segunda-feira, abril 11, 2016

A ACULTURAÇÃO DA MULHER

"O nosso Dom Afonso Henriques que bateu na mãe, e que se pode ver a sua espada gigantesca e pesada no Museu Militar da cidade do Porto, se em vez de andar às lutas se tivesse de parir, até tremia de medo.
Assim, se são poucos os nomes de mulheres citados nesses livros de História, é apenas porque não caberiam num livro todos os nomes de todas as mulheres que existiram desde que existe a Humanidade, pois todas elas são de uma bravura inultrapassável por qualquer homem por mais "O Bravo" que o seja."  - Vítor Rua, 2014

UM POUCO DE HISTÓRIA...

Durante mais de 2 mil a 5 mil anos a Humanidade retratou-se em nome do Homem…
Durante centenas e centenas de anos a Mulher foi desautorizada de se exprimir, ser ela mesma e de expressar a sua natureza intrínseca, reprimida na sua força interior instintiva, deixando de ser a representante do polo feminino da humanidade, deixando de ser a legítima representante da Deusa Mãe, criadora de todas as coisas, impedida de se afirmar e de ter prazer, de ter direito sobre o seu próprio corpo. Ela foi condenada ao descrédito por Apolo, impedida de manifestar o seu dom inato de oráculo, sacerdotisa e vidente, de ser senhora da sua vida em qualquer circunstância.
Durante centenas e centenas de anos a Mulher foi desautorizada de se exprimir, ser ela mesma e de expressar a sua natureza instintiva e ctónica, dada como perigosa, reprimida na sua força interior  selvagem, deixando de ser a representante do pólo feminino da humanidade, deixando de ser a legítima representante da Deusa Mãe, criadora de todas as coisas, impedida de se afirmar e de ter prazer, de ter direito sobre o seu próprio corpo. Ela foi condenada ao descrédito por Apolo, impedida de manifestar o seu dom inato de oráculo, sacerdotisa e vidente, de ser senhora da sua vida em qualquer circunstância.
O corpo da mulher, com o advento da religião patriarcal e o seu domínio social e religioso, tornou-se num corpo objecto, um corpo ao serviço da sociedade e do patriarcado. A mulher foi paulatinamente despojada do seu corpo de sabedoria, do seu ser instintivo e anímico.  Uma total aculturação!
E toda a gente hoje pensa que esta mulher sem identidade, esta mulher vazia de interioridade profunda, esvaziada das suas entranhas, do seu sangue e do seu útero, sempre foi assim e que nunca houve a outra Mulher e a Deusa…

Esta é obra de Usurpadores, de Inquisidores. Primeiro, os bárbaros destruíram a Deusa e os seus templos, lugares sagrados, a própria terra foi devastada e  assim o próprio corpo sagrado da mulher foi dessacralizado, foi violado, e durante a Idade Media a mulher foi perseguida  como bruxa….depois foi transformado em mercadoria barata ou cara, em mais-valia e assim foi-se aviltando cada vez mais e tornando num ser abjecto, num ser divido dentro de si mesma, num ser sem identidade própria, adoptando um prazer, e quando se julgou igual adoptou um comportamento masculino, um discurso masculino, para se defender com os mesmos valores com que o Homem a agredia.

Há muitos, muitos anos que a verdadeira mulher não existe e em lugar dela temos um sucedâneo de mulher, risível e frágil, doente e histérica…A mulher tornou-se no seu próprio inimigo. PORQUE A mulher verdadeira, a mulher inteira deixou de existir.
E foi assim que a mulher entre a doméstica e a casada, a prostituta e a aventureira, se tornou aos poucos num ser vazio e sem alma…tal como quiseram os senhores da Igreja que assim fosse.
A mulher ou casava segundo um contrato e era pouco mais do que escrava do marido, ou se vendia e vivia na ignomínia nos Bordeis ou na Rua, desprezada e exposta às maiores humilhações.

