como outrora abriu com um grito de prazer antigo, muito antigo do tempo antes do tempo e no dia do grito as filhas vão saber que a mãe acabou de nascer, uma vez mais, e que o tempo está a voltar. Eu sou a tua saia. Eu sou a batida do teu chão. Eu sou o canto do teu ventre. Eu sou o tremor das tuas pernas. Eu sou o que Sou e aqui te digo, as Filhas estão a acordar. E quem quiser ouvir que ouça porque eu falo aquilo que falo. O tempo está a voltar."

Sónia Gonçalves