Com a revolução industrial e depois das últimas guerras, à falta de homens que morreram aos milhões pela loucura dos seus generais e banqueiros, as mulheres tiveram de trabalhar para sobreviver e assim formou-se uma nova classe de mulheres, viúvas, solteiras e velhas, que aos poucos se foram afirmando dentro de um novo contexto até às primeiras manifestações organizadas pelos direitos das mulheres no trabalho, pois o seu salário era e ainda é muito inferior ao dos homens…

Rapidamente caminhámos para os nossos dias, e os anos sessenta trouxeram as famigeradas feministas para a Ribalta,  mas sempre e apenas em luta por direitos e salários iguais e nunca por uma consciência do Ser Mulher e na busca de um resgate da verdadeira mulher, a Mulher a quem durante centenas de anos foi tirado todo o valor e que foi dramaticamente destituída de todas as suas características essências, enquanto ser feminino, assim como da sua dignidade de fêmea e de amante e da sua própria verticalidade. Assim a prostituição nunca foi considerada uma ofensa nem uma afronta à dignidade da mulher, mas plenamente aceite como se fosse uma coisa natural…e defendida como “profissão”…para cúmulo e aberração de um qualquer princípio ontológico…

As mulheres aceitaram ainda todas as histórias que os homens lhes contaram como História, a única existente e os seus valores continuaram a ser os dos homens. Chegadas aos nossos dias, em que há tantas mulheres no poder e tantas mulheres intelectuais, o que fazem as mulheres senão pensar pela cabeça dos homens, fiéis aos seus mestres ou mentores? Elas continuam a ser metades mulheres, fragmentadas e inimigas umas das outras, a servir os seus líderes como serviam os seus amos e senhores, maridos ou amantes.
Hoje, aparentemente descontraídas e livres fazem programas de televisão como mulheres pensantes e intelectuais a dar opiniões sobre a política e os acontecimentos globais ou do país…mas nada é feito para se tornarem conscientes de si mesmas, nada é posto em causa sobre a sua verdadeira e profunda identidade perdida e completamente esquecida. Sim, elas lutaram para defender os seus direitos, mas no fundo, e em todo a parte do mundo, as condições de vida das mulheres é e continua a ser igualmente precária e aviltante sob todos os pontos de vista até hoje…
Mas no fundo são as mesmas católicas submissas aos padres e ao papa, que julgam as mulheres que sofrem e fazem “abortos”, são as mesmas catedráticas oficiantes que educam como os seus professores, as mesmas revolucionárias servis aos seus lideres…sejam comunistas, socialistas ou de direita ou do centro.
Têm todas da mesma marca na testa, todas iguais na maquilhagem, na roupa que vestem e sem identidade. Vestem-se e competem entre si para conquistar lugares de chefia, para agradar aos jornalistas…ao ministro, ao engenheiro, ao médico e até ao homem da rua. Sempre inimigas umas das outras e dispostas a tudo para ganhar o macho e o lugar de ribalta que ele lhe oferece a troco já nõa de dinheiro mas de …uma boa cama! A mulher só tinha e tem valor na horizontal…

A mulher não ser  mulher por si só. Ela não consegue pensar-se a si mesma como ser singular e independente, mas  apenas como mulher ou filha de, amante ou mãe...enquanto que o homem é homem sem ter de pensar no pai na mulher nem nos filhos...ele é um ente em si, define-se com uma individualidade e a mulher ainda não é capaz de se sentir una em si mesma...
rosa Leonor pedro

REPUBLICANDO

A CISÃO DA MULHER



"O que eu reivindico, é o direito para a mulher, de exprimir o desejo que ela tem mais vivo em si e sem hipocrisias, eventualmente o seu desejo o mais selvagem, sexual ou maternal, sem essa espécie de rendilhados ridículos com a qual a enfeitam e a mistificam. Da mesma maneira que...reivindico o direito do homem assegurar a sua parte feminina, a sua anima." - Joelle de Gravelaine


UMA EVIDÊNCIA GRITANTE

O que eu vejo ao longo destes anos de trabalho e foco na questão que defendo como sendo a cisão da mulher, e que continua a ser na minha perspectiva a causa de todas as confusões sobre sexo e género e provoca as maiores  incongruências e divisão interna na mulher, cisão que é a origem da maior parte dos problemas psíquicos, doenças e outros conflitos, e faço-o aqui  repetidamente, exaustivamente durante estes anos todos e continuo a acreditar que sim,  que essa cisão interna da mulher em duas espécies de mulheres é a causa principal de distúrbios a todos os níveis seja familiar, pessoal, social ou individual.
Todavia, não posso deixar de me dar conta de como tudo o que diga efectivamente  respeito à mulher em si e por si só não interessa à mulher em geral...Não consegue despertar-lhe interesse genuíno.  Tirando as mulheres ditas emancipadas que por um lado não querem saber do casamento mas apenas de ter parceiros temos  a mulher intelectual, a feminista ou a mulher esclarecida e ainda a supostamente espiritualizada, tanto como a mulher comum, que continua a colocar o foco da sua vida não em si mesma como ser individual, mesmo sendo trabalhadora ou mulher de sucesso, médica ou engenheira, mas interessa-se apenas por tudo o que diga respeito ao homem, à sexualidade e à gravidez ou quando muito à astrologia ou à cartomancia - todas adoram saber não de si mesmas, mas em relação a tudo o que a envolve e anula como ente...elas...querem saber de amantes e filhos e partos ou de dinheiro, carreira...mas esta questão da Mulher EM SI e da sua sisão interior, por mais que esta a afecte face à sua  bipolaridade, dualidade ou  dicotomia constante entre ser "uma ou outra" (a boa ou a má, a santa ou a puta...a mãe ou a amante!)  consoante o modelo que escolha da mulher que apresenta para fora, a máscara, ela não quer saber de nenhum assunto que diga respeito à mulher em si, sendo este  na verdade um tema que não interessa senão a muito poucas mulheres...já conscientes de si.

AS MULHERES ESTÃO A REGREDIR

Estou a aperceber-me inclusive  que de novo e mesmo através do dito "feminino sagrado" a mulher está a regredir ao continuar a ver-se apenas como mãe e amante e devota, já não de deus mas da deusa...e...nada mais. Pensar em si como entidade ou individuo livre e independente ainda não lhe entrou na cabeça. Ela continua a ser apenas a serva do homem e do mestre...seja de que maneira for acabam por se sujeitar ao comando do mais forte, seja pelo dinheiro seja pelo sexo ou pela legalidade. E muitas estão  a reverter a espiritualidade feminina  de novo para o par amoroso, para o casal e os filhos e a sociedade legal de acordo com os parâmetros socias em vigor...Estas ultimas até podem  viver em supostas comunidades livres,  muitas delas deixam a cidade para ir para o campo, mas levam com elas o velho  modelo patriarcal pois não fazem mais do que repetir esse modelo nelas totalmente entranhado. Elas tentam ser a mulher fiel, viver para a casa e pucarinho, cortinas às bolinhas e arvores frondosas...para abraçar...põem incenso, cantam em roda, fazem  os rituais de fecundação à Deusa Mãe...mas elas continuam fiéis ao marido ao Pai e ao Sistema. São incapazes de se aventurarem na experiência de serem apenas mulheres livres e sem tutela...

rlp

domingo, abril 10, 2016

DO EGO E DA CONSCIÊNCIA...


"A experiência do Si-mesmo é sempre uma derrota para o ego" - C. Jung


"O ego não pode ser um vaso para receber o influxo da graça enquanto não tiver esvaziado o seu próprio conteúdo inflado. E este esvaziamento só ocorre através da experiência de alienação"

A "alienação" do ego não significa a alienação do SER CONSCIENTE de si, como em geral se confunde. O ego corresponde à partida à nossa Persona (mascara) e o Ser em si, à essência ou Alma, embora as designações de ambas... as partes do nosso ser, o ser físico e o ser espiritual, se confundam por vezes em linguagem corrente. Ego ou persona é ainda o suporte físico e mental do ser em evolução. Assim, "Se a vida da pessoa é governada pelo sentido de uma tarefa divina, isso significa, psicologicamente, que o ego tem de estar subordinado ao SI-mesmo e foi libertado das preocupações que têm o ego como centro."*

* in "EGO E ARQUÉTIPO" de Edward F.Edinger


ARROGÂNCIA

"Qualquer sinal de arrogância porém, de pretensa superioridade indica apenas que temos um ego inflado, uma pessoa que incapaz de se colocar no mundo cotidiano usa da magia para satisfazer suas fantasias de prepotência e poder. Títulos pomposos, "senhor" , "senhora" , "cavaleiro" do tal grau, tudo isso é resquício de um tempo que já se foi. Senhor, dominação, está ligado a um arquétipo que nada tem a ver com o paganismo, é profundamente judaico-cristão e só ocorre nas sociedades que decaíram profundamente.
A humildade de quem conhece o mistério vem naturalmente, sabe que somos nada perto da eternidade, que somos efémeros demais, que temos um longo caminho até para nos considerarmos existentes de fato e frente a imensidão da eternidade como considerar-nos "importantes", "omnipotentes"?
Eu tenho um critério pessoal para notar quem já presenciou o mistério. Quem já presenciou o mistério brinca com ele. Sim, brinca, tem uma postura leve, pois o mistério é em si tão complexo, tão avassalador em sua transcendência que a única forma de lidar com ele é de uma forma leve, tranquíla, para apaziguar o assombro que a enormidade da questão nos causa.
Já quem nunca presenciou o mistério, nunca se sensibilizou a ele, precisa de ares, de caras e bocas, de aparências, precisa "fazer" mistério para substituir a ausência do verdadeiro contato com a Eternidade. " de Nuvem que passa (in pistas do caminho)




EXISTÊNCIA E ESSÊNCIA

Uma coisa que me parece evidente e da qual não me resta já qualquer dúvida é de que há vários níveis de consciência, dentro de uma escala de evolução, e que nem todos os humanos - falando só de humanos - estão no mesmo nível de entendimento e realização interior. E digo interior para não confundirmos o "conhecimento" mental-intelectual, o saber de cor, (que nada tem a ver com o saber do coração - ou coração inteligente), a informação ou as crenças em deu...s ou em outras dimensões e vidas paralelas, com um real estado de consciência, que só é alcançado após o trabalho alquímico profundo e a transformação do ser que passa do nível da mera existência "vegetativa" para o nível da essência, e com a qual está em contacto directo. Falo de uma CONSCIÊNCIA para lá dos estadios da psicologia (psique) e da metafísica; isto é muito simples e nada tem a ver com o nível escolar ou universitário de educação, nem com analfabetismo...eruditos, doutores e professores e analfabetos ignorantes estão no mesmo patamar de ignorância quanto à consciência verdadeira do Ser, a consciência da Consciência, a que se tem acesso "magicamente" para lá da mente-intelecto-conceito.
rleonorpedro

já sou velha...



AS MANIPULAÇÕES...

Há coisas que eu francamente odeio...a manipulação afectiva, a chantagem emocional ou sexual...o aproveitamento da vulnerabilidade dos mais fracos...a manipulação das ideias em nome de uma seita ou de um grupo, a exaltação de um poder ou saber pessoal que acaba por ser apenas um meio de domínio sobre os outros e de se poder fazer uma espécie de lavagem cerebral aos mais fracos e crédulos...
Quem se deixa cair nestas armadilhas, de um lado e do outro,  tem poucas possibilidades de sair imune...ou sem sofrer graves distúrbios de personalidade. As mulheres são as mais atreitas a estas manipulações porque mais frágeis e vulneráveis, sofrem de todas as maleitas possíveis e imaginárias e como são perfeitamente manipuláveis por habito e tradição - a família igreja medico estado marido e filhos, todos a manipulam - que estas por vezes vão  até ao ponto da indignidade...
Pessoas controladores e desequilibradas de um lado e do outro trazem sempre drama...

O que tem de mais perigoso esta pseudo espiritualidade "New Age" para mim e a pior de todas as propagandas é os pacotes de cura de fins de semana, cursos e iniciações que se fazem  pelo branqueamento do estado de ignorância de si mesmo e das pessoas em geral,  assim como a negação do sofrimento e a fuga para a frente em nome do "amor incondicional" e da "cura" e por fim, na negação da necessidade de um processo de evolução individual a longo prazo e sem o qual não se tem acesso a uma verdadeira Consciência Superior do Ser (dentro do ser), enquanto corpo-alma e espírito. Tudo se faz a nível mental e superficial  através de processos de mentalização vazios de qualquer sentido e sem qualquer experiência numinosa. Assim acontece com as meditações guiadas...blá blá blá e não sentes nada! 

Felizmente cheguei a uma idade em que cada vez é mais difícil cair nessas tramas ou quase que é já impossível. Mas o melhor é manter a guarda...e vigiar - o ego tem tantas e tantas máscaras e armadilhas como o diabo...e sim, como se diz, é melhor estar atenta, não vá o diabo tecê-las, não é verdade?

rlp

Olá, Rosa!

Que grata surpresa encontrar o seu blogue!
Particularmente falando do artigo em questão, concordo com você. Você colocou em palavras uma sensação que eu trazia mas que não conseguia definir em relação a alguns movimentos e "jornadas" de cura que tenho visto acontecer há alguns anos, pelo visto, de forma global. É uma espiritualidade fast food, uma cura fast food, que atende aos desejos imediatistas de alguns por se sentirem "espiritualizados" e evoluídos e também aos anseios dinheiristas de alguns profissionais das chamadas "artes de ajuda"... Um tema que é parte da sombra neste meio "espiritualista" e de ajuda... Porque menosprezamos o dinheiro e matéria, ele vem sorrateiramente nos pegar pelo pé, onde menos nos damos conta. é uma pena que se crie estes movimentos porque, de fato, muitas pessoas que buscaram com intenções sinceras sentem-se lesadas e desapontadas e talvez até se afastem definitivamente.
Eu já fui ingênua o bastante, muitos anos atrás, para cair numa dessas... Assim como você aprendi a farejar.
Muito agradecida pelo seu post abordando esta temática, que é muito importante certamente, mas que pouco se fala.
Abraços fraterno!
abril 15, 2016

Eliminar
 - Maria Eunice, muito obrigada pelas suas palavras e se me permite eu vou publicar o seu comentário porque ele é muito importante...é tal como você diz e obrigada por corroborar a minha ideia passando a informação da sua experiência pessoal, porque há muita gente mergulhada nesta miscelânea terrível de ofertas de cura e de amor e luz...
um abraço e volte sempre!
rleonor

sábado, abril 09, 2016

DOIS AUTORES de relevo...



A NATUREZA E A MULHER

"A natureza não se conforma com as leis do Homem, da Cultura, ela não pode ser contida. O homem vê dessa natureza incontrolável na Mulher - nos líquidos que fluem de sua genitália durante o sexo e menstruação, a partir de seus seios após o parto - e não só se sente ameaçado, como se sente profundamente atraído pelo que lhe falta e acha fascinante. Num impulso, o homem se volta para o céu, em direcção a Apolo, e investe sua energia numa lógica transcendental. Mas é tudo em vão. A Teologia ocidental nunca conquistou o paganismo, mas sim tentou adequá-la ao seu sistema tentando sublimá-la. Assim, o Feminino centrado no paganismo consegue manifestar-se no iconologias popular da cultura ocidental e continuar a ter vida fora do que resta da sua ideologia patriarcal."

CAMILE PAGLIA


A REPRESSÃO DO FEMININO

"Pela repressão a alegria do feminino foi rebaixada como mera frivolidade; a sua sensualidade expressa foi diminuída como coisa de prostituta, ou então ridicularizada pela seu sentimentalismo ou reduzida exclusivamente a instinto maternal; a vitalidade da mulher foi submetida ao peso das obrigações e da obediência. Foi essa desvalorização que gerou filhas desenraizadas e subterrâneas do patriarcalismo, separando a força feminina da paixão, tornando-a imagem dos seus sonhos e ideais de um céu inatingível mantidos pomposamente por um espírito que soa a falso quando comparado com os padrões instintivos simbolizados pela rainha do céu e da terra”.

jean markale - historiador francês

QUE OLHAR?


OS OLHARES...

“NA poesia dos sumérios, a expressão “olhar de vida” é usada às vezes para sugerir alguém que, cheio de amor, fita outra pessoa e transmite vitalidade com o olhar.”


"Quando mata a Piton em Delfos, o umbigo do mundo, Apolo detém o curso do tempo, pois a serpente enrolada que trazemos no abdómen é o eterno movimento ondulatório da fluidez feminina. Todo o rapaz bonito é um Ícaro ascendendo para o sol apolíneo. Mas se ele foge do Labirinto, é apenas para se precipitar no mar de dissolução da natureza. Os cultos da beleza têm sido persistentemente homossexuais, desde a antiguidade até aos salões de cabeleireiro e casas de alta-...costura dos nossos dias. O embelezamento profissional das mulheres às mãos dos homossexuais masculinos é uma espécie de reconceptualização dos factos brutos da natureza feminina. Como fin de siecle oitocentista, os estetas são sempre homens, nunca mulheres. No lesbianismo não existe nada que se assemelhe à adoração grega pelo adolescente. A grande Safo pode ter-se apaixonado por raparigas, mas tudo indica que ela interiorizava, mais do que exteriorizava, as suas paixões. (…) É por demais evidente que o lascivo deleite do olhar não existe no erotismo feminino. O idealismo visionário é uma forma de arte masculina. Uma esteta lésbica é coisa que não existe. Mas se existisse seria a partir da perversa mente masculina A intensa busca da beleza através do olhar é uma forma apolínea de rectificar a vida no nosso corpo, nascido de uma mãe.


Camille Paglia in Personas Sexuais pag.s 127/8

quarta-feira, abril 06, 2016

AS FILHAS DO PAI


UMA EVIDÊNCIA GRITANTE

AS Filhas do Pai

Estava a pensar em como nós mulheres somos fracas e falíveis face às verdades profundas do nosso ser e incapazes de sermos integralmente o que somos (bem sei que é difícil face a cisão interior da mulher) para tentar desgraçadamente agradar aos modelos (de pai e mãe e substitutos) que temos, traindo a nossa essência e vivendo uma vida fictícia sempre a querer agradar a gregos e troianos...Isto acontece com toda a gente em geral, mas acontece especialmente com as mulheres, fracas na dependência e vulneráveis nos afectos, prisioneiras da ordem patriarcal, das igrejas, dos maridos, filhos ou amantes...
Sinto-me profundamente triste por ver que as mulheres buscam sucedâneos e aceitam remédios (curas?) em vez de viver a sua vida no risco das escolhas interiores, por conta própria e risco, incapazes de assumir a sua verdade doa a quem doer. Elas dependem do olhar do homem e da sua aprovação, dos seus valores de supremacia, de legalidade social, o que é bem e mal...afinal fiéis do velho patriarcado...


Filhas do Pai ...mesmo que falem da Deusa Mãe...


Vejo como as mulheres se traem sempre em nome do Homem e do Filho...em nome da sociedade, em nome da moral, em nome do cão e do gato...e vejo como tantas que pretendem ser exemplo para as outras mulheres, elas também se traem quando não aceitam a sua singularidade, a sua liberdade e julgam que há pessoas detentoras de alguma verdade imutável. 

AFINAL E DE FORMA SUBTIL, não só em sociedade, mas em grupos ditos do "feminino sagrado" e outros que se intitulam espiritualistas - O MODELO DE SUCESSO PARA AS MULHERES, filhas do pai, continua a ser o modelo do Pai e é sempre o MASCULINO "SAGRADO e o TANTRA" que se tornam prioridades...
Tomam como prioridade na sua vida a integração do masculino, o lado activo e o prazer do homem, que pensam ser o seu etc. tal como as feministas fizeram, assim como consideram primordial e FACTOR DE SUCESSO VERSUS "REALIZAÇÃO" o dinheiro; por isso se fala tanto em igualdade e não se percebe o erro da mulher feminista em anular-se na sua essência (que desconhece) em detrimento de si mesma e a favor do homem que copia - seja no ideal ou no pensamento, seja no desejo de poder económico, seja do prazer sexual, sempre em função do macho. Afinal de algum modo as mulheres do dito "sagrado feminino", que supostamente estariam no processo de redescoberta do seu ser integral, acabam por continuar a seguir os mesmos modelos e padrões do Sistema patriarcal. rlp

NÃO HÁ DUVIDA QUE,

"Apesar dos sucessos alcançados pelo movimento feminista, o mito predominante na nossa cultura é que determinadas pessoas, posições e eventos específicos, têm mais valor em si do que os outros. Estas pessoas, lugares e acontecimentos são normalmente masculinos, ou estão definidos pelo homem. As regras do homem se tornaram o modelo social em relação à liderança, à autonomia e ao sucesso pessoal; em comparação, as mulheres são consideradas... como desprovidas de inteligência, aptidões e poder.
À medida que vai crescendo, a menina observa tudo isto e quer identificar-se com o prestígio, a independência, a autoridade e o dinheiro, tudo controlado por homens. Muitas mulheres que conseguiram ter sucesso são consideradas "filhas do pai", porque procuram a aprovação e o poder dominante, o modelo masculino. De alguma forma, a aprovação da mãe não é tão importante; o pai define o feminino e isso afeta a sexualidade da filha, a sua capacidade para se relacionar depois com os homens e para ter sucesso no mundo. O que uma mulher pensa que é certo e está bem, ser ambiciosa, ter poder, fazer dinheiro, ou ter uma boa relação com um homem, vem de seu relacionamento com seu pai."*

* Maureen Murdock
Ser Mulher: uma viagem heróica

segunda-feira, abril 04, 2016

sou uma fulana que escreve coisas



Em Cada Livro Que se Escreve, uma Vida Desconhecida


A parte desconhecida da minha vida é a minha vida escrita. Morrerei sem conhecer essa parte desconhecida. Como foi escrito isto, porquê, como o escrevi, não sei, não sei como isto começou. Não se pode explicar. Donde vêm certos livros? A página está vazia e, de repente, já há trezentas páginas. Donde vem isto? É preciso deixar andar, quando se escreve, não devemos controlar-nos, é preciso deixar andar, porque não sabemos tud...o de nós próprios. Não sabemos o que somos capazes de escrever.
Conheci grandes escritores que nunca conseguiram falar disso - conheci Maurice Blanchot e Georges Bataille intimamente, conheci Genet, creio que menos. Eles nunca sabiam, nunca falavam disso. Penso que é errado, aliás. Há trinta anos, era uma espécie de pudor aprendido, em parte, na escola sartriana, não se podia falar daquilo que se escrevia, não era decente - e penso que em Les Parleuses é a primeira vez que alguém fala disso, pelo menos uma das primeiras vezes. É bom falar disso e, ao mesmo tempo, é muito perigoso dar a ler textos antes de estarem terminados.
(...) Após o final de cada livro é o fim do mundo inteiro, é sempre assim, de cada vez. E depois tudo recomeça, como a vida.
Quando se escreve, não se pode falar em vez de escrever. O que se passa quando se escreve, nunca se pode dizer. Eu consigo ler uma passagem, mas depressa fico assustada.
Sou mais escritora do que vivente, que uma pessoa que vive. Naquilo que vivi, sou mais escritora do que alguém que vive. É assim que eu me vejo.


Marguerite Duras, in "Mundo Exterior"


NOTA A MARGEM...

Nunca gostei muito de Marguerite Duras, nem sei bem porquê, enquanto devorei Marguerite Yourcenar dela não consegui ler quase nada...mas este trecho tocou-me - assim como uma frase recente de Cruzeiro Sanches...pintor surrealista que dizia num cartaz: "sou um tipo que faz coisas" - como eu sou uma fulana que escreve coisas...e com isso sobrevivo...é a forma como eu me vejo...não como escritora.

domingo, abril 03, 2016

A MULHER OBJECTO...DE ESTUDO...


A ABOMINÁVEL REALIDADE
EM QUE VIVEM AS AINDA MULHERES NO MUNDO...


Uma realidade que toda a gente parece querer escamotear em nome da "emancipação" da mulher em que as próprias mulheres acreditam e fingem ser o que não são, portanto não querem ver as atrocidades modernas que se cometem sobre ela no mundo inteiro, bastantes diferentes é certo das que se cometiam em séculos anteriores.

Mas nós não podemos continuar a ignorar que vivemos numa sociedade Androcentrica e Falocêntrica, onde existem enormes pressões e pressupostos antigos ou novos conceitos que incidem de uma forma ou outra sobre a inferioridade ou a fragilidade da mulher;  assim como abundam conceitos e mesmo novas abordagens de cariz psicológica, sexual e até "espiritual" a corroborar essa inferioridade e sujeição (em nome da ciência até, como no parto em que elas são sujeitas a um sofrimento inaudito, de quase abuso e prepotência por parte de médicos e enfermeiras) e todos eles em detrimento da verdadeira natureza da mulher; sempre em detrimento da sua dignidade, liberdade e capacidade de decisão,  e das suas faculdades intrínsecas e da sua própria verticalidade como ser humano; nenhum especialista tem em conta  obviamente a sua divisão milenar (m duas -espécies de mulheres: a santa e a prostituta, anátema que pesa a TODAS AS MULHERES INDEPENDENTEMENTE DE SEREM uma ou a outra e que por mais modernas que se julguem as  e pensem elas ser em relação ao passado histórico, elas sofrem esta espécie de diria amputação da sua verdadeira identidade pelo poder patriarcal há centenas de anos e pouco mudou de findo...
Sofrem de uma opressão social e psicológica milenar  que continua a acontecer nos dias de hoje de forma bastante subliminar, o que é  gritante porque, como diz uma amiga, essa opressão-abuso do seu ser se manifesta depois como consequência ao nível de muitas doenças:


..."as mulheres, muitas vivem amarfanhadas, gerando doenças oportunistas que as levam ao sofrimento e à morte. Umas dentro da relação com quem as maltrata, agride, desrespeita. Outras há que ao tentarem sair desse círculo vicioso de sofrimento, de anulação e dissolução, acabam igualmente sendo agredidas e perseguidas pela própria família e restante comunidade onde estão inseridas. Nos meios mais pequenos ou médios a mulher só, é o bode expiatório de todo o homem e mulher que se encontre em estado de frustração (que é a grande maioria). Mesmo nas sociedades ditas matriarcais essa ignomínia acontece. E são justamente as mulheres cativas, conjuntamente com os homem impotentes, que viram todos contra a mulher só. Mesmo quando a mulher se destaca em árias "pertencentes" e avidamente reservadas aos homens. Aliás, a mulher só, experimenta essa ferocidade falocrática, contra si própria, com muita mais intensidade aí. Por ter conhecimento desta Abominável realidade é que Repudio Fortemente tudo e todos que ponham em causa a capacidade e autonomia da mulher."* -



*Antígona Becca Salles Casalinho
rosa leonr pedro

sexta-feira, abril 01, 2016

A busca da verdade é também a busca do outro...



AS DUAS ÍSIS…

(…)“A busca da verdade é também a busca do outro. Essa questão toca bem claramente o problema da dualidade masculino/feminino, dia/noite….Quando essa dualidade é dominada, leva a um outro nível de consciência, tal como é expresso na grelha integrada. A mulher – conhecimento/sabedoria – tem um substrato de facto, enquanto o homem precisa partir sem demora em busca de si mesmo. A mulher é para ele uma iniciação ao progresso, um catalisador do futuro. Nesse sentido a mulher parece ter vantagem em relação ao homem.

Existem tipos de fecundação em que podemos questionar qual é o verdadeiro papel do macho. Em certas fêmeas, o espermatozoide só traz um sistema de forças criador, apenas um stresse para o óvulo. Não existiria transmissão de património genético proveniente do macho, enquanto as recombinações genéticas teriam lugar unicamente no material genético proveniente da fêmea. A mulher já tem nela as infraestruturas para criar o ser inteiro. Falta-lhe justamente o impulso criador. Na Bíblia, o episódio da costela de Adão apresenta as cosias de maneira inversa.. Osíris estava ligado a uma província do Egipto. Ísis não encontrou o sexo, engolido por um peixe. Não existe província ligada ao sexo. Esse facto evoca outras ideias que encontramos em muitas religiões – reveladas ou não -, a de que o deus fundador foi concebido sem reprodução sexuada. O segundo aspecto está ligado ao facto de que são as mulheres que concebem. As mulheres são MA e o AM. A primeira matéria realizada seria a da mulher.
Existem tipos de fecundação em que podemos questionar qual é o verdadeiro papel do macho. Em certas fêmeas, o espermatozoide só traz um sistema de forças criador, apenas um stresse para o óvulo. Não existiria transmissão de património genético proveniente do macho, enquanto as recombinações genéticas teriam lugar unicamente no material genético proveniente da fêmea. A mulher já tem nela as infraestruturas para criar o ser inteiro. Falta-lhe justamente o impulso criador. Na Bíblia, o episódio da costela de Adão apresenta as coisas de maneira inversa.
Com a linguagem vibratória, a tradução da mulher dá a letra Z. E a constela de Adão seria a letra Z, que significa responsabilidade. Ora, a letra Z pertence ao mundo transcendental. A mulher já é portadora do mundo transcendental (A Virgem mMria, Ísis, as virgens negras etc.). O homem, em contacto com a mulher, teria acesso ao germe da iluminação. E o casal alquímico exteriorizaria isso.
(…)
Chegarei mesmo a dizer que, nesta evolução do conhecimento, a mulher leva vantagem, mas não sei se ela sabe disso. Ainda mais que na situação actual ela se choca com o poder do homem. Sejamos claros: constitutivamente não existem relações de superioridade ou de inferioridade entre o homem e a mulher. Tudo depende do contexto sócio-cultural da época considerada cujas consequências extremas se manifestam nas sociedades do tipo patriarcal e matriarcal. O facto principal que se expressa no caso ideal é a complementaridade da infra-estruturas constitutivas de cada um…O resultado no mais alto nível vibratório de tal complementaridade é a fusas integral dos duplos que se traduz por um alargamento prodigioso do campo de consciência do casal alquímico. Trata-se de um verdadeiro processo de transcendência cujas consequências são múltiplas, principalmente transformações profundas e duráveis de cada um dos componentes do casal. Penso mesmo que esse estado ideal e final do casal alquímico, caracterizado pela fusão dos duplos, continua após a morte física. Mas atenção: eu não digo que tal resultado do casal alquímico seja verdadeiramente realizável.”
(…)
Etienne Guille
in O homem entre o Céu e a Terra